16 de outubro de 2016

Três - Meus amigos decidem não me contar nada para minha própria proteção. Valeu, gente

NO CAFÉ, SAM estava de pé junto ao corpo de Otis.
Os outros clientes entravam e saíam do Thinking Cup, evitando se aproximar do bode morto. Ninguém parecia assustado. Talvez vissem Otis como um sem-teto desmaiado. Alguns dos meus melhores amigos eram sem-teto desmaiados. Eu sabia bem como isso podia afastar as pessoas.
Sam franziu a testa. Sob o olho esquerdo dela havia um hematoma alaranjado recém-formado.
— Por que nosso informante está morto?
— Longa história — falei. — Quem bateu em você?
— Também é uma longa história.
— Sam...
Ela desconsiderou minha preocupação com um gesto.
— Eu estou bem. Só me diga que não foi você que matou Otis apenas porque ele comeu meu bolinho.
— Não. Agora, se ele tivesse comido o meu bolinho...
— Ha, ha. O que aconteceu?
Eu ainda estava preocupado com o olho de Sam, mas me esforcei para explicar sobre o assassino de bodes. Enquanto isso, a forma de Otis começou a se dissolver e a derreter em espirais de vapor branco, como gelo-seco. Em pouco tempo, não havia nada além do sobretudo, dos óculos escuros, do chapéu e do machado que o matou.
Sam pegou a arma no chão. A lâmina do machado não era maior do que um celular, mas parecia afiada. O metal escuro tinha entalhes de runas pretas como fuligem.
— Ferro forjado por gigantes — disse Sam. — Encantado. Bem balanceado. Não é o tipo de arma que alguém deixaria para trás.
— Legal. Eu odiaria que Otis fosse morto com uma arma vagabunda.
Sam me ignorou. Ela já estava virando profissional nisso.
— Você disse que o assassino usava um elmo de lobo?
— O que reduz nossas opções a metade dos vilões dos nove mundos. — Eu indiquei o casaco vazio de Otis. — Para onde ele foi?
— Otis? Ele vai ficar bem. Criaturas mágicas são formadas da névoa de Ginnungagap. Quando morrem, os corpos se dissolvem em névoa. Otis deve se recompor em algum lugar perto de seu mestre, com sorte a tempo de Thor matá-lo de novo para o jantar.
Achei isso uma coisa bem esquisita de se desejar, mas não mais esquisita do que a manhã que eu tivera. Antes que minhas pernas cedessem, eu me sentei à mesa. Tomei um gole do café agora frio.
— O assassino de bodes sabe que o martelo está desaparecido — falei. — Ele me disse que, se fôssemos para Provincetown, estaríamos fazendo o que nosso inimigo quer. Você acha que ele quis dizer...
— Loki? — Sam se sentou à minha frente. Ela largou o machado na mesa. — Tenho certeza de que ele está envolvido. Ele sempre está.
Eu não podia culpá-la por soar amarga. Sam não gostava de falar sobre o deus da mentira e da trapaça. Além de ele ser mau, era o pai dela.
— Você teve notícias dele recentemente? — perguntei.
— Só alguns sonhos. — Sam girou o copo de café para um lado e depois para o outro, como se fosse o botão de um cofre. — Sussurros, avisos. Ele anda interessado em... Deixa pra lá. Nada.
— Não me parece ser nada.
O olhar de Sam ficou intenso e ardente, como lenha em uma lareira logo antes de pegar fogo.
— Meu pai está tentando destruir minha vida pessoal. Isso não é novidade. Ele quer me distrair. Meus avós, Amir... — A voz dela falhou. — Não é nada com que eu não possa lidar sozinha. Não tem nada a ver com nosso problema com o martelo.
— Tem certeza?
A expressão dela me dizia para mudar de assunto. No passado, se eu a pressionasse demais, Sam me jogaria em uma parede e apertaria minha garganta com o antebraço. O fato de que ela ainda não tinha tentado me enforcar até eu ficar inconsciente era sinal de quanto nossa amizade havia evoluído.
— Loki não pode ser o assassino de bodes — concluiu ela. — Ele não conseguiria empunhar um machado assim.
— Por quê? Sei que tecnicamente ele está acorrentado na prisão de segurança máxima de Asgard por assassinato ou algo do tipo, mas ele não parece ter dificuldade alguma para falar comigo quando tem vontade.
— Meu pai consegue projetar sua imagem ou aparecer em sonhos. Com muita concentração, ele até consegue enviar poder suficiente para assumir uma forma física por tempo limitado.
— Como quando ele conheceu sua mãe.
Sam mais uma vez demonstrou todo o carinho que sentia por mim ao não me socar até meu cérebro espirrar para todo lado. Grandes provas de amizade estavam ocorrendo no Thinking Cup.
