16 de outubro de 2016

Quarenta e nove - Thrym!

DE REPENTE, SEGUIR a estrada para Helheim não pareceu tão ruim.
Não era surpresa que a casa de Thrym me fosse tão familiar quando a vi pelo pote de picles no sonho. O local era uma réplica quase perfeita do Bull & Finch Pub, a inspiração para a velha série de TV Cheers.
Como ficava em frente ao parque Public Garden, eu já tinha ido algumas vezes ao pub quando era sem-teto, para me aquecer em um dia frio de inverno ou para pedir um hambúrguer a algum cliente. O local estava sempre cheio, e fez sentido ter um equivalente para os gigantes da terra.
Quando entramos, uma dezena de gigantes se viraram em nossa direção e levantaram as canecas de hidromel.
— Samirah! — gritaram eles em uníssono.
Mais gigantes ocupavam as mesas e o bar, comendo hambúrgueres e bebendo hidromel. A maioria dos clientes era um pouco maior do que Thrynga. Estavam vestidos com uma confusão de peças de smoking, peles e armaduras que faziam meu traje parecer superdiscreto.
Olhei o aposento, mas não vi sinal de Loki nem do tio Randolph. Eu não sabia se ficava aliviado ou preocupado com essa situação. Na extremidade mais distante do bar, em um trono de madeira simples debaixo da TV de tela plana, estava o gigante da terra em pessoa: Thrym, filho de Thrym, neto de Thrym.
— Finalmente! — gritou ele com sua voz de morsa.
O rei se levantou cambaleando. Tinha uma semelhança tão grande com o Norm do programa de TV que eu me perguntei se ele recebia algum cachê. O corpo era perfeitamente redondo, enfiado em uma calça preta de poliéster e em uma camiseta vermelha com gravata preta larga. Cabelo fino e encaracolado envolvia o rosto de lua cheia. Ele era o primeiro gigante que eu via sem barba, e desejei que deixasse crescer algum pelo na cara. Sua boca era úmida e rosada. O queixo praticamente não existia. Os olhos vorazes se grudaram em Alex, como se ela fosse um prato apetitoso de cheesebúrgueres.
— Minha rainha chegou! — Thrym bateu na barriga ampla. — Podemos começar as festividades!
— Irmão, você nem trocou de roupa ainda! — gritou Thrynga. — E por que este lugar está tão imundo? Mandei você limpar enquanto eu estivesse fora!
Thrym franziu a testa.
— O que você quer dizer? Nós limpamos. E colocamos gravatas!
— Gravatas! — gritou a multidão de gigantes.
— Seus patifes inúteis! — Thrynga pegou o banco mais próximo e quebrou na cabeça de um gigante qualquer, que desabou no chão. — Desliguem a televisão. Limpem a bancada! Varram o chão! Lavem a cara!
Ela se virou para nós.
— Peço desculpas por esses idiotas. Vou prepará-los rapidamente.
— Tá, tudo bem — respondi, fazendo a dancinha de quem precisa fazer xixi. — A propósito... onde fica o banheiro?
— No final daquele corredor ali. — Thrynga apontou. — Deixe a carruagem. Vou cuidar para que ninguém coma seus bodes.
Ajudei Sam e Alex a saírem da carruagem e andamos em meio ao caos, desviando de esfregões, vassouras e gigantes fedidos enquanto Thrynga andava em meio à multidão, gritando para os clientes se aprontarem rápido para a festa ou ela arrancaria a cabeça deles.
Os banheiros ficavam nos fundos, como era em Cheers. Felizmente, a área estava vazia, exceto por um gigante que desmaiou e estava roncando em uma cabine de canto, com o rosto apoiado em um prato de nachos.
— Estou confusa — disse Alex. — Por que aqui é igual a Cheers?
— Muitos elementos passam de Boston para os outros mundos — explicou Sam.
— Tipo Nídavellir, que parece Southie — falei. — E Álfaheim, que parece Wellesley.
Alex estremeceu.
— Tá, mas eu tenho que me casar em Cheers?
— Conversamos depois — falei. — Banheiro agora.
— É — concordaram as garotas ao mesmo tempo.
Por ser homem e não ter dificuldade por causa de um vestido, eu terminei primeiro. Alguns minutos depois, as garotas reapareceram, com um rabo de papel higiênico preso na barra do vestido de Alex. Eu duvidava que algum dos gigantes fosse reparar ou ligar, mas Sam retirou para ela.
— Vocês acham que nossos amigos conseguiram entrar? — perguntei.
— Espero que sim — disse Alex. — Estou tão nervosa que... URF!
