16 de outubro de 2016

Sete - Você já precisou lidar com lindwyrms?

PARTIMOS PARA O combate como uma família feliz.
Bem, exceto pelo fato de que T.J. segurou meu braço e sussurrou:
— Fica de olho nela, tá? Não quero ser atacado pelas costas.
Então eu fiquei na retaguarda com Alex Fierro.
Seguimos para o centro por um campo de cadáveres, os quais veríamos vivos mais tarde, no jantar. Eu poderia ter tirado umas fotos engraçadas, mas não encorajavam celulares com câmera no campo de batalha. Vocês sabem como é. Alguém tira uma foto sua morto em uma posição comprometedora, isso chega no Instagram e você ouve piadinhas durante séculos.
Mestiço e Mallory abriram caminho a golpes de facão por um grupo de berserkir. T.J. deu um tiro na cabeça de Charlie Flannigan. Charlie achava hilário levar tiros na cabeça. Não me perguntem por quê. Desviamos de uma saraivada de bolas de fogo das catapultas nas varandas. Tivemos uma breve batalha de espadas com Big Lou do 401º andar. Ele é um cara legal, mas sempre quer morrer por decapitação. É difícil, considerando que Lou tem quase dois metros e quinze de altura. Ele procura Mestiço Gunderson no campo de batalha porque Mestiço é um dos poucos einherjar altos o bastante para conseguir decapitá-lo.
De algum modo, chegamos ao bosque sem sermos pisoteados por um dragão-serpente. T.J., Mallory e Mestiço dispersaram-se na frente e nos levaram para a sombra das árvores.
Segui com cautela pela vegetação, com o escudo levantado e minha pesada espada padrão de combate na mão esquerda. Ela não tinha o equilíbrio ideal e nem era tão letal quanto Jacques, mas era bem menos tagarela. Alex me acompanhava, aparentemente sem medo de estar de mãos vazias e de ser o alvo mais colorido do grupo.
Depois de um tempo, o silêncio me incomodou.
— Eu já vi você antes — falei para ela. — Você estava no abrigo da juventude na rua Winter?
Ela fungou.
— Eu odiava aquele lugar.
— Eu também. Morei nas ruas por dois anos.
Ela arqueou a sobrancelha, o que fez o olho cor de mel parecer mais pálido e frio.
— Você acha que isso nos torna amigos?
Tudo na postura dela dizia: Se afaste de mim. Pode me odiar, se quiser. Eu não ligo, desde que você me deixe em paz.
Mas sou uma pessoa do contra. Nas ruas, vários sem-teto agiam com agressividade comigo e me repeliam. Eles não confiavam em ninguém. Por que de veriam? Isso só me deixava mais determinado a conhecê-los. Os solitários costumavam ter as melhores histórias. Eram os mais interessantes e os mais sábios na arte da sobrevivência.
Sam al-Abbas deve ter tido algum motivo para levar Alex para Valhala. Eu não deixaria ela se safar só porque tinha olhos surpreendentes, um colete impressionante e uma tendência a agredir as pessoas.
— O que você quis dizer mais cedo? — perguntei. — Quando pediu...
— Para você me chamar de ela? Sou de gênero fluido e transgênero, idiota. Pesquise se precisar, mas não é meu trabalho ensinar...
— Não era disso que eu estava falando.
— Ah, por favor. Eu vi seu queixo caído.
— Ah, é. Talvez por um segundo. Eu fiquei surpreso. Mas... — Eu não sabia como continuar sem parecer ainda mais idiota.
Essa coisa do gênero não foi o que me surpreendeu. Uma porcentagem enorme dos adolescentes sem-teto que eu conheci teve um gênero atribuído ao nascer, mas se identificava com outro, ou sentia que o binário garoto/garota não se aplicava a eles. Eles iam parar na rua porque, pasmem, suas famílias não os aceitavam. Nada mais amoroso do que jogar seu filho não heterossexual na sarjeta para que ele experimente abuso, drogas, altas taxas de suicídio e perigo físico constante. Valeu, mãe e pai!
O que me surpreendeu foi a maneira como reagi a Alex – como minha impressão sobre ela mudou rápido e o tipo de emoção que isso despertou. Eu não sabia se conseguiria colocar isso em palavras sem ficar tão vermelho quanto o cabelo de Mallory Keen.
— O q-que eu estava querendo, dizendo, é que, quando você estava falando com o corvo, mencionou que estava preocupada de alguém te fazer mal. O que exatamente quis dizer com isso?
Alex fez uma careta como se eu tivesse acabado de oferecer um pedação de queijo fedorento para ela.
— Talvez eu tenha exagerado. Não esperava morrer hoje e nem ser recolhida por uma valquíria.
— Foi Sam. Ela é legal.
Alex balançou a cabeça.
— Não tem desculpa. Cheguei aqui e descobri... não importa. Estou morta. Imortal. Nunca vou envelhecer e nunca vou mudar. Achei que isso queria dizer... — A voz dela falhou. — Não importa.
Eu tinha certeza de que importava. Queria perguntar sobre a vida dela em Midgard, por que Alex tinha um átrio a céu aberto como o meu na suíte, por que tanta cerâmica, por que ela colocava a marca de Loki junto das iniciais em seu trabalho. Eu me perguntei se a chegada dela era coincidência... ou se tinha alguma coisa a ver com a marca no rosto do tio Randolph na foto e a necessidade urgente e repentina de encontrar o martelo de Thor.
Por outro lado, eu desconfiava que, se tentasse perguntar a ela sobre tudo isso, Alex viraria um gorila e arrancaria minha cabeça.
Felizmente, fui poupado desse destino quando um lindwyrm pousou na nossa frente.

