16 de outubro de 2016

Quarenta e cinco - Marias-chiquinhas nunca pareceram tão apavorantes

— SIF É RIDÍCULA — murmurou Alex assim que a porta do elevador se fechou.
— Talvez essa não seja a hora de dizer isso — sugeri —, já que a gente está no elevador dela.
— Se as lendas forem verdade — acrescentou Blitz —, esta mansão tem mais de seiscentos andares. Prefiro não despencar até o porão.
— Tanto faz — resmungou Alex. — E que tipo de nome é Fenda Luminosa?
Um coral de dois segundos de alegria celestial soou nos alto-falantes.
— É um kenning! — disse Blitzen. — Você sabe, tipo Rio de Sangue para o cara da espada Skofnung. Fenda Luminosa...
Ahhhhhhh!
— ... é só um jeito poético de dizer relâmpago, já que Thor é o deus do trovão e tal.
— Não tem nada de poético em Fenda Luminosa — resmungou Alex.
Ahhhhhhh!
Desde que pegou a nova bolsa de runas, Hearthstone ficou ainda mais quieto do que de costume. Estava encostado no canto do elevador, puxando o cordão da bolsa de couro. Tentei chamar a atenção dele, perguntar se estava bem, mas o elfo não me olhou nos olhos.
Quanto a Sam, ela ficava passando a ponta dos dedos pela lâmina do machado, como se previsse que o usaria em breve.
— Você também não gosta de Sif — comentei.
Sam deu de ombros.
— Por que deveria? Ela é uma deusa vaidosa. Não costumo concordar com as pegadinhas do meu pai, mas cortar o cabelo dourado original de Sif... isso eu entendi. Ele queria provar um ponto de vista. Ela se importa com a aparência acima de tudo. A capacidade de tecer coisas com o novo cabelo de metal precioso, aquilo de ser uma esposa-troféu? Tenho certeza de que meu pai também planejou isso. É bem o estilo dele. Mas Sif e Thor são burros demais para entender.
Aparentemente, Hearthstone entendeu. Ele enfiou a bolsa de runas no bolso e sinalizou: Sif é sábia e boa. A deusa de tudo o que cresce. Você... Ele apontou para Sam, fez dois sinais de ok com as mãos, puxou um para longe do outro, como se rasgasse um pedaço de papel, o sinal de injusta.
— Ei, elfo? — disse Alex. — Estou chutando o significado, mas, se você está defendendo Sif, tenho que dizer que estou do lado de Samirah.
— Obrigada — disse Sam.
Hearthstone fez cara feia e cruzou os braços, o equivalente dos surdos a Não quero falar com você agora.
Blitz resmungou.
— Bom, acho que vocês são loucas de falar mal de Sif na casa de Thor quando estamos prestes a ver...
Ding.
A porta do elevador se abriu.
— Belo espaço masculino — falei.
Saímos para uma área parecida com uma oficina. A carruagem de Thor estava suspensa em um elevador hidráulico; as rodas tinham sido removidas, e o que parecia um eixo quebrado estava pendurado. Em um painel na parede havia dezenas de chaves de boca, serras, chaves de fenda e martelos de borracha. Considerei brevemente pegar um dos martelos e sair gritando “Encontrei seu martelo!”. Mas achei que a piada podia não ser bem recebida.
Depois da área da oficina, o porão se abria em uma caverna masculina completa. Havia estalactites penduradas no teto enchendo a caverna com um brilho estilo Nídavellir. A metade dos fundos era um cinema IMAX com duas telas imensas e uma fileira de monitores de plasma menores logo embaixo, para que Thor pudesse ver dois filmes enquanto acompanhava doze canais esportivos diferentes ao mesmo tempo. Porque, sabe como é, o lance era relaxar. As poltronas do cinema eram reclináveis, de couro e pele, com mesinhas feitas de chifres de alces.
À nossa esquerda havia uma cozinha: cinco geladeiras Sub-Zero de aço inoxidável, um forno, três micro-ondas, uma fileira de liquidificadores modernos e uma estação de cortes de carne, que não devia ser o lugar favorito dos bodes dele. No fim de um corredor curto, uma cabeça de carneiro empalhada apontava o caminho dos banheiros com uma placa em cada chifre:
A metade da direita da caverna era quase toda ocupada por jogos de fliperama, a última coisa que eu queria ver depois de Pistas de Boliche Utgard. Felizmente, não tinha boliche ali. A julgar pela mesa enorme que ocupava um lugar de honra bem no meio da caverna, Thor gostava mais de hóquei de ar.
