25 de outubro de 2016

Prólogo - Perdido

Como pude fazer uma coisa tão idiota?, pensou Amon. Deixar a segurança do além em troca da incerteza do mundo dos mortos tinha sido uma decisão ruim, perigosa. Mas sentira que não havia outra opção. Além disso, a morte era o que ele buscava, ainda que, admitia, preferisse uma mais tranquila.
Seguindo pelo caminho de pedras que deveria levar a um refúgio temporário, Amon se perguntou que forma a morte assumiria. Seria engolido por um monstro que iria digeri-lo vagarosamente no correr de séculos? Seria esfolado vivo por uma criatura cuja especialidade fosse fazer um ser humano sofrer? A melhor hipótese em que podia pensar era a da morte por envenenamento. O mundo dos mortos era cheio de criaturas peçonhentas propensas a destruir quem entrasse em seus ninhos.
Ainda que cortejasse a morte, por enquanto Amon não queria sucumbir a ela. Apenas recentemente Lily havia retornado à sua vida mortal e anos se passariam antes que houvesse ao menos uma chance remota de estar com ela outra vez. Tinha prometido encontrá-la no além. Não sabia exatamente como, mas tinha décadas para descobrir um modo. A verdade era que, mesmo se não tivesse conhecido Lily e se apaixonado por ela, teria desistido da missão. Aquilo durava muitos anos. Tempo demais. E a morte não era a pior coisa que ele podia imaginar.
As breves incursões pelo reino dos mortais não eram mais suficientes. Se tivesse se reunido com os irmãos antes do julgamento, eles saberiam o que ele desejava fazer, tentariam convencê-lo a desistir. Por isso saltou antes de vê-los outra vez. Queria mais. Precisava de mais do que apenas uma sombra pálida de vida.
E, assim, tinha abandonado seu dever. Abandonado os irmãos. E agora tinha abandonado os próprios deuses. Haveria um preço a pagar, mas ele não se importava. Lily era a única amarra que ainda o ligava ao caminho por onde andava. A única razão por que não se entregava ao próximo plano de existência. Onde quer que isso fosse. Por isso, lutava para ganhar tempo enquanto esperava.
À medida que os dias passavam, ele despedaçava cada uma das feras furiosas e apavorantes que o desafiavam no mundo dos mortos. Algumas vinham porque ele era imprudente. Outras, Amon suspeitava, eram mandadas como castigo dos deuses. Outras ainda eram atraídas por sua melancolia. Os breves momentos de descanso eram curtos demais. Não importava aonde fosse ou como se esquivasse, os demônios sempre o encontravam.
Apesar de ter deixado o corpo mortal para trás, sua alma desgarrada ainda sentia as angústias da carne. Felizmente suas necessidades eram bem mais escassas do que no mundo humano. Quando sentia sede, implorava presentes aos espíritos que viviam nas árvores. Quando sentia fome, roubava provisões armazenadas pelas criaturas que ele trucidava; e de vez em quando, se nada pudesse ser encontrado e as dores do estômago vazio ficassem insuportáveis, assava os corpos das feras que havia matado.
Quando estava absolutamente exausto dos terrores que tinha provocado contra si e se via em segurança relativa, Amon dormia. Era sempre um sono breve. Sempre entrecortado. Sonhar era a única felicidade que sentia em sua existência horrenda.
A pior parte de vaguear pelo mundo dos mortos não era o ataque interminável de monstros ou os perigos que o ameaçavam com uma segunda morte, dessa vez permanente. Não era a separação dos irmãos, companheiros constantes por milhares de anos. Não era nem mesmo a perda de objetivo que sentia, a ausência de autoconfiança que sempre havia possuído ou o conhecimento de que tinha um lugar no Cosmo, um lugar que, mesmo não sendo satisfatório, ele aceitava.
Não. A pior parte era também a melhor.
Ele podia senti-la.
Lily estava em outro lugar, em outro mundo, e no entanto ele podia se permitir encontrá-la.
Quando tinha certeza de que não havia algum ataque iminente, ele deixava o corpo exausto descansar, fechava os olhos e a via. Essa era a parte que Amon adorava. Podia pairar junto dela como um fantasma. Não podia falar com ela nem tocá-la, e ela não sabia que ele estava ali, pelo menos conscientemente. Mas o subconsciente de Lily podia sentir que ele estava perto, vigiando-a como um anjo da guarda. Essa era uma bênção extraordinária. Mas era também uma maldição.
