16 de outubro de 2016

Trinta e um - Heimdall tira selfie com todo mundo

AMIR QUASE GANHOU a força de um einherji. Ele teria pulado uns vinte metros se eu não o estivesse segurando.
— O que foi isso? — perguntou ele.
Samirah abriu um sorriso largo.
— Você ouviu a voz? Que fantástico! É só Heimdall nos convidando para subir.
— Subir, tipo, subir? — Amir se afastou da placa. — Como isso pode ser fantástico?
Mestiço e Alex se aproximaram.
— Nossa... — Alex não parecia particularmente impressionado com a ponte cósmica subindo pelo céu. — É seguro?
Mestiço inclinou a cabeça.
— Provavelmente, se Heimdall convidou. A outra opção é eles pegarem fogo e virarem cinzas assim que pisarem no arco-íris.
— O quê? — gritou Amir.
— Nós não vamos pegar fogo. — Sam olhou para Mestiço de cara feia. — Vamos ficar bem.
— Estou dentro — anunciou Alex. — Os dois malucos aqui ainda precisam de um acompanhante para não fazerem nada irresponsável.
— Irresponsável? — A voz de Amir subiu mais meia oitava. — Tipo subir no céu em um arco-íris incandescente?
— Está tudo bem, cara — falei, mas percebi que minha definição de tudo bem havia se tornado bem flexível nos últimos meses.
Mestiço cruzou os braços.
— Divirtam-se. Eu vou ficar aqui.
— Por quê? — perguntou Alex. — Está com medo?
O berserker riu.
— Já conheço Heimdall. Só preciso ter essa honra uma vez.
Não gostei do que o tom dele insinuava.
— Por quê? Como ele é?
— Você vai descobrir. — Mestiço deu um sorrisinho. — Encontro vocês em Valhala. Divirtam-se explorando o espaço interdimensional!
Sam abriu um sorriso.
— Amir, mal posso esperar para mostrar tudo a você. Vamos!
Ela deu um passo na direção da placa do Citgo e se vaporizou em uma mancha de luz multicolorida.
— Sam? — gritou Amir.
— Ah, legal!
Alex deu um pulo à frente e também desapareceu.
Eu botei a mão no ombro de Amir.
— Eles estão bem. Fica frio, cara. Agora eu vou pagar todos os pratos de falafel que você me deu quando eu era sem-teto. Você vai poder conhecer os nove mundos!
Amir respirou fundo. Devo dizer que fiquei impressionado por ele não ter desmaiado, se encolhido em posição fetal ou chorado, reações que seriam perfeitamente aceitáveis ao se descobrir que havia seres de voz aguda no céu que convidavam você para subir em seu arco-íris.
— Magnus — disse ele.
— O quê?
— Me lembre de nunca mais te dar falafel.
Juntos, nós pisamos no brilho laranja.