O lugar era tão grande que eu só vi Thor quando ele saiu de detrás da máquina de Dance Dance Revolution. Ele parecia perdido em pensamentos, andando de um lado para outro e murmurando enquanto batia dois rebatedores de hóquei de ar um no outro, como se estivesse se preparando para desfibrilar o coração de alguém. Atrás dele vinham os bodes, Otis e Marvin, mas eles não eram muito ágeis. Cada vez que Thor se virava, colidia com eles e tinha que empurrá-los para longe.
— Martelos — resmungou ele. — Martelos idiotas. Martelos.
Finalmente, ele reparou em nossa presença.
— Ahá!
Thor andou até nós, os olhos injetados e furiosos, o rosto tão vermelho quanto sua barba densa. A armadura de combate consistia de uma camiseta velha do Metallica e um short de academia que exibia as pernas pálidas e peludas. Os pés descalços precisavam urgentemente de uma pedicure. Por algum motivo, o cabelo ruivo desgrenhado estava preso em marias-chiquinhas, mas em Thor o visual ficava mais apavorante do que engraçado. Era quase como se ele quisesse que nós soubéssemos: Posso usar meu cabelo como o de uma garotinha de seis anos e ainda assim matar vocês!
— Quais são as novidades? — perguntou ele.
— Oi, Thor — cumprimentei, com uma voz tão masculina quanto as marias-chiquinhas dele. — Hã, Sumarbrander tem uma coisa para contar.
Puxei o pingente e chamei Jacques. Era covardia me esconder atrás de uma espada mágica falante? Prefiro encarar como estratégia. Eu não poderia fazer nenhum favor a Thor se ele quebrasse minha cara com rebatedores de hóquei de ar.
— Oi, Thor! — Jacques brilhou com alegria. — Oi, bodes! Ah, hóquei de ar! Lugar maneiro, Homem do Trovão!
Thor coçou a barba com um dos rebatedores. O nome do filho dele, Módi, estava tatuado em azul nos dedos. Eu esperava não ver aquele nome mais de perto.
— Sim, sim, oi, Sumarbrander — resmungou Thor. — Mas onde está meu martelo? Onde está Mjölnir?
— Ah. — Jacques brilhou em um tom mais escuro de laranja. Ele não conseguia fazer cara feia, mas virou o fio da lâmina na minha direção. — Então... temos boas notícias. Nós sabemos quem está com o martelo e onde ele está.
— Que ótimo! — bradou o deus.
Jacques se afastou alguns centímetros.
— Mas tem uma notícia ruim...
Otis olhou para o irmão, Marvin, e soltou um suspiro.
— Tenho a sensação de que estamos prestes a ser mortos.
— Pare com isso! — cortou Marvin. — Não dê ideias ao chefe!
— O martelo foi roubado por um gigante chamado Thrym — continuou Jacques. — Ele o enterrou treze quilômetros debaixo da terra.
— Que péssimo!
Thor chocou os rebatedores um no outro. Um trovão ribombou no aposento. TVs de tela de plasma tombaram. Micro-ondas piscaram. Os bodes cambalearam para a frente e para trás, como se estivessem no convés de um navio.
— Eu odeio Thrym! — rugiu o deus. — Odeio gigantes da terra!
— Nós também! — concordou Jacques. — E aqui está Magnus, para contar nosso plano brilhante para recuperar o martelo!
Jacques voou para trás de mim e pairou por ali com grande sabedoria estratégica. Otis e Marvin se afastaram do mestre e se esconderam atrás da máquina de Dance Dance Revolution.
Pelo menos Alex, Sam, Blitz e Hearth não se esconderam, mas Alex me olhou como quem diz: Ei, é o seu deus do trovão.
Então, contei para Thor a história toda: que fomos enganados para irmos até a tumba do draugr para pegar a espada Skofnung, depois corremos para Álfaheim para buscar a pedra Skofnung, subimos na ponte Bifrost para tirar uma selfie com Heimdall e fomos jogar boliche para obter informações com Utgard-Loki. Expliquei as exigências de Thrym para uma aliança com Loki.
De tempos em tempos, eu precisava parar e deixar Thor absorver as notícias andando de um lado para outro, jogando ferramentas e socando as paredes.
Ele precisava de muito tempo para absorver as coisas.
Quando terminei, Thor anunciou sua conclusão sensata:
— Temos que matar todos!
Blitz levantou a mão.
— Ah, sr. Thor, mesmo que nós conseguíssemos levá-lo para perto o bastante de Thrym, matá-lo não ajudaria. Ele é o único que sabe exatamente onde o martelo está.
— Então vamos torturá-lo até ele contar e depois matá-lo! Aí, eu mesmo recupero o martelo!
Alex murmurou:
— Cara legal.
— Senhor — disse Sam —, tortura não é muito eficiente, além de não ser ética, mas mesmo que fizéssemos isso e Thrym dissesse exatamente onde o martelo está, como o senhor o recuperaria de treze quilômetros embaixo da terra?
— Eu abriria caminho quebrando tudo! Com o meu martelo!
Nós esperamos as engrenagens mentais de Thor girarem.
— Ah — disse o deus. — Percebi o problema. Maldição! Sigam-me!
Ele andou até a oficina, jogou para longe os rebatedores e começou a remexer nas ferramentas.
— Deve haver alguma coisa aqui capaz de furar treze quilômetros de pedra maciça.
Ele avaliou uma furadeira, uma fita métrica, um saca-rolhas e o cajado de ferro que quase morremos para recuperar da fortaleza de Geirröd. Thor jogou tudo no chão.
— Nada! — disse ele, contrariado. — Tralhas inúteis!
Talvez você possa usar a cabeça, sinalizou Hearth. É bem dura.
— Ah, não tente me consolar, sr. Elfo — pediu Thor. — É impossível, não é? Eu preciso de martelos para recuperar martelos. E isto... — Ele pegou um martelo de borracha e suspirou. — Não vai adiantar. Estou arruinado! Todos os gigantes logo vão saber que estou indefeso. Vão invadir Midgard, destruir a indústria audiovisual, e eu nunca voltarei a ver minhas séries favoritas!
— Pode haver um jeito de pegar o martelo. — As palavras saíram da minha boca antes de eu pensar no que estava dizendo.
Os olhos de Thor se iluminaram.
— Você tem uma bomba enorme?
— Hã, não. Mas Thrym espera se casar com alguém amanhã, não é? Podemos fingir que vamos cooperar e...
— Esqueça — grunhiu Thor. — Sei o que você vai sugerir. De jeito nenhum! O avô de Thrym me humilhou o suficiente quando ele roubou meu martelo. Não vou fazer aquilo de novo!
— Fazer o quê? — perguntei.
— Usar um vestido de noiva! — bradou Thor. — Fingir ser a noiva do gigante, Freya, que se recusou a se casar com Thrym. Mulher egoísta! Fui desgraçado, humilhado e... Por que você está com esse sorrisinho?
Esse último comentário foi direcionado a Alex, que logo voltou à expressão séria.
— Nada — disse ela. — Só estou... imaginando você de vestido de noiva.
Pairando acima do meu ombro, Jacques soltou um suspiro.
— Ele estava in-crí-vel.
Thor grunhiu.
— Foi tudo ideia de Loki, claro. Deu certo. Eu me infiltrei na fortaleza, peguei meu martelo de volta e matei todos os gigantes... bem, exceto pelas criancinhas, Thrym III e Thrynga. Mas, quando voltei para Asgard, Loki contou a história tantas vezes que me fez passar por ridículo. Ninguém me levou a sério durante séculos! — Thor franziu a testa como se tivesse acabado de pensar em alguma coisa, o que deve ter sido uma experiência dolorosa. — Sabe, aposto que esse era o plano de Loki o tempo todo. Aposto que ele armou o roubo a solução para me fazer passar vergonha!
— Que terrível — disse Alex. — Como era seu vestido de noiva?
— Ah, era branco com gola alta de renda bordada e uma parte em conchas... — A barba de Thor brilhou de eletricidade. — ISSO NÃO É IMPORTANTE!
— Então... — falei. — Esse Thrym, Thrym III, sei lá, está esperando que você tente isso de novo. Ele tomou algumas precauções. Nenhum deus vai passar despercebido. Vamos precisar de uma noiva diferente.
— Ah, que alívio! — Ele sorriu para Samirah. — E agradeço por você se envolver, garota! Ainda bem que não é egoísta como Freya. Devo um presente a você. Vou pedir a Sif para fazer um troféu. Ou talvez você queira sorvete? Tenho alguns no freezer...
— Não, lorde Thor — disse Sam. — Não vou me casar com um gigante por você.
Thor piscou com malícia.
— Certo... Você apenas vai fingir se casar com ele. E, quando ele trouxer o martelo...
— Eu não vou nem fingir — afirmou Sam.
— Eu vou — disse Alex.