Amon sabia que uma conexão poderosa como a deles era de mão dupla. Ele tivera esperança deque os dois se encontrassem apenas nos sonhos. Que o elo tivesse sido suficientemente breve para que as mentes roçassem com suavidade uma na outra enquanto dormiam. Mas a ligação era mais forte do que isso. Assim como Amon caminhava com Lily por Nova York, ele sabia que ela também viajava com ele através da sua terra de pesadelos.
A decisão de deixar o paraíso havia provocado consequências terríveis para a garota que ele amava, e, agora que estava no mundo dos mortos, não havia como sair. Os deuses não iriam ajudar; Amon tinha abandonado a causa deles. A morte seria seu único indulto, mas toda vez que pensava que a havia ferido demais e que desistiria, que iria se entregar a qualquer criatura sinistra que estivesse querendo destruí-lo, sentia a presença dela, um apelo inconsciente para continuar tentando, suportar um pouco mais.
Amon buscava respostas para o dilema espiando através do Olho de Hórus, mas as coisas que via o confundiam. Às vezes o Olho o provocava com vislumbres de um futuro possível. Uma saída. Se pudesse resistir o suficiente, sobreviver na forma em que existia no momento até a morte natural de Lily, haveria uma chance de encontrá-la. De que o elo entre os dois os unisse outra vez.
Em outras ocasiões via Lily como uma pessoa estranha, uma criatura totalmente diferente da garota que ele conhecia. Tinha visões de si mesmo torturado e sofrendo abusos. Seus irmãos expressando ciúme e raiva. Os deuses em guerra contra o Caos. Essas imagens não faziam sentido. O Caos seria mantido a distância por mais um milênio. E os deuses não se reuniriam nem mesmo para uma refeição, quanto mais para uma guerra.
A incerteza sentida por Amon era normal. Estava acostumado com as estranhas sombras do passado e do futuro se misturando. O Olho via tudo, mas nada que revelava fazia sentido. Os acontecimentos nunca estavam na ordem correta. Era necessário uma concentração e energia tremendas para fazer com que o Olho mostrasse alguma coisa específica. Para não enlouquecer, Amon passava boa parte do tempo tentando ignorar as visões que inquietavam sua mente. Mas, desde que chegara ao mundo dos mortos, o Olho havia começado a trabalhar de modo intensivo. O gasto enorme de energia quando ele pedia para ver o futuro de Lily valia a pena. As coisas que vislumbrava lhe davam esperança. Esperança de se reencontrarem, de um futuro em que poderia tê-la nos braços.
Havia momentos em que se via segurando o rosto dela, beijando suas pálpebras fechadas, sentindo o gosto de sal das lágrimas que escorriam lentamente pelo rosto dela. Esses lampejos abençoados de felicidade eram tudo que precisava saber. Deixaria o Universo se preocupar com o restante. Talvez fosse egoísmo de sua parte manter a conexão, mas simplesmente não conseguia abandonar Lily. Ainda não. Não enquanto houvesse uma chance.
Embora sentisse que ela provavelmente caminhava pelo mundo dos mortos com ele durante os sonhos, havia ocasiões, ainda que breves, em que ambos dormiam. Nesses momentos era possível se comunicar com ela, mas a mente de Lily sempre o bloqueava: seu corpo ficava tão exausto das provações criadas pela conexão que sua consciência se fechava e ela dormia profundamente.
Quando isso acontecia, ele não pressionava. Ela precisava descansar, e, por mais que Amon quisesse falar com ela, não fazia sentido. Sua fraqueza condenara os dois a esse destino. Se ao menos a tivesse amado o bastante no início para deixá-la em paz, ou se a tivesse mandado embora mais cedo, talvez nada disso tivesse acontecido.
Claro, sem Lily era bem possível que ele e seus irmãos estivessem mortos e o mundo, dominado pelo Caos. Mesmo assim, se tivesse sido um pouco mais vigilante em relação às próprias emoções, ela não estaria sofrendo. Seria apenas outra garota humana, uma dentre as bilhões que existem no mundo. Ninguém importante, e certamente ninguém em quem os deuses prestariam atenção.
Ninguém, a não ser ele.
Amon suspirou. A verdade era que, enquanto Lily fosse dona do seu coração, ele lutaria. Tinha uma obrigação para com ela; se Lily queria que ele fosse em frente, ele daria um jeito.

2 comentários:

  1. Ai q emoção kkkkk tava louca pra ler esse livro!!!
    Obrigada karina!

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  2. Força casal!!!!
    Ass:bia

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