16 de outubro de 2016

Quatro - Sou atropelado por um guepardo

NA HORA DE escolher uma pós-vida, é importante considerar a localização.
Pós-vidas no subúrbio, como em Fólkvangr e Niflheim, podem oferecer custos de não vida mais baixos, mas a entrada de Midgard para Valhala fica no coração da cidade, na rua Beacon, em frente ao parque Boston Common. Dá para ir a pé às melhores lojas e aos melhores restaurantes, e fica a menos de um minuto da estação de metrô da rua Park!
Escolha Valhala. Para todas as suas necessidades de paraíso viking.
(Desculpem. Eu falei para a gerência do hotel que faria uma divulgação. Mas realmente era bem fácil voltar para Boston.)
Depois de comprar um saco de grãos de café expresso cobertos de chocolate no café, atravessei o Public Garden e passei pela ponte sob a qual eu costumava dormir. Dois sujeitos grisalhos estavam sentados em um amontoa do de sacos de dormir, compartilhando restos de comida com um cachorro viralata.
— Ei, caras. — Entreguei para eles o sobretudo e o chapéu de Otis, junto com todo o dinheiro mortal que eu tinha, vinte e quatro dólares. — Tenham um bom dia.
Os homens ficaram surpresos demais para responder. Continuei andando, com a sensação de que havia um machado enfiado no meu peito.
Só porque fui morto por um gigante do fogo dois meses antes, eu podia viver em meio ao luxo. Enquanto isso, aqueles caras e o cachorro comiam o que quer que conseguissem encontrar nas lixeiras.
Não era justo.
Eu queria poder reunir todos os sem-teto de Boston e dizer: Ei, tem uma mansão enorme bem ali com milhares de suítes confortáveis e comida grátis para sempre. Me sigam!
Mas não daria certo.
Mortais não podiam entrar em Valhala. Não se podia nem morrer de propósito para entrar. A morte tinha que ser um ato altruísta não planejado, e a pessoa tinha que torcer para haver uma valquíria por perto para levar sua alma.
Claro que mesmo assim Valhala era melhor do que os arranha-céus que surgiam por toda a cidade. A maioria era cheia de apartamentos de luxo vazios, reluzentes quartas ou quintas residências de bilionários. Não era preciso uma morte heroica para ir para lá, bastava ter muito dinheiro. Se os gigantes invadissem Boston, talvez eu pudesse convencê-los a derrubar alguns prédios estratégicos.
Por fim, cheguei à fachada de Midgard do Hotel Valhala. Do lado de fora, parecia uma mansão de oito andares de pedra branca e cinza, apenas mais uma propriedade supercara em uma rua de casas coloniais.
A única diferença: o jardim da frente era completamente cercado por um muro branco de calcário de cinco metros sem nenhuma entrada – a primeira de muitas defesas para impedir que os mortais passassem.
Pulei por cima do muro e caí no bosque de Glasir.
Duas valquírias pairavam junto aos galhos da bétula de tronco branco, coletando as folhas de ouro vinte e quatro quilates. Elas acenaram para mim, mas eu não parei para conversar. Andei até os degraus da frente e empurrei a pesada porta dupla.
No saguão do tamanho de uma catedral, a cena era a mesma de sempre. Em frente à lareira acesa, einherjar adolescentes brincavam de jogos de tabuleiro ou relamachavam (que é igual a relaxar, só que com machados). Outros einherjar usando roupões verdes e felpudos do hotel corriam uns atrás dos outros em volta dos pilares rudimentares que se espalhavam pelo saguão, brincando de esconde-esconde-mata. As gargalhadas deles ecoavam no teto alto, onde vigas brilhavam com as pontas de mil lanças enfileiradas.
Olhei para a recepção, perguntando-me se o irmão misterioso e violento de Sam estaria se registrando. A única pessoa lá era o gerente, Helgi, encarando a tela do computador. Uma manga do terno verde tinha sido rasgada. Pedaços da barba de tamanho épico tinham sido arrancados. O cabelo parecia mais um abutre morto do que o normal.
— Não vá lá — avisou uma voz familiar.
Hunding, o porteiro, parou ao meu lado, com o rosto vermelho cheio de verrugas coberto de novos arranhões. A barba, como a de Helgi, parecia ter ficado presa em uma máquina de depenar galinhas.
