16 de outubro de 2016

Quinze - Todos a favor do massacre de Magnus digam sim

NINGUÉM ESPERA TER uma conversa civilizada com um zumbi.
Achei que o rei Múmia ia dizer ROOARRRR!. Ou, no máximo, MIOLOS!. Depois, naturalmente, tentaria nos matar.
Eu não estava preparado para:
— Obrigado, mortais! Tenho uma dívida com vocês!
Ele saiu do caixão, um pouco oscilante, já que era um cadáver esquelético cuja armadura devia pesar bem mais do que ele, e fez uma dancinha da vitória.
— Passei mil anos naquela caixa idiota, mas agora estou livre! HA, HA, HA, HA, HA!
Às suas costas, o interior da tampa do caixão tinha centenas de marcas, feitas para contar a passagem dos anos. Mas não havia sinal do martelo de Thor, o que queria dizer que o zumbi fora trancado ali sem um jeito decente de acessar a Netflix.
Jacques tremeu de empolgação.
— Olha só aquela espada! Ela é tão linda!
Eu não fazia ideia de como ele sabia que a espada era fêmea, muito menos como ele sabia que ela era linda. E não sabia se queria respostas para essas perguntas.
Sam, Blitz e Hearth se afastaram do zumbi. A ponta de Jacques flutuou na direção da espada-fêmea, mas eu o empurrei para o chão e me apoiei nele. Não queria ofender o sr. Zumbi nem a espada dele com liberdades demais.
— Hã, oi — falei para o zumbi. — Sou Magnus.
— Você tem um brilho dourado lindo!
— Obrigado. E como é que você está entendendo o que estou dizendo?
— Não sei. — O rei inclinou a cabeça demoníaca. Havia filetes brancos pendurados no queixo dele, talvez teias de aranha ou os restos de uma barba. Os olhos eram verdes, brilhantes e totalmente humanos. — Talvez seja magia. Talvez estejamos nos comunicando em um nível espiritual. Seja qual for o caso, obrigado por me libertar. Sou Gellir, príncipe dos dinamarqueses!
Blitzen espiou por trás de mim.
— Gellir? Rio de Sangue é seu apelido?
A gargalhada de Gellir soou como um chocalho cheio de areia molhada.
— Não, meu amigo anão. Rio de Sangue é um kenning que conquistei por causa da minha lâmina, a espada Skofnung.
Clank, clank.
Hearth recuou e caiu em cima da tampa do caixão. Ele ficou naquela posição de siri, com os olhos arregalados.
— Ah! — disse Gellir. — Vejo que seu elfo ouviu falar da minha espada.
Jacques tremeu sob meu cotovelo.
— Ei, senhor? Eu também ouvi falar dela. Ela é... uau. Ela é famosa.
— Espere — disse Sam. — Príncipe Gellir, por acaso tem um... um martelo por aqui, em algum lugar? Ouvimos falar que você talvez tivesse um martelo.
O zumbi franziu a testa, o que fez com que linhas se abrissem no rosto coriáceo.
— Martelo? Não. Por que eu ia querer um martelo se sou o Senhor da Espada?
Os olhos de Sam ficaram sombrios, ou talvez fosse meu brilho começando a desvanecer.
— Tem certeza? — perguntei. — Quer dizer, Senhor da Espada é legal, mas você também podia ser, sei lá, Donzelo do Martelo.
Gellir manteve o olhar grudado em Sam. Sua testa se franziu ainda mais.
— Um momento. Você é uma mulher?
— Hã... sim, príncipe Gellir. Meu nome é Samirah al-Abbas.
— Nós a chamamos de Gingado do Machado — falei.
— Eu vou bater em você — sussurrou Sam para mim.
— Uma mulher. — Gellir esfregou o queixo e arrancou parte dos bigodes de teia de aranha. — Que pena. Não posso desembainhar minha espada na presença de uma mulher.
— Ah, que saco — disse Jacques. — Eu quero conhecer Skoff!
Hearthstone se levantou. Ele sinalizou: Vamos embora. Agora. Não deixar o zumbi empunhar a espada.
— O que seu elfo está fazendo? — perguntou Gellir. — Por que faz esses gestos estranhos?
— É linguagem de sinais — respondi. — Ele, hã, não quer que você empunhe a espada. Disse que devíamos ir embora.
— Mas não posso permitir isso! Preciso demonstrar minha gratidão! Além disso, preciso matar vocês!
Meu brilho estava definitivamente sumindo agora. Quando Jacques falou, suas runas banharam a tumba com uma luz vermelha ameaçadora.
— Ei, sr. Zumbi? Gratidão significa mandar um cartão legal, e não desejar matar a gente.
— Ah, eu estou muito grato! — protestou Gellir. — Mas também sou um draugr, o draugr chefe deste dólmen. Vocês estão invadindo. Então, depois que eu terminar de agradecer adequadamente, vou consumir sua carne e devorar suas almas. Mas a espada Skofnung tem muitas restrições. Por exemplo, ela não pode ser desembainhada de dia nem na presença de uma mulher.
— Que coisa idiota — disse Sam. — Quer dizer, que regras sensatas. Então você não pode nos matar?
— Não — admitiu Gellir. — Mas não se preocupem. Eu ainda posso mandar matar vocês!
Ele bateu três vezes no chão com a bainha da espada. Para a surpresa de ninguém, os doze guerreiros mumificados saíram de seus nichos na parede.

