16 de outubro de 2016

Trinta e três - Pausa para um falafel? Sim, por favor

OUTRA DICA DE viking profissional: se Heimdall se oferecer para deixar vocês em algum lugar, digam NÃO!
A ideia de Heimdall de nos mandar de volta para Midgard foi fazendo a ponte Bifrost se dissolver sob nossos pés e literalmente nos deixar cair pelo infinito. Quando paramos de gritar (ou pode ter sido só eu; não julguem), nós nos vimos na esquina da Charles e Boylston, na frente da estátua de Edgar Allan Poe. A essa altura, meu coração definitivamente estava me entregando. Minha pulsação estava tão disparada que dava para ouvir o danadinho por uma parede de tijolos.
Estávamos todos exaustos, mas também com fome e vibrando pela adrenalina pós-arco-íris. E o mais importante, estávamos a uma quadra da praça de alimentação do Transportation Building, onde os Fadlan tinham um restaurante.
— Sabem... — Amir flexionou os dedos, como se para ter certeza de que ainda estavam lá. — Eu posso preparar alguma coisa para o jantar.
— Não precisa, cara — respondi, o que achei bem nobre, considerando quanto eu amava a receita de falafel da família dele. (Sei que ele me pediu para lembrá-lo de não me dar mais falafel, mas decidi interpretar esse pedido como insanidade temporária.)
— Não, eu... eu quero.
Entendi o que ele quis dizer. O mundo do sujeito tinha acabado de se partir ao meio. Ele precisava de alguma coisa familiar para acalmar os nervos. Desejava o conforto de bolinhos fritos de grão-de-bico, e quem era eu para discutir?
O Transportation Building ficava fechado à noite, mas por ser dono de um dos restaurantes da praça de alimentação, Amir tinha as chaves do prédio. Ele nos deixou entrar, abriu o Falafel do Fadlan e preparou a cozinha para fazer um incrível jantar tardio/café da manhã bem antecipado.
Enquanto isso, Alex, Sam e eu ficamos sentados a uma mesa na praça de alimentação escura, ouvindo o barulho de panelas e fritadeiras ecoando pelo espaço amplo como gritos de pássaros metálicos.
Sam parecia atordoada. Ela virou um saleiro na mesa e formou letras com os grãos brancos; se nórdicas ou árabes, não consegui identificar.
Alex bateu com o All Star de cano alto na cadeira em frente. Ele girou os polegares, com os olhos de duas cores observando o local.
— Então esse gigante feiticeiro...
— Utgard-Loki — falei.
Muita gente do cosmos nórdico tinha me avisado que nomes têm poder. Não se devia pronunciá-los sem necessidade. Eu preferia falar nomes como se não fossem grande coisa. Parecia a melhor maneira de tirar o poder deles.
— Ele não é meu gigante favorito. — Olhei ao redor, para ter certeza de que não havia pombos falantes por perto. — Alguns meses atrás, ele apareceu bem aqui. Me enganou para que eu desse meu falafel para ele. Depois, se transformou em uma águia e me arrastou pelos telhados de Boston.
Alex bateu com os dedos na mesa.
— E agora ele quer que você visite o boliche dele.
— Sabe o que é mais bizarro? Essa é a coisa menos maluca que me aconteceu essa semana.
Alex riu.
— E por que ele se chama Loki? — Ele olhou para Sam. — Alguma relação com a gente?
Sam balançou a cabeça.
— O nome dele quer dizer Loki das Terras Distantes. Não tem qualquer conexão com... nosso pai.
Desde o Grande Desastre Alderman daquela tarde, a palavra pai não invocava sentimentos tão negativos em uma conversa. Ao olhar para Alex e Sam sentados de frente um para o outro, eu não conseguia imaginar duas pessoas mais diferentes. Mas os dois estavam com a mesma expressão: resignação amarga de compartilharem o deus da trapaça como pai.
— O lado bom — comecei — é que Utgard-Loki não me pareceu muito fã do outro Loki. Não consigo imaginar os dois trabalhando juntos.
