16 de outubro de 2016

Trinta e dois - Godzilla me manda uma mensagem importante

HEIMDALL OLHOU AO longe e cambaleou para trás na mesma hora.
— Pelas minhas nove mães!
Alex Fierro se sentou, subitamente interessado.
— O que foi?
— Hã... — As bochechas de Heimdall estavam ficando da mesma cor de lã de carneiro do cabelo. — Gigantes. Um monte deles. Eles... eles parecem estar se reunindo nas fronteiras de Midgard.
Eu me perguntei que outras ameaças Heimdall teria deixado passar enquanto estava tirando uma selfie com o presidente dos Estados Unidos. Entre esse cara e o Thor desmartelado, não era surpresa a segurança de Asgard depender de pessoas despreparadas e pouco treinadas como... bem, como nós.
Sam conseguiu manter a voz firme.
— Nós sabemos sobre os gigantes, lorde Heimdall. Eles desconfiam que o martelo de Thor tenha desaparecido. Se não o recuperarmos logo...
— Sim. — Heimdall umedeceu os lábios. — Eu... eu acho que você disse alguma coisa sobre isso. — Ele botou a mão em concha no ouvido e prestou atenção. — Eles estão falando sobre um... casamento. O casamento de Thrym. Um dos generais... está resmungando, porque eles precisam esperar a cerimônia para invadir. Aparentemente, Thrym prometeu uma boa notícia após a cerimônia, uma coisa que vai tornar a invasão deles bem mais fácil.
— Uma aliança com Loki? — adivinhei, embora alguma coisa ali não parecesse certa. Tinha que haver mais.
— E também — continuou Heimdall —, Thrym disse... sim, os exércitos do gigante só vão se juntar à invasão depois do casamento. Ele avisou aos outros exércitos que seria grosseria começar a guerra sem ele. Eu... acho que os gigantes não têm medo de Thrym, mas, pelo que estou entendendo, morrem de medo da irmã dele.
Eu me lembrei do sonho: a voz rouca da giganta que derrubou meu pote de picles do balcão do bar.
— Heimdall, você consegue ver Thrym? O que ele está fazendo? — perguntei.
O deus apertou os olhos e procurou mais atentamente.
— Sim, ali está ele, no limite da minha visão, embaixo de quase um quilômetro e meio de pedra. Sentado naquela fortaleza horrível. Por que ele quer morar em uma caverna decorada como um bar, eu não faço ideia. Ah, ele é tão feio! Tenho pena da pessoa que se casar com ele.
— Que ótimo — murmurou Sam. — O que ele está fazendo?
— Bebendo. Agora está arrotando. Agora está bebendo de novo. A irmã dele, Thrynga... ah, a voz dela é como remos raspando gelo! Ela está brigando com ele por ser um tolo. Está dizendo alguma coisa sobre esse casamento ser a ideia mais idiota que ele já teve e que deviam matar a noiva assim que ela chegar!
Heimdall fez uma pausa, talvez lembrando que Samirah era a pobre garota em questão.
— Hã... sinto muito. Mas, como pensei, não vejo o martelo em lugar nenhum. Isso não é surpresa. Esses gigantes da terra, eles conseguem enterrar coisas...
— Vou tentar adivinhar — falei. — Na terra?
— Exatamente! — Heimdall pareceu impressionado com meu conhecimento sobre gigantes da terra. — Eles conseguem recuperar esses objetos só os chamando de volta para sua mão. Imagino que Thrym vá esperar até depois do casamento. Quando tiver a noiva e o dote, vai recuperar o martelo... isso se quiser cumprir a parte dele do acordo.
Amir pareceu mais enjoado do que me senti a bordo do jatinho.
— Sam, você não pode fazer isso! É perigoso demais!
— Eu não vou fazer. — Ela fechou as mãos com força. — Lorde Heimdall, você é o guardião do matrimônio sagrado, não é? As antigas histórias dizem que você viajava entre a humanidade aconselhando casais, abençoando os filhos deles e criando as várias classes da sociedade viking.
— Eu? — Heimdall olhou para o tablet, como se estivesse tentado a pesquisar essa informação. — Hã, quer dizer, sim. Claro!
— Então ouça meu voto sagrado — disse Sam. — Eu juro pela Bifrost e pelos nove mundos que nunca vou me casar com ninguém que não seja este homem, Amir Fadlan. — (Felizmente, ela apontou na direção correta e não me envolveu. Senão as coisas poderiam ter ficado constrangedoras.) — Eu não vou nem cogitar a ideia de me casar com esse gigante, Thrym. Não vai acontecer.
Alex Fierro se levantou, com a testa franzida.
— Hã... Sam?
Achei que Alex estava pensando a mesma coisa que eu: se Loki conseguisse controlar as ações de Sam, ela talvez não cumprisse aquela promessa.
Sam lançou um olhar de advertência para Alex. Supreendentemente, ele ficou calado.