* * *

Os draugrs tinham zero respeito por clichês de zumbis. Eles não se arrastavam, não gemiam coisas incoerentes nem agiam como se estivessem atordoados, como zumbis de verdade deviam fazer. Eles puxaram as armas em sincronia e aguardaram as ordens de Gellir.
— Isso é ruim — disse Jacques, o sr. Óbvio. — Não sei se vou conseguir derrotar tantos antes de eles matarem vocês. E não quero parecer incompetente diante daquela espada gata!
— Prioridades, Jacques.
— Exatamente! Espero que você tenha um plano que me faça brilhar!
Sam nos deu uma nova fonte de luz. Na mão livre, uma lança cintilante surgiu, a arma das valquírias. O brilho intenso fez o rosto dos zumbis começar a fumegar.
Hearthstone pegou a bolsa de runas. Blitzen tirou a gravata-borboleta, que, como toda a sua coleção de primavera, era forrada de cota de malha ultraflexível. Ele envolveu o punho com a gravata, pronto para dar na cara de uns zumbis.
Não gostei das nossas chances: quatro contra treze. Ou cinco, se a gente contasse Jacques como uma pessoa. Eu não contei, porque isso significaria que eu teria que lutar sozinho.
Eu me perguntei se podia invocar a Paz de Frey. Graças ao meu pai, um deus pacifista que não permitia brigas em seus locais sagrados, eu às vezes conseguia desarmar todo mundo em uma grande área ao meu redor, arrancando suas armas das mãos. Mas esse era meu gran finale. Eu pareceria idiota se tentasse agora, naquele lugar fechado, e os zumbis simplesmente pegassem as espadas no chão e nos matassem.
Antes que eu pudesse decidir o que fazer para impressionar uma espada gata, um dos zumbis levantou a mão.
— Temos quórum?
O príncipe Gellir murchou como se uma de suas vértebras tivesse se desin tegrado.
— Arvid — disse ele —, nós estamos trancados nesta câmara há séculos. É claro que temos quórum! Estamos todos presentes porque não podemos sair!
— Então proponho que iniciemos a reunião — disse outro homem morto.
— Ah, pelo amor de Thor! — reclamou Gellir. — Estamos prestes a massacrar esses mortais, nos alimentar da carne deles e tomar suas almas. Isso é óbvio. Aí, teremos força suficiente para nos libertarmos desta tumba e provocar o caos em Cape Cod. Precisamos mesmo...?
— Eu apoio nosso colega — disse outro zumbi.
Gellir bateu com a mão na testa de esqueleto.
— Tudo bem! Todos a favor?
Os doze mortos levantaram a mão.
— Então o massacre, quer dizer, a reunião vai começar. — Gellir se virou para mim, com os olhos fervendo de irritação. — Minhas sinceras desculpas, mas nós votamos sobre tudo neste grupo. É tradição da Ping.
— Ping? Que Ping?
— A Ping — disse Gellir. — Da palavra pingvellir, que quer dizer campo de assembleia. O conselho de votação norueguês.
— Ah. — Sam hesitou entre o machado e a lança, como se não soubesse qual usar... ou se essa decisão exigiria um novo movimento. — Eu já ouvi falar da Ping. Era um lugar onde os antigos nórdicos se reuniam para acertar disputas legais e tomar decisões políticas. Essas reuniões inspiraram a criação do parlamento.
— Sim, sim — disse Gellir. — Agora, o parlamento inglês, esse não foi culpa minha. Mas quando os peregrinos chegaram... — Ele apontou para o teto com o queixo. — Bem, naquela época, nossa tumba estava aqui havia séculos. Os peregrinos chegaram e acamparam acima de nós durante algumas semanas. Devem ter sentido nossa presença inconscientemente. Acabamos inspirando o Pacto de Mayflower, iniciando toda aquela história sobre direitos, democracia na América e blá-blá-blá.
— Posso fazer a ata? — perguntou um zumbi.