— Os dois são gigantes — observou Alex.
— Os gigantes brigam entre si que nem os humanos — ponderou Sam. — E, a julgar pelo que descobrimos com Heimdall, recuperar o martelo de Thrym não vai ser fácil. Precisamos de todos os conselhos que pudermos ter. Utgard-Loki é ardiloso. Pode ser a pessoa certa para pensar em um jeito de estragar os planos do nosso pai.
— Combater Loki com Loki — falei.
Alex passou a mão pelo cabelo verde.
— Não ligo para quanto seu amigo gigante é astuto e inteligente. No fim das contas, vamos ter que ir ao casamento e pegar o martelo. O que significa que nós vamos ter que encarar Loki.
— Nós? — perguntei.
— Vou com vocês — disse Alex. — Obviamente.
Eu me lembrei do sonho com Loki no apartamento de Alex: É um pedido tão simples. Ter a presença de dois de seus filhos no casamento, ambos podendo ser controlados pelo menor ímpeto de Loki... essa não era a minha definição de ocasião alegre.
Samirah fez outro desenho no sal.
— Alex, não posso pedir para você ir.
— Você não está pedindo, eu estou avisando que vou. Você me trouxe para a pós-vida. Essa é minha chance de fazer a diferença. Você sabe o que precisamos fazer.
Sam balançou a cabeça.
— Eu... eu ainda não sei se é uma boa ideia.
Alex levantou as mãos.
— Você tem mesmo algum parentesco comigo? Onde está seu senso de imprudência? Claro que não é uma boa ideia, mas é o único jeito.
— Que ideia? — perguntei. — Que jeito?
Estava claro que eu tinha perdido uma conversa entre os dois, e nenhum deles parecia ansioso para me contar. Nessa hora, Amir chegou com a comida. Ele colocou na mesa um prato enorme de kebab de cordeiro, charuto de folha de uva, falafel, quibe e outras delícias divinas, e eu me lembrei das minhas prioridades.
— Você, meu senhor, é uma entidade poderosa — falei.
Ele quase sorriu. Começou a se sentar ao lado de Sam, mas Alex estalou os dedos.
— Hã-hã, bonitão. A dama de companhia aqui diz que não.
Amir pareceu envergonhado. Ele veio se sentar entre mim e Alex.
Nós caímos de boca na comida. (Na verdade, talvez tenha sido eu quem mais caiu de boca.) Amir mordeu o canto de um triângulo de pão árabe.
— Não parece possível... a comida tem o mesmo gosto. A fritadeira frita na mesma temperatura. Minhas chaves abrem as mesmas fechaduras. Ainda assim... o universo todo mudou.
— Nem tudo mudou — prometeu Sam.
A expressão de Amir estava melancólica, como se ele estivesse se lembrando de uma boa experiência da infância que não podia ser revivida.
— Eu agradeço, Sam — disse ele. — E entendo o que você quer dizer sobre as deidades nórdicas. Não são deuses. Qualquer um que tire tantas selfies com uma espada e um chifre de carneiro... — Ele balançou a cabeça. — Alá pode ter noventa e nove nomes, mas Heimdall não é um deles.
Alex sorriu.
— Gosto desse cara.
Amir piscou, aparentemente sem saber o que fazer com o elogio.
— Então... e agora? Como se supera uma viagem por Bifrost?
Sam deu um sorriso fraco.
— Bom, esta noite preciso ter uma conversa com Jid e Bibi para explicar por que fiquei fora até tão tarde.
Amir assentiu.
— Você vai... tentar mostrar os nove mundos para eles, como fez comigo?
— Não dá — disse Alex. — São velhos demais. Os cérebros não são tão flexíveis.
— Opa! — protestei. — Não precisa ser grosseiro.
— Só estou sendo sincero. — Alex mastigou um pedaço de cordeiro. — Quanto mais velhos somos, mais difícil é aceitar que o mundo pode não ser do jeito que achávamos que era. É um milagre Amir ter conseguido ver através de toda a névoa e todo o glamour sem ficar maluco.
Alex manteve o olhar grudado em mim por mais tempo do que pareceu necessário.
— Sim — murmurou Amir. — Me sinto muito sortudo por não estar maluco.