— O chefe está muito mal-humorado — disse ele. — Do tipo disposto a te dar uma surra.
— Você também não parece muito feliz — observei. — O que aconteceu?
A barba de Hunding estremeceu de raiva.
— Nosso novo hóspede chegou.
— O irmão de Samirah?
— Hum. Se você preferir chamá-lo assim. Não sei o que Samirah tinha na cabeça ao trazer aquele monstro para Valhala.
— Monstro? — Tive um flashback de X, o meio troll que Samirah levara para Valhala. Ela também fora criticada por isso, apesar de X mais tarde ter se mostrado Odin disfarçado. (Longa história.) — Você está dizendo que esse recém-chegado é um monstro de verdade, como Fenrir ou...
— Pior, se quer saber minha opinião. — Hunding tirou um tufo do bigode de cima do crachá. — O maldito argr quase arrancou minha cara quando viu os aposentos dele. Sem mencionar a total ausência de gorjeta...
— Porteiro! — gritou o gerente da recepção. — Pare de bater papo e venha aqui! Você tem dentes de dragão para passar fio dental!
Olhei para Hunding.
— Ele faz você passar fio dental nos dentes do dragão?
Hunding suspirou.
— E demora uma eternidade. Tenho que ir.
— Ei, cara. — Entreguei a ele o saco de grãos de café cobertos de chocolate que comprei no Thinking Cup. — Aguenta aí.
Os olhos do velho viking ficaram úmidos.
— Magnus Chase, você é um bom rapaz. Eu podia abraçar você até sufocar...
— PORTEIRO! — gritou Helgi de novo.
— JÁ VOU! SEGURA A ONDA SENÃO O DRÁCAR AFUNDA!
Hunding correu até a recepção, o que me poupou de um abraço mortal.
Por pior que eu estivesse me sentindo, pelo menos não tinha o emprego de Hunding. O pobre sujeito tinha chegado a Valhala só para ser obrigado a servir Helgi, seu arqui-inimigo da vida mortal. Eu achava que ele merecia um pouco de chocolate de vez em quando. Além do mais, a amizade dele já tinha se mostrado valiosa. Hunding conhecia o hotel melhor do que ninguém e sabia todas as fofocas boas.
Fui para os elevadores, me perguntando o que era um argr e por que Sam levaria um para Valhala. O que eu mais queria saber era se eu teria tempo de almoçar e cochilar antes da batalha que aconteceria à tarde. Era importante estar bem alimentado e descansado quando se morria em combate.
Nos corredores, alguns einherjar me olharam de soslaio. A maioria me ignorou. Claro, eu recuperara a Espada do Verão e derrotara o lobo Fenrir, mas a maioria dos meus colegas guerreiros só me via como o garoto que tinha causado a morte de três valquírias e que quase dera início ao Ragnarök. O fato de eu ser filho de Frey, o deus vanir do verão, não ajudava. Os filhos do meu pai não costumavam ficar em Valhala.
Eu não era popular o bastante para andar com os filhos de deuses da guerra como Thor, Tyr e Odin. Sim, Valhala tinha panelinhas que nem o ensino médio. E apesar de o ensino médio parecer durar uma eternidade, Valhala era mesmo para sempre. Os únicos einherjar que me aceitavam de verdade eram meus colegas de corredor do andar dezenove, e eu estava ansioso para me encontrar com eles.
No elevador, a música calma viking não ajudou a melhorar meu humor. Perguntas se acumulavam no meu cérebro: quem matou Otis? O que o bode queria avisar? Quem era o irmão de Sam? Do que Blitz e Hearth estavam se escondendo? E quem, em sã consciência, ia querer gravar “Fly Me to the Moon” em norueguês antigo?
As portas do elevador se abriram no andar dezenove. Saí, e um animal grande quase trombou em mim. Estava se movendo tão rápido que só registrei uma mancha amarela e preta antes de ela dobrar o corredor e sumir. Em seguida, notei os buracos nos meus tênis, onde o animal tinha pisado. Pequenos gêiseres de dor surgiram no peito dos meus pés.
— Ai — falei, atrasado.
— Parem aquele guepardo! — Thomas Jefferson Jr. apareceu em disparada pelo corredor com o rifle em punho, e meus outros colegas, Mallory Keen e Mestiço Gunderson, logo atrás. Eles pararam na minha frente, os três ofegantes e suados.