— Eu fiz minha promessa — anunciou Sam. — Inshallah, vou cumprir o que prometi e me casarei com Amir Fadlan de acordo com os ensinamentos do Corão e do profeta Maomé, que a paz esteja com ele.
Eu me perguntei se a ponte Bifrost desabaria sob o juramento muçulmano sagrado que Sam estava fazendo, mas nada mudou, com exceção de Amir, que parecia ter sido acertado entre os olhos com um tablet.
— Que a p-paz esteja com ele — gaguejou ele.
Heimdall fungou.
— Isso foi tão fofo. — Uma lágrima branca como seiva escorreu pela bochecha dele. — Espero que vocês, adolescentes malucos, consigam realizar isso. Espero mesmo. Eu queria... — Ele inclinou a cabeça e prestou atenção aos murmúrios distantes do universo. — Não, não estou na lista de convidados do seu casamento com Thrym, que droga.
Sam olhou para mim como quem diz: Esses últimos minutos foram só minha imaginação, ou o quê?
— Lorde Heimdall, você quer dizer... o casamento que eu acabei de jurar que não vou levar adiante?
— É — confirmou ele. — Tenho certeza de que vai ser lindo, mas essa sua futura cunhada, Thrynga, está falando sem parar: “Nenhum aesir, nenhum vanir.” Parece que eles montaram algum tipo de segurança de primeira para revistar os convidados.
— Eles não querem que Thor entre — supôs Alex — e recupere seu martelo.
— Isso faz sentido. — Heimdall manteve o olhar no horizonte. — A questão é que esse bar-fortaleza subterrâneo... Eu já vi como funciona. Só tem uma entrada, e ela fica mudando de lugar, se abrindo em um ponto diferente a cada dia. Às vezes, é atrás de uma cachoeira, ou em uma caverna de Midgard, ou debaixo das raízes de uma árvore. Mesmo que Thor quisesse planejar um ataque, ele não teria ideia de por onde começar. Não vejo como vocês podem planejar uma emboscada para recuperar o martelo. — Ele franziu a testa. — Thrym e Thrynga ainda estão falando da lista de convidados. Apenas familiares e gigantes estão convidados e... Quem é Randolph?
Senti como se alguém tivesse aumentado o termostato da Bifrost. Meu rosto formigou, como se uma marca de queimadura em formato de mão estivesse se formando na minha bochecha.
— Randolph é meu tio — falei. — Você consegue vê-lo?
Heimdall balançou a cabeça.
— Não em Jötunheim, mas Thrym e Thrynga estão muito irritados por ele estar na lista. Thrym está dizendo: “Loki insiste.” Thrynga está jogando garrafas. — Heimdall fez uma careta. — Desculpe, tive que desviar os olhos. Sem a câmera, tudo parece tão 3D!
Amir me observou com preocupação.
— Magnus, seu tio está envolvido?
Eu não queria falar sobre aquele assunto. A cena do dólmen dos zumbis ficava se repetindo na minha mente: Randolph chorando enquanto enfiava a espada Skofnung na barriga de Blitzen.
Felizmente, Alex Fierro mudou de assunto.
— Ei, lorde Selfie — disse ele —, e o assassino de bodes? É ele que precisamos encontrar agora.
— Ah, sim. — Heimdall levantou a lâmina da espada acima dos olhos como uma aba de boné e quase me decapitou no processo. — Vocês disseram uma figura de roupas negras, com elmo de metal e viseira de lobo rosnando?
— Ele mesmo — respondi.
— Não estou vendo. Mas tem uma coisa estranha. Sei que falei que não usaria a câmera, mas... ah, não sei como descrever isso. — Ele levantou o tablet e tirou uma foto. — Olhem.
Nós quatro nos reunimos em torno da tela.
Foi difícil avaliar a escala, pois a foto fora tirada do espaço interdimensional, mas no alto de um penhasco havia uma construção enorme com a aparência de um armazém. No telhado havia letras enormes de néon, quase tão chamativas quando a placa do Citgo: PISTAS DE BOLICHE UTGARD.
Atrás disso, ainda maior e mais impressionante, havia um Godzilla inflável enorme, como os bonecos de um parque de diversões. O Godzilla trazia nas mãos um cartaz que dizia:

E AÍ, MAGNUS? VENHA ME VISITAR!
TENHO INFORMAÇÕES P/ VC. TRAGA SEUS AMIGOS!
ÚNICO JEITO DE VENCER THRYM + JOGAR BOLICHE.
ABS BIG BOY

Soltei alguns palavrões em norueguês. Fiquei tentado a jogar o tablet do Fim do Mundo da ponte Bifrost.
— Big Boy — falei, por fim. — Eu devia ter imaginado.
— Isso é ruim — murmurou Sam. — Ele disse que um dia você ia precisar da ajuda dele. Mas se ele é nossa única esperança, estamos ferrados.
— Por quê? — perguntou Amir.
— É — concordou Alex. — Quem é esse Big Boy que se comunica por Godzillas infláveis?
— Eu sei responder essa! — disse Heimdall com alegria. — Ele é o gigante feiticeiro mais perigoso e poderoso de todos os tempos! Seu verdadeiro nome é Utgard-Loki.

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