16 de outubro de 2016

Quarenta e dois - Ou então você pode brilhar muito. Isso também funciona

ALGUMAS PESSOAS GOSTAM de bebidas energéticas. Eu? Acho que a ameaça de decapitação iminente me deixa energizado o bastante.
Em pânico, olhei para os meus amigos. Hearthstone sinalizou: F-R-E-Y.
Sim, Hearth, pensei, ele é meu pai.
Mas de que maneira isso poderia me ajudar, eu não fazia ideia. O deus do verão não ia aparecer em uma explosão de glória para derrubar as Montanhas Brancas para mim. Ele era o deus da natureza. Não daria as caras em um boliche nem morto...
Uma ideia lentamente começou a se formar na minha cabeça. A natureza. As Montanhas Brancas. O poder de Frey. Sumarbrander, a espada de Frey, que era capaz de cortar o véu entre os mundos. E uma coisa que Utgard-Loki tinha falado mais cedo: Até as melhores ilusões têm limite.
— Mortais insignificantes! — gritou Utgard-Loki. — Vocês desistem?
— Não! — gritei em resposta. — Só um segundo.
— Você precisa ir ao banheiro?
— Não! Eu só... preciso falar com minha dupla antes de sermos brutalmente decapitados.
Utgard-Loki deu de ombros.
— Parece justo. Prossiga.
Alex se inclinou na minha direção.
— Me diga que você teve uma ideia.
— Você disse que já foi a Bridal Veil Falls. Foi acampar nas Montanhas Brancas muitas vezes?
— Fui, claro.
— Existe alguma chance de aqueles pinos de boliche realmente serem as Montanhas Brancas?
Ela franziu a testa.
— Não. Não consigo acreditar que alguém seria poderoso o bastante para teletransportar uma cadeia montanhosa inteira até um boliche.
— Concordo. Minha teoria é que... aqueles pinos são só pinos. Os gigantes não poderiam trazer uma cadeia de montanhas para um boliche, mas poderiam mandar nossas bolas de boliche para fora da pista. Tem algum tipo de portal entre os mundos bem no meio da nossa pista. Está escondido por uma ilusão ou sei-lá-o-quê, mas está mandando nossas bolas para New Hampshire.
Alex olhou para o final da pista.
— Bem, se for assim, por que minha bola voltou pela máquina que as devolve para o suporte?
— Não sei! Talvez eles tenham carregado uma bola idêntica na máquina para a gente não reparar.
Alex trincou os dentes.
— Esses meinfretrs trapaceiros. O que podemos fazer?
— Você conhece as Montanhas Brancas. Eu também conheço. Quero que você olhe para a pista e se concentre em ver as montanhas. Se nós dois fizermos isso ao mesmo tempo, talvez a gente consiga deixar o portal visível. Aí, pode ser que eu consiga dissipá-lo.
— Você quer dizer mudando nossa percepção? — perguntou Alex. — Meio como... a cura mental que você fez em Amir?
— Acho que sim... — Eu queria sentir mais confiança no meu plano. O jeito como Alex descreveu me fez parecer um guru da Nova Era. — Mas, olhe, funcionaria melhor se eu segurasse a sua mão. E... não posso prometer que não vou, tipo, descobrir coisas sobre a sua vida.
Vi que ela hesitou, ponderando as opções.
— Então minhas opções são perder a cabeça ou ter você na minha cabeça — resmungou ela. — Escolha difícil. — Alex segurou minha mão. — Vamos lá.
Olhei atentamente para o fim da pista. Imaginei um portal entre nós e os pinos, uma janela com vista para as Montanhas Brancas. Eu me lembrei de como ficava empolgado nas viagens que fazia com minha mãe nos fins de semana, quando ela via as montanhas no horizonte: Olhe, Magnus, estamos chegando!
Conjurei o poder de Frey. Um calor irradiou pelo meu corpo. Minha mão que segurava a de Alex Fierro começou a fumegar. Uma luz dourada brilhante nos envolveu, feito o sol do meio do verão afastando a névoa e destruindo as sombras.
Pelo canto do olho, vi gigantes fazendo careta e protegendo o rosto.
— Parem com isso! — gritou Miúdo. — Vocês estão nos cegando!
Mantive o foco nos pinos de boliche. A luz ficou ainda mais intensa. Pensamentos aleatórios de Alex percorreram minha mente: a luta fatal contra os lobos; um homem de cabelo escuro e roupas de tenista de pé na frente dela, gritando que ela deveria ir embora e nunca mais voltar; um grupo de adolescentes chutando Alex no chão quando ela tinha dez anos, chamando-a de aberração enquanto ela se encolhia, tentando se proteger, apavorada demais para mudar de forma.
A raiva ardeu no meu peito. Eu não sabia se aquela emoção era minha ou de Alex, mas nós dois estávamos cansados de ilusões e fingimentos.
— Ali! — disse ela.
No meio da pista, uma rachadura tremeluzente surgiu, como as que Jacques abria entre os mundos. Do outro lado, ao longe, estava o cume do monte Washington coberto de neve. De repente, o portal desapareceu. A luz dourada sumiu ao nosso redor, deixando uma pista comum com pinos de boliche no final, como antes.
Alex puxou a mão. Rapidamente, secou uma lágrima.