— Você viu? — perguntou T.J. — Viu para onde foi?
— Hum... — Apontei para a direita. — Por que temos um guepardo?
— Não foi ideia nossa, pode acreditar. — T.J. apoiou o rifle no ombro. Como sempre, ele estava usando a jaqueta azul da União sobre a camiseta verde do Hotel Valhala. — Nosso novo colega de corredor não está feliz de estar aqui.
— Novo colega — repeti. — Um guepardo. Você quer dizer... a alma que Sam trouxe. Um filho de Loki. Ele é um metamorfo?
— Entre outras coisas — disse Mestiço Gunderson. Por ser um berserker, ele tinha o físico do pé-grande e estava usando apenas calças de couro. Tatuagens de runas se espalhavam pelo peito largo. Ele bateu com o machado no chão. — Meu rosto quase foi esmagado por aquele meinfretr!
Desde que me mudei para Valhala aprendi uma quantidade impressionante de palavrões em norueguês antigo. Meinfretr era alguma coisa como peido fedido, o que era, naturalmente, o pior tipo de peido.
Mallory guardou as duas facas.
— Mestiço, sua cara se beneficiaria de uma esmagada ocasional. — O sotaque dela ficava mais carregado quando estava com raiva. Com o cabelo ruivo e as bochechas avermelhadas, ela passaria por um pequeno gigante do fogo, só que gigantes do fogo não eram tão intimidadores. — Estou com medo de aquele demônio destruir o hotel! Você viu o que ele fez com o quarto do X?
— Ele está com o antigo quarto do X? — perguntei.
— E destruiu tudo. — Mallory fez um V com os dedos indicador e médio e os esticou embaixo do queixo na direção do guepardo que fugiu. A srta. Keen era irlandesa, então aquele gesto não significava paz ou amor, e sim algo bem mais grosseiro. — Viemos recebê-lo e encontramos o lugar em ruínas. Não tem respeito!
Eu me lembrei do meu primeiro dia em Valhala. Joguei um sofá do outro lado da sala e afundei o punho na parede do banheiro.
— Bem... pode ser difícil se acostumar.
T.J. balançou a cabeça.
— Não assim. O garoto tentou nos matar na mesma hora. Algumas das coisas que ele disse...
— Insultos de primeira — admitiu Mestiço. — Tenho que dar crédito a ele por isso. Mas nunca vi uma pessoa fazer uma bagunça tão grande... Venha dar uma olhada, Magnus. Veja com seus próprios olhos.
Eles me levaram até o antigo quarto de X. Eu nunca tinha entrado, mas agora a porta estava escancarada. O interior parecia ter sido redecorado por um furacão de categoria cinco.
— Pelo amor de Frigga.
Passei por cima de um montinho de móveis quebrados e entrei na sala.
A disposição era parecida com a da minha suíte: quatro seções quadradas saindo de um átrio central como um sinal gigantesco de mais. A sala já tinha sido uma área com sofá, estantes, uma TV e uma lareira. Agora, era uma zona de guerra. Só a lareira permanecia intacta, e marcas fundas eram visíveis acima dela como se nosso novo vizinho a tivesse acertado com uma espada.
Pelo que pude ver, o quarto, a cozinha e o banheiro foram igualmente destruí dos. Atordoado, segui para o átrio.
Assim como o meu, tinha uma árvore enorme no meio. Os galhos mais baixos se espalhavam pelo teto da suíte, se entrelaçando com as vigas. Os galhos mais altos se esticavam para um céu azul sem nuvens. Meus pés afundaram na grama verde. A brisa que entrava pela abertura no teto tinha cheiro de louro-da-montanha, parecido com refrigerante de uva. Eu já tinha ido ao quarto de vários amigos, mas nenhum tinha um átrio a céu aberto.
— Era assim na época de X? — perguntei.
Mallory fez um ruído de deboche.
— Não mesmo. O átrio do X era uma piscina grande, uma fonte termal natural. O quarto dele era sempre quente, úmido e sulfuroso, como o sovaco de um troll.
— Sinto falta do X. — Mestiço suspirou. — Mas, sim, tudo isso é totalmente novo. Cada suíte se adapta ao estilo do dono.
Eu me perguntei o que o fato de meu átrio ser exatamente igual ao do recém-chegado queria dizer. Eu não queria compartilhar estilos com um filho de Loki assassino e felino selvagem que pisava nos pés das pessoas.
