16 de outubro de 2016

Quarenta e quatro - Somos honrados com runas e cupons

JÁ FUI PERSEGUIDO por valquírias. Já fui perseguido por elfos com armas de fogo. Já fui perseguido por anões com um tanque. Agora, para a minha sorte, eu estava sendo perseguido por gigantes com gigantescas bolas de boliche.
Qualquer dia desses, eu gostaria de sair de um mundo sem estar sendo perseguido por uma multidão furiosa.
— Corram! — gritou Blitz, como se essa ideia não tivesse nos ocorrido.
Nós cinco corremos pela floresta, pulando árvores caídas e raízes emaranhadas. Atrás de nós, os gigantes ficavam maiores a cada passo. Em um momento, eles tinham três metros de altura. No seguinte, pareciam ter seis.
Senti como se estivesse sendo perseguido por uma onda gigante. A sombra deles caiu sobre nós, e me dei conta de que não havia esperança.
Blitzen nos deu alguns segundos extras. Com um palavrão, ele jogou a bolsa Courovazio para trás e gritou:
— Senha!
A multidão de gigantes viu de repente o caminho bloqueado pela aparição da montanha Bolsa de Boliche, mas em questão de instantes eles ficaram altos o suficiente para transpor aquela barreira. Logo seríamos pisoteados. Nem Jacques podia lutar contra tantos gigantes.
Hearthstone saiu em disparada, gesticulando freneticamente: Venham! Ele apontou para uma árvore com galhos finos e amontoados de frutinhas vermelhas amadurecendo na folhagem verde. O chão embaixo estava coberto de pétalas de flores brancas. A árvore definitivamente se destacava entre os pinheiros enormes de Jötunheim, mas não entendi por que Hearth estava tão ansioso para morrer naquele local específico.
De repente, o tronco da árvore se abriu como uma porta. Uma moça saiu por ela e chamou:
— Venham por aqui, heróis!
Ela tinha feições élficas delicadas e longos cabelos dourados, cheios e lustrosos. O vestido laranja-avermelhado era preso no ombro com um broche verde e prateado.
Meu primeiro pensamento: É uma armadilha. A experiência na Yggdrasill tinha despertado em mim um medo saudável de pular por portas em árvores. Meu segundo pensamento: a moça parecia uma dríade, os espíritos das árvores que Annabeth descrevera, embora eu não soubesse o que uma dríade estaria fazendo em Jötunheim.
Sam não hesitou. Correu atrás de Hearthstone enquanto a mulher de cabelo louro esticava a mão e gritava:
— Rápido!
Também me pareceu um conselho bem óbvio.
O céu ficou preto como a meia-noite. Olhei para cima e vi a sola de um sapato de boliche do tamanho de um iate, pronta para nos esmagar. A mulher puxou Hearth para dentro da árvore. Sam pulou em seguida, com Alex logo atrás. Blitz estava ficando para trás devido às pernas curtas, então eu o agarrei e pulamos juntos. Na hora que o sapato do gigante desceu, o mundo foi sufocado em escuridão absoluta e silenciosa.
Eu pisquei. Não parecia estar morto. Blitzen se debatia para sair de debaixo do meu braço, então deduzi que ele também não tinha morrido.
De repente, fui cegado por uma luz intensa. Blitz grunhiu de susto. Eu o ajudei a levantar enquanto o anão lutava para colocar o chapéu de safári. Só quando ele estava seguramente coberto foi que olhei ao redor.
Estávamos em uma sala luxuosa que definitivamente não era uma pista de boliche. Acima de nós, uma pirâmide de vidro com nove lados permitia que a luz entrasse. Janelas panorâmicas cercavam a câmara, dando vista para os telhados de Asgard. Ao longe, dava para ver o domo principal de Valhala. Feito de cem mil escudos dourados, parecia a carapaça do tatu mais chique do mundo.
A câmara onde estávamos parecia ser um átrio interno. Ao redor da circunferência havia nove árvores, todas iguais àquela pela qual tínhamos entrado em Jötunheim. No meio, na frente de uma plataforma, uma chama estalava alegremente na lareira. E, na plataforma em si, havia um trono de madeira branca entalhada de forma elaborada.
A mulher de cabelo dourado subiu os degraus e se sentou no trono.
Assim como o cabelo, tudo nela era gracioso, fluido e luminoso. O movimento de seu vestido me fez lembrar um campo de papoulas vermelhas oscilando em uma brisa morna de verão.
— Sejam bem-vindos, heróis — disse a deusa. (Ah, é. ALERTA DE SPOILER. A essa altura, eu já tinha certeza de que ela era uma deusa.)
Hearthstone correu para a frente e ajoelhou-se diante do trono. Eu não o via assim tão impressionado desde... bem, nunca, nem mesmo quando ele esteve cara a cara com o próprio Odin.