* * *

O monstro desceu do céu, batendo as asas ridículas e rugindo como um urso-pardo com um amplificador de cem watts. Árvores racharam e caíram sob o peso dele quando parou junto a nós.
— ARGGG! — gritou Mestiço, o que era norueguês antigo para CARAMBA, UM DRAGÃO!, logo antes de o lindwyrm jogá-lo para o alto. A julgar pelo arco, Mestiço Gunderson pararia em algum lugar do andar vinte e nove, o que seria uma surpresa e tanto para quem estivesse relaxando na varanda.
T.J. disparou com o rifle. A fumaça do tiro floresceu inofensiva no peito do dragão. Mallory gritou um palavrão em gaélico e atacou.
lindwyrm a ignorou e se virou para mim.
Eu devo mencionar... lindwyrms são feios. Como se Freddy Krueger e um zumbi de The Walking Dead tivessem um filho, feio assim. O rosto não tem carne nem pele, só uma carapaça de ossos e tendões expostos, dentes brilhantes e olhos escuros e afundados. Quando o monstro abria a bocarra, eu conseguia ver até a garganta cor de carne podre.
Alex se agachou e procurou alguma coisa no cinto.
— Isso não é bom.
— Não brinca. — Minha mão estava tão suada que eu mal conseguia segurar a espada. — Vá para a direita, eu vou para a esquerda. Vamos cercá-lo pelos lados...
— Não, eu quero dizer que não é um dragão qualquer. Este é Grimwolf, uma das antigas serpentes.
Fiquei olhando para as órbitas escuras do monstro. Ele parecia mesmo maior do que a maioria dos lindwyrms com que lutei, mas eu costumava estar ocupado demais morrendo para perguntar a um dragão-serpente qual era sua idade ou seu nome.
— Como você sabe? E por que alguém chamaria um dragão de Grimwolf?
lindwyrm sibilou, enchendo o ar com um aroma de pneus queimados. Aparentemente, ele era sensível em relação ao próprio nome.
Mallory perfurou as pernas do dragão e gritou com mais irritação quando o monstro a ignorou novamente.
— Vocês dois vão ajudar — gritou ela para nós — ou vão ficar aí batendo papo?
T.J. perfurou o dragão-serpente com o rifle. A ponta só quicou nas costelas da criatura. Por ser um bom soldado, T.J. recuou e tentou outra vez.
Alex puxou um tipo de fio dos aros do cinto, um cabo de aço fino como uma linha de pipa, com um pino de madeira em cada ponta.
— Grimwolf é um dos dragões que vivem nas raízes da Yggdrasill. Ele não devia estar aqui. Ninguém seria louco o bastante para... — O rosto dela ficou pálido e a expressão endureceu, como se virasse osso de dragão-serpente. — Ele mandou o lindwyrm por minha causa. Ele sabe que estou aqui.
— Ele quem? — perguntei. — O quê?
— Distraia o dragão — ordenou Alex.
Ela pulou na árvore mais próxima e começou a subir. Mesmo sem virar gorila, ela conseguia se movimentar como um.
Eu suspirei, hesitante.
— Distrair o dragão. Claro.
Grimwolf tentou morder Alex e arrancou vários galhos de árvore. Ela se movia com rapidez, subindo pelo tronco, mas uma ou duas mordidas a mais e ela viraria almoço de lindwyrm. Enquanto isso, Mallory e T.J. ainda atacavam as pernas e a barriga da criatura, mas não estavam tendo sorte em convencer o dragão a comê-los.