Na extremidade do átrio havia outra pilha de destruição. Prateleiras haviam sido derrubadas. A grama estava cheia de tigelas e xícaras de cerâmica, algumas coloridas, outras de argila.
Eu me ajoelhei e peguei a base de um vaso quebrado.
— Vocês acham que o garoto-guepardo fez tudo isso?
— Acho. — T.J. apontou com o rifle. — Tem uma fornalha e um torno para argila na cozinha.
— Trabalho de qualidade — disse Mestiço. — O vaso que ele jogou na minha cara era lindo e mortal. Que nem a srta. Keen aqui.
O rosto de Mallory foi de vermelho-morango a laranja-pimenta.
— Você é um idiota.
Essa era a forma dela de expressar afeto pelo namorado.
Virei o estilhaço. Na base, as iniciais A.F. estavam gravadas na argila. Eu não queria especular o que podiam representar. Embaixo das iniciais havia um selo decorativo: duas cobras enroladas em um S elaborado, com os rabos entrelaçados na cabeça uma da outra.
As pontas dos meus dedos ficaram dormentes. Larguei o estilhaço e peguei outro vaso quebrado: as mesmas iniciais, o mesmo selo das serpentes.
— É um dos símbolos de Loki — disse Mestiço. — Flexibilidade, mudança, instabilidade.
Meus ouvidos estavam zumbindo. Já tinha visto aquele símbolo... recentemente, no meu quarto.
— Como... como você sabe?
Mestiço estufou o peito já estufado.
— Como disse, eu fiz muitas coisas durante meu tempo em Valhala. Tenho doutorado em literatura germânica.
— Coisa que ele só menciona várias vezes por dia — acrescentou Mallory.
— Ei, pessoal — chamou T.J. do quarto.
Ele enfiou o rifle em uma pilha de roupas e levantou um vestido de seda verde-escura sem mangas.
— Chique — disse Mallory. — É um Stella McCartney.
Mestiço franziu a testa.
— Como você sabe?
— Eu fiz muitas coisas durante meu tempo em Valhala. — Mallory fez uma ótima imitação da voz rouca de Mestiço. — Tenho doutorado em moda.
— Ah, me deixe em paz, mulher — murmurou Mestiço.
— E olhem isto. — T.J. levantou um paletó também verde-escuro, com lapelas cor-de-rosa.
Admito que estava um pouco distraído. Só conseguia pensar no símbolo de Loki nos vasos e em onde tinha visto o desenho de serpente antes. A confusão de roupas no quarto não fazia sentido para mim: jeans, saias, jaquetas, gravatas e vestidos de festa, a maioria em tons de rosa e verde.
— Quantas pessoas moram aqui? — perguntei. — Ele tem uma irmã?
Mestiço riu.
— T.J., você explica ou eu explico?
FLUUUUUM. O som da corneta de chifre de carneiro ecoou pelo corredor.
— Hora do almoço — anunciou T.J. — Podemos conversar lá.
Meus amigos seguiram para a porta. Eu fiquei agachado perto da pilha de estilhaços de vasos, tigelas e xícaras, olhando para as iniciais A.F. e para as serpentes entrelaçadas.
— Magnus — chamou T.J. — Você vem?
Eu estava sem fome. Também tinha perdido a vontade de cochilar. A adrenalina percorria meu corpo como uma nota aguda em uma guitarra elétrica.
— Podem ir na frente. — Meus dedos envolveram o vaso quebrado com o símbolo de Loki. — Preciso checar uma coisa primeiro.


10 comentários:

  1. Meus deuseeeeeeeees, eu não lembro direito do primeiro livro... Acho que vou ter que reler, mas ele falou sobre algum símbolo de Loki no quarto dele antes?

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  2. A.F.? Amir Fad-algumacoisa?

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  3. T.J. voltou, senti saudades do andar 19

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  4. O irmão de Sam é um travestir???

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    1. Isso soou 100% preconceito, cara.

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    2. Lembra do fato de Loki ser A MÃE do cavalo de Odin? Então... Acho q isso vem incluso no quesito "metamorfo". 😛

      Ass.: Mutta Chase Hayes

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  5. — JÁ VOU! SEGURA A ONDA SENÃO O DRÁCAR AFUNDA!
    Aderi kkkk

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  6. Me lembrei do símbolo da Sonserina em Harry Potter..

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