10 comentários:

  1. — Eu abriria caminho quebrando tudo! Com o meu martelo!
    Nós esperamos as engrenagens mentais de Thor girarem.
    — Ah — disse o deus. — Percebi o problema. Maldição! Sigam-me!

    — Nada! — disse ele, contrariado. — Tralhas inúteis!
    Talvez você possa usar a cabeça, sinalizou Hearth. É bem dura.
    — Ah, não tente me consolar, sr. Elfo — pediu Thor. — É impossível, não é?


    — Que terrível — disse Alex. — Como era seu vestido de noiva?
    — Ah, era branco com gola alta de renda bordada e uma parte em conchas... — A barba de Thor brilhou de eletricidade. — ISSO NÃO É IMPORTANTE!




    toda vez que o Thor abre a boca sai um zark diferente

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  2. Imagina que louco se a/o Alex entra lá para casar com o Thrym (ou fingir, tanto faz) e sai casada/o com o Magnus?

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  3. Eu sabia q elas iriam fazer isso dês do início! 🤗
    Posso estar toda errada, mas achei q estava meio óbvio - aliás, para mim, ERA a solução óbvia: se a Sam jurou q não iria se casar com ninguém além de Amir, sobraria para a Alex d qualquer jeito.
    E, tecnicamente, assim o dote n iria para Loki, já q ele é a MÃE da Alex. Por isso ele insistiu q a SAM se casasse. 😂😂😂 Mas o probleminha seria o martelo...

    Agora, a questão é: e se a Sam e o Magnus posteriormente se apaixonarem, e ela quiser se casar com ele e n com Amir (eu shippo Magnus❤Alex e Sam💚Amir, mas tudo pode acontecer nesses livros! Principalmente depois dela atiçar as Parcas/Normas com esse voto!)... O q será do juramento?
    N sei como é para os mulçumanos, mas estou levando o juramento ao nível Estige na minha cabeça.
    😬

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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  4. Sabia que a Alex ia fazer isso.
    Por isso mais uma filha de Loki na missão *-*

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  5. . Considerei brevemente pegar um dos martelos e sair gritando “Encontrei seu martelo!”. Mas achei que a piada podia não ser bem recebida.

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  6. — Por que deveria? Ela é uma deusa vaidosa. Não costumo concordar com as pegadinhas do meu pai, mas cortar o cabelo dourado original de Sif... isso eu entendi. Ele queria provar um ponto de vista. Ela se importa com a aparência acima de tudo. A capacidade de tecer coisas com o novo cabelo de metal precioso, aquilo de ser uma esposa-troféu? Tenho certeza de que meu pai também planejou isso. É bem o estilo dele. Mas Sif e Thor são burros demais para entender.


    Oi? Só eu que fiquei indignada com isso?

    Tipo, o que Loki fez raspando o cabelo de Sif, ao meu ver foi uma agressão. Um ato de violência contra uma mulher indefesa.

    Como Sam pode apoiar isso?!

    Ainda mais: COMO PODE O AUTOR PODE DEFENDER UM ATO COVARDE DESSES?

    Quem for mulher e ler isso, responda com sinceridade: Como se sentiriam se alguém raspasse seus cabelos á força?!

    E quem liga se Sif é vaidosa? Uma pessoa não pode ter o direito de ser feliz consigo mesma, de se sentir bonita, por acaso?

    Se a Sam pensa assim, então pq ela não raspa a própria cabeça para provar sua opinião? Duvido que fosse aprovar se fizessem com ela o que Loki fez com Sif.

    Da mesma maneira que não posso perdoar Loki por esse e muitos mais atos brutais, covardes e hediondos, também não posso perdoar Sam nem Rick Riordan por isso.

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    Respostas
    1. Loki ter raspado o cabelo de Sif aconteceu na mitologia, o livro é sobre a mitologia, fim. Hearth e Sam estão brigando desde o início do livro, então o Rick provavelmente acrescentou esse diálogo para dar continuidade à estória.

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