31 de outubro de 2016

Prólogo

Em algum lugar próximo à costa do Maine

Havia apenas uma casa na ilha. O resto era uma floresta de pinheiros, uma visão densa e escura que sombreava a praia durante grande parte dos dias ensolarados de verão. Ela também ocultava a maioria dos edifícios, as três piscinas – a interna, a externa, e a de raias – as quadras de tênis, o heliporto, a pista de pouso e a garagem de quatro vagas para qualquer veleiro de passagem. Apenas turistas se aproximavam. Os moradores não caíam nessa.
Eles sabiam que os homens musculosos de camisetas pretas justas em rápidos barcos infláveis cortariam sua linha de pesca ou gritariam um aviso no megafone que poderia fazer seus tímpanos sangrar.
Eles sabiam das correntes traiçoeiras, também. Sabiam como o vento parecia chicotear através do canal a uma velocidade e ferocidade que você não sentiria no porto. Eles sabiam permanecer longe.
As notas de um violino atravessavam o ar. Uma menina de dezesseis anos observava seus dedos se movimentarem sem errar, as notas deslizando e soando como água pura. O que costumava confundi-la agora fluía. Ela sabia que se trabalhasse em suas habilidades, teria sucesso mesmo que não tivesse talento.
Era o que o seu pai lhe dizia.
O garoto de treze anos de idade acabara de derrotar seu instrutor de tênis profissional em sets consecutivos sem suar a camisa. Ele viu a surpresa no rosto do instrutor. Espere só até o cara descobrir que estava demitido. O pai do menino sempre demitia um instrutor após ele ser derrotado.
Falta a eles instinto assassino, seu pai dizia. Você quer acabar assim?
Ele atirou a bola de tênis com força, fazendo-a passar por cima da rede. O treinador havia se abaixado para pegar sua bolsa, e a bola acertou suas costas. Ai. Aquilo deve ter doído. Ele sabia por experiência própria.
— Nunca dê as costas a um adversário! — o garoto zombou.
Era o que seu pai lhe dizia.
Instinto assassino.
Longe ao mar, um homem nadava, movendo-se de forma tão precisa e incansável quanto uma máquina. Mesmo que possuísse três piscinas, preferia nadar no mar aberto. Este ano, as focas estavam nadando cada vez mais perto da costa. Isto significava, ele sabia, que os grandes tubarões brancos estavam à espreita, movendo-se constantemente a fim de se alimentar.
Acrescentava um... toque especial à atividade.
O homem chegou à doca com diversas braçadas poderosas. Ele se ergueu e caminhou em direção à casa. Um homem baixo mas incrivelmente musculoso metido numa camiseta preta atirou-lhe uma toalha, que ele usou para enxugar o rosto e depois descartou para o chão. Ele não se preocupava com toalhas. Elas seriam apanhadas, lavadas e dobradas novamente. Ele não tinha que ver ou pensar nisso. Estava sempre tendo pensamentos mais profundos, como agora. Pensamentos grandes e complexos o suficiente para abarcar o mundo.
Ele entrou na sala de estar pelas portas duplas. Quase se encolheu ao ver as centenas de olhos vidrados encarando-o. Sua esposa organizava e reorganizava sua coleção. De novo. Ele se apressou, correndo antes que ela tivesse uma chance de falar com ele.
Seu escritório era fresco e silencioso. Ele vestiu um roupão e ativou os muitos monitores transparentes. Dados surgiram neles, e ele absorveu tudo rápida e completamente. As coisas eram tão diferentes agora. Seu pensamento estratégico era quase tão rápido quanto os dados do computador cruzando suas telas.
Quase ali. Tão perto que ele podia tocar.
Só havia duas pessoas vivas no planeta que podiam pará-lo.
Era hora de eliminá-los.

* * *

Em algum lugar perto do Monte Washington, New Hampshire

Na pequena cidade onde os homens de vez em quando buscavam suprimentos, a história era de que eles estavam em um retiro corporativo, testando suas habilidades no deserto. Os homens – eram todos homens – eram extraordinariamente parecidos. Eram todos musculosos e em forma, os cabelos quase raspados. Eles geralmente usavam calças largas e camiseta, ou roupas de caminhada. Eram amigáveis, mas não acessíveis. Depois que saíam, o lojista ou o atendente do posto de gasolina percebiam que era difícil diferenciá-los. Eles tinham nomes comuns: Joe, Frank, John, Mike.
Mais de cem homens entravam e saíam do campo, mas nas últimas quatro semanas, o grupo foi reduzido a seis. Os seis melhores, os seis mais brilhantes, os seis mais confiáveis.
Eles sempre estavam em forma; era o trabalho deles. Mas neste último mês eles tinham duplicado suas forças e, em seguida, duplicaram-nas novamente. Haviam subido a montanha quatorze vezes. Frequentavam aulas de direção ofensiva, vigilância e artes marciais. Eles foram equipados com ternos italianos, sapatos de sola de borracha feitos à mão e casacos com bolsos que manteriam seus armamentos próximos e indetectáveis.
Eles estavam preparados. Só não sabiam para quê.
Tudo o que sabiam era que nunca tinham se sentido tão poderosos. Tão no auge.
Enquanto estavam sentados nas cadeiras duras assistindo uma simulação de fuga de uma área metropolitana, o líder dos homens ouviu o apito de uma mensagem de texto. Ele era o mais alto, e o mais bronzeado. Seus dentes eram muito brancos e alinhados; os verdadeiros tinham sido arrancados em uma briga de bar anos atrás na Córsega. Seu rosto não registrava emoção enquanto ele contava aos outros que estava na hora de se mobilizar. Eles haviam recebido seus alvos.
Ele conectou seu telefone ao computador. Na grande tela transparente surgiram duas fotografias.
— Alvo Um, Alvo Dois — ele falou em um tom monótono.
Os homens não demonstraram emoção. Ainda que os alvos fossem crianças.

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