Ele soletrou com os dedos: S-I-F.
— Sim, meu querido Hearthstone — disse a deusa. — Eu sou Sif.
Blitz correu até o lado de Hearth e também se ajoelhou. Eu não era muito de me ajoelhar, mas fiz uma reverência para a deusa e consegui não me desequilibrar. Alex e Sam ficaram paradas, parecendo levemente irritadas.
— Minha senhora — disse Sam, com óbvia relutância —, por que nos trouxe para Asgard?
Sif franziu o nariz delicado.
— Samirah al-Abbas, a valquíria. E essa deve ser Alex Fierro, a... nova einherji. — Até os policiais Sunshine e Wildflower aprovariam a expressão de reprovação dela. — Eu salvei a vida de vocês. Não é motivo para gratidão?
Blitz limpou a garganta.
— Minha senhora, o que Sam quis dizer...
— Eu posso falar por mim mesma — interrompeu a valquíria. — Sim, agradeço a ajuda, mas foi em um momento incrivelmente conveniente. Você estava nos vigiando?
Os olhos da deusa brilharam feito moedas debaixo d’água.
— Claro que eu estava vigiando vocês, Samirah. Mas, obviamente, só podia resgatá-los quando tivessem as informações que ajudariam meu marido.
Olhei ao redor.
— Seu marido... é Thor?
Eu não conseguia imaginar o deus do trovão morando em um lugar tão limpo e bonito, com teto de vidro e janelas intactas. Sif parecia tão refinada, tão graciosa, tão improvável de peidar ou arrotar em público.
— Sim, Magnus Chase. — Sif abriu os braços. — Bem-vindos ao nosso lar, Bilskírnir, o renomado palácio Fenda Luminosa!
Ao nosso redor, um coral divino cantou Ahhhhhhh! e se silenciou tão abruptamente quanto havia começado.
Blitzen ajudou Hearthstone a ficar de pé. Eu não entendia nada de etiqueta divina, mas achei que, quando o coral divino terminasse de cantar, você tinha permissão de se levantar.
— A maior mansão de Asgard! — disse Blitzen, maravilhado. — Já ouvi histórias sobre este palácio. E que nome lindo, Bilskírnir!
Outro coral soou. Ahhhhhhh!
— Fenda Luminosa? — Alex nem esperou os anjos terminarem para perguntar: — Você é vizinha da Fenda do Biquíni?
Sif franziu a testa.
— Não gostei de você. Acho que vou mandar essa coisa de volta para Jötunheim.
— Me chama de coisa de novo — rosnou Alex. — Experimenta.
Coloquei o braço na frente dela como proteção, apesar de saber que estava correndo risco de amputação pelo cortador de argila.
— Hã, Sif, você pode nos dizer por que estamos aqui?
Sif pousou o olhar em mim.
— Sim, claro, filho de Frey. Eu sempre gostei do seu pai. Ele é muito bonito.
Ela passou a mão pelo cabelo. De algum modo, tive a sensação de que por bonito Sif estava querendo dizer capaz de provocar ciúme no meu marido.
— Como eu falei — continuou ela —, sou esposa de Thor. Infelizmente, é tudo o que algumas pessoas sabem sobre mim, mas também sou a deusa da terra. Foi uma simples questão de rastrear seus movimentos pelos nove mundos sempre que vocês passavam por uma floresta ou pisavam em grama ou musgo vivos.
— Musgo? — falei.
— Sim, meu querido. Tem até um musgo chamado Cabelo-de-Sif, batizado em homenagem às minhas opulentas madeixas douradas.
O tom dela era arrogante, mas eu não tinha certeza se ficaria tão empolgado de ter um musgo batizado em meu nome.
Hearth apontou para as árvores ao redor do pátio e sinalizou: S-o-r-v-e-i-r-a.
Sif se alegrou.
— Você sabe muito, Hearthstone! A sorveira é mesmo minha árvore sagrada. Posso passar de uma a outra por todos os nove mundos, e foi assim que trouxe vocês para o meu palácio. A sorveira é uma fonte de muitas bênçãos. Você sabia que meu filho Uller fez o primeiro arco e os primeiros esquis de madeira de sorveira? Senti tanto orgulho.
— Ah, sim. — Eu me lembrei de uma conversa que tive com um bode em Jötunheim. (É deprimente poder usar uma frase dessas.) — Otis mencionou alguma coisa sobre Uller. Eu não sabia que ele era filho de Thor.
Sif levou o dedo aos lábios.
— Na verdade, Uller é meu filho com meu primeiro marido. Thor é meio sensível quanto a isso. — Esse fato pareceu agradá-la. — Mas, falando em sorveiras, tenho um presente para nosso feiticeiro elfo!
Das mangas do vestido elegante, ela tirou uma bolsinha de couro.
Hearth quase desmaiou. Ele fez gestos intensos com as mãos que não queriam dizer nada, mas pareciam transmitir a ideia de um gritinho sufocado.
Blitzen segurou o braço dele para firmá-lo.
