16 de outubro de 2016

Seis - Adoro sopa de doninha

QUINTA-FEIRA ERA o dia dos dragões. O que significava mortes ainda mais dolorosas do que o habitual. Eu teria levado Jacques, mas 1) ele não achava as batalhas de treino dignas de sua presença, e 2) ele tinha um encontro amoroso com uma lança.
Quando T.J. e eu chegamos ao campo de batalha, a luta já havia começado. Exércitos marchavam no pátio interno do hotel, uma zona de matança grande o bastante para ser um país independente com bosques, campinas, rios, colinas e vilarejos falsos. Se estendendo até o céu branco enevoado e fluorescente, o campo era cercado por varandas com grades douradas. Dos andares mais altos, catapultas lançavam projéteis em chamas na direção dos guerreiros como serpentinas mortais.
O som de cornetas ecoou pelas florestas. Nuvens de fumaça subiam de cabanas queimadas. Einherjar correram para o rio, lutando montados em cavalos, rindo enquanto cortavam uns aos outros.
E, como era quinta-feira, doze dragões enormes também se juntaram à matança.
Os einherjar mais velhos os chamavam de lindwyrm, ou dragão-serpente. Se quiserem saber minha opinião, aquilo parecia nome de pomada para alergia. Mas os dragões-serpentes eram do tamanho e do comprimento de caminhões de dezoito rodas. Só tinham duas pernas na frente e asas marrons encouraçadas, como a dos morcegos, mas pequenas demais para voar. Durante quase todo o tempo eles se arrastavam pelo chão, ocasionalmente batendo as asas, pulando para atacar as presas.
De longe, com os corpos marrons, verdes e ocre, eles pareciam um bando furioso de perus-cobra carnívoros. Mas, acreditem: de perto, eles eram assustadores.
O objetivo da batalha de quinta-feira? Ficarmos vivos pelo máximo de tempo possível enquanto os dragões se esforçavam para não permitir isso. (Alerta de spoiler: os dragões sempre venciam.) Mallory e Mestiço nos esperavam na extremidade do campo. Mestiço estava ajustando as tiras na armadura de Mallory.
— Você está fazendo errado — resmungou ela. — Está apertada demais nos ombros.
— Mulher, eu coloco armaduras há séculos.
— Quando? Você sempre entra em batalha com o peito nu.
— Você está reclamando? — perguntou Mestiço.
Mallory ficou vermelha.
— Cala a boca.
— Ah, Magnus e T.J. chegaram! — Mestiço bateu com a mão no meu ombro e deslocou várias das minhas juntas. — O andar dezenove está completo!
Tecnicamente, não era verdade. O andar dezenove tinha quase cem residentes. Mas nosso corredor em particular, nosso bairro dentro do bairro, consistia em nós quatro. E, claro, o mais novo residente...
— Onde está o guepardo? — perguntou T.J.
Como se esperando sua deixa, um corvo mergulhou do céu. Largou um saco de aniagem aos meus pés e pousou ali perto, batendo as asas e grasnando, irritado. O saco de aniagem se moveu. Um animal comprido e magro saiu de dentro: uma doninha marrom e branca.
A doninha sibilou. O corvo grasnou. Eu não falava corvês, mas tinha certeza de que ele estava dizendo: se comporte, senão vou arrancar seus olhos de doninha com o bico.
T.J. apontou o rifle para o animal.
— Sabe, quando o 54º regimento de Massachusetts estava marchando na direção de Darien, na Geórgia, nós atirávamos em doninhas e fazíamos sopa. É gostoso. Vocês acham que eu devia pegar minha antiga receita?
A doninha se transformou. Eu tinha ouvido tanto sobre esse novo recruta ser um monstro que esperava que ele virasse um morto-vivo como a deusa Hel ou então uma versão em miniatura da Serpente do Mundo, Jörmungand. Mas o animal virou um adolescente humano normal, alto e magro, com o cabelo tingido de verde, preto nas raízes, como ervas daninhas arrancadas de um gramado.
O pelo marrom e branco da doninha virou roupas verde e rosa: tênis surrados de cano alto cor-de-rosa, calça skinny de veludo verde-limão, um colete quadriculado rosa e verde por cima de uma camiseta branca e outro suéter rosa de casimira enrolado na cintura como um kilt. A roupa me lembrava um traje de bobo da corte, ou a coloração de um animal venenoso: se mexer comigo, você morre.
O recém-chegado levantou o rosto, e eu prendi a respiração. Era o rosto de Loki, só que mais jovem: o mesmo sorriso torto e as feições angulosas, a mesma beleza sobrenatural, mas sem os lábios marcados e sem as queimaduras de ácido no nariz. E os olhos: um era castanho-escuro, e o outro, mel. Eu tinha esquecido o nome que se dava para íris de cores diferentes. Minha mãe teria chamado de olhos de David Bowie. Eu chamava de perturbadores.
E o mais estranho? Eu tinha certeza de que já tinha visto aquele garoto.
É, eu sei. Vocês estão achando que um garoto assim se destacaria. Como eu podia não lembrar exatamente onde nossos caminhos tinham se cruzado? Mas quando se mora nas ruas, pessoas com aparência excêntrica são normais. Só as pessoas normais parecem estranhas.
O garoto abriu um sorriso perfeito para T.J., apesar de não alcançar seus olhos.
— Aponte esse rifle para outro lugar, senão vou enrolar essa coisa no seu pescoço como uma gravata-borboleta.
Alguma coisa me dizia que aquela não era uma ameaça vazia. O garoto podia mesmo saber amarrar uma gravata-borboleta, o que era um conhecimento ancestral assustador.
T.J. riu. E baixou o rifle.
— Nós não tivemos oportunidade de nos apresentar mais cedo, quando você estava tentando nos matar. Sou Thomas Jefferson Jr., e estes são Mallory Keen, Mestiço Gunderson e Magnus Chase.
O recém-chegado só olhou para nós. Finalmente, o corvo deu um berro irritado.
— Tá, tá — disse o garoto para o pássaro. — Como falei, estou bem agora. Vocês não me fizeram mal algum, então está tudo bem.
Caw!
O garoto suspirou.
— Tudo bem, eu vou me apresentar. Sou Alex Fierro. É um prazer conhecer vocês, acho. Sr. Corvo, pode ir. Prometo não matar ninguém sem necessidade.
O corvo eriçou as penas. Ele me olhou com uma cara feia, como quem diz o problema agora é seu, amigão. E saiu voando.
Mestiço sorriu.
— Ótimo! Agora que você prometeu não nos matar, vamos começar a matar outras pessoas!
Mallory cruzou os braços.
— Ele nem tem uma arma.
— Ela — corrigiu Alex.
— Como? — perguntou Mallory.
— Me chame de ela, a não ser que eu diga o contrário.
— Mas...
— Ela, então! — intercedeu T.J., massageando o pescoço como se ainda estivesse preocupado em ganhar uma gravata-borboleta de rifle. — Vamos à batalha!
Alex ficou de pé.
Admito que fiquei encarando. De repente, minha perspectiva foi virada do avesso, que nem quando a gente olha para uma mancha de tinta e vê só a parte preta. Aí, seu cérebro inverte a imagem e você percebe que a parte branca forma uma imagem completamente diferente, apesar de nada ter mudado.
Assim era Alex Fierro, só que em rosa e verde. Um segundo antes, ele era claramente um garoto aos meus olhos. Agora, ela era obviamente uma garota.
— O quê? — perguntou ela.
— Nada — menti.
Acima de nós, mais corvos começaram a circular, grasnando de forma acusatória.
— É melhor a gente ir — disse Mestiço. — Os corvos não gostam de quem fica enrolando no campo de batalha.
Mallory pegou suas facas e se virou para Alex.
— Venha com a gente, querida. Queremos ver o que você sabe fazer.


