16 de outubro de 2016

Trinta e oito - Vocês nunca, nunquinha, vão adivinhar a senha do Blitzen

JACQUES PAIROU COM orgulho ao lado do seu trabalho manual.
É possível fazer trabalho manual quando não se tem mãos?
Na lateral da bolsa estavam costuradas várias novas linhas de escrita rúnica vermelha brilhante.
— O que está escrito? — perguntou Alex.
— Ah, são algumas runas técnicas. — Os olhos de Blitzen brilharam de satisfação. — O básico de magia, termos e condições, o acordo do usuário. Mas, embaixo, diz: COUROVAZIO, UMA BOLSA FINALIZADA POR BLITZEN, FILHO DE FREYA. COM AJUDA DE JACQUES.
— Eu escrevi isso! — disse Jacques com orgulho. — Eu ajudei!
— Bom trabalho, amigão. E... como funciona?
— Estamos prestes a descobrir! — Blitzen esfregou as mãos, ansioso. — Vou falar a palavra secreta de comando. Aí, essa bolsa vai encolher para um tamanho pequeno e fácil de carregar, ou... Bem, tenho certeza de que vai encolher.
— Volte um pouquinho para a parte do ou — pediu Alex. — O que mais pode acontecer?
Blitzen deu de ombros.
— Bom... tem uma pequena chance de a bolsa se expandir e cobrir boa parte deste continente. Não, não. Tenho certeza de que acertei. Jacques foi cuidadoso na hora de pespontar as runas onde eu pedi.
— Eu tinha que ter pespontado? — Jacques brilhou em amarelo. — Brincadeirinha. É, eu pespontei direitinho.
Eu não estava tão confiante. Por outro lado, se a bolsa se expandisse para um tamanho continental, eu não viveria o bastante para me importar.
— Tudo bem — falei. — Qual é a senha?
— Não! — gritou Blitzen.
A bolsa de boliche estremeceu. A floresta inteira sacudiu junto. A bolsa encolheu tão rápido que fiquei enjoado pela mudança de perspectiva. A montanha de couro sumiu. Aos pés de Blitzen havia uma bolsa de boliche de tamanho normal.
— ISSO! — Blitzen a pegou e espiou o fundo. — Tem uma bola de boliche dentro, mas a sensação é de que está vazia. Jacques, nós conseguimos!
Eles bateram as mãos, ou uma mão, considerando que a lâmina de Jacques não tinha dedos.
— Espere — disse Alex. — Quer dizer... bom trabalho, e tal. Mas você criou mesmo uma senha que era senha?
— NÃO! — Blitz jogou a bolsa de boliche no bosque como se fosse uma granada. Na mesma hora, ela cresceu até o tamanho de uma montanha, criando um maremoto de árvores esmagadas e animais apavorados. Quase senti pena dos esquilos traiçoeiros.
— Eu estava com pressa! — disse Blitzen, bufando. — Posso alterar a s... a palavra de comando mais tarde, mas exigiria mais fio e mais tempo. Por enquanto, vocês podem fazer o favor de evitar dizer... vocês sabem, aquela palavra?
Em seguida, ele disse aquela palavra. A bolsa encolheu novamente.
— Você trabalhou muito bem, cara — falei. — E, Jacques, belo trabalho no bordado.
— Obrigado, senhor! Eu também adorei seu novo corte de cabelo. Você não parece mais aquele cara do Nirvana. Está mais para, sei lá... Johnny Rotten? Ou uma Joan Jett loura?
Alex caiu na gargalhada.
— Como você conhece essa gente? — perguntou ela. — T.J. disse que você ficou no fundo de um rio por mil anos!
— Fiquei, mas andei me atualizando.
Alex riu.
— Joan Jett.
— Calem a boca, vocês dois — resmunguei. — Quem aqui quer jogar boliche?