* * *

Não havia nada de interessante para se ver. Apenas quatro adolescentes subindo um arco-íris nuclear.
Uma luz radiante nos envolveu, difusa e quente. Em vez de andar por uma superfície lisa e sólida, senti como se estivéssemos atravessando um campo de trigo... se trigo fosse feito de luz altamente radioativa.
Não sei como, mas perdi os óculos escuros de Álfaheim. E duvidava que fossem me ajudar agora.
Aquela luz era intensa de um jeito diferente. As cores faziam meus olhos latejarem. O calor parecia girar a um milímetro da minha pele. Debaixo dos nossos pés, a ponte emitia um zumbido baixo como a gravação de uma explosão tocada em looping. Acho que Mestiço Gunderson estava certo: sem a bênção de Heimdall, seríamos vaporizados no momento que botássemos o pé em Bifrost.
Às nossas costas, a paisagem de Boston virou uma mancha indistinta. O céu ficou escuro e cheio de estrelas, como nas viagens que eu fazia com a minha mãe. A lembrança ficou entalada na minha garganta. Pensei no cheiro da fogueira e dos marshmallows assados, minha mãe e eu contando histórias um para o outro, inventando novas constelações como a Twinkie e a Wombat e morrendo de rir feito dois bobos.
Andamos por tanto tempo que comecei a me perguntar se havia alguma coisa no fim do arco-íris. Nada de potes de ouro ou duendes. Nada de Asgard. Talvez tudo aquilo não passasse de uma pegadinha. Heimdall faria Bifrost desaparecer e nos deixaria flutuando no vácuo. VOCÊ ESTÁ CERTO, a voz aguda anunciaria. NÓS NÃO EXISTIMOS. TROUXA!
Aos poucos, a escuridão foi esmaecendo. A paisagem de outra cidade surgiu no horizonte: paredes brilhantes, portões dourados e, atrás deles, os pináculos e domos dos palácios dos deuses. Eu só tinha visto Asgard uma vez, de dentro, olhando por uma janela em Valhala. De longe era ainda mais impressionante. Eu me imaginei avançando pela ponte com um exército invasor de gigantes. Estava certo de que perderia as esperanças quando visse aquela vasta fortaleza.
De pé na nossa frente, com as pernas bem abertas, estava um guerreiro alto com uma espada enorme.
Eu tinha imaginado um deus cortês e tranquilo, um sujeito com estilo de astro de cinema. O Heimdall da vida real era meio decepcionante. Usava uma túnica acolchoada e legging de lã, tudo bege, o que o fazia incorporar as cores de Bifrost. Percebi que era camuflagem, o jeito perfeito de se mesclar com um arco-íris. O cabelo era louro platinado e cheio como lã de carneiro. O rosto sorridente era bronzeado, o que podia ser o resultado de ficar em uma ponte radioativa por mil anos. Eu esperava que ele não pretendesse ter filhos um dia.
Em geral, ele parecia aquele cara meio esquisito ao lado de quem ninguém queria sentar no ônibus da escola, exceto por duas coisas: a espada desembainhada, que era quase do tamanho dele, e o chifre enorme de carneiro pendurado no ombro esquerdo. O chifre e a espada pareciam imponentes, mas eram tão grandes que ficavam batendo um no outro. Tive a sensação de que, se Heimdall matasse alguém, seria porque ele tinha se distraído e tropeçado.
Quando nos aproximamos, ele acenou com entusiasmo, fazendo a espada bater no chifre: clink, clonk, clink, clonk.
— E aí, pessoal?
Nós quatro paramos. Sam fez uma reverência.
— Lorde Heimdall.
Alex olhou para ela como quem diz: Lorde?
Ao meu lado, Amir levou a mão à testa.
— Não acredito no que estou vendo.
Heimdall arqueou as sobrancelhas espessas. As íris eram puro alabastro.
— Ah, o que você está vendo? — Ele olhou para um ponto atrás de nós, para o vazio abaixo de nós. — Está falando do cara armado em Cincinnati? Não, tudo bem. Ele só está indo fazer treinamento de tiro. Ou você está falando daquele gigante do fogo em Muspellheim? Ele está vindo para cá... Não, espere. Ele tropeçou! Foi hilário! Ah, queria ter gravado um snap.
Tentei seguir o olhar de Heimdall, mas não vi nada além de espaço vazio e estrelas.
— O que você...?
— Minha visão é muito boa — explicou o deus. — Vejo tudo nos nove mundos. E minha audição também! Eu estava ouvindo vocês discutindo naquele telhado. Foi por isso que decidi jogar um arco-íris para vocês.
Sam engoliu em seco.
— Você, hã, nos ouviu discutindo?
Heimdall sorriu.
— Tudinho. Vocês dois são muito fofos. Na verdade, posso tirar uma selfie com vocês antes de falarmos de trabalho?
— Hã... — balbuciou Amir.
— Ótimo!
Heimdall começou a tentar mexer no chifre, sem derrubar a espada.
— Precisa de ajuda? — perguntei.
— Não, não, pode deixar.
Alex Fierro parou ao meu lado.
— Assim é mais engraçado.
