16 de outubro de 2016

Trinta e quatro - Faço uma visita ao meu mausoléu favorito

NA MANHÃ SEGUINTE, acordei na minha cama em Valhala, não revigorado e, definitivamente, nada preparado para levantar. Fiz uma malinha com coisas de acampamento e restos de falafel. Fui falar com T.J. do outro lado do corredor; ele me entregou a espada Skofnung e prometeu ficar alerta para o caso de eu precisar de reforços da cavalaria ou de ajuda para atacar as fortificações inimigas. Depois, me encontrei com Alex Fierro no saguão e seguimos para Midgard.
Alex concordou em fazer mais uma parada antes de nos encontrarmos com os outros. Eu não queria, mas me senti obrigado a invadir a mansão de Randolph, em Back Bay, para dar uma olhada no meu tio assassino e traidor. Porque, afinal, família é para essas coisas.
Eu não sabia o que faria se o encontrasse. Talvez pensasse em um jeito de libertá-lo da influência de Loki. Talvez desse um tabefe na cara dele com um saco de quibes – se bem que isso seria desperdiçar um bom quibe.
Para a sorte de Randolph e da minha quentinha, ele não estava em casa. Arrombei a porta dos fundos, como sempre (Randolph não recebeu a mensagem sobre trocar as fechaduras), depois Alex e eu roubamos os vários chocolates espalhados pela mansão (porque isso era uma necessidade), rimos das cortinas e dos badulaques cheios de frescura e, por fim, entramos no escritório.
Nada lá havia mudado desde a minha última visita. Tinha mapas em cima da mesa. A grande tumba viking estava no canto, com a figura do lobo ainda rosnando para mim. Armas e tranqueiras medievais ocupavam as prateleiras junto com livros de capas de couro e fotos de Randolph em locais de escavações na Escandinávia.
No cordão no meu pescoço, o pingente de Jacques vibrou de tensão. Eu nunca o tinha trazido para a casa de Randolph. Acho que ele não gostou do lugar. Ou talvez só estivesse empolgado porque a espada Skofnung estava presa nas minhas costas.
Eu me virei para Alex.
— Ei, você é garota hoje?
A pergunta me escapuliu antes de eu ter a chance de pensar se dizer aquilo era estranho, grosseria ou se faria com que eu fosse decapitado.
Alex sorriu de um jeito que eu esperava que fosse divertido e não homicida.
— Por quê?
— Por causa da espada Skofnung. Ela não pode ser desembainhada na presença de mulheres. Eu meio que gosto mais quando ela não pode ser desembainhada.
— Ah. Espere. — O rosto de Alex se contraiu em concentração intensa. — Pronto! Agora sou menina.
Minha expressão deve ter sido impagável.
Alex caiu na gargalhada.
— Estou brincando. Sim, sou garota hoje. Ela dela.
— Mas você não...
— Mudei de gênero por força de vontade? Não, Magnus. Não é assim que funciona. — Ela passou os dedos pela mesa de Randolph. A janelinha de vitral acima da porta jogava luz multicolorida em seu rosto.
— Então, posso perguntar...? — Fiz um gesto vago. Eu não sabia quais palavras usar.
— Como funciona? — Ela deu um sorrisinho. — Desde que você não me peça para falar por todas as pessoas fluidas de gênero, tá? Não sou embaixadora. Não sou professora, nem garota-propaganda. Sou só — ela imitou meu gesto — eu. Tentando ser eu da melhor forma possível.
Pareceu justo. Pelo menos era melhor do que ela me dando socos, me enforcando com o garrote ou virando guepardo e me atacando.
— Mas você é metamorfa. Não pode simplesmente... você sabe, ser o que quiser?
O olho mais escuro tremeu, como se eu tivesse cutucado uma ferida.
— Essa é a ironia. — Ela pegou um abridor de cartas e girou na luz colorida. — Posso mudar minha aparência para o que ou quem eu quiser. Mas meu gênero? Não. Não posso mudar por vontade própria. É realmente fluido, no sentido de que eu não o controlo. Na maior parte do tempo eu me identifico como alguém do sexo feminino, mas às vezes tenho dias muito masculinos. E não me pergunte como sei o que sou em que dia.
Essa seria a minha próxima pergunta, na verdade.
— Então por que você não usa palavras neutras? Não seria menos confuso do que ficar trocando de pronomes?
— Menos confuso para quem? Para você?
Minha boca devia estar aberta, porque ela revirou os olhos para mim como quem diz: Seu cretino. Eu esperava que Heimdall não estivesse fazendo snaps dessa conversa.
— Olha, alguns preferem a neutralidade — disse Alex. — São pessoas não binárias ou de espectro neutro, sei lá. Se elas não querem identificação de gênero na fala, é isso o que você deve fazer. Mas, no meu caso, eu não quero usar os mesmos pronomes o tempo todo, porque eu não sou assim. Eu mudo muito. Essa é a questão. Quando sou ela, eu sou ela. Quando sou ele, eu sou ele. Não sou elx. Entendeu?
— Se eu disser que não, você vai me bater?
— Não.
— Então não, não entendi muito bem.
Ela deu de ombros.
— Você não precisa entender. Só, sabe, respeitar.
— A garota com o fio muito afiado? Tranquilo.
Ela deve ter gostado da resposta. Não havia nada de confuso no sorriso que me deu. A temperatura do escritório aumentou uns quinze graus.
Eu limpei a garganta.
— Estamos procurando qualquer coisa que possa nos dar uma dica do que está acontecendo com meu tio.
