16 de outubro de 2016

Quarenta e oito - Todos a bordo do Expresso Mexicano

A ÚNICA COISA hostil no estacionamento do Taco Bell era Marvin, que estava dando uma bronca no irmão, Otis.
— Muito obrigado por nos transformar em sanduíches de bode, seu idiota! — gritou Marvin. — Você sabe quanto precisa irritar Thor para ele nos comer dessa maneira?
— Ah, olhe. — Otis apontou com os chifres em nossa direção. — São nossos passageiros.
Ele disse a palavra passageiros como se dissesse executores. Acho que, para Otis, elas costumavam ser sinônimos.
Os dois bodes estavam presos à carruagem, estacionada ao lado da pista de drive-thru do restaurante. As coleiras tinham sinos dourados que tocavam alegremente quando Otis e Marvin balançavam a cabeça. A carruagem em si estava decorada com flores amarelas e brancas que não mascaravam o cheiro de suor de deus do trovão.
— Oi, pessoal. — Acenei para os bodes. — Vocês estão tão festivos.
— É — resmungou Marvin. — Estou me sentindo muito festivo. Já sabe para onde vamos, humano? O cheiro de burrito está me deixando enjoado.
Conferi o convite mais uma vez. A linha do onde agora dizia: SIGA PARA BRIDAL VEIL FALLS. VOCÊ SÓ TEM CINCO MINUTOS.
Li duas vezes para ter certeza de que não estava imaginando coisas. Eu estava certo no meu palpite. Tio Randolph devia mesmo estar tentando me ajudar. Agora tínhamos uma chance de contrabandear uns penetras divinos.
Por outro lado, não dava mais para evitar o casamento. Eu tinha ganhado em uma loteria cujo grande prêmio era uma viagem só de ida para a fortaleza de um gigante da terra malvado com potes de picles, garrafas de cerveja e morte. Eu duvidava que ele fosse honrar os cupons do troféu de Sif.
Mostrei o convite para os bodes e para as garotas.
— Então você estava certo — disse Sam. — Talvez Thor...
— Shhh — avisou Alex. — De agora em diante, acho que devemos supor que Loki esteja nos vigiando.
Não foi um pensamento alegre. Os bodes olharam ao redor, como se Loki pudesse estar escondido ali perto, possivelmente disfarçado de um grande burrito.
— É — disse Marvin, um pouco alto demais —, acho que Thor... vai ficar triste, já que não tem como ele ir para Bridal Veil Falls com um esquadrão de ataque em apenas cinco minutos, já que acabamos de receber essa informação e estamos com uma desvantagem enorme! Droga!
As habilidades de disfarce dele eram quase tão refinadas quanto as de Otis. Eu me perguntei se os dois bodes tinham sobretudos, chapéus e óculos escuros iguais.
Otis balançou os sinos com alegria.
— É melhor seguirmos logo para a morte. Cinco minutos não é muito tempo, até para a carruagem de Thor. Subam a bordo.
Subir não era possível para Sam e Alex, com seus vestidos de casamento. Tive que levantá-las, o que não deixou nenhuma das duas feliz, a julgar pelos resmungos e xingamentos por trás dos véus.
Os bodes partiram galopando a toda... ou o que quer que bodes façam. Trotar? Desfilar? No final do estacionamento, a carruagem levantou voo. Tilintamos conforme decolávamos do restaurante, como o trenó do Papai Taco, levando burritos para todos os meninos, meninas e gigantes bonzinhos.
Os bodes ganharam velocidade. Atravessamos uma nuvem a mil e quinhentos quilômetros por hora, a névoa fria molhando meu cabelo e fazendo os babados da minha camisa murcharem. Desejei ter um véu, como Sam e Alex, ou pelo menos óculos de proteção. Imaginei se Jacques podia se mover como um limpador de para-brisa.
De repente, começamos a descer com a mesma rapidez com que subíramos. Abaixo de nós estavam as Montanhas Brancas e seus cumes cinzentos com veios brancos onde a neve se agarrava nas fendas.