— Sim — disse ela. — Ele pode contornar o aprisionamento, mas não consegue se manifestar de forma sólida o suficiente para portar armas mágicas. Os deuses cuidaram para que fosse assim quando colocaram um feitiço nas amarras. Se ele pudesse pegar uma lâmina encantada, acabaria se libertando.
Achei que fazia sentido, do jeito absurdo dos mitos nórdicos. Imaginei Loki em uma caverna com as mãos e os pés atados com amarras feitas dos – ugh, mal conseguia pensar nisso – intestinos dos próprios filhos assassinados. Os deuses tinham feito isso. Também tinham supostamente colocado uma cobra acima da cabeça de Loki para que ficasse pingando veneno na cara dele por toda a eternidade. A justiça asgardiana não era muito misericordiosa.
— O assassino de bodes podia estar trabalhando para Loki — falei. — Quem sabe um gigante. Ou...
— Ele pode ser qualquer um — interrompeu Sam. — Pela forma como você o descreveu, como ele lutava e se movia, parece um einherji. Talvez até uma valquíria.
Senti um aperto no estômago. Eu o imaginei rolando pela calçada até o chapéu de Otis.
— Alguém de Valhala. Mas por quê...?
— Não sei. Seja lá quem for, ele ou ela não quer que a gente siga a pista de Otis. Mas acho que não temos escolha. Precisamos agir rápido.
— Por que a pressa? O martelo de Thor está desaparecido há meses. Os gigantes ainda nem atacaram.
Alguma coisa nos olhos de Sam me lembrou as redes de Ran, a deusa do mar, o jeito como se agitavam nas ondas, despertando os espíritos dos afogados. Não foi uma lembrança feliz.
— Magnus, os eventos estão aumentando. Minhas últimas missões em Jötunheim... os gigantes estão
inquietos. Eles conjuraram glamoures enormes para esconder o que quer que estejam tramando, mas tenho quase certeza de que estão formando um exército. Eles estão se preparando para invadir.
— Invadir... que mundo?
Uma brisa fez o hijab voar ao redor do rosto de Sam.
— Este mundo, Magnus. E se eles vierem destruir Midgard...
Apesar do clima quente, senti um arrepio percorrer minha espinha. Sam tinha explicado que Boston ficava no centro da Yggdrasill, a Árvore do Mundo. Era o lugar mais fácil para viajar entre os nove mundos. Imaginei as sombras dos gigantes se estendendo pela rua Newbury, o chão tremendo sob botas com detalhes em ferro do tamanho de carros blindados.
— A única coisa que os impede — disse Sam — é o medo que têm de Thor. É assim há séculos. Eles não vão começar uma invasão em larga escala se não tiverem certeza absoluta de que Thor está vulnerável. Mas os gigantes estão ficando ousados. Começaram a desconfiar que o momento é favorável...
— Thor é só um deus — falei. — E Odin? Tyr? Ou meu pai, Frey? Eles não podem lutar contra os gigantes?
Assim que disse isso, a ideia me pareceu ridícula. Odin era imprevisível. Quando aparecia, ficava mais interessado em dar palestras motivacionais com apresentações de PowerPoint do que em lutar. Eu nem conhecia Tyr, o deus da coragem e do combate. Quanto a Frey... meu pai era o deus do verão e da fertilidade. Se você queria que flores desabrochassem, plantações vingassem ou um corte de papel fosse curado, ele era o deus ideal. Afastar as hordas de Jötunheim? Talvez não.
— Nós temos que impedir a invasão dos gigantes antes que ela aconteça — disse Sam. — O que quer dizer encontrar Mjölnir. Tem certeza de que Otis disse Provincetown?
— Tenho. O dólmen de um draugr. Isso é ruim?
— Em uma escala de um a dez, está perto do vinte. Vamos precisar de Hearthstone e Blitzen.
Apesar das circunstâncias, a possibilidade de ver meus velhos amigos me animou.
— Você sabe onde eles estão?
Sam hesitou.
— Sei como entrar em contato com eles. Os dois estão em um dos esconderijos de Mímir.
Tentei digerir a informação. Mímir – a cabeça decapitada de um deus que trocava goles do Poço da Sabedoria por anos de servidão, que mandara Hearth e Blitz ficarem de olho em mim quando eu era um sem-teto porque eu era “importante para o destino dos mundos”, que tinha uma rede de caça-níqueis entre os nove mundos e outros empreendimentos duvidosos – tinha uma grande variedade de esconderijos. Eu me perguntei o que ele exigira dos meus amigos como aluguel.
— Por que Blitz e Hearth estão escondidos?
— Eu devia deixar que eles explicassem — disse Sam. — Eles não queriam deixar você preocupado.
Isso era tão sem graça que eu até ri.
— Meus amigos desapareceram sem dizer nada porque não queriam me deixar preocupado?