Essa última sílaba pareceu um urso engasgando com uma bala de caramelo. Olhei para a cabine de canto para ter certeza de que o gigante não tinha ouvido. Ele só murmurou baixinho e virou a cabeça no travesseiro de nachos.
Sam deu um tapinha no ombro de Alex.
— Está tudo bem. — Ela me olhou. — Alex virou um gorila no banheiro. Ela vai ficar bem.
— Ela o quê?
— Acontece — disse Sam. — Com metamorfose, se você fica nervoso e perde o foco...
Alex arrotou.
— Estou melhor. Acho que voltei a ser humana agora. Espere... — Ela se balançou dentro do vestido, como se estivesse tentando desalojar uma pedrinha. — É. Tudo bem.
Eu não sabia se ela estava falando sério ou não. Não sabia nem se queria saber.
— Alex, se você mudar de forma sem querer enquanto estiver no meio dos gigantes...
— Não vai acontecer — prometeu ela.
— Só fique quieta — disse Sam. — Você tem que ser a noiva tímida e envergonhada. Deixa que eu falo por você. Siga minhas dicas. Vamos enrolar o máximo possível, com sorte dando tempo suficiente para Th... nossos amigos chegarem.
— Mas onde está Loki? — perguntei. — E meu tio?
Sam ficou em silêncio.
— Não sei. Mas temos que ficar atentos. Quando virmos o mar...
— Aí estão vocês! — Thrynga surgiu no corredor. — Estamos prontos agora.
— Claro! — disse Sam. — Nós só estávamos, hã, falando quanto amamos marisco. Esperamos que tenha mariscos no banquete!
Eu pisquei para ela, como quem diz: Que discreto. Discreto no nível Otis.
Thrynga nos levou de volta ao bar. A julgar pelo cheiro, alguém tinha borrifado uma quantidade absurda de desinfetante de limão. A maior parte do vidro quebrado e dos restos de comida caídos no chão tinha sido varrida. A TV estava desligada, e todos os gigantes estavam de pé perto da parede, em fila, com o cabelo penteado, as gravatas arrumadas e as camisas para dentro das calças.
Em uníssono, eles cantarolaram:
— Boa tarde, srta. Samirah.
Alex fez uma reverência.
A verdadeira Samirah disse:
— Boa tarde, hã, turma. Minha senhora, Samirah, está emocionada demais para falar, mas está muito feliz por estar aqui.
Alex zurrou feito um burro. Os gigantes olharam hesitantes para Thrynga, em busca de uma dica de etiqueta.
O rei Thrym franziu a testa. Ele tinha colocado um paletó preto de smoking com um cravo rosa preso na lapela, que o fez parecer mais elegantemente feio.
— Por que minha noiva zurra como um burro?
— Ela está chorando de alegria — disse Sam rapidamente — porque finalmente viu seu lindo marido!
— Hum. — Thrym passou o dedo pela papada. — Faz sentido. Venha, doce Samirah! Sente-se ao meu lado e vamos começar o banquete!
Alex se sentou na cadeira ao lado do trono de Thrym. Thrynga ficou ao lado do irmão como uma guarda-costas, então Sam e eu ficamos do outro lado de Alex e tentamos parecer solenes. Nosso trabalho parecia consistir basicamente de não comer, desviar a ocasional caneca de hidromel que voava na direção de Alex e ouvir nossos estômagos roncarem.
O primeiro prato foi de nachos. Qual era a coisa dos gigantes com nachos?
Thrynga ficava sorrindo para mim e olhando para a espada Skofnung, ainda presa às minhas costas. Estava claro que ela desejava a arma. Eu me perguntei se alguém tinha dito para a giganta que a espada não podia ser desembainhada na presença de mulheres. Suponho que gigantas contem como mulheres. Eu não sabia o que aconteceria se alguém tentasse desembainhar Skofnung apesar das restrições, mas duvidava que fosse algo bom.
Tente, zumbiu a voz de Jacques na minha mente, como se ele estivesse tendo um sonho agradável. Ah, cara, ela é tão linda.
Volte a dormir, Jacques, disse para ele.
Os gigantes riram e comeram nachos, mas mantiveram um olho em Thrynga, como se para ter certeza de que ela não ia bater neles com um banco de bar por mau comportamento. Otis e Marvin estavam presos nos arreios, como os deixamos. De vez em quando, um nacho perdido voava na direção deles, e um dos bodes o pegava no ar.
Thrym fez o melhor que pôde para seduzir Alex. Ela se encolheu para longe e não disse nada. Só para ser educada, de vez em quando levava um nacho para debaixo do véu.
— Ela come tão pouco! — disse Thrym com preocupação. — Ela está bem?
— Ah, está — assegurou Sam. — Está empolgada demais para ter apetite, Vossa Majestade.