Otis e Marvin mergulharam em direção a um dos vales, deixando meu estômago nas nuvens. O cavalo Stanley aprovaria. Sam não aprovou. Ela se segurou e murmurou:
— Mais devagar, pessoal. Cuidado com a velocidade de aproximação.
Alex deu uma risadinha debochada.
— Não tente pilotar do banco de trás!
Pousamos em uma ravina na floresta. Os bodes seguiram em frente, com neve sendo espirrada pelas rodas da carruagem como sorvete. Otis e Marvin não pareceram se importar. Eles seguiram em frente, tilintando e exalando vapor, nos levando mais fundo nas sombras das montanhas.
Fiquei olhando para os cumes acima de nós, tentando ver algum aesir e algum einherji escondidos na vegetação, prontos para ajudar se alguma coisa desse errado. Eu teria adorado ver o brilho do rifle de T.J. ou o rosto pintado de berserker de Mestiço ou ouvir alguns xingamentos em gaélico de Mallory. Mas a floresta parecia vazia.
De repente, me lembrei do que Utgard-Loki tinha dito: nos matar e pegar a espada Skofnung seria muito mais fácil do que nos deixar seguir em frente com os planos do casamento.
— Ei, pessoal... como podemos saber que Thrym não é fã, vocês sabem, da opção número um?
— Ele não nos mataria — disse Sam. — A não ser que precise. Thrym deseja essa aliança com Loki, o que significa que ele precisa de mim, quer dizer, precisa dela, Samirah.
Sam apontou para Alex.
Marvin balançou os chifres, como se tentasse soltar os sinos.
— Vocês estão com medo de alguma emboscada? Não temam. Festas de casamento têm passagem segura garantida.
— Verdade — disse Otis. — Se bem que os gigantes sempre podem nos matar depois da cerimônia, eu espero.
— Você quer dizer que acha — disse Marvin. — Não que espera.
— Hã? Ah, é.
— Vamos fazer silêncio agora — resmungou Marvin. — Não queremos provocar uma avalanche.
A possibilidade de uma avalanche no meio da primavera parecia pequena. Não havia tanta neve nos picos das montanhas. Mesmo assim, depois de tudo pelo que tínhamos passado, seria burrice morrermos enterrados embaixo de uma tonelada de detritos gelados com um smoking tão estiloso.
Finalmente, a carruagem se aproximou de um penhasco com uns dez andares de altura. Folhas de gelo cobriam as pedras feito uma cortina de açúcar. Embaixo, a cachoeira estava lentamente voltando à vida, gorgolejando, se movendo e pulsando de luz.
— Bridal Veil Falls — disse Alex. — Escalei aqui algumas vezes.
— Mas não usando um vestido de noiva, eu acho.
Ou eu espero? Otis me deixou confuso.
— O que a gente faz agora? — perguntou Sam.
— Bom, faltam quatro minutos — disse Marvin. — Não estamos atrasados.
— Seria uma pena se perdêssemos a passagem. (Tenho quase certeza de que isso era um espero.)
Bem nessa hora, o chão rugiu. A cachoeira pareceu se esticar, acordar do sono de inverno, soltando pedaços de gelo que se quebraram e caíram no riacho abaixo. A face do penhasco se abriu no meio, e a água chegou para os lados, revelando a boca de uma grande caverna.
Da escuridão surgiu uma giganta. Ela tinha uns dois metros de altura – era até baixinha para uma giganta. Usava um vestido todo costurado de peles brancas, o que me deixou triste pelos animais, provavelmente ursos-polares, que deram a vida por aquela roupa. O cabelo branco da giganta estava trançado dos dois lados do rosto, e eu desejei que ela tivesse um véu, porque, eca. Os olhos saltados eram do tamanho de laranjas. O nariz parecia ter sido quebrado várias vezes. Quando sorriu, os lábios e os dentes dela tinham manchas pretas.
