16 de outubro de 2016

Quarenta - O Pequeno Billy mereceu

EIS O CAFÉ da manhã dos campeões do boliche: amendoim, cachorro-quente morno e nachos velhos cobertos de gosma laranja que não tinha semelhança alguma com queijo cheddar. O hidromel estava choco e com gosto de adoçante. O lado bom: as porções eram gigantescas. Eu não tinha comido nada além de restos de falafel e chocolate no dia anterior. Encarei aquela gororoba corajosamente.
Em cada pista de boliche, gigantes se agrupavam por times, jogando comida, fazendo piadas e se gabando do poder de derrubar pinos.
Sam, Hearthstone, Blitz, Alex e eu nos sentamos juntos em um banco de plástico em formato de U, escolhendo as melhores partes da comida e observando as pessoas com certo nervosismo.
Utgard-Loki insistiu para que trocássemos nossos calçados normais por sapatos de boliche, todos grandes demais e laranja e rosa fosforescente. Quando Blitzen viu isso, achei que ia ter um choque anafilático. Mas Alex pareceu gostar. Pelo menos, não tivemos que vestir camisas de time. Enquanto comíamos, contamos para Sam e Hearth o que tinha acontecido conosco na floresta.
Sam balançou a cabeça, irritada.
— Magnus, você sempre fica com a parte fácil.
Eu quase engasguei com um amendoim.
— Fácil?
— Hearth e eu passamos o dia aqui tentando nos manter vivos. Quase morremos seis vezes.
Hearth levantou sete dedos.
— Ah, é — disse Sam. — Teve a coisa das privadas.
Blitzen colocou os pés embaixo do banco, sem dúvida para não ter que olhar para os sapatos horríveis.
— Os gigantes não deram direito de convidados a vocês?
— Foi a primeira coisa que pedimos — disse Sam. — Mas esses gigantes das montanhas... eles tentam distorcer suas palavras e matar você com gentileza.
— Como aquelas irmãs que conhecemos em janeiro. As que se ofereceram para levantar nossos assentos até a altura da mesa e tentaram nos esmagar no teto.
Sam assentiu.
— Ontem, eu pedi algo para beber. O barman me jogou em uma caneca de cerveja. Primeiro, sou muçulmana. Eu não bebo álcool. Segundo, as laterais eram tão escorregadias que eu não conseguia sair. Se Hearth não tivesse rachado o vidro com uma runa...
Tivemos que tomar cuidado com tudo o que dizíamos, sinalizou Hearth. Eu pedi um lugar para dormir... Ele estremeceu. Quase fui esmagado na máquina de devolver bolas.
Sam traduziu para Alex.
— Ai. — Alex fez uma careta. — Não é surpresa vocês estarem com essa cara péssima. Sem querer ofender.
— Isso não é o pior — disse Sam. — Tentar fazer minhas orações com Hearthstone de guarda? Impossível. E os gigantes ficavam nos desafiando e trapaceando em demonstrações de habilidade.
Ilusões, sinalizou Hearthstone, movendo as palmas das mãos em círculos para nós para representar duas imagens se modificando. Nada aqui é o que parece.
— É. — Blitz assentiu com seriedade. — A mesma coisa com Miúdo e a bolsa de boliche. Utgard-Loki e seu povo são famosos pelo poder de ilusão.
Olhei ao redor, me perguntando quão grandes os gigantes realmente eram e como seriam sem magia. Talvez as roupas de boliche horrendas fossem miragens com a intenção de nos desorientar.
— Então... como podemos saber o que é ilusão e o que é real?
— O mais importante... — Alex levantou um nacho encharcado de gosma laranja. — Posso fingir que isto é um burrito da Taqueria da Anna?
— Temos que ficar atentos — avisou Sam. — Ontem à noite, depois que elaboramos o pedido com muito cuidado, eles finalmente nos deram sacos de dormir, mas tivemos que “provar nossa força” abrindo-os nós mesmos. Tentamos por uma hora. Os sacos nem se mexiam. Utgard-Loki finalmente admitiu que eram feitos de titânio. Os gigantes morreram de rir.
Eu balancei a cabeça.
— Como isso pode ser engraçado?
Hearth sinalizou: Conte sobre o gato.
— É — concordou Sam. — E teve o gato. Como “favor”, antes de recebermos o jantar, nós tínhamos que pegar o gato de Utgard-Loki e trazê-lo para dentro.
Olhei ao redor, mas não vi nenhum gato.
