16 de outubro de 2016

Treze - Relaxe, é só uma profeciazinha de morte

COMO PREVISTO, ASSIM que Jacques virou pingente eu desmaiei por doze horas.
De manhã, acordei com braços e pernas doloridos, sentindo como se tivesse passado a noite voando com um einherji pendurado no meu tornozelo.
Alex Fierro estranhamente não apareceu para o café, embora T.J. tenha garantido que colocou um bilhete embaixo da porta dela explicando onde ficava o salão do andar dezenove.
— Ela ainda deve estar dormindo — disse T.J. — O primeiro dia foi bem intenso.
— A não ser que ela seja aquele mosquito ali — Mestiço apontou para um inseto pousado no saleiro.
— É você, Fierro?
O mosquito não respondeu.
Meus amigos prometeram ficar alertas, prontos para fazer o que fosse necessário para impedir Loki de realizar o casamento em cinco (agora quatro) dias.
— Vamos ficar de olho em Fierro também — prometeu Mallory, olhando de cara feia para o mosquito.
Só tive tempo de engolir um bagel, e Sam chegou logo em seguida e me levou até o estábulo acima da sala de exercícios do 422º andar.
Sempre que Sam dizia “Vamos voar”, eu não conseguia ter certeza do que ela queria dizer.
As valquírias eram perfeitamente capazes de voar sozinhas. Eram fortes o bastante para carregar pelo menos mais uma pessoa, então ela talvez pretendesse me colocar em uma mala grande e me transportar até Cape Cod.
Ou talvez ela quisesse dizer voar no sentido de vamos despencar de um penhasco e morrer. Nós passávamos muito tempo fazendo isso.
Hoje, ela quis dizer cavalgar em um cavalo voador. Eu não sabia bem por que as valquírias tinham cavalos voadores. Provavelmente porque eles eram incríveis. Além do mais, ninguém queria ir para a batalha montado em um lindwyrm, sacudindo e pulando como um caubói montado em um peru-cobra. Sam cavalgava em um garanhão branco. Ela subiu nas costas dele e me puxou para a garupa, e galopamos pelo portão do estábulo direto para os céus acima de Boston.
Ela estava certa sobre o frio. Não me incomodou, mas o vento estava forte, e o hijab de Sam ficava batendo na minha boca. Como os hijabs representavam simplicidade e devoção, eu duvidava que Sam quisesse que o dela parecesse ter sido mastigado por mim.
— Quanto falta? — perguntei.
Ela olhou para trás. O hematoma no olho tinha sumido, mas ela ainda parecia distraída e exausta. Eu me perguntei se havia dormido.
— Não muito — disse ela. — Se segure.
Eu já tinha voado com Sam por vezes o suficiente para levar o aviso a sério. Apertei os joelhos nos flancos do cavalo e passei os braços na cintura de Sam. Quando mergulhamos pelas nuvens, talvez eu tenha gritado “Meinfretr!”.
Minha bunda ficou sem peso na sela. Para sua informação, não gosto de ficar com a bunda sem peso. Eu me perguntei se Sam pilotava o avião assim e, em caso positivo, quantos instrutores de voo tiveram parada cardíaca por causa disso.
Nós cortamos as nuvens. Na nossa frente, Cape Cod se projetava no horizonte – um parêntese verde e dourado em um mar azul. Diretamente abaixo, a ponta norte da península fazia uma leve curva em torno do porto de Provincetown. Alguns veleiros pontilhavam a baía, mas era cedo demais na primavera para haver muitos visitantes.
Sam parou de descer a cerca de cento e cinquenta metros e voou pela costa, passando por dunas e brejos, depois seguindo o arco da rua Commercial com os chalés de telhas cinza e casinhas pintadas de cores néon. As lojas estavam quase todas fechadas, e as ruas, vazias.
— Só estou observando — explicou Sam.
— Verificando se não tem um exército de gigantes escondido atrás do Estúdio de Tatuagem Mooncusser?
— Nem trolls do mar, nem draugr, nem meu pai, nem...
— Tá, entendi a ideia.
Finalmente, ela fez uma curva para a esquerda e seguiu para uma torre de pedra cinza em uma colina na extremidade da cidade. A estrutura de granito tinha uns setenta e cinco metros e uma ponta no alto que parecia de castelo de conto de fadas. Eu me lembrava vagamente de ter visto aquela torre na minha visita quando criança, mas minha mãe estava mais interessada em fazer caminhadas pelas dunas e praias.
— Que lugar é aquele? — perguntei a Sam.