— Olá! — Ela tinha a mesma voz grave de que eu me lembrava do meu sonho.
Eu me encolhi involuntariamente, com medo de ela derrubar meu pote de picles.
— Eu sou Thrynga! — continuou a giganta —, princesa dos gigantes da terra, irmã de Thrym, filho de Thrym, neto de Thrym! Estou aqui para receber minha nova cunhada.
Alex se virou para mim. Eu não conseguia ver o rosto dela, mas o som estalado que ecoou do fundo da garganta parecia querer dizer: Abortar missão! Abortar missão!
Sam fez uma reverência. Falou com um tom mais agudo do que o habitual.
— Obrigada, Thrynga! Samirah está encantada por estar aqui. Sou sua madrinha...
— Prudence — sugeri.
Sam se virou para mim, e o olho dela tremeu acima do lenço de bandida.
— Sim... Prudence. E este é...
Antes que ela pudesse se vingar me chamando de Clarabelle ou Horatio Q. Pantaloons, eu me adiantei:
— Magnus Chase! Filho de Frey e portador do dote da noiva. É um prazer conhecê-la.
Thrynga lambeu os lábios manchados. Falando sério, eu me perguntei se ela sugava canetas esferográficas quando estava de bobeira.
— Ah, sim — disse ela. — Você está na lista de convidados, filho de Frey. E essa é a espada Skofnung que você carrega? Muito bom. Eu fico com ela.
— Não até a troca de presentes durante a cerimônia — falei. — Queremos seguir as tradições, não queremos?
Os olhos de Thrynga tinham um brilho perigoso... e cheio de ganância.
— Claro. As tradições. E, falando nisso...
Das mangas de urso-polar ela tirou uma espátula enorme de pedra. Tive um breve momento de terror ao me perguntar se gigantes costumavam bater nos convidados de casamento.
— Vocês não se importam se eu fizer uma rápida verificação de segurança, não é mesmo? — Thrynga passou o detector pelos bodes. Em seguida, inspecionou a carruagem e nós. — Ótimo. Nenhum aesir nas redondezas.
— Meu terapeuta diz que Marvin tem complexo de deus — disse Otis. — Mas acho que isso não conta.
— Cale a boca, senão vou acabar com você — resmungou Marvin.
Thrynga franziu a testa enquanto observava a carruagem.
— Esse veículo parece familiar. Tem até um cheiro familiar.
— Ah, você sabe — falei —, lordes e ladies costumam andar de carruagem para ir a casamentos. Esta é alugada.
— Hum... — Thrynga puxou os fios brancos de barba que tinha no queixo. — Acho que sim... — Ela olhou novamente para a espada Skofnung nas minhas costas, um brilho ganancioso nos olhos. Fez sinal para a entrada da caverna. — Por aqui, pequenos humanos.
Não achei justo ela nos chamar de pequenos. Thrynga só tinha dois metros, afinal de contas. A giganta baixinha entrou na caverna, e nossos bodes foram atrás, puxando a carruagem direto pelo meio da cachoeira interrompida.
O túnel era arredondado e mal tinha espaço para as rodas da carruagem. O chão era coberto de gelo, e a descida era tão íngreme que fiquei com medo de Marvin e Otis escorregarem e nos arrastarem para o vazio. Mas Thrynga não pareceu ter dificuldade para manter o equilíbrio.
Havíamos percorrido uns quinze metros de túnel quando ouvi a entrada da caverna se fechando atrás de nós.
— Ei, Thrynga, não devíamos deixar aquela cachoeira aberta? Como vamos sair depois da cerimônia?
A giganta me deu um sorriso manchado.
— Sair? Ah, eu não me preocuparia com isso. Além do mais, temos que deixar a entrada fechada e o túnel se movendo. Não íamos querer que ninguém interferisse nesse dia tão feliz, não é mesmo?