— Nós conseguimos?
Eu não sabia o que dizer.
— Mortais insignificantes! — interrompeu Utgard-Loki. — O que foi isso? Vocês sempre conversam gerando uma luz ofuscante?
— Desculpem! — gritei para a plateia. — Estamos prontos agora!
Pelo menos, eu esperava que estivéssemos prontos. Talvez tivéssemos conseguido apagar a ilusão e fechar o portal. Ou talvez Utgard-Loki só estivesse me permitindo pensar que eu tinha desfeito seu truque. Poderia ser uma ilusão dentro da ilusão. Decidi que não fazia sentido abusar do meu cérebro nos últimos minutos que minha cabeça poderia passar junto ao meu pescoço.
Levantei a bola de boliche. Fui até a linha de falta e joguei aquela bola cor-de-rosa idiota bem pelo centro da pista.
Tenho que dizer que o som dos pinos caindo foi a coisa mais bonita que ouvi o dia todo. (Foi mal, Prince. Você chegou bem perto.)
Blitzen gritou:
— Strike!
Samirah e Hearthstone se abraçaram, coisa que nenhum dos dois costumava fazer.
Alex arregalou os olhos.
— Deu certo? Sério?
Eu sorri para ela.
— Agora você só precisa derrubar todos os seus pinos, e aí nós empatamos. Você tem alguma forma que possa...?
— Ah, não se preocupe. — O sorriso malicioso era cem por cento a mãe dela, Loki. — Pode deixar comigo.
Alex cresceu até um tamanho imenso, os braços se transformando em pernas grossas, a pele ficando cinza e enrugada, o nariz se alongando até virar uma tromba de três metros.
Ela agora era um elefante-africano, apesar de um gigante confuso no fundo da sala ter gritado:
— Ela virou um gato!
Alex pegou a bola de boliche com a tromba. Correu até a linha de falta e jogou a bola, caindo com todo o peso e sacudindo o boliche todo. Além de a bola dela derrubar os pinos, a força da queda obliterou os pinos das doze pistas, tornando Alex o primeiro elefante da história, ao menos que eu soubesse, a marcar trezentos pontos, doze strikes, com um só arremesso.
Eu posso ter dado pulos e batido palmas feito uma garotinha de cinco anos que acabou de ganhar um pônei. (O que eu falei sobre não julgar?) Sam, Hearth e Blitz correram até nós e nos envolveram no maior abraço coletivo do mundo, enquanto a multidão de gigantes olhava com expressão azeda.
Herg e Blerg jogaram os capacetes no chão.
— A gente não tem como bater essa pontuação! — choramingou Herg. — Levem nossas cabeças!
— Os mortais trapacearam! — reclamou Miúdo. — Primeiro, eles encolheram minha bolsa e insultaram Elvis! Agora, desonraram os Perus do Boliche!
Os gigantes começaram a avançar para cima de nós.
— Parem! — Utgard-Loki levantou os braços. — Este boliche ainda é meu, e esses competidores venceram... hã, honestamente, ainda que não de forma justa. — Ele se virou para nós. — O prêmio normal é de vocês. Querem as cabeças de Herg e Blerg?
Alex e eu nos entreolhamos. Concordamos tacitamente que cabeças cortadas não combinariam com a decoração dos nossos quartos no hotel Valhala.
— Utgard-Loki — comecei —, nós só queremos as informações que você prometeu.
O rei olhou para a multidão. Abriu as palmas como quem diz: Fazer o quê?
— Meus amigos, vocês precisam admitir que esses mortais têm coragem. Por mais que tenhamos tentado humilhá-los, foram eles que nos humilharam. E existe alguma coisa no mundo que nós, gigantes das montanhas, respeitamos mais do que a habilidade de humilhar os inimigos?
Os outros gigantes murmuraram em concordância silenciosa.
— Eu quero ajudá-los! — anunciou Utgard-Loki. — Acredito que eles provaram seu valor. Quanto tempo vocês me dão?
Eu não entendi a pergunta, mas os gigantes murmuraram entre si. Miúdo se adiantou.
— Sugiro cinco minutos. Todos a favor?
— Sim! — gritou a multidão.
Utgard-Loki fez uma reverência.
— É mais do que justo. Venham, meus convidados, vamos conversar lá fora.
Quando ele nos guiou pelo bar e pela porta da frente, eu perguntei:
— Hã, o que acontece depois de cinco minutos?
— Hum? — Utgard-Loki sorriu. — Ah, depois disso meus súditos podem caçar e matar vocês. Afinal, vocês realmente os humilharam.


5 comentários:

  1. não estou julgando, magnus kkkkkk

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  2. Não é justo eles serem casados!!! Eles jogaram de forma "correta", merecem viver.

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  3. Mas, olhe, funcionaria melhor se eu segurasse a sua mão. E... não posso prometer que não vou, tipo, descobrir coisas sobre a sua vida.
    Desculpa pra segurar a mão do crush ne Magnus?!

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  4. Eu não sei se fico felizona por ele segurar a mão da Alex/eles ganharem
    Ou se fico tristona por ver o que a Alex sofreu... :')

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