16 de outubro de 2016

Trinta e sete - Marshmallow de falafel na fogueira

NÃO HÁ NADA melhor do que acampar em uma floresta apavorante de Jötunheim enquanto seu amigo borda runas em uma bolsa de boliche gigante!
— O dia todo? — reclamou Alex quando Blitz fez a estimativa de quanto tempo demoraria até terminar. Ela tinha ficado meio mal-humorada depois de ser atingida por um cadarço gigante, cortada com uma faca e ver o sangue ser colhido em uma tampa de garrafa térmica. — Estamos correndo contra o tempo, anão!
— Eu sei disso. — Blitz falou calmamente, como se estivesse dando aula para uma turma de jardim de infância de Nídavellir. — Também sei que estamos completamente expostos aqui, em território gigante, e que Sam e Hearth estão desaparecidos, o que está me deixando nervoso. Mas nossa melhor chance de encontrá-los e conseguir as informações de que precisamos é chegando ao palácio de Utgard-Loki. A melhor maneira de fazer isso sem morrer é encantando esta bolsa. Portanto, a não ser que você saiba de um jeito mais rápido, sim, vou demorar o dia todo. Posso ter que trabalhar durante a noite também.
Alex fez uma careta, mas criticar a lógica de Blitzen era tão sem sentido quanto criticar seu senso fashion.
— O que nós vamos fazer, então?
— Me trazer comida e água — disse Blitz. — Ficar de vigia, principalmente à noite, para eu não ser comido por trolls. Torcer para Sam e Hearth aparecerem antes de eu terminar. E, Magnus, preciso da sua espada.
Convoquei Jacques, que ficou feliz em ajudar.
— Ah, costurar? — As runas da lâmina brilharam de empolgação. — Isso me lembra o Grande Festival de Costura da Islândia de 886 EC! Frey e eu arrasamos na competição. Vários guerreiros foram para casa chorando de tanto que nós esnobamos a costura e o bordado deles.
Decidi não perguntar. Quanto menos eu soubesse sobre as vitórias de meu pai na costura, melhor.
Enquanto Jacques e Blitzen conversavam sobre as melhores estratégias, Alex e eu montamos o acampamento. Ela tinha levado suprimentos, então arrumamos tudo bem rápido, com duas barracas e uma fogueira cercada por pedras.
— Você deve ter acampado bastante — comentei.
Ela deu de ombros e arrumou umas varetas para acender o fogo.
— Eu amo estar ao ar livre. Sempre ia acampar na montanha com o pessoal do meu estúdio de cerâmica em Brookline Village, só para fugir um pouco.
Ela botou muita ênfase na palavra fugir.
— Estúdio de cerâmica?
Alex fez uma careta, como se tentasse detectar sarcasmo. Talvez tivesse ouvido várias perguntas idiotas como: Ah, você gosta de cerâmica? Que fofo! Eu gostava de brincar com massinha quando era pequeno!
— O estúdio era o único lugar seguro para mim — disse ela. — Me deixavam dormir lá quando as coisas estavam ruins em casa.
Da mochila, Alex tirou uma caixa de fósforos. Os dedos pareceram desajeitados quando ela puxou alguns palitos. O corte na testa tinha ficado de um tom de verde mais escuro, mas Alex se recusava a me deixar curá-lo.
— A questão da argila é que ela pode ser moldada em qualquer formato. Eu decido o que é melhor para cada peça. Meio que... escuto o que a argila quer. Sei que parece idiota.
— Você está dizendo isso para um cara que tem uma espada falante.
Ela riu.
— É, mas...
Os fósforos caíram no chão. Alex caiu sentada, o rosto pálido de repente.
— Opa. — Cheguei mais perto dela. — Você precisa me deixar curar esse ferimento na cabeça. Só os deuses sabem que tipo de bactérias havia no cadarço de Miúdo, e sua doação de sangue para o projeto artístico de Blitz não ajudou.
— Não, eu não quero... — Ela hesitou. — Tem um kit de primeiros socorros na minha bolsa. Eu vou...
— Um kit de primeiros socorros não vai resolver nada. O que você ia dizer?
Alex tocou a testa e fez uma careta.
— Nada.
— Você disse “eu não quero...”.
— Isso! — exclamou ela com rispidez. — Você se metendo na minha vida! Samirah disse que, quando cura as pessoas, tipo aquele elfo, Hearthstone, você entra na cabeça delas, vê coisas. Eu não quero isso!
Desviei o olhar, com as mãos ficando dormentes. Na fogueira, a pirâmide de gravetos de Alex desabou. Os fósforos tinham se espalhado em símbolos de runa, mas, se queriam dizer alguma coisa, eu não sabia interpretar.
Pensei em algo que Mestiço Gunderson dissera certa vez sobre alcateias: cada indivíduo da alcateia força o limite dentro do grupo. Eles ficam testando constantemente sua posição na hierarquia: onde podem dormir, quanto podem comer de uma carcaça. E continuam a forçar até o alfa partir para cima deles e lembrá-los de seus lugares. Eu não tinha percebido que estava forçando a barra, mas recebi um ataque de lobo alfa de primeira categoria.