A gola do meu smoking estava encharcada de suor. Quanto tempo a entrada do túnel tinha ficado aberta depois que nós passamos? Um minuto? Dois? Thor e os outros conseguiram entrar? Eles estavam lá? Não ouvi nada atrás de nós, nem um peidinho discreto, então era impossível saber.
Meus olhos pareciam estar saltando das órbitas. Meus dedos tremiam. Eu queria falar com Alex e Sam, elaborar planos de contingência para o caso de as coisas darem errado, mas não podia fazer isso com a giganta Thrynga bem na nossa frente.
Enquanto andava, a giganta tirou uma castanha do bolso do vestido. Começou a jogar distraidamente o fruto para o alto e a pegar de volta. Pareceu um amuleto esquisito para um gigante. Por outro lado, eu tinha uma runa que virava espada, então não podia criticar.
O ar ficou mais frio e mais denso. O teto de pedra parecia nos pressionar. A sensação era de que estávamos deslizando para o lado, mas eu não sabia se era por causa do gelo ou do túnel se movendo na terra ou do meu baço pressionando a lateral do corpo, tentando escapar.
— Até onde esse túnel vai? — Minha voz ecoou nas paredes de pedra.
Thrynga riu e virou a castanha nos dedos.
— Tem medo do subterrâneo, filho de Frey? Não se preocupe. Só vamos descer mais um pouco. Claro que o túnel em si vai até Helheim. A maioria das passagens subterrâneas acaba indo para lá.
Ela parou para me mostrar as solas dos sapatos, cheios de ferrinhos pontudos.
— Gigantes e bodes estão mais bem-equipados para uma estrada assim. Vocês, pequeninos, perderiam o equilíbrio e deslizariam até o Muro de Cadáveres. Não podemos permitir isso.
Pela primeira vez, eu concordei com a giganta.
A carruagem seguiu em frente. O cheiro das guirlandas de flores ficou mais doce e mais frio e me lembrou a casa funerária onde meu corpo mortal foi exposto em um caixão. Eu esperava não precisar de um segundo funeral. Se precisasse, me perguntei se seria enterrado ao lado do meu próprio corpo.
A ideia de “mais um pouco” de Thrynga eram mais quatro horas de viagem. Os bodes não pareceram se importar, mas eu estava ficando louco de frio, ansiedade e tédio. Só tinha tomado uma xícara de café e comido alguns pedaços de donuts no palácio de Sif naquela manhã. Agora, estava com fome e tenso. Fui reduzido a um estômago vazio, nervos em frangalhos e uma bexiga cheia. Não vimos estações de serviço nem paradas de descanso no caminho. Nem mesmo um arbusto. As garotas também deviam estar sofrendo. Elas ficavam se mexendo e se balançando.
Finalmente, chegamos a uma bifurcação no túnel. O caminho principal continuava pela escuridão gelada. Mas, à direita, um corredor curto terminava em um conjunto de portas de carvalho com rebites de ferro e aldravas no formato de cabeça de dragão.
O capacho dizia ABENÇOE ESTA CAVERNA!
Thrynga sorriu.
— Chegamos, pequeninos. Espero que estejam animados.
Ela abriu as portas, e nossa carruagem passou... e entrou no bar de Cheers.


4 comentários:

  1. Doce-filha da Atena21 de outubro de 2016 20:10

    um casamento no bar,nada estranho

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  2. Thrym thrym thrym, alguém ligou pra mim

    Sou eu o gigante de terra e o martelo eu vou roubar, aqui debaixo da terra ele eu vou levar

    Você vai atolar ele na areia?

    Não não, vou enterrar


    Desculpa, eu tinha que fazer a piada com o "Thrym filho de Thrym neto de Thyrim"

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  3. Acho q só eu pensei em shippar Contracorrente e Jacques

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    Respostas
    1. Q '-' não tinha pensado isso até agr

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