* * *

Ninguém queria jogar boliche.
Blitzen entrou em uma barraca e desmaiou de exaustão. Em seguida, cometi o erro de deixar Jacques voltar para a forma de pingente, e eu desmaiei de exaustão, com a sensação de ter passado o dia todo escalando penhascos.
Alex prometeu ficar de vigia. Pelo menos, acho que foi isso que ela disse. Ela poderia ter anunciado: Vou convidar Loki para o acampamento e matar todos vocês! MUA-HA-HA-HA. E eu desmaiaria do mesmo jeito.
Não sonhei com nada além de golfinhos pulando alegremente em um mar de couro. Acordei com o céu passando de preto a chumbo. Insisti para que Alex descansasse um pouco. Até nós três acordarmos, comermos o café da manhã e terminarmos de desmontar o acampamento, o céu já parecia um cobertor grosso cinza-escuro.
Quase vinte e quatro horas perdidas. Samirah e Hearthstone ainda estavam desaparecidos. Tentei imaginá-los em segurança junto à lareira na casa de Utgard-Loki, contando histórias e se empanturrando.
Mas só consegui imaginar um bando de gigantes perto da lareira, contando histórias sobre os mortais saborosos que eles tinham comido na noite anterior.
Pare com isso, falei para o meu cérebro.
E o casamento é amanhã, meu cérebro respondeu.
Saia da minha cabeça.
Meu cérebro se recusou a sair da minha cabeça. Que falta de consideração.
Caminhamos pela ravina, tentando seguir a direção que Miúdo havia indicado. Era de se supor que poderíamos seguir os passos dele, mas era difícil distingui-los dos vales e cânions naturais.
Depois de uma hora, mais ou menos, avistamos nosso destino. Em um penhasco enorme, ao longe, havia uma estrutura parecida com um armazém. O Godzilla inflável havia sumido (o aluguel diário de uma coisa daquelas devia ser exorbitante), mas a placa de néon ainda brilhava: PISTAS DE BOLICHE UTGARD. As letras brilhavam uma de cada vez, depois todas juntas, depois com brilhos nas beiradas, garantindo que ninguém deixasse de ver a única placa de néon no maior penhasco de Jötunheim.
Seguimos por uma trilha sinuosa perfeita para burros colossais, mas não muito indicada para mortais pequenos. O vento frio soprava ao nosso redor. Meus pés estavam doendo. Eu estava agradecido pela bolsa de boliche mágica de Blitzen, porque arrastar a versão em tamanho real por aquela ladeira teria sido impossível e nada divertido.
Quando chegamos no topo, percebi quanto o boliche Utgard realmente era grande. A construção em si era capaz de abrigar boa parte do centro de Boston. A porta dupla marrom era coberta de rebites de metal do tamanho de uma casa de três quartos. Nas janelas sujas brilhavam propagandas em néon de Suco Jötunn, Cerveja Pequena Grande e Super-Hidromel. Havia animais colossais presos a postes do lado de fora: cavalos, carneiros, iaques e, sim, burros, cada um mais ou menos do tamanho do Kilimanjaro.
— Não há nada a temer — murmurou Blitz. — É como um bar anão. Só que... enorme.
— Como vamos fazer isso? — perguntou Alex. — Vamos arrasar com um strike?
— Ha-ha — falei. — Sam e Hearth podem estar aí dentro, então vamos seguir as regras. Vamos entrar. Pedir direito de convidados. Tentar negociar.
— E, quando isso não der certo, nós improvisamos — disse Blitz.
Alex, por ser sempre a favor de mudanças e versatilidade, disse:
— Odiei essa ideia. — Ela franziu a testa para mim. — Além do mais, você me deve uma bebida por ter sonhado comigo.
Ela andou até a entrada.
Blitzen ergueu as sobrancelhas.
— Devo perguntar?
— Não — respondi. — Não mesmo.
Passar pelas portas não foi problema. Atravessamos pelo vão sem nem precisarmos nos agachar.
Lá dentro havia o maior e mais lotado boliche que eu já tinha visto.
À esquerda, vinte ou trinta gigantes do tamanho da Estátua da Liberdade ocupavam o bar, sentados em bancos que seriam ótimos arranha-céus residenciais. Os gigantes estavam usando camisas de boliche de cores néon que deviam ter roubado de um brechó dos anos 1970. Na cintura, havia uma variedade de facas, machados e clavas cheias de pontas. Eles riam e xingavam uns aos outros e jogavam canecas de hidromel que poderiam irrigar todas as plantações da Califórnia por um ano.
Pareceu meio cedo para hidromel, mas, pelo que eu sabia, esses caras podiam estar na farra desde 1999. Ao menos essa era a música tocando nos alto-falantes: “1999”, do Prince.
À nossa direita havia um fliperama onde mais gigantes jogavam pinball e Sra. Pac-Man Imensa. No fundo do cômodo, tão longe quanto Boston é de New Hampshire, mais gigantes se reuniam nas pistas de boliche em grupos de quatro ou cinco, com roupas fosforescentes combinando e sapatos de boliche feitos de camurça. Uma faixa na parede dos fundos dizia: GRANDE TORNEIO DE BOLICHE DE UTGARD! BEM-VINDOS, COMPETIDORES DO G.T.B.U.!
Um dos gigantes fez uma jogada. Um trovão ribombou enquanto a bola de boliche rolava pela pista. O chão vibrou, me sacudindo como se eu fosse um brinquedo de corda.
Procurei Miúdo e sua camisa de Perus do Boliche. Não consegui vê-lo. Ele devia ser fácil de encontrar, mas, de nosso ponto de vista no chão, havia obstáculos enormes demais no caminho.
Nesse momento, a multidão se mexeu. Do outro lado do aposento, olhando diretamente para mim, estava um gigante que eu queria ver menos ainda do que Miúdo. Ele estava sentado em uma cadeira de couro alta, na plataforma com vista para as pistas, como se fosse o juiz ou o mestre de cerimônias. A camisa de boliche era feita de penas de águia. A calça era de poliéster marrom. As botas com rebites de ferro pareciam feitas de navios de guerra reciclados da Segunda Guerra Mundial. Em volta do antebraço dele havia um bracelete de ouro cravejado de gemas verdes.
O rosto dele era anguloso e bonito, mas de um jeito meio cruel. O cabelo liso preto-carvão descia até os ombros. Os olhos cintilavam com diversão e malícia. Ele definitivamente teria chegado à lista de Os 10 Assassinos Mais Atraentes de Jötunheim. Estava uns trinta metros mais alto do que na última vez que eu o vira, mas eu o reconheci na hora.
— Big Boy — falei.
Não sei como o gigante ouviu minha voz diminuta em meio ao caos, mas assentiu em um cumprimento.
— Magnus Chase! — gritou ele. — Estou feliz por você ter conseguido chegar!
A música parou. No bar, gigantes se viraram para olhar para nós. Big Boy levantou o punho, como se me oferecesse um microfone. Entre os dedos dele, como bonecos de soldadinhos, estavam Samirah e Hearthstone.