— Eu... não controlo exatamente o que acontece quando estou curando. — Estava surpreso por minha voz ainda funcionar. — Com Hearth, tive que usar muito poder. Ele estava à beira da morte. Acho que eu não conseguiria ler muito de você enquanto estivesse curando um corte infeccionado. Vou tentar não ler, pelo menos. Mas, se você não for curada...
Ela olhou para o curativo do braço, no local onde Blitzen tirara sangue.
— Tá. Tá, tudo bem. Só que... só a testa. Nada dentro da minha cabeça.
Toquei a testa dela. Alex estava ardendo de febre. Invoquei o poder de Frey, e ela soltou um suspiro de surpresa. Na mesma hora, o ferimento se fechou. A pele esfriou. A cor voltou ao normal.
Minhas mãos quase não brilhavam. Parecia que o fato de estarmos ao ar livre, cercados pela natureza, facilitava a cura.
— Não vi nada — jurei para Alex. — Você ainda é um mistério envolto em um ponto de interrogação envolto em roupas de flanela.
Ela expirou, emitindo um som que era algo entre uma gargalhada e um suspiro de alívio.
— Obrigada, Magnus. Agora será que podemos acender a fogueira?
Ela não me chamou de Maggie nem de Zé-Ninguém. Decidi encarar isso como uma oferta de paz.
Quando estávamos com uma bela chama acesa, tentamos descobrir a melhor maneira de requentar o falafel do Fadlan sobre uma chama aberta. Aprendemos uma lição importante: não dá para assar falafel no espeto como se fosse um marshmallow. Praticamente só comemos os chocolates da casa do tio Randolph.
Blitz passou boa parte da manhã fiando o fio mágico na roca portátil de viagem. (Claro que ele tinha uma roca no kit. Por que não teria?) Enquanto isso, Jacques voou de um lado para outro na lateral da bolsa de boliche, perfurando no padrão que Blitz queria que ele bordasse.
Alex e eu ficamos vigiando, mas não aconteceu muita coisa. Sam e Hearth não apareceram. Nenhum gigante eclipsou o sol ou destruiu a floresta com cadarços desamarrados. A coisa mais perigosa que vimos foi um esquilo vermelho em um galho acima da nossa fogueira. Provavelmente não era uma ameaça, mas desde que conhecera Ratatosk, eu achava melhor prevenir. Fiquei de olho nele até que pulasse para outra árvore.
À tarde, as coisas ficaram mais animadas. Depois do almoço, Blitz e Jacques começaram a trabalhar no bordado em si. De algum modo (talvez, hã, com magia?), Blitz fez uma pilha de fio vermelho cintilante com meu cabelo, o sangue de Alex Fierro e os fios do colete dele. Depois amarrou uma ponta no cabo de Jacques, que voou de um lado para o outro da lateral da bolsa, mergulhando no couro como um golfinho, deixando uma trilha cintilante de pontos. Vê-lo me lembrou de como amarramos o lobo Fenrir... uma lembrança que eu não fazia questão de ter.
Blitzen gritava instruções.
— Para a esquerda, Jacques! Diminua esse ponto! Certo, agora faça um pesponto! Faça um arremate ali no final!
Alex mordeu a barra de chocolate.
— Arremate?
— Não faço ideia do que eles estão falando — admiti.
Talvez inspirada pela exibição de costura, Alex soltou o garrote dos passadores da calça. Passou o fio de metal pelas solas dos tênis, raspando a lama gelada.
— Por que escolheu essa arma? — perguntei. — Você pode simplesmente me mandar calar a boca de novo, se quiser, sem problemas.
Alex me deu um meio sorriso.
— Tudo bem. Começou como meu cortador de argila.
— Cortador de argila. É aquele fio que você passa por um bloco de argila.
— Você descobriu isso sozinho?
— Ha-ha. Imagino que a maioria dos cortadores de argila não tenha aplicações de combate.
— Não muito. Minha m... — Ela hesitou. — Loki me visitou uma vez no estúdio. Estava tentando me impressionar, me mostrar quanto podia fazer por mim. Ele me ensinou um encantamento que eu poderia usar para fazer uma arma mágica. Eu não queria dar a ele a satisfação de me ajudar. Então, usei o feitiço na coisa mais estúpida e inócua em que consegui pensar. Não me dei conta de que um fio com cavilhas nas pontas pudesse ser uma arma.
— Mas...
Alex apontou para uma rocha próxima, um pedaço grande de granito do tamanho de um piano. Ela lançou o garrote, segurando uma das pontas como um chicote. O fio se esticou quando voou. A ponta se enrolou na pedra e prendeu bem. Alex puxou. A parte de cima da pedra deslizou para o chão com um som de tampa de pote de biscoitos sendo removida.
O fio voltou para sua mão.
— Legal. — Tentei não deixar meus olhos pularem da cara. — Mas faz batata frita?
Alex murmurou alguma coisa sobre garotos idiotas, mas tenho certeza de que não teve nada a ver comigo.
A luz da tarde sumiu rapidamente. Lá na bolsa de boliche, Blitz e Jacques continuavam trabalhando em sua participação na Grande Competição de Costura de Jötunheim. As sombras se alongaram. A temperatura caiu. Reparei nisso porque Blitz tinha acabado de fazer um corte de cabelo drástico em mim, e meu pescoço exposto estava gelado. Eu só estava agradecido de não haver espelhos para me mostrar os horrores que o anão tinha feito na minha cabeça.
