16 de outubro de 2016

Quarenta e três - Você fica usando a palavra ajuda. Acho que ela não quer dizer o que acha que quer dizer

UTGARD-LOKI NOS acompanhou até os fundos do boliche. Ele nos guiou por um caminho gelado até uma floresta ampla enquanto eu o enchia de perguntas como “Nos caçar? Nos matar? O que está acontecendo?”. Ele só me deu uns tapinhas no ombro e riu, como se fosse uma piada interna nossa.
— Vocês se saíram bem! — disse ele enquanto andávamos. — Normalmente, teríamos convidados sem graça como Thor. Eu digo para ele: “Thor, beba toda essa caneca de hidromel.” Ele só fica tentando e tentando! Nem passa pela cabeça dele que a caneca de hidromel esteja conectada ao oceano e que seja impossível beber tudo.
— Como se conecta uma caneca de hidromel ao oceano? — perguntou Sam. — Não, deixa pra lá. Temos assuntos mais importantes.
— Cinco minutos? — perguntei outra vez.
O gigante bateu nas minhas costas como se estivesse tentando desalojar alguma coisa, talvez minha garganta ou meu coração.
— Ah, Magnus! Tenho que confessar, quando você fez aquela primeira jogada, fiquei nervoso. Mas a segunda... bem, a força bruta jamais funcionaria, mas foi uma boa tentativa. Alex, sua bola quase chegou ao Taco Bell na I-93, ao sul de Manchester.
— Obrigada — disse ela. — Esse era o plano.
— Mas aí, vocês dois destruíram a ilusão! — Utgard-Loki sorriu. — Foi raciocínio de primeira. E, claro, teve também a habilidade do elfo no pinball, o talento do anão com acessórios, Sam acertando a cara do Medo com o machado... parabéns a todos os envolvidos! Vai ser uma honra massacrar vocês quatro no Ragnarök.
Blitzen riu com deboche.
— O sentimento é mútuo. Agora, acho que você nos deve informações.
— Sim, claro.
Utgard-Loki mudou de forma. De repente, o assassino de bodes estava à nossa frente com as peles pretas, a cota de malha suja de fuligem e o elmo de ferro, o rosto coberto pela viseira de um lobo rosnando.
— Dá para tirar a máscara? — pedi. — Por favor.
Utgard-Loki levantou a viseira. Embaixo, o rosto dele era o mesmo de antes, os olhos escuros com um brilho assassino.
— Digam, meus amigos: vocês descobriram o verdadeiro objetivo de Loki?
Hearthstone cruzou a palma de uma das mãos sobre a outra, fechou as mãos em punho e as separou, como se rasgasse uma folha de papel: Destruir.
Utgard-Loki riu.
— Até eu entendi esse sinal. Sim, mestre do pinball, Loki quer destruir seus inimigos. Mas esse não é o objetivo principal dele no momento. — O gigante se virou para Sam e Alex. — Vocês duas são filhas dele. Devem saber.
Samirah e Alex trocaram um olhar pouco à vontade. Elas tiveram uma conversa silenciosa, típica de irmãs: Você sabe? Não, eu achei que você soubesse! Eu não sei; achei que você soubesse!
— Ele levou vocês até o dólmen do draugr — continuou Utgard-Loki. — Apesar dos meus esforços, vocês foram até lá. E...?
— Não tinha martelo nenhum — disse Blitzen. — Só uma espada. Uma espada que eu odeio muito.
— Exatamente.
O gigante esperou que juntássemos as peças. Eu sempre odiava quando os professores faziam isso. Queria gritar: Não gosto de enigmas!
Ainda assim, vi aonde ele queria chegar. A ideia estava se formando na minha cabeça havia muito tempo, eu acho, mas meu subconsciente estava tentando sufocá-la. Eu me lembrei da minha visão de Loki na caverna, amarrado a pilares de pedra com as entranhas endurecidas dos próprios filhos assassinados. Também me lembrei da serpente pingando veneno no rosto dele e do jeito como Loki prometeu: Logo, logo, Magnus!
— Loki quer sua liberdade — adivinhei.
Utgard-Loki inclinou a cabeça para trás e riu.
— Temos um vencedor! Isso mesmo, Magnus Chase. É o que Loki quer há mais de mil anos.
Samirah levantou a mão para descartar a ideia.
— Não, isso é impossível.
— Mesmo assim — disse Utgard-Loki —, a arma que pode libertá-lo está presa às suas costas: a espada Skofnung!
