16 de outubro de 2016

Quatorze - Pode chorar rios de sangue. Pensando bem, melhor não

FOI COMO ANTIGAMENTE: nós indo juntos em direção ao desconhecido, procurando armas mágicas desaparecidas e correndo o risco de mortes dolorosas. Eu estava com saudade dos meus amigos!
Tínhamos andado por metade da base da torre quando Blitzen disse:
— A-há!
Ele se ajoelhou e passou as pontas dos dedos cobertos pelas luvas em uma rachadura nas pedras. Para mim, não era nada diferente de milhares de outras rachaduras na pedra, mas Blitzen pareceu gostar dessa.
Ele sorriu para mim.
— Está vendo, garoto? Vocês nunca encontrariam isso sem um anão. Teriam andando por aqui para sempre, procurando a entrada da tumba, e...
— Essa rachadura é a entrada?
— É o gatilho da entrada. Mas nós ainda precisamos de magia para entrar. Hearth, verifique para mim, por favor.
Hearth se agachou ao lado dele. Assentiu como quem diz Aham e desenhou uma runa no chão com o dedo. Imediatamente, uma seção de um metro quadrado do piso se vaporizou, revelando um túnel. Infelizmente, nós quatro por acaso estávamos em cima desse um metro quadrado quando ele se vaporizou.
Caímos na escuridão com uma boa quantidade de gritos, a maioria meus.
Boa notícia: quando caí, não quebrei nenhum osso. Má notícia: Hearthstone quebrou.
Ouvi um crec molhado, seguido de um grunhido de Hearth, e soube na mesma hora o que tinha acontecido.
Não estou dizendo que elfos sejam delicados. De algumas maneiras, Hearth era o cara mais durão que já conheci. Mas, de vez em quando, eu sentia vontade de enrolá-lo em cobertores e colar um adesivo de “frágil” na testa dele.
— Calma, cara — falei para ele, o que foi inútil, porque Hearth não conseguia me ver na escuridão.
Encontrei a perna dele e logo localizei a fratura. Ele ofegou e tentou arrancar a pele das minhas mãos com as unhas.
— O que está acontecendo? — perguntou Blitz. — De quem é esse cotovelo?
— É meu — disse Sam. — Todo mundo bem?
— Hearth quebrou o tornozelo — expliquei. — Preciso consertar. Vocês dois fiquem vigiando.
— Está escuro demais! — reclamou Blitz.
— Você é anão. — Sam puxou o machado do cinto, um som que eu conhecia bem. — Achei que se dava melhor no subterrâneo.
— E me dou! — disse Blitz. — De preferência, em um subterrâneo bem-iluminado e com decoração de bom gosto.
A julgar pelo eco das nossas vozes, estávamos em uma câmara ampla de pedra. Não havia luz, então supus que a abertura por onde caímos tinha se fechado.
O lado positivo era que nada tinha nos atacado... ainda.
Encontrei a mão de Hearth e fiz o contorno de letras na palma da mão dele para que não entrasse em pânico: VOU CURAR. FIQUE PARADO.
E coloquei as duas mãos no tornozelo quebrado.
Invoquei o poder de Frey. Um calor surgiu no meu peito e se espalhou pelos meus braços. Meus dedos brilharam com uma luz dourada suave, afastando a escuridão. Consegui sentir os ossos do tornozelo de Hearthstone se unindo, o inchaço diminuindo, a circulação voltando ao normal.
Ele soltou um longo suspiro e sinalizou: Obrigado.
Apertei o joelho dele.
— Não foi nada, cara.
— Magnus — disse Blitz, rouco —, você talvez queira olhar ao redor.
Um efeito colateral do meu poder de cura era que eu brilhava temporariamente. Não quero dizer que era um brilho saudável. Eu realmente cintilava. Durante o dia, quase não dava para reparar, mas ali, em uma câmara subterrânea escura, eu parecia uma tocha humana. Infelizmente, isso queria dizer que eu agora conseguia ver nossos arredores.
Estávamos no meio de uma câmara abobadada, como uma colmeia gigante entalhada na pedra. O cume do teto, a uns seis metros de altura, não exibia sinal da abertura pela qual caímos. Por toda a circunferência das paredes, em nichos do tamanho de armários, havia homens mumificados em roupas podres, com os dedos coriáceos segurando espadas corroídas. Não vi saída daquele aposento.
— Ah, que perfeito — comentei. — Eles vão acordar, não vão? Esses dez caras...
— Doze — corrigiu Sam.
— Doze caras com espadas grandes.
Fechei a mão ao redor do pingente de runa. Jacques estava tremendo, ou talvez fosse eu. Decidi que devia ser Jacques.
— Eles podem ser só cadáveres inanimados apavorantes — disse Blitz. — Pense positivo.
Hearthstone estalou os dedos pedindo atenção. Ele apontou para o sarcófago de pé bem no meio do aposento.
Não que eu não tenha reparado. A caixa grande de ferro era difícil de passar despercebida. Mas eu estava tentando ignorar, torcendo para que sumisse. A frente era entalhada com imagens vikings – lobos, serpentes e inscrições rúnicas ao redor de uma imagem central de um homem barbado com uma espada grande.
Eu não fazia ideia do que um caixão como aquele estava fazendo em Cape Cod. Tinha quase certeza de que os peregrinos não o tinham levado no Mayflower.