— Está em algum lugar por aqui — disse Sam. — Mas nós não conseguíamos movê-lo porque o gato era um elefante-africano de seis toneladas. Nós só percebemos quando os gigantes nos contaram, mais tarde, depois de passarmos horas tentando e de perdermos o jantar. Eles amam humilhar os convidados fazendo-os se sentirem fracos e insignificantes.
— Está dando certo — murmurou Blitz.
Imaginei tentar pegar um elefante sem perceber que era um elefante. Era o tipo de coisa que eu perceberia.
— Como combatemos uma coisa assim? — perguntei. — Vamos ter que impressioná-los em vários testes? Desculpem, não tem muito que eu possa fazer contra sacos de dormir de titânio e elefantes-africanos.
Sam se inclinou sobre a mesa.
— O que quer que vocês achem que está acontecendo, lembrem-se de que é um artifício. Pensem fora da caixa. Façam alguma coisa inesperada. Quebrem as regras.
— Ah — disse Alex. — Nenhuma novidade aí.
— Então sua experiência deve ser útil — respondeu Sam. — Além disso, sabe aquele papo de Utgard-Loki sobre tentar ajudar? Não acredito em uma palavra...
— Oi, convidados!
Para um sujeito grande com uma camisa de boliche cheia de penas, o rei gigante era sorrateiro. Utgard-Loki se inclinou sobre a grade atrás da nossa mesa e olhou para nós, segurando um salsichão no palito.
— Nós temos pouco tempo. Os jogos já vão começar.
— Os jogos — disse Sam. — Como os que estamos fazendo desde ontem?
Os olhos de Utgard-Loki combinavam com a camisa de penas de águia. Ele e aquele olhar de ave de rapina, como se estivesse prestes a descer voando e pegar um roedor, ou talvez um humano pequeno, para jantar.
— Samirah, você tem que entender. Meus vassalos já estão chateados por eu ter convidado vocês para virem aqui. Precisam ter espírito esportivo. Ofereçam entretenimento, nos deem um bom show, mostrem que são dignos. Não esperem gentileza da minha parte durante as competições. Meus homens vão se virar contra mim se eu der tratamento preferencial.
— Então você não é grande coisa como rei — observei.
Utgard-Loki fez uma cara de desprezo. Para que os seguidores ouvissem, ele gritou:
— Isso é tudo o que vocês conseguem comer, mortais insignificantes? Temos bebês que conseguem devorar mais nachos! — Ele apontou o cetro real de salsichão para mim e baixou a voz: — Você sabe muito pouco sobre ser líder, Magnus Chase. Ser rei exige a combinação perfeita de punhos de ferro e hidromel, medo e generosidade. Por melhor que eu seja com magia, não posso simplesmente forçar minha vontade aos meus gigantes. Eles sempre estarão em número maior. Preciso conquistar o respeito deles todos os dias. Agora, vocês também precisam.
Alex se inclinou para longe do rei.
— Se é tão perigoso para você, por que nos ajudaria a recuperar Mjölnir?
— Não dou a mínima para o martelo de Thor! Os aesires sempre contaram demais com o medo que ele inspira. É uma arma poderosa, sim, mas, quando o Ragnarök chegar, Thor estará em apuros. Os deuses vão morrer de qualquer jeito. O martelo é um blefe, uma ilusão de força. E, acreditem em um feiticeiro experiente — o gigante sorriu —, até as melhores ilusões têm limite. Não ligo para o martelo. Quero impedir o plano de Loki.
Blitzen coçou a barba.
— De casar Sam e Thrym? Você teme essa aliança?
Utgard-Loki entrou novamente no modo atuação e gritou para a plateia:
— Humf! Esses são os salsichões mais incríveis de Jötunheim! Não existe nada igual! — Ele deu uma mordida enorme e jogou o palito vazio por cima do ombro. — Blitzen, filho de Freya, use a cabeça. É claro que eu temo a aliança. Aquele sapo feio do Thrym e a irmã dele, Thrynga, adorariam levar Jötunheim para a guerra. Com uma aliança com Loki o martelo de Thor, Thrym se tornaria o Lorde dos Lordes.
Sam semicerrou os olhos.
— “Com o martelo de Thor”? Você quer dizer que, mesmo se eu me cassasse com ele, o que eu não vou fazer, Thrym não devolveria Mjölnir?
— Ah, vai haver uma troca de presentes, com certeza! Mas talvez não do jeito que você imagina. — Utgard-Loki esticou a mão e bateu no cabo da espada Skofnung, ainda pendurada nas costas de Sam. — Venham, venham, meus amigos. Antes que eu possa dar uma solução, vocês precisam entender o problema. Ainda não descobriram o verdadeiro objetivo de Loki?