Meu cordão começou a me enforcar, o pingente se esticando pela minha clavícula como se quisesse chegar mais perto de Sam. Jacques devia ter acordado quando ouviu Skofnung. Eu o puxei de volta, o que deve ter feito parecer que eu tinha uma pulga na camisa.
— Isso tudo nunca foi por causa do martelo de Thor — percebi. — Loki quer a espada.
Utgard-Loki deu de ombros.
— Bom, o roubo do martelo foi um bom catalisador. Imagino que Loki tenha sussurrado a ideia no ouvido de Thrym. Afinal, o avô de Thrym já roubou o martelo de Thor, e as coisas não terminaram muito bem para ele. Thrym e a irmã querem se vingar do deus do trovão desde sempre.
— O avô de Thrym?
Eu me lembrei do convite de casamento: Thrym, filho de Thrym, neto de Thrym.
Utgard-Loki ignorou minha pergunta.
— Você pode perguntar a Thor quando o encontrar, e tenho certeza de que isso acontecerá em breve. A questão é que Loki aconselhou Thrym sobre o roubo e montou uma situação em que um grupo de campeões como vocês não teria escolha além de tentar recuperar o martelo... e, no processo, poderia levar para Loki o que ele realmente deseja.
— Espere. — Alex fechou as mãos em concha como se tentasse modelar um pedaço de argila. — Vamos levar a espada para dar a Thrym. Como isso...?
— O dote. — Sam pareceu enjoada de repente. — Ah, sou tão idiota.
Blitz fez uma careta.
— Hã... é verdade que sou anão e não entendo as tradições patriarcais, mas o dote não é uma coisa que você dá ao noivo?
Sam balançou a cabeça.
— Eu estava tão ocupada negando que esse casamento pudesse acontecer, tentando não pensar nele, que não me lembrei... das antigas tradições de casamento nórdicas.
— Que também são as tradições dos gigantes — concordou Utgard-Loki.
Hearthstone fungou como se estivesse desalojando alguma coisa desagradável do nariz. Ele soletrou: m-u-n-d-r?
— Sim, o mundr — disse Sam —, o termo do norueguês antigo para dote. Não vai para o noivo. Vai para o pai da noiva.
Paramos no meio do bosque. Atrás de nós, o Pistas de Boliche Utgard quase não era mais visível, com a placa de néon iluminando os troncos das árvores com luz vermelha e dourada.
— Você quer dizer que ao buscarmos a espada e a pedra Skofnung — falei —, estávamos o tempo todo recolhendo presentes para Loki?
O gigante riu.
— É engraçado, exceto pelo fato de que Loki quer se libertar para matar todo mundo.
Sam se encostou na árvore mais próxima.
— E o martelo... é o presente matinal?
— Exatamente! — concordou o gigante. — O morgen-gifu.
Alex inclinou a cabeça.
— O que-tofu?
Hearthstone sinalizou: Presente para a noiva, dado pelo noivo. Só é dado quando o casamento está... Os dedos dele hesitaram. Consumado. Na manhã seguinte.
— Acho que vou vomitar — disse Samirah.
Traduzi as palavras de Hearth para Alex.
— Então o martelo iria para você... — Alex apontou para Sam. — Hipoteticamente, se você fosse a noiva, o que não vai acontecer. Mas só depois da noite de núpcias, então... É, acho que também vou vomitar.
— Ah, mas ainda pode ficar pior! — disse o gigante, alegre demais. — O presente matinal pertence à noiva, mas é mantido pela família do noivo. Portanto, mesmo que você se case e recupere o martelo de Thor...
— O martelo continua com Thrym — falei. — Os gigantes fazem uma aliança continuam com o martelo.
— E Loki fica com a espada Skofnung. — Sam engoliu em seco. — Não, ainda não faz sentido. Loki não pode ir em carne e osso ao casamento. O melhor que pode fazer é mandar uma manifestação. O corpo físico continua preso na caverna onde ele foi aprisionado.
— Que é impossível de encontrar — disse Blitzen. — Impossível de chegar.
Utgard-Loki nos deu um sorriso torto.
— Como a ilha de Lyngvi?
Infelizmente, Utgard-Loki tinha razão, e isso me deu vontade de entrar para o grupinho do enjoo de Sam. O local de prisão do lobo Fenrir era um segredo bem guardado entre os deuses, mas isso não nos impediu de fazer uma pequena visita, em janeiro.
— E a espada? — prosseguiu Blitzen. — Por que Skofnung? Por que não Sumarbrander ou outra arma mágica?