— Estou ouvindo, Alex — avisou o deus. — Escuto milho crescendo a oitocentos quilômetros de distância. Escuto gigantes do gelo arrotando em seus castelos em Jötunheim. É claro que consigo ouvir você. Mas não se preocupe, eu tiro selfies o tempo todo. Agora, vamos ver...
Ele mexeu no enorme chifre de carneiro como se estivesse procurando um botão. Enquanto isso, a espada estava apoiada em um ângulo esquisito na dobra do cotovelo, com a lâmina de um metro e oitenta virada para nós. Eu me perguntei o que Jacques acharia dessa espada, se era uma moça gata ou um zagueiro de futebol americano, ou as duas coisas.
— Ahá!
Heimdall devia ter encontrado o botão certo. O chifre encolheu até virar o maior smartphone que eu já tinha visto, com a tela do tamanho de um tijolo e a capinha feita de chifre de carneiro brilhante.
— Seu chifre é um telefone? — perguntou Amir.
— Acho que, tecnicamente, é um tablet — disse Heimdall. — Mas, sim, esta é Gjallar, a Trombeta e/ou Tablet do Juízo Final! Quando eu sopro essa belezinha uma vez, os deuses sabem que tem algum problema em Asgard e vêm correndo. Quando eu sopro duas, é dia de Ragnarök, bebê! — Ele pareceu eufórico com a ideia de ser o responsável por sinalizar o começo da batalha que vai destruir os nove mundos. — Na maior parte do tempo, só uso para tirar fotos e mandar mensagens e tal.
— Isso não é nada assustador — disse Alex.
Heimdall riu.
— Você não faz ideia. Uma vez, anunciei sem querer o apocalipse. Foi tão constrangedor! Tive que mandar mensagem para todo mundo da minha lista de contatos dizendo: Alarme falso, pessoal! Muitos deuses vieram correndo mesmo assim. Eu fiz um GIF deles subindo pela ponte Bifrost e percebendo que não havia batalha. Foi impagável.
Amir piscou várias vezes, talvez porque Heimdall falasse cuspindo.
— Você é o encarregado pelo Juízo Final. É mesmo um... um...
— Um aesir? — disse Heimdall. — É, sou um dos filhos de Odin! Mas, aqui entre nós, Amir, acho que Samirah está certa. — Ele se inclinou para a frente para que as pessoas nos campos de milho a oitocentos quilômetros dali não conseguissem ouvir. — Sinceramente, também não penso em nós como deuses. Depois que você vê Thor desmaiado no chão, ou Odin de roupão gritando com Frigga porque ela usou a escova de dentes dele... é difícil enxergar divindade na minha família. Como minhas mães diziam...
— Mães, no plural? — perguntou Amir.
— É. Eu nasci de nove mães.
— Como...?
— Não pergunte. O Dia das Mães é um inferno. Nove ligações diferentes, nove buquês de flores. Quando eu era criança e tentava fazer café da manhã para todas... ah, cara! Bom, vamos tirar logo essa foto.
Ele juntou Sam e Amir, que parecia atordoado por estar com o rosto sorridente de um deus enfiado entre os dois. Heimdall esticou o tablet, mas o braço não era longo o suficiente.
Eu limpei a garganta.
— Tem certeza de que não quer que eu...
— Não, não! Ninguém além de mim pode segurar o poderoso tablet Gjallar. Mas tudo bem! Só um minutinho. — Heimdall deu um passo para trás e mexeu mais uma vez no aparelho e na espada, aparentemente tentando prender um no outro. Depois de algumas manobras (e provavelmente várias ligações acidentais anunciando o apocalipse), ele ergueu a espada, triunfante, agora com o tablet preso na ponta. — Ta-dá! Minha melhor invenção até o momento!
— Você inventou o pau de selfie — disse Alex. — Sempre quis saber quem era o culpado por isso.
— É espada de selfie, na verdade. — Heimdall enfiou o rosto entre o de Sam e o de Amir. — Digam gamalost!
O flash de Gjallar disparou.
Mais agitação enquanto Heimdall tirava o aparelho da ponta da espada e avaliava a foto.
— Perfeita!
Ele nos mostrou a foto com orgulho, como se não estivéssemos ali quando tinha sido tirada, três segundos antes.
— Alguém já disse que você é doido? — perguntou Alex.
— Doido por diversão! — afirmou Heimdall. — Olhem minhas outras fotos.
Ele nos reuniu em torno do tablet e começou a passar as imagens da galeria de fotos, embora eu estivesse bem distraído pelo fato de Heimdall ter cheiro de ovelha molhada.
Vimos uma foto majestosa do Taj Mahal com o rosto de Heimdall bem grande em primeiro plano. Depois, o salão de banquete de Valhala, desfocado e indistinto ao fundo, com o eclipse total do nariz de Heimdall em foco perfeito. Depois, o presidente dos Estados Unidos num discurso com Heimdall fazendo photo-bomb.
Fotos de todos os nove mundos, todas selfies.
— Uau — falei. — São bem... consistentes.
— Não gostei da minha camisa nessa foto. — Ele nos mostrou uma fotografia da polícia élfica batendo em uma huldra com cassetetes. Heimdall sorrindo na frente, usando uma camisa polo listrada de azul. — Mas, ah, em algum lugar aqui tem uma foto incrível de Asgard, comigo fazendo cara de zangado e fingindo comer o palácio de Odin!