— É... é uma bolsa de runas, senhora?
Sif sorriu.
— Correto, caro anão bem-vestido. Runas escritas em madeira carregam um poder bem diferente daquelas escritas em pedra. São cheias de vida e flexibilidade. A magia delas é mais suave e maleável. E a madeira da sorveira é a melhor para runas.
Ela chamou Hearthstone para que se aproximasse. Colocou a bolsa de couro nas mãos dele.
— Você vai precisar delas em lutas vindouras. Mas esteja avisado: está faltando uma runa, assim como no seu outro conjunto. Quando uma letra está ausente, a linguagem toda da magia fica enfraquecida. Um dia, você vai ter que recuperar aquele símbolo para atingir todo o seu potencial. Quando fizer isso, venha me ver de novo.
Eu me lembrei da runa herança, que Hearthstone deixou nas pedras no local da morte do irmão. Se Sif era capaz de pular de uma árvore para outra e se comunicar telepaticamente com musgos, eu não entendia por que não podia dar uma nova othala para Hearthstone. Por outro lado, eu não tinha frequentado o curso Magia de Runas com o Pai de Todos: Um Seminário de Fim de Semana.
Hearthstone baixou a cabeça com gratidão. Afastou-se da plataforma, aninhando a nova bolsa de runas como se fosse um bebê embrulhado.
Sam se mexeu, segurando o machado. Ela olhou para Sif como se a deusa pudesse ser o Pequeno Billy disfarçado.
— Lady Sif, é muita generosidade sua. Mas a senhora ia nos contar por que nos trouxe aqui.
— Para ajudar meu marido! — respondeu ela. — Suponho que agora vocês tenham as informações necessárias para encontrar e recuperar o martelo.
Olhei para os meus amigos, me perguntando se alguém tinha um jeito diplomático de dizer pode ser, mais ou menos, não exatamente.
Sif suspirou com uma leve indicação de desdém.
— Ah, sim, entendo. Primeiro vocês querem discutir a questão do pagamento.
— Hã — falei —, não era bem isso...
— Só um momento. — A deusa passou os dedos pelo cabelo comprido, como se estivesse usando um tear. Fios dourados caíram no colo dela e começaram a se trançar, como uma impressora 3-D cuspindo ouro maciço.
Eu me virei para Sam e sussurrei:
— Ela é tipo a Rapunzel?
Sam ergueu as sobrancelhas.
— De onde você acha que veio o conto de fadas?
Em questão de instantes, sem nem bagunçar o penteado, a deusa estava segurando um pequeno troféu dourado. Ela o levantou com orgulho.
— Cada um vai ganhar um deste!
No alto do troféu havia uma réplica dourada pequenininha do martelo Mjölnir. Na base estava escrito: PRÊMIO DE VALOR POR RECUPERAR O MARTELO DE THOR. E, com letras menores que tive que estreitar osolhos para ler: O PORTADOR TEM DIREITO A UMA ENTRADA EXTRA GRATUITA NA COMPRA DE UMA ENTRADA DE IGUAL VALOR NOS RESTAURANTES PARTICIPANTES DE ASGARD.
Blitzen soltou um gritinho.
— Que incrível! Que habilidade! Como...?
Sif sorriu, satisfeita.
— Bom, como meu cabelo original foi substituído por cabelo mágico de ouro maciço depois daquela peça horrível que Loki pregou em mim — o sorriso dela azedou quando ela olhou para Alex e Sam — um benefício é que consigo tecer meus cabelos extras em vários itens de ouro maciço. Sou responsável por pagar os funcionários da casa, inclusive heróis como vocês, com prêmios assim. Thor é um fofo. Ele aprecia tanto minhas habilidades que me chama de esposa-troféu.
Eu pisquei.
— Uau.
— Não é? — Sif ficou vermelha. — De qualquer modo, quando seu trabalho for concluído, vocês vão ganhar um troféu cada.
Blitzen esticou a mão para o modelo, ansioso.
— Entrada de graça para... para qualquer restaurante participante?
Eu estava com medo de ele chorar de alegria.
— Sim, querido — disse a deusa. — Agora, como vocês planejam recuperar o martelo?
Alex tossiu.
— Hã, na verdade...
— Não importa, não me contem! — Sif levantou a mão como se quisesse bloquear o rosto de Alex. — Prefiro deixar os detalhes com os ajudantes.
— Os ajudantes — repetiu Alex.
— Sim. Sua primeira tarefa vai ser complicada. Seja qual for a notícia que vocês têm, terão que dá-la ao meu marido. O elevador está ali. Vocês vão encontrá-lo na, como é que ele chama? No espaço masculino dele. Estejam avisados, Thor anda de péssimo humor.
Sam batucou com os dedos na cabeça do machado.
— E você não poderia dar nosso recado para ele?
O sorriso de Sif endureceu.
— Ah, não, claro que não. Agora, vão, andem logo. E tentem não deixar Thor furioso. Não tenho tempo de contratar outro grupo de heróis.