Comecei a olhar as estantes, como se tivesse ideia do que estava fazendo. Não encontrei nenhuma mensagem e nenhuma alavanca secreta que pudesse abrir salas escondidas. Sempre parecia tão fácil no desenho do Scooby-Doo!
Alex mexeu nas gavetas da escrivaninha de Randolph.
— E você morava nesse mausoléu enorme?
— Felizmente, não. Minha mãe e eu tínhamos um apartamento em Allston... antes de ela morrer. Depois, fui morar nas ruas.
— Mas sua família tinha dinheiro.
— Randolph tinha. — Peguei uma antiga foto dele com Caroline, Aubrey e Emma. Era difícil olhar para elas. Desviei os olhos. — Você vai perguntar por que eu não vim morar aqui com ele em vez de virar um sem-teto?
Alex bufou.
— Deuses, não. Eu jamais perguntaria isso.
A voz dela tinha ficado amarga, como se parentes ricos e idiotas fossem algo que ela conhecesse bem.
— Você vem... de um lugar assim? — perguntei.
Alex fechou a gaveta.
— Minha família tinha muitas coisas, menos as que importavam... como um filho e herdeiro, por exemplo. Ou, sabe, sentimentos.
Tentei imaginar Alex morando em uma mansão como aquela, ou participando de uma festa elegante como a do sr. Alderman, em Álfaheim.
— Sua família sabia que você era filha de Loki?
— Ah, Loki fez questão de que eles soubessem. Meus pais mortais o culpavam pelo jeito como eu era, por ser fluida. Diziam que ele me corrompeu, que botou ideias na minha cabeça, blá-blá-blá.
— E seus pais não... convenientemente esqueceram Loki, como os avós de Sam?
— Quem me dera. Loki se certificou de que eles lembrassem. Ele... sempre abria os olhos deles, acho que podemos dizer assim. Como o que você fez por Amir, só que os motivos de Loki não eram tão nobres.
— Eu não fiz nada por Amir.
Alex andou até mim e cruzou os braços. Ela estava usando uma camisa de flanela rosa e verde hoje, com uma calça jeans. Os tênis de caminhada eram tediosamente práticos, exceto pelos cadarços rosa-metálicos. Os olhos de cores diferentes pareciam puxar meus pensamentos em duas direções ao mesmo tempo.
— Você acha mesmo que não fez nada? — perguntou ela. — Quando segurou os ombros de Amir? Quando suas mãos começaram a brilhar?
— Eu... brilhei? — Não tinha lembrança nenhuma de conjurar o poder de Frey. Nem tinha me ocorrido que Amir precisasse de cura.
— Você o salvou, Magnus — disse Alex. — Até eu vi isso. Ele teria desmoronado com o estresse. Você deu a ele resiliência para ampliar a mente sem se romper. O único motivo de ele estar mentalmente são é por sua causa.
Senti como se estivesse de volta à ponte Bifrost, com cores superaquecidas ardendo através de mim. Eu não sabia o que fazer com o olhar de aprovação que Alex estava me lançando, nem com a ideia de que tinha curado a mente de Amir sem nem saber.
Ela me deu um soco no peito, com força suficiente para doer.
— Que tal a gente terminar aqui? Estou começando a sufocar neste lugar.
— Sim. Sim, claro.
Eu também estava com dificuldade para respirar, mas não por causa da casa. O jeito como Alex falou de mim, com tanta aprovação... provocou um estalo. Eu percebi quem ela me lembrava: a energia inquieta, o porte pequeno e o cabelo curto, a camisa de flanela com calça jeans e tênis, o desprezo pelo que as outras pessoas achavam dela, até a gargalhada, nas raras ocasiões em que isso acontecia.
Estranhamente, Alex me lembrava a minha mãe.
Decidi não pensar nisso. Em pouco tempo eu precisaria de terapia mais do que o bode Otis.
Olhei as prateleiras uma última vez. Meus olhos se fixaram na única foto sem Randolph: uma imagem de uma cachoeira congelada no meio de uma floresta, com folhas de gelo penduradas na beirada de um penhasco cinzento. Podia ser só uma fotografia bonita da natureza, mas me pareceu familiar. As cores eram mais vibrantes do que nas outras fotos, como se aquela tivesse sido tirada recentemente. Peguei o porta-retratos. Não havia poeira na prateleira onde ele estava. Mas havia outra coisa, um convite de casamento verde.
Alex observou a foto.
— Conheço esse lugar.
— Bridal Veil Falls — falei. — New Hampshire. Já fui caminhar lá.
— Eu também.
Em circunstâncias diferentes, nós talvez tivéssemos trocado histórias de viagens. Era outra estranha similaridade entre ela e minha mãe, e talvez o motivo de Alex ter um átrio aberto no meio da suíte do hotel, como eu.
Mas, no momento, minha mente estava disparada em outra direção. Eu me lembrei do que Heimdall dissera sobre a fortaleza de Thrym, que a entrada sempre mudava, de maneira que era impossível prever onde estaria no dia do casamento. Ele tinha dito que às vezes aparecia atrás de uma cachoeira.
Olhei o convite, idêntico ao que Sam jogara fora. A linha quando agora dizia: EM DOIS DIAS. Em outras palavras, depois de amanhã. A linha onde ainda dizia: AVISAMOS DEPOIS.
A fotografia de Bridal Veil Falls podia ser uma imagem aleatória. O nome da cachoeira, Véu de Noiva, podia ser coincidência. Ou talvez o tio Randolph não estivesse totalmente sob o controle de Loki.
Talvez tivesse deixado uma pista digna de Scooby-Doo.
— É o convite do casamento de Sam — notou Alex. — Você acha que quer dizer alguma coisa o fato de estar atrás dessa foto?
— Pode não ser nada — respondi. — Ou pode ser um ponto de entrada para uns penetras de casamento.