— Nosso destino. — Um leve sorriso surgiu nos lábios dela. — Na primeira vez que vi, achei que fosse o minarete de uma mesquita. Parece um pouco.
— Mas não é?
Ela riu.
— Não. É um memorial para os peregrinos. Eles atracaram aqui antes de se mudarem para Plymouth. Claro que os muçulmanos estão nos Estados Unidos há muito tempo também. Uma amiga minha da mesquita tem um ancestral, Yusuf ben Ali, que serviu com George Washington na revolução americana. — Ela parou de falar. — Desculpe, você não queria uma aula de história. Mas não viemos aqui por causa da torre. Estamos aqui pelo que tem embaixo dela.
Temi que Sam não estivesse falando da lojinha de presentes.
Nós voamos ao redor do monumento, observando a clareira na base. Do lado de fora da entrada da torre, sentados na pedra de suporte do muro e balançando os pés como se estivessem entediados, estavam minhas duas pessoas favoritas de mundos diferentes.
— Blitz! — gritei. — Hearth!
Hearth era surdo, então gritar o nome dele não adiantava muito, mas Blitzen o cutucou e apontou para nós. Os dois pularam da pedra e acenaram com entusiasmo enquanto nosso cavalo pousava.
— Garoto! — Blitzen correu na minha direção.
Ele poderia ser confundido com o fantasma de um explorador tropical. Da aba do chapéu de safári, uma tela branca o cobria até a altura dos ombros. A tela, eu sabia, era feita para bloquear a luz do sol, que transformava anões em pedra. Ele também colocou luvas de couro para proteger as mãos. Fora isso, estava usando a mesma roupa que vi no sonho: um terno de três peças castanho com gravata-borboleta preta, sapatos de couro de bico fino e um lenço laranja para dar um toque de cor. O traje perfeito para uma excursão até a tumba de um morto-vivo.
Ele me envolveu em um abraço e quase deixou o chapéu cair. Sua colônia tinha cheiro de pétalas de rosas.
— Martelos e bigornas, estou feliz de ver você!
Hearthstone veio correndo também, com um sorriso leve e balançando as palmas das mãos no gesto que significava Viva!. Para Hearth, era o equivalente a gritos histéricos.
Ele estava usando a jaqueta preta de couro e a calça jeans de sempre, com um cachecol de bolinhas amarrado no pescoço. O rosto estava pálido, como de costume, com os olhos perpetuamente tristes e o cabelo platinado espetado, mas ele havia ganhado um pouco de peso nas últimas semanas. Parecia mais saudável, ao menos para os meus padrões humanos. Talvez ele andasse pedindo muita pizza no esconderijo de Mímir.
— Pessoal. — Eu puxei Hearth para um abraço. — Estão exatamente iguais a quando vi vocês no banheiro!
Em retrospecto, não deve ter sido o melhor assunto para puxar uma conversa. Eu me afastei e expliquei o que estava acontecendo: os sonhos estranhos, a realidade ainda mais estranha, Loki na minha cabeça, minha cabeça em um pote de picles, a cabeça de Mímir na banheira etc.
— É — disse Blitzen. — O Capo adora aparecer na banheira. Meu coração quase pulou para fora do peito e do pijama de cota de malha uma noite.
— Eu não precisava dessa imagem — respondi. — Além do mais, temos que conversar sobre comunicação. Vocês desapareceram sem falar nada.
— Ei, garoto, foi ideia dele. — Ele disse isso em linguagem de sinais também, para que Hearth entendesse: o mindinho encostando na testa, depois apontando dois dedos para Hearth. Ideia. Dele. E um H representando o nome de Hearthstone.
Hearth grunhiu de irritação. E respondeu com sinais: Para salvar você, idiota. Conte para Magnus. Ele fez um M representando meu nome, um punho com três dedos sobre o polegar.
Blitzen suspirou.
— O elfo está exagerando, como sempre. Ele me deixou apavorado e me carregou para fora da cidade. Mas já me acalmei agora. Foi só uma profeciazinha de morte!
Sam soltou a mochila dos alforjes do cavalo. Fez um carinho no focinho do animal e apontou para o céu, e nosso amigo garanhão branco saiu voando para as nuvens.
— Blitzen... — Ela se virou. — Você entende que não existe profeciazinha de morte, certo?
— Eu estou bem! — Blitzen deu um sorriso confiante. Através da rede ele parecia um fantasma um pouco mais feliz. — Algumas semanas atrás, Hearth voltou de uma aula particular de runas mágicas com Odin. Estava todo empolgado para ler meu futuro. Então, jogou as runas e... bom, o resultado não foi muito bom.