É só uma batalha de treino, falei para mim mesmo. Ataque agora, Magnus! Morra como um profissional!
Esse era o objetivo dos combates diários: aprender a lutar contra qualquer inimigo, superar nosso medo da morte – porque no dia do Ragnarök, todos nós precisaríamos de toda a habilidade e a coragem que conseguíssemos reunir.
Então, por que eu hesitei?
Primeiro, porque sou bem melhor em curar do que em lutar. Ah, e em fugir – eu sou muito bom nisso.
Além do mais, é difícil atacar quando se tem certeza de que vai morrer, mesmo sabendo que não vai ser permanente, e especialmente se essa morte envolver uma quantidade grande de dor.
O dragão tentou morder Alex de novo, e por um triz não pegou os tênis cor-de-rosa.
Por mais que eu odiasse morrer, eu odiava ainda mais ver meus companheiros serem mortos. Gritei “FREY!” e parti para cima do lindwyrm.
Para minha sorte, Grimwolf ficou feliz em desviar a atenção para mim. Quando se trata de irritar monstros antigos, eu até tenho certo talento.
Mallory saiu cambaleando do meu caminho e jogou uma das facas na cabeça do dragão. T.J. também recuou, gritando:
— É todo seu, amigão!
No que diz respeito a palavras de encorajamento pré-morte excruciante, essas eram bem ruins. Levantei o escudo e a espada como os instrutores legais ensinaram na aula de viking básico. A boca do dragão se escancarou, revelando várias fileiras extras de dentes, para o caso de a fileira externa não me matar o bastante.
Com o canto do olho, vi Alex se balançando no alto da árvore, um amontoado tenso de rosa e verde, pronto para saltar. Entendi o que ela estava planejando: Alex queria pular no pescoço do dragão. Era um plano tão idiota que me fez sentir melhor em relação à minha morte imbecil.
O dragão atacou. Eu ergui a espada, torcendo para perfurar o palato superior do monstro. Uma dor repentina me cegou. Meu rosto parecia ter sido mergulhado em ácido. Meus joelhos se dobraram, o que deve ter salvado minha vida. O dragão mordeu o ar onde minha cabeça estava um milissegundo antes.
Em algum lugar à minha esquerda, Mallory gritou:
— Levanta, seu idiota!
Tentei piscar e afastar a dor. Só piorou. Minhas narinas se encheram com o fedor de carne queimada. Grimwolf recuperou o equilíbrio, rosnando de irritação.
Dentro da minha cabeça, uma voz familiar disse: Pare de lutar, amigo. Não resista!
Minha visão duplicou. Eu ainda enxergava a floresta, o dragão acima de mim, uma pequena figura vestida de rosa e verde pulando na direção do monstro do alto de uma árvore. Mas tinha outra camada de realidade, uma cena enevoada tentando abrir caminho pelas minhas córneas. Eu me ajoelhei no escritório do tio Randolph, na mansão da família Chase, em Back Bay. De pé ao meu lado estava alguém bem pior do que um lindwyrm: Loki, o deus do mal.
Ele sorriu para mim. Pronto. Não foi tão difícil!
Ao mesmo tempo, o dragão Grimwolf atacou de novo e abriu a bocarra para me devorar inteiro.