Do outro lado do salão, um dos gigantes gritou:
— Nosso rei, e a competição? Por que está de namorico com esses mortais?
Mais gigantes riram e assobiaram para nós.
Utgard-Loki se empertigou, sorrindo para os súditos como se estivesse se divertindo muito.
— Sim, claro! Gigantas e gigantes, vamos começar a diversão! — Ele olhou para nós. — Honrados convidados, que habilidades incríveis vocês planejam nos mostrar hoje?
Todos os gigantes se viraram para nós, ansiosos para ouvir que tipos de fracassos constrangedores nós escolheríamos. Meus maiores talentos eram fugir e comer falafel, mas depois de uma refeição pesada de cachorros-quentes e nachos quimicamente modificados, eu duvidava que conseguisse vencer em qualquer uma das duas categorias.
— Não sejam tímidos! — Utgard-Loki abriu os braços. — Quem quer ser o primeiro? Queremos ver o que os campeões dos reinos mortais são capazes de fazer! Vocês vão beber mais do que nós? Correr mais rápido? Vão nos desafiar em uma luta?
Samirah se levantou. Fiz uma oração silenciosa de agradecimento pelas valquírias destemidas. Mesmo quando era um aluno mortal comum, eu odiava ser o primeiro. O professor sempre prometia pegar leve com o primeiro voluntário, ou dar um pontinho extra. Não, obrigado. Não valia toda a ansiedade.
Sam respirou fundo e olhou para a plateia.
— Sou hábil com o machado — afirmou ela. — Quem deseja me desafiar em arremesso de machado?
Os gigantes gritaram e assobiaram.
— Ora, ora! — Utgard-Loki pareceu satisfeito. — Esse seu machado é pequeno, Samirah al-Abbas, mas tenho certeza de que é uma excelente arremessadora. Hum... Normalmente, eu escolheria Bjorn Rachacrânio como nosso campeão de arremesso de machado, mas não quero que você se sinta humilhada demais. Que tal competir com o Pequeno Billy?
De um grupo de gigantes no final das pistas, um jovem gigante de cabelo encaracolado se levantou. Ele parecia ter uns dez anos, com a barriga gorducha enfiada em uma camiseta listrada de Onde está Wally e suspensórios amarelos segurando a bermuda. Também era muito vesgo. Quando veio em nossa direção, o garoto esbarrou nas mesas e tropeçou em bolas de boliche, para a diversão dos outros gigantes.
— Billy ainda está aprendendo a arremessar — disse Utgard-Loki. — Mas deve ser um bom desafio para você.
Samirah contraiu o maxilar.
— Tudo bem. Quais são os alvos?
Utgard-Loki estalou os dedos. No final das pistas um e três, fendas se abriram no chão e placas planas de madeira surgiram, cada uma pintada para se parecer com Thor, com o cabelo ruivo desgrenhado e a barba encaracolada, e o rosto contraído como se no meio de um peido.
— Cada um arremessa três vezes! — anunciou Utgard-Loki. — Samirah, você gostaria de começar?
— Ah, não, obrigada — disse ela. — As crianças primeiro.
Pequeno Billy andou na direção da linha de falta da pista. Ao lado dele, outro gigante colocou um embrulho de couro no chão, abriu e tirou três machadinhas, cada uma quase do tamanho de Billy.
Billy se esforçou para levantar o primeiro machado. Estreitou os olhos para o alvo distante. Tive tempo de pensar: Talvez Sam se saia bem. Talvez Utgard-Loki esteja pegando leve com ela, afinal. Mas Billy começou a agir. Ele jogou um machado depois do outro, tão rápido que quase não consegui acompanhar os movimentos. Quando terminou, uma machadinha estava enfiada na testa de Thor, outra no peito e a terceira na virilha poderosa do deus do trovão.
Os gigantes comemoraram.
— Nada mal! — disse Utgard-Loki. — Agora, vamos ver se Samirah, orgulho das valquírias, consegue derrotar um garoto vesgo de dez anos de idade!
Ao meu lado, Alex murmurou:
— Ela está ferrada.
— Devemos intervir? — perguntou Blitzen, preocupado. — Sam nos disse para pensarmos fora da caixa.
Eu me lembrei do conselho dela: Façam alguma coisa inesperada.