Não foi muito bom? Hearthstone bateu o pé. Blitzen. Banho de sangue. Não pode ser impedido. Antes de O-S-T-A-R-A.
— Certo — disse Blitzen. — Foi o que ele leu nas runas. Mas...
— O que é Ostara? — perguntei.
— O primeiro dia da primavera — disse Sam. — Que acontece em, hã, quatro dias.
— O mesmo dia do seu suposto casamento.
— Acredite — disse ela com a voz azeda —, não foi ideia minha.
— Então Blitzen deve morrer antes disso? — Meu estômago começou a subir para a garganta. — Banho de sangue que não pode ser impedido?
Hearthstone assentiu com ênfase. Ele não deveria estar aqui.
— Concordo — respondi. — É perigoso demais.
— Pessoal! — Blitzen deu uma risadinha. — Olhem, Hearthstone é novo nessa coisa de leitura do futuro. Pode ter interpretado errado! Banho de sangue poderia ser, na verdade... ganho de sangue. Um ganho de sangue que não pode ser impedido. Seria uma boa profecia!
Hearthstone esticou as mãos, como se fosse estrangular o anão, o que não precisava de tradução.
— Além do mais — disse Blitz —, se tiver uma tumba aqui, vai ser subterrânea. Vocês precisam de um anão!
Hearth começou a fazer uma série de sinais furiosos, mas Samirah se intrometeu.
— Blitz está certo — disse ela, sinalizando a mensagem com uma batida de punhos, com os dois indicadores esticados. Ela tinha ficado boa em linguagem de sinais desde que conhecera Hearthstone. — Talvez no tempo livre entre coletar almas, ser aluna condecorada e pilotar aviões. — Isso é importante demais. Eu não pediria se não fosse. Temos que encontrar o martelo de Thor antes do primeiro dia da primavera, senão mundos inteiros serão destruídos. Ou... eu terei que me casar com um gigante.
Outro jeito, sinalizou Hearth. Deve ter. Nem sabemos se o martelo está aqui.
— Amigo. — Blitz segurou as mãos do elfo, o que foi um pouco fofo, mas também foi grosseiro, porque era o equivalente a colocar uma mordaça na boca de Hearth. — Sei que você está preocupado, mas vai ficar tudo bem.
Blitz se virou para mim.
— Além disso, por mais que eu ame esse elfo, estou ficando maluco naquele esconderijo. Prefiro morrer aqui, sendo útil para os meus amigos, a ficar vendo TV e comendo pizza e esperando que a cabeça de Mímir apareça na banheira. Além disso, Hearthstone ronca de um jeito que você não acreditaria.
Hearth puxou as mãos. Você não está sinalizando, mas eu sei ler lábios, lembra?
Hearth — disse Sam. — Por favor.
Sam e Hearth se encararam com tanta intensidade que consegui sentir cristais de gelo se formando no ar. Eu nunca tinha visto aqueles dois discordando tanto, e não queria me meter. Fiquei tentado a chamar Jacques e pedir para ele cantar uma música da Beyoncé só para eles poderem ter um inimigo em comum.
Finalmente, Hearthstone sinalizou: Se alguma coisa acontecer com ele...
Eu assumo a responsabilidade, disse Sam apenas com os lábios.
— Eu também sei ler lábios — disse Blitzen. — E posso assumir a responsabilidade por mim mesmo.
— Ele esfregou as mãos com ansiedade. — Agora, vamos encontrar a entrada desse dólmen, hein? Faz meses que não desenterro uma força morta-viva do mal!


12 comentários:

  1. Blitz e Heart ��

    Os personagens dessa saga são muito autênticos. Difícil escolher um preferido

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    1. Pode crê!!!Ainda não tinha lido(ou visto) uma serie tão diversificada assim, que faz os {defeitos} qualidades!!!

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  2. AWWWWNNN😍😍😍😍
    (PELO MENOS UM NEH)

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  3. "por mais que eu ame esse elfo"
    Meu coração parou aí. Amo esses dois.

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    1. Meu core também deu uma parada nessa parte ai.

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    2. Esse segundo livro esta me matando e meuto bom o Riordan tem talento

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    3. Karina eu te amo vc publica todos os,livros que eu quero

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  4. Gente, eu shippo demais <3 Heart e Blitzen*---*

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