13 comentários:

  1. Sabia que ele tava envolvido nisso, até a Sam confirmou antes.

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  2. Sam al-Abbas deve ter tido algum motivo para levar Alex para Valhala. Eu não deixaria ela se safar só porque tinha OLHOS SURPREENDENTES, um colete impressionante e uma tendência a agredir as pessoas.

    Dá uma vontade de dar um tapa forte no Magnus: tipo ele viu vários monstros horrorosos e horripilantes, agora vem uma personagem(vou chamar assim pra não me confundir em garoto/garota) com olhos um pouquinho fora do normal e ele fica chocado. Afffffff, ainda tô meio bolada.
    Mas o melhor pra mim é que eu acho que nessa história eu sou a Alex. Em PJO eu era Annabeth, HO tbm, As Crônicas dos Kane eu esqueci o nome da menina!, e agora sou a Alex. Em cada livro me encaixo em uma característica de um personagem...

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    1. Po, acho que ele tava elogiando Alex, desliga o orgulho heterocromático só um pouquinho

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    2. Relaxa, criatura. Ele ficou chocado com os monstros e as mortes no início, mas não dá pra continuar assim, já que ele vive isso todos os dias. Agora heterocromia é bem rara, acho que eu não ia conseguir tirar os olhos se conhecesse alguém que tem. É um sentimento normal.

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    3. Ele n estranhou ela por ela ter dois olhos diferentes um do outro (como vc). Ele só se viu na garota, algumas características dela tbm são características dele, ele vê isso e n tem problema de lidar com isso. Ele só falou dos olhos dela como uma característica que chama a atenção (PQ chama mesmo, por ser raro de encontrar)

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    4. Não sei se você captou, mas ele tá caidinho por Alex. Pelamordedeus, você acha mesmo que o tio Rick vai escrever algo ruim sobre heterocromia? Miga, os autores usam isso pra deixar o personagem mais legal porque todo mundo sabe que é raro e lindo. Putz, cê acha mesmo que alguém vai ter preconceito contigo por causa dos teus olhos diferentes? O povo te inveja, tu que tá com esse orgulho de heterocromico aí, só tu se ofendeu porque não sabe interpretar textos.

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    5. Não me leve a mal,mas vai me dizer que voce não esta nem um pouco desconfiada??Não só porque a menina tem olhos iguais aos seus que ela é do bem. Affff .Se fosse assim eu seria capaz de controlar o mar e falar com peixes.

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  3. Rick para com essa merda.
    Mal comecei e vc já tá estragando meu ship? Para com isso!

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  4. Rick abraçou totalmente a causa LGBT. Dá até orgulho de ver essa coragem que ele tem em incluir personagens com as mais diversas características em suas histórias, porque muitos pais surtariam e proibiriam seus filhos de ler se soubessem.

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  5. O dragão tentou morder Alex de novo, e por um triz não pegou os tênis cor-de-rosa.
    Por mais que eu odiasse morrer, eu odiava ainda mais ver meus companheiros serem mortos.

    Deuses!É impressão minha,ou ele incluiu a Alex também? ❤

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  6. O que me surpreendeu foi a maneira como reagi a Alex – como minha impressão sobre ela mudou rápido e o tipo de emoção que isso despertou. Eu não sabia se conseguiria colocar isso em palavras sem ficar tão vermelho quanto o cabelo de Mallory Keen.
    CARACA EU SENTI UM CHEIRO DE SHIPP. (Desculpa)

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    1. Kkk. Tbm senti, e tá meio forte. 👿

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    2. Eu n shippo muito o Magnus com a Sam e tal ai chega a Alex e pá to shipando

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