Fechei os dedos ao redor do pingente. Eu me perguntei se devia pular da cadeira, chamar Jacques e provocar uma distração cantando um dueto de “Love Never Felt So Good”. Hearthstone me poupou desse constrangimento levantando os dedos: Espere.
Sam estudou o oponente. Ela olhou para os machados de Pequeno Billy no alvo e pareceu chegar a uma conclusão. Seguiu até a linha de falta e ergueu o próprio machado.
O aposento ficou respeitosamente em silêncio. Ou talvez nossos anfitriões estivessem respirando fundo para poderem rir muito depois que Sam fracassasse.
Em um movimento fluido, Sam se virou e jogou o machado em Billy. Os gigantes ofegaram.
Os olhos de Pequeno Billy ficaram ainda mais vesgos com ele olhando para o machado enfiado na testa. Ele caiu para trás e desabou no chão.
Os gigantes berraram de ultraje. Alguns se levantaram e pegaram as armas.
— Esperem! — gritou Utgard-Loki. Ele olhou com raiva para Sam. — Explique-se, valquíria! Por que não devemos matá-la pelo que acabou de fazer?
— Porque essa era a única maneira de vencer — respondeu Sam.
Ela falou com uma calma muito grande, considerando o que havia feito e o número de gigantes prontos para massacrá-la. Sam apontou para o cadáver de Pequeno Billy.
— Ele não é uma criança gigante!
Ela anunciou isso com a autoridade de um detetive de TV, mas vi uma gota de suor escorrendo por baixo do hijab. Quase consegui ouvi-la pensando: Por favor, que eu esteja certa. Por favor, que eu esteja certa.
A multidão de gigantes continuou olhando para o cadáver de Pequeno Billy. Ele continuou parecendo uma criança gigante morta e malvestida. Eu sabia que a qualquer momento todos eles atacariam Samirah, e nós teríamos que fugir em disparada.
Mas, lentamente, a forma do garoto gigante começou a mudar.
A pele murchou até ele parecer um dos draugrs do príncipe Gellir. Os lábios de couro se curvaram sobre os dentes. Uma película amarela cobriu os olhos. As unhas cresceram e viraram foices afiadas. O Pequeno Billy zumbi se esforçou para ficar de pé e tirou o machado da testa.
Ele sibilou para Sam. Uma onda de puro terror se espalhou pelo cômodo. Alguns gigantes largaram as bebidas. Outros caíram de joelhos e choraram. Meus intestinos se embolaram e deram um nó.
— S-sim — anunciou Sam, com a voz bem mais baixa. — Como vocês podem ver, este não é Pequeno Billy. Este é Medo, que ataca rapidamente e sempre acerta o alvo. A única maneira de vencer o Medo é atacando-o de frente. Foi o que fiz. É por isso que venci a competição.
Medo largou o machado de Sam com repugnância. Com um sibilar final apavorante, ele se dissolveu em fumaça branca e sumiu.
Um suspiro coletivo de alívio se espalhou pelo lugar. Vários gigantes correram para o banheiro, provavelmente para vomitar ou para trocar de cueca.
Eu sussurrei para Blitzen:
— Como foi que Sam adivinhou? Como aquela coisa podia ser Medo?
Os olhos de Blitzen também pareciam meio amarelados.
— Eu... acho que Sam já encontrou Medo antes. Ouvi boatos de que os gigantes se dão bem com várias deidades menores: Raiva, Fome, Doença. Supostamente, a Velhice jogava boliche com os Utgard Supremos, mas não muito bem. Só que nunca achei que conheceria o Medo em pessoa...
Alex estremeceu. Hearthstone parecia triste, mas não surpreso. Eu me perguntei se ele e Sam tinham encontrado outras deidades menores durante o sofrimento de vinte e quatro horas.
Fiquei feliz por Sam ter sido a primeira, e não eu. Com a minha sorte, eu teria sido desafiado pela Felicidade e precisaria bater nela com a espada até que parasse de sorrir.
Utgard-Loki se virou para Sam com um brilho de admiração nos olhos.
— Acho que não vamos matar você, Samirah al-Abbas, pois fez o que era necessário para vencer. Esta rodada é sua!
Os ombros de Sam murcharam de alívio.
— Então nós provamos que somos dignos? A competição acabou?
— Ah, não, ainda não! — Os olhos do rei se arregalaram. — E nossos quatro outros convidados? Temos que ver se são tão habilidosos quanto você.


2 comentários:

  1. Esse foi tipo a lenda de Odin, Thor e Loke quando foram desafiados por gigantes.

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    1. Na verdade é a historia de Loki, Thor e seus escravos.

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