9 comentários:

  1. Esposa-troféu serio???!!!

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  2. Não gostei dessa Sif. Como uma deusa da guerra pode parecer tão delicada e, bem, fútil?
    Por outro lado, ela foi tão amorzinho presenteando Hearth...

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    1. Delicada em momentos assim mas eu aposto que se fosse em batalha ela ia dar porrada em todo mundo

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  3. Essa Sif tá meio zuada, afinal, ela não é uma deusa da guerra? Tá parecendo a vaca... digo... Hera.

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    1. Verdade, ela está muito Hera.
      Prefiro mil vezes a Sif da Marvel (ao lado do Thor). O Loki eu acho um pouco mais difícil de escolher o melhor...

      Ass.: Mutta Chase Hayes

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  4. "— Como eu falei — continuou ela —, sou esposa de Thor. Infelizmente, é tudo o que algumas pessoas sabem sobre mim, mas também sou a deusa da terra"

    Só eu fiquei com uma raiva instantânea por ter pensado em Gaia?

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  5. Por esses comentários, vejo que as pessoas são bem rápidas para julgar quem nem entendem...

    Eu até amava Sam e Alex, mas depois desse capitulo, com essa atitude grosseira sem razão alguma, ainda mais com quem lhes salvou a vida...

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  6. "— Fenda Luminosa? — Alex nem esperou os anjos terminarem para perguntar: — Você é vizinha da Fenda do Biquíni?
    Sif franziu a testa.
    — Não gostei de você. Acho que vou mandar essa coisa de volta para Jötunheim.
    — Me chama de coisa de novo — rosnou Alex. — Experimenta."

    KKKKKKKKKKKKKKKKKK

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  7. Sif me lembra uma mistura de Va...Digo Hera,Afrodite,Freya e Gaia(o melhor lado dela).

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