— Heimdall — interrompeu Samirah —, isso tudo é muito interessante, mas precisamos da sua ajuda.
— Hum? Ah, você quer uma foto de nós cinco? Com Asgard ao fundo? Claro!
— Na verdade — interrompeu Sam —, estamos procurando o martelo de Thor.
Toda a empolgação sumiu dos olhos de alabastro de Heimdall.
— Ah, não. Isso de novo, não. Eu falei para Thor que não conseguia ver nada. Todos os dias ele me liga, manda mensagem, manda fotos dos bodes sem eu pedir. “Procure mais! Procure mais!” Estou dizendo, não está em lugar nenhum. Podem olhar.
Ele passou mais fotos.
— Nada de martelo. Nada de martelo. Aqui sou eu com a Beyoncé, mas nada de martelo. Hum, talvez devesse colocar essa foto no meu perfil.
— Quer saber? — Alex se alongou. — Vou deitar aqui e não matar ninguém irritante, está bem? — Ele se deitou na ponte, abriu os braços e os balançou para cima e para baixo distraidamente pela luz, fazendo um anjinho no arco-íris.
— Então... — comecei. — Heimdall, sei que é um saco, mas você acha que poderia dar outra olhada para nós? Achamos que Mjölnir está escondido no subsolo, então...
— Bom, isso explicaria tudo! Só consigo enxergar através de pedra sólida por no máximo um quilômetro e meio. Se estiver mais fundo do que isso...
— Certo — disse Sam. — A questão é que sabemos quem pegou. Um gigante chamado Thrym.
— Thrym! — Heimdall pareceu ofendido, como se fosse alguém com quem ele nunca se rebaixaria a tirar uma selfie. — Aquele ser horrível, feioso...
— Ele quer se casar com Sam — disse Amir.
— Mas não vai — afirmou Sam.
Heimdall se apoiou na espada.
— Ah, bom. Temos um dilema. Posso dizer facilmente onde Thrym está. Mas ele não é burro a ponto de deixar o martelo na própria fortaleza.
— Nós sabemos.
Achei que Heimdall não ia manter a concentração por muito mais tempo, mas contei sobre os planos nefastos de Loki, sobre a espada e a pedra Skofnung, sobre o prazo de três dias até o casamento e sobre o assassino de bodes, que podia ou não estar do nosso lado, ter nos mandado procurar Heimdall e pedir instruções. De tempos em tempos, eu jogava aleatoriamente a palavra selfie para manter o interesse do deus.
— Hum... — disse Heimdall. — Nesse caso, eu ficaria feliz de olhar os nove mundos de novo e procurar esse tal de assassino de bodes. Vou preparar a espada de selfie de novo.
— E se — sugeriu Amir — você olhasse sem usar o celular?
Heimdall ficou encarando nosso amigo mortal. Amir disse o que todos nós estávamos pensando, o que foi algo bem corajoso de se fazer na primeira vez dele no espaço sideral nórdico, mas tive medo de Heimdall decidir usar a espada para algo além de conseguir bons ângulos para fotos.
Felizmente, Heimdall só deu um tapinha no ombro de Amir.
— Tudo bem, Amir. Sei que você está confuso com a existência dos nove mundos e tudo mais. Mas, infelizmente, o que você disse não faz sentido.
— Por favor, Heimdall — disse Sam. — Sei que parece... estranho, mas olhar diretamente para os nove mundos pode dar uma nova perspectiva.
O deus não pareceu convencido.
— Deve ter outro jeito de encontrar seu assassino de bodes. Talvez eu pudesse soprar Gjallar e chamar os deuses aqui. Poderíamos perguntar se eles viram...
— Não! — gritamos, todos ao mesmo tempo. Alex gritou um pouco atrasado, pois ainda estava deitado fazendo anjinhos. Ele talvez tenha acrescentado alguns modificadores coloridos ao próprio não.
— Humf. — Heimdall fez cara feia. — Bom, isso não é nada ortodoxo. Mas não quero ver um gigante grande e feio separar um casal fofo como vocês dois.
Heimdall apontou para mim e Sam.
— Na verdade, são eles dois — corrigi, apontando para Amir.
No arco-íris, Alex riu.
— Sim, claro. Desculpem. Vocês ficam bem diferentes quando não estão no aplicativo da câmera. Talvez tenham razão quanto a uma nova perspectiva! Vamos ver o que conseguimos encontrar nos nove mundos!


7 comentários:

  1. Alguém aí shippa Sam + Magnus?

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  2. Todo respeito que o Idris Elba trouxe ao personagem jogado na privada pelo Rick

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    1. Blah,blah,blah,blah.
      Aff para de reclamar, se não gosta não leia. -_-
      Vá ler outros então ao invés de ficar só chorando.

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  3. Se até Heimdall shippa eles, quem sou eu para descordar?
    -Sinead

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  4. Não surta Heimdall, não existe Sagnus.

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