— Hum. — Thrym deu de ombros. — Bem, pelo menos eu sei que ela não é Thor!
— Claro que não! — A voz de Sam subiu uma oitava. — Por que você pensaria isso?
— Séculos atrás, quando Mjölnir foi roubado pela primeira vez pelo meu avô...
— Nosso avô — corrigiu Thrynga, examinando os sulcos na castanha da sorte.
— ...Thor veio disfarçado de noiva para recuperar o martelo. — Os lábios úmidos de Thrym se curvaram como se ele estivesse tentando localizar seus dentes de trás. — Eu me lembro daquele dia, apesar de ser apenas uma criança. A noiva falsa comeu um touro inteiro e bebeu dois barris de hidromel!
— Três barris — disse Thrynga.
— Thor conseguiu se enfiar em um vestido de noiva — disse Thrym —, mas não conseguiu disfarçar o apetite. — O gigante sorriu para Alex. — Mas não se preocupe, Samirah, meu amor! Eu sei que você não é um deus. Sou mais inteligente do que meu avô!
Thrynga revirou os olhos enormes.
— É a minha segurança que impede a entrada dos aesires, irmão. Nenhum deus poderia passar pelas nossas portas sem disparar os alarmes!
— Sim, sim — disse Thrym. — De qualquer modo, Samirah, vocês foram todos examinados magicamente assim que entraram. Você é, como de veria ser, filha de Loki. — Ele franziu a testa. — Se bem que sua madrinha também.
— Nós somos parentes! — disse a verdadeira Sam. — Normal, não é? Uma parente próxima costuma ser madrinha de casamento.
Thrym assentiu.
— É verdade. De qualquer modo, quando o casamento for encerrado, a Casa de Thrym vai recuperar seu antigo status! O fracasso do meu avô vai ficar para trás. Vamos ter uma aliança de casamento com a Casa de Loki! — Ele bateu no peito, fazendo a pança tremer e sem dúvida afogando nações inteiras de bactérias nas entranhas. — Finalmente vou ter minha vingança!
Thrynga virou a cabeça e resmungou:
— Eu vou ter minha vingança.
— O que foi, irmã? — perguntou Thrym.
— Nada. — Ela mostrou os dentes pretos. — Vamos pedir o segundo prato?
O segundo prato era hambúrguer. Muito injusto. O cheiro estava tão bom que meu estômago rolou de um lado para outro, dando ataque de birra.
Tentei me distrair pensando na briga que estava prestes a acontecer. Thrym parecia bem burro. Talvez conseguíssemos mesmo enganá-lo. Infelizmente, ele tinha o apoio de várias dezenas de gigantes da terra, e a irmã dele me preocupava. Dava para perceber que Thrynga tinha um objetivo próprio. Apesar de tentar esconder, de tempos em tempos ela olhava para Alex com ódio assassino. Eu me lembrei de uma coisa que Heimdall a ouvira dizer... que eles deviam matar a noiva assim que ela chegasse. Perguntei-me quanto tempo os aesires levariam para chegar aqui quando o martelo fosse revelado, e se eu conseguiria manter Alex viva por todo esse tempo. Pensei em onde Loki e o tio Randolph estariam...
Por fim, os gigantes terminaram de comer. Thrym arrotou alto e se virou para a futura esposa.
— Finalmente, está na hora da cerimônia! Vamos embora?
Minhas entranhas se encolheram.
— Embora? O que você quer dizer?
Thrym riu.
— Ah, não vamos fazer a cerimônia aqui. Seria grosseria! Os convidados do casamento não estão presentes!
O rei se levantou e se virou para a parede em frente ao bar. Gigantes saíram do caminho e afastaram as mesas e as cadeiras.
Thrym esticou a mão. A parede se abriu, e um novo túnel surgiu pela terra. O ar azedo e úmido lá dentro me lembrou uma coisa que eu não consegui identificar... algo ruim.
— Não. — Sam falou como se a garganta estivesse se fechando. — Não, nós não podemos ir até lá.
— Mas não podemos fazer um casamento sem o pai da noiva! — anunciou Thrym com alegria. — Venham, meus amigos! Minha futura esposa e eu vamos fazer nossos votos na caverna de Loki!


8 comentários:

  1. Meu Deus!! Quando li a parte "...caverna de Loki." meu queixo caiu. N imaginei q isso ia acontecer...

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  2. Puts agora ferrou de vez kkkk, por isso Loki não tava em cena.

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  3. Rick esta ficando meio obviou, deu para perceber que isto ia acontecer no capitulo 37...

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