— Mas Alex está certo — disse Sam. — Quando falei com meus avós hoje de manhã, a conversa que eles tiveram com Loki já estava sumindo da memória. Eles sabiam que deviam estar zangados comigo. Lembravam que você e eu discutimos. Mas os detalhes... — Ela fez um gesto de puf com os dedos.
Amir esfregou o queixo.
— Com meu pai foi a mesma coisa. Ele só perguntou se você e eu tínhamos acertado nossas diferenças. Eu acho... que poderíamos dizer qualquer coisa sobre onde fomos hoje, não é? Qualquer desculpa comum seria mais fácil de eles aceitarem do que a verdade.
Alex o cutucou.
— Não vá ficando cheio de ideias, bonitão. Eu ainda sou a dama de companhia.
— Não! Eu só quis dizer... Eu nunca...
— Relaxe — disse Alex. — Estou só curtindo com a sua cara.
— Ah. — Amir não pareceu relaxar. — E depois? O que vai acontecer?
— Vamos para Jötunheim — disse Sam. — Temos um gigante para interrogar.
— Você vai viajar para outro mundo. — Amir balançou a cabeça, impressionado. — Sabe, quando combinei aquelas aulas de voo com Barry, eu... eu achei que estava expandindo seus horizontes. — Ele riu com tristeza. — Que inocência a minha.
— Amir, foi o presente mais gentil...
— Não tem problema. Não estou reclamando. Eu só... — Ele soltou o ar pesadamente. — O que posso fazer para ajudar?
Sam colocou a mão na mesa, os dedos esticados na direção de Amir, como uma versão de mãos dadas sem toque.
— Só confie em mim. Acredite na minha promessa.
— Eu acredito — disse ele. — Mas deve haver mais alguma coisa. Agora que consigo ver tudo... — Ele balançou um garfo de plástico na direção do teto. — Eu quero apoiar você.
— Você está apoiando — garantiu Sam. — Você me viu como valquíria e não saiu correndo e gritando. Não imagina quanto isso ajuda. Só fique em segurança, por favor, até voltarmos. Seja minha âncora.
— Com prazer. Mas... — Ele deu um sorriso tão sem graça quanto as piadas de Jacques. — Eu não vi de verdade você como valquíria. Você acha...?
Sam ficou de pé.
— Alex, Magnus, encontro vocês de manhã?
— Na estátua no parque — respondi. — Vejo você lá.
Ela assentiu.
— Amir, em dois dias isso tudo vai estar terminado. Eu prometo.
Ela subiu no ar e desapareceu em um brilho dourado.
O garfo de plástico caiu da mão de Amir.
— É verdade — disse ele. — Não consigo acreditar.
Alex sorriu.
— Bom, está ficando tarde. Tem mais uma coisa que você pode fazer por nós, amigão.
— Claro. Qualquer coisa.
— Que tal uma quentinha com esse falafel?


6 comentários:

  1. Mags tem as prioridades corretas 😌

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  2. Esse negócio de Gênero Fluido do(a) Alex está me deixando tonta!
    Ele... Ela... Agora ele está como homem, mas de repente eu o imagino como garota ou com voz de garota... ou tudo ao inverso! 😵
    Até as roupas eu esqueço q são unissex e parassem se adaptar ao sexo dele(a) na minha cabeça!😣
    Ai, meus deuses, que nó no cérebro! 😛

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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    1. Então, o Amir se descabelando com mundos diferentes e meu problema é essa história d não saber como imaginar o/a Alex. Deuses variados é bobagem ....kkkk

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  3. "Alex manteve o olhar grudado em mim por mais tempo do que pareceu necessário."

    Minha cara foi tipo:🌚 agahagsah

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  4. Magnus grita mais que o Heart desmaia, gente. E eu faço o mesmo

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  5. povo tão preocupado com romancisinho e shippizinho que nem perceberam que Alex usou a palavra nevoe e glamour invés de apenas glamour como e o normal em MC.

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