18 comentários:

  1. Respostas
    1. Finalmente alguém com a mesma opinião que eu

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    2. Tipo, eu com crtz shippo Alex e Magnus... Mas talvez ele identificar a mãe dele nela estrague o shipp pq ele pode achar estranho tipo namorar alguém parecida com a mãe.... Sei lá

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  2. Deixa eu vêr...Alex pode se transformar em uma mulher..mas sem poder mudar os seus orgãos genitais? Ou ela/ele consegue os mesmos feitos de Loki que é mudar completamente?

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  3. Acho que Alex pode se transformar em mulher/homem se quiser, mas não pode escolher se vai se sentir como homem ou mulher. Algo como a personalidade dela ser feminina ou masculina independente da forma física. Eu acho...

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    1. Ela tem o mesmo poder de Loki ou seja, ela muda de personalidade conforme oque sente. Loki quando se apaixona por homem se torna mulher e vice versa. com alex e o mesmo creio eu.

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  4. A mudança de gênero da Alex n tem a ver com o poder do Loki. Ela muda de forma, não de gênero. Essa mudança dela acho que é psicológica. É com o que ela se identifica. O que ela sente ser

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  5. COMASSIIIMMM...
    Essa história está ficando mt louca. A Alex lembrando a mãe do Magnus? 😑 Aí tem coisa!
    Sim, eu shippo os dois. MUITO.

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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  6. Pra quem não está entendendo muito bem, Alex é gênero fluído. Isso é uma coisa real, muitas pessoas se identificam desta forma, mas não quer dizer que há uma mudança de genitálias ou algo do tipo, isso estaria relacionado ao sexo, não ao gênero. Alex é do SEXO masculino, mas é um transexual gênero fluído, o que quer dizer que, na maior parte do tempo, se identifica/se sente como mulher e, na outra parte do tempo, se identifica como homem. No entanto, isso não tem nada a ver com Loki ou seus poderes de mudança de forma, é uma questão de se sentir. Sempre vale a pena dar umas pesquisada nos gêneros não-binários ♡

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    1. Mel jjwwns, a maioria das pessoas de gênero fluido não são troca-peles.

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  7. Pergunta: C o Magnus ficar com a Alex,ele é gay ou é homem? Ou ele é uns dias gay e outros homem?

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    1. o fato de um cara ser gay não anula o fato de ser homem ;_;

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    2. o fato de um cara ser gay não anula o fato de ser homem ;_;

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  8. Sendo gay ou não, ele ainda seria ~homem~; fica a dica.

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  9. "Para a sorte de Randolph e da minha quentinha, ele não estava em casa. Arrombei a porta dos fundos, como sempre (Randolph não recebeu a mensagem sobre trocar as fechaduras), depois Alex e eu roubamos os vários chocolates espalhados pela mansão (porque isso era uma necessidade), rimos das cortinas e dos badulaques cheios de frescura e, por fim, entramos no escritório."
    ""— Você não precisa entender. Só, sabe, respeitar.

    — A garota com o fio muito afiado? Tranquilo.

    Ela deve ter gostado da resposta. Não havia nada de confuso no sorriso que me deu. A temperatura do escritório aumentou uns quinze graus."
    ""Eu também estava com dificuldade para respirar, mas não por causa da casa. O jeito como Alex falou de mim, com tanta aprovação... provocou um estalo."

    GENTE QUE MARAVILHOSO,QUERO BEIJO LOGO

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  10. "A temperatura do escritório aumentou uns quinze graus[...]Eu também estava com dificuldade para respirar, mas não por causa da casa. O jeito como Alex falou de mim, com tanta aprovação... provocou um estalo."

    Eu shippo muito 💓💓💓

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  11. Eu e meus shipps impossíveis querendo que Magnus conhecesse Jaz...

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