Alex jogou outro graveto no fogo.
— Você pode perguntar.
Eu me remexi, desconfortável.
— O quê?
— Você quer me perguntar sobre Loki — disse Alex. — Por que coloquei o símbolo dele no meu trabalho, por que tenho a tatuagem. Quer saber se estou trabalhando para ele.
Essas perguntas estavam no fundo dos meus pensamentos, mas eu não entendia como Alex podia saber. Eu me perguntei se meu toque de cura tinha saído pela culatra. Talvez eu tenha dado a Alex uma visão da minha cabeça.
— Isso é algo que me preocupa — admiti. — Você age como se não gostasse de Loki...
— Eu não gosto.
— Então por que usa o símbolo dele?
Ela tocou a nuca.
— Este desenho, as duas cobras entrelaçadas? Era chamado de Serpentes de Urnes, por causa de um lugar na Noruega. Não é apenas um símbolo de Loki. — Ela entrelaçou os dedos e os balançou. — As cobras significam mudança e flexibilidade. Versatilidade. As pessoas começaram a usar as cobras para representar Loki, e ele não se importou. Mas eu decidi... por que Loki pode tomar posse de um símbolo tão maneiro? Eu gosto das cobras. Estou transformando o símbolo em algo meu. Loki não é o dono do símbolo da mudança tanto quanto não é meu dono. E não estou nem aí para o que as pessoas pensam.
Olhei para outro graveto estalando nas chamas; um enxame de fagulhas laranja se elevou da fogueira. De repente me lembrei do meu sonho com a suíte de Alex, Loki se transformando em uma mulher ruiva.
Pensei em como Alex evitava chamar Loki de pai.
— Você é como o cavalo de oito patas.
Alex franziu a testa.
— Stanley?
— Não, o cavalo de oito patas original. Qual é o nome dele? Sleipnir. Mallory Keen me contou a história, alguma coisa sobre Loki virar uma égua para poder atrair o garanhão de um gigante para longe. E aí... Loki engravidou. Ele... ela deu à luz Sleipnir. — Olhei para Alex, bem ciente do garrote pousado sobre sua coxa. — Loki não é seu pai, é? Ele é sua mãe.
Alex apenas me encarou.
Eu pensei: Bem, lá vem o garrote. Adeus, membros! Adeus, cabeça!
Ela me surpreendeu com uma gargalhada amarga.
— Acho que esse corte de cabelo te deixou mais esperto.
Resisti à vontade de passar a mão na cabeça.
— Então estou certo?
— Está. — Ela puxou os cadarços cor-de-rosa dos tênis. — Eu queria poder ter visto a cara do meu pai quando ele descobriu. Pelo que sei, Loki se metamorfoseou no tipo de mulher que meu pai gostava. Ele já era casado na época, mas isso não o impediu. Ele estava acostumado a ter o que queria. Teve um caso com uma ruiva gostosona. Nove meses depois, Loki apareceu na porta dele com um bebezinho de presente.
Tentei imaginar o deus em sua forma impressionante de sempre, talvez usando smoking verde, tocando a campainha de uma casa em um bairro elegante. Oi, eu era aquela moça com quem você teve um caso. Olha o nosso bebê aqui.
— Como sua mãe mortal reagiu? Quer dizer, a esposa do seu pai... Quer dizer, sua madrasta...
— É confuso, não é? — Alex jogou outro graveto no fogo. — Minha madrasta não ficou feliz. Eu cresci com duas pessoas que se ressentiam e tinham vergonha de mim. E ainda tinha Loki, que ficava aparecendo em momentos aleatórios, tentando agir como mãe.
— Cara... — falei.
— Moça, hoje — corrigiu Alex.
— Não, eu quis dizer... — Parei ao perceber que ela estava implicando. — O que aconteceu? Quando você saiu de casa?
— Dois anos atrás, mais ou menos. E você quer saber o que aconteceu? Uma porção de coisas.
Desta vez, reconheci o tom de aviso na voz dela. Queria mudar de assunto.
Ainda assim... Alex se tornou sem-teto na época em que minha mãe morreu, no mesmo período em que fui parar na rua. Essa coincidência me deixou inquieto.
Antes de perder a coragem, perguntei:
— Loki pediu para você vir com a gente?
Ela me olhou nos olhos.
— O que você quer dizer com isso?
Contei meu sonho para Alex: ela jogando vasos no pai (mãe), Loki dizendo É um pedido tão simples. Estava escuro agora, mas eu não sabia direito quando tinha anoitecido. À luz da fogueira, o rosto de Alex pareceu ondular. Tentei convencer a mim mesmo de que não era a parte Loki dela se revelando. Era só mudança, flexibilidade. A tatuagem das cobras no pescoço dela era totalmente inocente.
— Você entendeu errado — disse Alex. — Ele me pediu para não vir.
Um estranho som latejante surgiu nos meus ouvidos. Percebi que era minha pulsação.
— Por que Loki pediria isso? E... do que você e Sam estavam falando ontem à noite, sobre um plano?
Ela enrolou o garrote nas mãos.
— Talvez você descubra, Magnus. E, a propósito, se me espionar novamente nos seus sonhos...
— Pessoal! — gritou Blitzen da montanha Bolsa de Boliche. — Venham ver como ficou!