6 comentários:

  1. Parece minha mãe botando senha nas coisas

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  2. Melhores casais que ainda não são casais: Magnus e Alex, Hearth e Blitzen ❤

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  3. "Mas só consegui imaginar um bando de gigantes perto da lareira, contando histórias sobre os mortais saborosos que eles tinham comido na noite anterior.
    Pare com isso, falei para o meu cérebro.
    E o casamento é amanhã, meu cérebro respondeu.
    Saia da minha cabeça.
    Meu cérebro se recusou a sair da minha cabeça. Que falta de consideração."
    😂😂😂
    😝😝😝

    "Alex, por ser sempre a favor de mudanças e versatilidade, disse:
    — Odiei essa ideia. — Ela franziu a testa para mim. — Além do mais, você me deve uma bebida por ter sonhado comigo.
    Ela andou até a entrada.
    Blitzen ergueu as sobrancelhas.
    — Devo perguntar?
    — Não — respondi. — Não mesmo."
    🤗🤗🤗
    😄😄😄

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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  4. Pare com isso, falei para o meu cérebro.
    E o casamento é amanhã, meu cérebro respondeu.
    Saia da minha cabeça.
    Meu cérebro se recusou a sair da minha cabeça. Que falta de consideração.

    😂😂😂 Eu msm quando to estressada....kkkkk


    — Além do mais, você me deve uma bebida por ter sonhado comigo.
    Ela andou até a entrada.
    Blitzen ergueu as sobrancelhas.
    — Devo perguntar?
    — Não — respondi. — Não mesmo.

    Mais fofo só percabeth😍💜

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