— Olha, Magnus, você precisava de tempo para treinar, para se adaptar a Valhala e se acostumar a seus novos poderes. Hearthstone e Blitzen tiveram um mau presságio nas runas. Eles estão tomando precauções, ficando fora de cena. Mas, para essa missão...
— Mau presságio. Sam, o assassino disse que eu devia estar preparado para perder meus amigos.
— Eu sei. — Ela pegou o café, e seus dedos estavam tremendo. — Nós vamos tomar cuidado, Magnus. Mas, para o dólmen de um draugr... magia de runas e experiência em ambientes subterrâneos podem fazer toda a diferença. Nós vamos precisar de Hearth e Blitz. Vou fazer contato com eles esta tarde. E, depois, prometo que vou lhe contar tudo.
— Tem mais?
De repente, tive a sensação de que nas últimas seis semanas eu estivera sentado à mesa das crianças na Ceia de Natal. Perdi todas as conversas importantes entre os adultos. Eu não gostava da mesa das crianças.
— Sam, você não precisa me proteger — falei. — Eu já estou morto. Sou um maldito guerreiro de Odin que mora em Valhala. Quero ajudar.
— Você vai ajudar — prometeu ela. — Mas você precisava de tempo para treinar, Magnus. Quando saímos em busca da Espada do Verão, tivemos sorte. Para o que vem agora... vamos precisar de todas as suas habilidades.
O medo na voz dela me fez estremecer.
Eu não considerei que tivemos sorte quando encontramos a Espada do Verão. Chegamos perto de morrer várias vezes. Três de nossos companheiros sacrificaram a vida. Nós quase não conseguimos impedir o lobo Fenrir e um grupo de gigantes do fogo de destruir os nove mundos. Se isso foi sorte, eu não queria descobrir o que era azar.
Sam esticou a mão por cima da mesa. Pegou meu bolinho de laranja e cranberry e deu uma mordida. A cobertura era da mesma cor do olho machucado dela.
— Preciso voltar para a escola. Não posso perder outra aula de física avançada. À tarde, tenho que resolver alguns problemas em casa.
Eu me lembrei do que ela disse sobre Loki tentar estragar sua vida pessoal e daquele tom hesitante quando falou o nome de Amir.
— Posso ajudar em alguma coisa? Quem sabe passar no Falafel do Fadlan e falar com Amir.
— Não! — As bochechas de Sam ficaram vermelhas. — Não, obrigada. Mas não mesmo. Não.
— Já tinha entendido no primeiro “não”.
— Magnus, eu sei que suas intenções são boas. Tem muita coisa acontecendo agora, mas eu consigo resolver sozinha. Vejo você à noite no jantar do... — A expressão dela ficou azeda. — Você sabe, do recém-chegado.
Ela estava falando sobre a alma que tinha ido buscar. Como a valquíria responsável que era, Sam estaria no banquete para apresentar o novo einherji.
Observei o hematoma sob o olho dela e uma ideia surgiu na minha mente.
— A alma que você foi buscar... Foi esse novo einherji que te deu um soco?
Sam fez uma careta.
— É complicado.
Eu já tinha conhecido einherjar violentos, mas nunca um que ousasse atacar uma valquíria. Era suicídio, até para uma pessoa que já estava morta.
— Que tipo de idiota... Espere. Isso teve alguma coisa a ver com aquele uivo de lobo que eu ouvi do outro lado do parque Boston Common?
Os olhos castanhos de Sam ardiam, quase à beira da combustão.
— Você vai saber em breve. — Ela se levantou e pegou o machado do assassino. — Agora, volte para Valhala. Esta noite você vai ter o prazer de conhecer... — Ela fez uma pausa e avaliou as palavras. — Meu irmão.


8 comentários:

  1. Vai da me* a família da Sam é a família mais doida que já vi. Sempre tão querendo se matar véi

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  2. Outro filho de Loki?
    Para um deus que está preso ele anda dando muitas escapulidas kkkkkk

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  3. Interessante, interessantíssimo, quando é que rola uns bjo? Se eu vou ver essa tempestade de merda tenho que ter meu ship. Não vou aguentar outro Percabeth. Me recuso!
    E não, eu não ligo só pra ship. Só parece que sim.

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  4. Loki tem mais filho que Afrodite

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  5. Quando escondem coisas do protagonista, escondem coisas de nó leitores, o que acaba com minha tentativa de ler esse livro em alguns dias e não algumas horas.

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  6. Aparentemente, isso tudo não tem NADA A VER com nenhum grego.
    Não sei se fico aliviada ou murcha por dentro.
    😔

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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