16 comentários:

  1. Acho que essa Alex vai fazer alguma merda muito grande, mas meio que gostei dela e.e

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  2. E os olhos: um era castanho-escuro, e o outro, mel. Eu tinha esquecido o nome que se dava para íris de cores diferentes. Minha mãe teria chamado de olhos de David Bowie. Eu chamava de perturbadores.

    Uou, para aí agora. Primeiro: eu tô começando a gostar dessa Alex, quem quer que seja porque não sei se ele falou dela antes.
    Segundo: o nome que se dá para íris de cores diferentes é cientificamente HETEROCROMIA COMPLETA, popularmente chamada de olho de gato, pois é comum em gatos cachorros e cavalos.
    Terceiro: Eu tenho heterocromia completa.
    Quarto: Agora tô muito bolada com o Magnus.
    Quinto: Eu tenho um olho verde folha e outro castanho claro, por isso adorei a nova personagem.
    Sexto: Se ele não ficar com ela, quem vai ser o amor dele, porque se entrar mais personagem vai ficar lotado tudo isso.
    Sétimo: Tô muitoooooooooooooo bolada da vida com o Magnus e principalmente o Tio Rick.
    Oitavo: Mas tô feliz porque ele incluiu minha anomalia ocular no livro!!!
    Nono: Finalmente acabou e não tem décimo.
    Décimo: Mentira, eu não resisti kkkkkkkkkkkkkk.

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    1. Espere um pouco...ele não é ele, ele é ela...ou ela é ele? Error 404

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    2. Eu quero q ele fique com a Sam kkkkkk mas admito que seria legal ter um namorado q se transforma em garota ou em animais, se vc for bi tá com a vida completa. Se vc tiver afim de cometer zoofilia melhor ainda jsjs

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    3. Particularmente eu queria que ele ficasse com a Sam,sério,no primeiro livro quando eu descobri que ela estava noiva eu quis matar o tio Rick.

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  3. Geeeeentee!!!! o boy não é boy! e Mellory ta se roendo de ciúmes. Esse tio Rick não presta kkkkkkkkjkk

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  4. Geeeeentee!!!! o boy não é boy! e Mellory ta se roendo de ciúmes. Esse tio Rick não presta kkkkkkkkjkk

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  5. Buguei
    Se a Alex virar Justin Bieber encorporando a Nicki Minaj dando uma de Madonna, eu vou assaltar uma farmácia

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  6. Gente, pera, não, stop, o quê? Os filhos de Loki são tão...peculiares.

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  7. Tipo ele/ela não é só transmorfo é uma transgênero também, além de ter heterocromia... nooooosssssaaaaaaaa se alguém queria uma personagem diferente voalá, Tio Rick e suas invenções.

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  8. Adorei a Alex. desde o momento em que Magnus a descreveu eu já a amei.
    Imaginei que ela era trans no momento em que descreveu seu quarto e falou que ela tinha saias e vestidos e tals.

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  9. Alex (também) é genderfluid. Ela/Ele muda de acordo com a vontade e de como está se sentindo.

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  10. Nossa. Tipo, eu gostei mais ou menos do/da Alex. Eu ainda acho q ela/ele vai fazer uma besteira...

    Maria Luiza

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  11. Alex,Alex,Alex...

    Horaa do Magnus dar uns beijinhos,e não em Jackie sei-lá-o-que.

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  12. Felipe Govatski Morozov19 de novembro de 2016 04:57

    Explicando: na mitologia nórdica, Loki tinha o poder de mudar não só sua aparência como também seu sexo quando se apaixonava, é como o cavalo do 1 livro nasceu lembta? ele se transformou numa fêmea

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