Gellir suspirou.
— Dagfinn, sinceramente... Tudo bem, você é o secretário.
— Eu adoro ser o secretário.
Dagfinn devolveu a espada à bainha. Pegou um bloco e uma caneta no cinto, e não, eu não faço ideia do que um cadáver viking estava fazendo com material escolar.
— Então... espere — disse Sam. — Se você estava preso naquela caixa, como sabe o que estava acontecendo do lado de fora da tumba?
Gellir revirou os lindos olhos verdes.
— Telepatia. Dã. De qualquer forma, desde que inspiramos os peregrinos, meus doze guarda-costas ficaram incrivelmente orgulhosos. Nós temos que fazer tudo por regras parlamentares... ou Pingamentares. Mas não se preocupem. Vamos matar vocês logo. Agora, faço uma moção...
— Mas, primeiro — interrompeu outro zumbi —, temos algum assunto antigo em pauta?
Gellir fez um punho tão apertado que achei que sua mão fosse se desfazer.
— Knut, somos draugrs do século VI. Para nós, tudo é assunto antigo!
— Sugiro lermos as atas da última reunião — disse Arvid. — Alguém concorda?
Hearthstone levantou a mão. Eu não o culpei. Quanto mais tempo eles passassem lendo as atas de massacres passados, menos tempo teriam para nos matar em um massacre futuro.
Dagfinn voltou algumas páginas do caderno. Elas viraram pó sob os dedos dele.
— Ah, na verdade, não tenho as atas.
— Muito bem, então! — disse Gellir. — Seguindo em frente...
— Espere! — gritou Blitzen. — Precisamos de um relato oral! Quero saber sobre seu passado: quem vocês são, por que foram todos enterrados juntos e os nomes e a história de todas as suas armas. Sou um anão. A história das coisas é importante para mim, principalmente se essas coisas vão me matar. Sugiro que vocês nos contem tudo.
— Eu apoio essa sugestão — disse Samirah. — Todos a favor?
Todos os zumbis levantaram a mão, inclusive Gellir, acho que por hábito, pois depois pareceu irritado consigo mesmo. Jacques subiu no ar para tornar a votação unânime.
Gellir deu de ombros, fazendo a armadura e os ossos estalarem.
— Vocês estão tornando esse massacre muito difícil, mas tudo bem, vou recontar nossa história. Cavalheiros, descansar.
Os outros zumbis embainharam as espadas. Alguns se sentaram no chão. Outros se recostaram na parede e cruzaram os braços. Arvid e Knut pegaram novelos de lã e agulhas de tricô em seus nichos e começaram a fazer luvinhas.
— Eu sou Gellir — começou o príncipe —, filho de Thorkel, um príncipe dos dinamarqueses. E esta — ele deu um tapinha na espada — é Skofnung, a lâmina mais famosa já carregada por um viking!
— Exceto pela companhia presente — murmurou Jacques. — Mas, ah, cara, Skofnung é um nome maravilhoso.
Eu não concordava com ele. Também não estava gostando da expressão de terror no rosto de Hearthstone.
— Hearth, você conhece essa espada?
O elfo sinalizou com cuidado, como se o ar pudesse queimar seus dedos. Primeiro pertenceu ao rei H-R-O-L-F. Foi forjada com as almas de seus doze seguidores, todos berserkir.
— O que ele está dizendo? — perguntou Gellir. — Esses gestos com as mãos são muito irritantes.
Comecei a traduzir, mas Blitzen me interrompeu, gritando tão alto que Arvid e Knut largaram as agulhas de tricô.
— É aquela espada? — Blitz encarou Hearthstone. — A que tem... a pedra... na sua casa?
Não fez sentido para mim, mas Hearth assentiu.
Entendeu agora?, sinalizou ele. Nós não devíamos ter vindo.
Sam se virou, com a luz da lança fazendo a poeira no chão cintilar.
— O que você quer dizer? Que pedra? E o que isso tem a ver com o martelo de Thor?