— Não tenho certeza — admitiu Utgard-Loki. — Também não faço ideia de como Loki levaria a espada até sua prisão nem como a usaria. Mas ouvi falar que as amarras de Loki são bem difíceis de romper, por serem entranhas endurecidas com ferro, fortes, grudentas e corrosivas. Elas cegam qualquer lâmina, até a mais afiada. Talvez desse para cortar uma das amarras com Sumarbrander, mas depois disso a espada ficaria inútil.
O pingente de Jacques vibrou com tristeza.
Calma, amigão, pensei. Ninguém vai fazer você cortar entranhas endurecidas com ferro.
— O mesmo ocorreria com Skofnung... — Blitzen falou um palavrão. — É claro! A espada tem uma pedra de amolar mágica. Pode ser afiada quantas vezes forem necessárias. É por isso que Loki precisa da espada e da pedra.
O rei gigante bateu palmas devagar.
— Ah, com um pouquinho de ajuda, vocês descobriram. Muito bem!
Blitz e Hearth se entreolharam como quem diz: Agora que juntamos as peças, podemos separá-las novamente?
— Então encontraremos outro jeito de pegar o martelo — falei.
O gigante deu uma risadinha.
— Boa sorte. Mjölnir está enterrado em algum lugar treze quilômetros abaixo da terra, tão fundo e distante que nem Thor consegue alcançar. O único jeito de recuperá-lo é convencendo Thrym a ir buscá-lo.
Alex cruzou os braços.
— Ouvi muitas notícias ruins de você, gigante. Ainda não escutei nada que pudesse chamar de útil.
— Conhecimento é sempre útil! — rebateu Utgard-Loki. — Mas, na minha opinião, há apenas duas opções viáveis para derrotar Loki. Primeira opção: eu mato todos vocês e pego a espada Skofnung, impedindo que ela caia nas mãos erradas.
Sam levou a mão ao machado.
— Não estou gostando da primeira opção.
O gigante deu de ombros.
— Bom, é simples e eficiente. Não recupera o martelo, mas, como falei, não ligo para isso. Minha preocupação principal é manter Loki preso. Se ele se libertar, o Ragnarök vai começar agora, e eu ainda não estou pronto. Temos a noite das moças no boliche na sexta-feira. O fim do mundo estragaria isso.
— Se quisesse nos matar já teria feito isso — observei.
Utgard-Loki sorriu.
— Eu sei! Estou me segurando tanto! Mas, meus pequeninos amigos, existe uma opção mais arriscada, porém com uma recompensa maior. Eu estava esperando para ver se vocês seriam capazes de executá-la. Depois do seu desempenho nas competições, acho que são.
— Todos aqueles desafios... — disse Sam. — Você estava nos testando para ver se éramos dignos ou não de ficarmos vivos?
Hearthstone fez alguns sinais que decidi não traduzir, embora o significado parecesse bem claro para Utgard-Loki.
— Calma, calma, mestre do pinball — disse o gigante. — Não precisa ficar mal-humorado. Se eu deixar vocês em liberdade e se conseguirem vencer Loki no jogo dele, tenho as mesmas recompensas, além da satisfação de saber que o deus da traição foi humilhado com minha ajuda. Como posso ter mencionado, nós, gigantes das montanhas, amamos humilhar nossos inimigos.
— E, por elaborar essa humilhação — disse Alex —, você ganha o respeito dos seus seguidores.
Utgard-Loki fez uma reverência modesta.
— Talvez no caminho vocês consigam o martelo de Thor de volta. Talvez, não. Eu não ligo. Na minha opinião, o martelo de Thor não passa de uma quinquilharia asgardiana, e podem contar a Thor que eu disse isso.
— Eu não contaria — confessei —, mesmo que soubesse o que isso quer dizer.
— Me deixem orgulhoso! — disse Utgard-Loki. — Encontrem um caminho para mudar as regras do jogo de Loki, como fizeram hoje em nosso festival. Tenho certeza de que vocês conseguem elaborar um plano.
— Essa é a segunda opção? — perguntou Alex. — “Se virem”? Essa é toda a sua ajuda?
Utgard-Loki levou as mãos ao peito.
— Estou magoado. Dei tanto a vocês! Além do mais, nossos cinco minutos acabaram.
Um BUM reverberou pela floresta, o som de portas de bar sendo escancaradas, seguido do rugido de gigantes enfurecidos.
— Corram, pequeninos! — disse Utgard-Loki. — Procurem Thor e contem para ele o que descobriram. Se meus súditos pegarem vocês... Bem, infelizmente, eles são muito fãs da primeira opção!


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