Sam fez sinal para ficarmos parados. Ela levitou do chão e flutuou ao redor do sarcófago, com o machado na mão.
— Tem inscrições atrás também — relatou ela. — Esse sarcófago é velho. Não vejo sinais de abertura recente, mas talvez Thrym tenha escondido o martelo aí dentro.
— Tive uma ideia — disse Blitzen. — Não vamos verificar.
Eu olhei para ele.
— É sua opinião de especialista?
— Olha, garoto, essa tumba fede a poder antigo. Foi construída há mais de mil anos, bem antes de os exploradores vikings chegarem à América do Norte.
— Como você sabe?
— As marcas na pedra — disse Blitzen. — Consigo saber quando uma câmara foi aberta pela última vez com a mesma facilidade com que consigo avaliar a idade de uma camisa pelo desgaste dos fios.
Isso não me pareceu muito fácil. Por outro lado, eu não tinha diploma em design de moda anã.
— Então é uma tumba viking construída antes de os vikings chegarem aqui — resumi. — Hã... como isso é possível?
Se mexeu, sinalizou Hearth.
— Como uma tumba pode se mexer?
Blitzen tirou o chapéu de safári. A rede fina deixara o cabelo normalmente perfeito todo amassado.
— Garoto, as coisas se mexem nos nove mundos o tempo todo. Nós somos ligados pela Árvore do Mundo, certo? Os galhos oscilam. Novos galhos crescem. Raízes se aprofundam. Este lugar se moveu de onde foi originalmente construído. Provavelmente porque... está cheio de magia do mal.
Sam pousou ao nosso lado.
— Não sou fã de magia do mal.
Hearthstone apontou para o chão na frente do sarcófago. Eu não tinha reparado, mas ao redor da base do caixão, um círculo desgastado de runas estava marcado na pedra.
Hearth soletrou com os dedos: K-E-N-N-I-N-G.
— O que é isso? — perguntei.
Samirah chegou um pouco mais perto da inscrição.
— Kenning é um apelido viking.
— Você quer dizer tipo... “Oi, Kenning. Tudo bem?”
— Não — disse Sam, com um tom de: Vou bater em você com vara de marmelo. — É um jeito de se referir a alguém com uma descrição em vez de pelo nome. Como se, em vez de Blitzen, eu dissesse Roupas Elegantes ou, sobre Hearth, eu dissesse Lorde das Runas.
Hearth assentiu. Podem me chamar de Lorde das Runas.
Sam apertou os olhos para a inscrição no chão.
— Magnus, você pode brilhar um pouco mais perto, por favor?
— Não sou sua lanterna.
Mesmo assim, andei na direção do caixão.
— Está dizendo Rio de Sangue — anunciou Sam. — Repetidamente, ao redor.
— Você sabe ler norueguês antigo? — perguntei.
— Norueguês antigo é fácil. Quer saber o que é difícil? Tente aprender árabe.
— Rio de Sangue. — O bagel do café da manhã pesou na minha barriga. — Isso lembra a alguém o banho de sangue que não pode ser impedido? Não estou gostando.
Mesmo sem a redinha, Blitz parecia meio cinza.
— Acho... que deve ser coincidência. No entanto, eu gostaria de observar que não há saídas deste aposento. Meus sentidos anões me dizem que essas paredes são totalmente sólidas. Nós caímos em uma armadilha. O único jeito de sair daqui é acionando.
— Estou começando a não gostar dos seus sentidos de anão — confessei.
— Nem eu, garoto.
Hearthstone olhou de cara feia para Blitzen. Você queria vir aqui. E agora? Quebrar o círculo do kenning. Abrir caixão?
Sam ajeitou o hijab.
— Se tem um draugr nessa tumba, vai estar no sarcófago. Também é o lugar mais seguro para esconder uma arma mágica, como o martelo de um deus.
— Preciso de uma segunda opinião.
Puxei meu pingente.
Jacques surgiu na minha mão.
— Oi, pessoal! Ah, uma tumba cheia de magia do mal? Maneiro!
— Amigão, você consegue sentir o martelo de Thor em algum lugar aqui?
Jacques vibrou com concentração.
— É difícil ter certeza. Tem alguma coisa poderosa naquela caixa. Uma arma? Uma arma mágica? Podemos abrir? Por favor, por favor! Isso é empolgante!
Resisti à vontade de dar um pescotapa no cabo dele, o que só teria me machucado.
— Você já ouviu falar de um gigante da terra trabalhando com um draugr? Tipo... usando a tumba dele como cofre?
— Isso seria bem estranho — admitiu Jacques. — Normalmente, gigantes da terra enterram suas coisas... você sabe, na terra. Tipo, bem fundo.
Eu me virei para Sam.
— Então por que Otis nos mandaria para cá? E como isso pode ser uma boa ideia?
Sam olhou ao redor como se estivesse tentando decidir atrás de qual das doze múmias se esconder.
— Olha, talvez Otis tenha se enganado. Talvez... talvez tenha sido uma busca inútil, mas...
— Mas nós estamos aqui agora! — disse Jacques. — Ah, qual é, pessoal. Eu protejo vocês! Além do mais, não consigo deixar um presente fechado. Pelo menos me deixem sacudir o caixão para tentar adivinhar o que tem dentro!
Hearthstone fez um movimento de corte na palma da mão. Já chega.
De dentro do bolso da jaqueta, ele tirou uma bolsinha de couro, sua coleção de runas. Ele pegou uma que eu já tinha visto:


— É dagaz — falei. — Usamos essa para abrir portas em Valhala. Tem certeza...?
A expressão de Hearth me fez parar. Ele não precisava de linguagem de sinais para expressar o que sentia. Lamentava aquela situação toda. Odiava botar Blitz em perigo. Mas estávamos ali agora. Nós o levamos porque ele sabia magia. Ele queria acabar logo com aquilo.
— Magnus — disse Sam —, talvez seja melhor você se afastar.
Eu me afastei e me posicionei na frente de Blitzen, para o caso de o Rio de Sangue sair do caixão em um estilo samurai e partir direto para cima do anão mais próximo.
Hearth se ajoelhou. Encostou dagaz na inscrição. Imediatamente, o kenning Rio de Sangue se acendeu como um anel de pólvora. Hearth se afastou quando a tampa do sarcófago pulou longe, passou voando por mim e bateu na parede. À nossa frente estava um rei mumificado com coroa de prata e armadura de prata, com a espada embainhada nas mãos.
— Esperem só — murmurei.
Naturalmente, o cadáver abriu os olhos.


9 comentários:

  1. Beeem natural um cadáver abrir os olhos.

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    1. Leia A Dama da Meia Noite e bem vinda à Bizzarelândia. Temos eggos!

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    2. Teoricamente, Magnus é um cadáver de olhos abertos

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    3. Topo SUUUUUUUPER natural... no mundo do tio Rick, é claro!!!

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  2. Hey, Karina, sei que a pergunta é meio que nada a ver, mas no que você trabalha? É que fico me perguntando, se você tem um trabalho, como tem tempo de administrar o blog? Ou está na faculdade? Hum... mas como acho que é meio pessoal, então, se quiser, não precisa responder! :) só por curiosidade mesmo!

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    1. Oi Maddy! Pois é, ainda não trabalho, só estudo por enquanto. Até agora deu pra conciliar ambos, mas quero ver só quando eu começar a trabalhar.. Não vai sobrar tempo :s

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  3. — Magnus, você pode brilhar um pouco mais perto, por favor?
    — Não sou sua lanterna.

    É, Sam, não use os amiguinhos como lanterna!

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    1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

      num vi graça :/

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