— Com licença — disse Gellir. — Não gosto de ser interrompido. Se vieram aqui procurando o martelo de Thor, alguém passou uma informação bem equivocada para vocês.
— A gente tem que sobreviver hoje — falei para meus amigos. — Porque preciso matar um bode.
— Ahã — continuou Gellir. — Como eu estava dizendo, Skofnung foi criada por um rei chamado Hrolf. Seus doze berserkir sacrificaram suas vidas para que suas almas incutissem a lâmina de poder. — Gellir olhou de cara feia para os próprios seguidores, dos quais dois agora estavam jogando cartas no canto. — Era uma época em que um príncipe conseguia encontrar bons guarda-costas. De qualquer modo, um homem chamado Eid roubou a espada do túmulo de Hrolf. Eid emprestou Skofnung para meu pai, Thorkel, que meio que... se esqueceu de devolver. Meu pai morreu em um naufrágio, mas a espada foi levada pelo mar até a Islândia. Eu a encontrei e usei em muitos massacres gloriosos. E agora... aqui estamos! Quando morri em batalha, a espada foi enterrada comigo, junto com meus doze berserkir, para proteção.
Dagfinn virou uma página do caderno e recitou:
— Para... proteção. Posso acrescentar que esperávamos ir para Valhala? Que fomos amaldiçoados a ficar nesta tumba para sempre porque sua espada era um bem roubado? E que odiamos nossa pós-vida?
— NÃO! — exclamou Gellir com rispidez. — Quantas vezes você quer que eu peça desculpa?
Arvid desviou o olhar das luvas de tricô pela metade.
— Sugiro que Gellir peça desculpa mais um milhão de vezes. Alguém apoia?
— Parem com isso! — disse Gellir. — Olhem, nós temos convidados. Não vamos lavar a túnica suja agora, não é? Além do mais, quando matarmos os mortais e devorarmos suas almas, vamos ter poder suficiente para sair desta tumba! Mal posso esperar para dar uma olhada em Provincetown.
Eu imaginei treze vikings zumbis andando pela rua Commercial, entrando no Café Wired Puppy e ameaçando os baristas com espadas.
— Chega de falar de coisa velha! — disse Gellir. — Posso, por favor, apresentar uma sugestão de matar esses invasores?
— Eu apoio. — Dagfinn balançou a caneta. — Acabou a tinta mesmo.
— Não! — gritou Blitzen. — Não discutimos o suficiente. Não sei os nomes dessas outras armas. E dessas agulhas de tricô! Contem-me sobre elas!
— Você está sendo inconveniente.
— Sugiro que nos mostrem a saída mais próxima — falei.
Gellir bateu o pé.
— Você também está sendo inconveniente! Eu peço uma votação!
Dagfinn olhou para mim como quem pede desculpas.
— É uma coisa da Ping. Você não entenderia.
Eu devia ter atacado imediatamente, quando eles ainda estavam desprevenidos, mas me pareceu uma atitude pouco democrática.
— Todos a favor? — perguntou Gellir.
— Sim! — gritaram ao mesmo tempo os vikings mortos.
Eles se levantaram, guardaram o baralho e as agulhas de tricô e puxaram as espadas novamente.


6 comentários:

  1. Agora me lembrei do Guia #POSTAOGUIATIAK

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  2. Cadê o símbolo de lobo que aparece no final de cada capítulo

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  3. Nossa não basta serem zumbis bem educados ainda são democratas... só tio Rick pra inventar uma dessa mesmo!!!

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  4. "Todos a favor do massacre de Magnus digam sim"
    Só eu disse não?? Ushausha

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  5. "Todos a favor do massacre de Magnus digam sim"
    SIM 😂😂😂😂 brincks kkkkkkkkkkkkkkkkk

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