8 comentários:

  1. E eu achando que minha prima teve um nascimento estranho por ser de barriga de aluguel...

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  2. Imagino a cara do pai da Alex quando descobriu. Deve ter sido hilário! kkkkkkkkkkkk

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  3. Até o perrapado do Magnus arranja uma namorada/o sei lá e eu aqui

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  4. eu desconfiei desde o começo que Loke era a mãe dela e não o pai, mas fiquei com medo de dizer de parecer spoile.

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  5. "— Cortador de argila. É aquele fio que você passa por um bloco de argila.
    — Você descobriu isso sozinho?
    — Ha-ha. Imagino que a maioria dos cortadores de argila não tenha aplicações de combate.
    — Não muito. MINHA M... — Ela hesitou. — Loki me visitou uma vez no estúdio [...]"

    Todas as minhas suspeitas foram confirmadas nesse trechinho aí. Imagino q seja pelo fato d Loki ser a MÃE dela q ela tenha gênero fluido...

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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  6. Mano
    Shippo muitooo Alex e Magnus

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  7. "Ruiva gostosona"
    Só consigo imaginar Jessica Rabbit,ME DESCULPA ALEX NAJDBADJAJDISHDIW
    Então....Tecnicamente,a Alex é filha de dois caras? O.O (Tapa na cara de quem fala que dois homens n pode reproduzir qqqq)

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  8. Alex murmurou alguma coisa sobre garotos idiotas, mas tenho certeza de que não teve nada a ver comigo.

    Mrs. Obvius

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