21 de outubro de 2016

Parte III


Quando raios do sol explodiram no horizonte, o deus Anúbis apareceu. Não veio na forma que eles esperavam, uma divindade com cabeça de chacal e corpo de homem, mas sim como humano. Anúbis era lindo por qualquer padrão de beleza. Parecia um deus benevolente – de temperamento reservado, mas ainda assim bondoso. Ao seu lado estava um companheiro fiel, um cão de grande porte, negro malhado de marrom. A musculatura e o aspecto nobre do animal condiziam com os de Anúbis. Sentado junto ao dono, obediente, com as orelhas pontudas empinadas, o cão ganiu baixinho, dando voz ao sentimento das pessoas à sua volta.
Anúbis fez um gesto para os reis se levantarem e, embora se dirigisse sobretudo a eles, falou para a multidão:
— Povo do Egito, sua grande perda é também a nossa. Seth causou grandes danos no dia de hoje e, embora não possamos desfazer o que foi feito, podemos lhes oferecer o seguinte. — Ele fez uma pausa, e correu os olhos pelas pessoas reunidas. — Protegeremos os jovens do Egito mantendo o Obscuro afastado por meio de uma cerimônia que deverá ser repetida a cada mil anos. Como seus jovens filhos de sangue real se dispuseram a sacrificar a própria vida em nome do seu povo, vamos honrá-los. Em vez de passar a eternidade servindo a Seth, eles se dedicarão a proteger aqueles que amam: uma causa suficientemente nobre para alegrar o coração de qualquer mortal, acredito.
Todos o escutavam, atentos. Ele prosseguiu:
— Embora estejam mortos, eles serão chamados de volta uma vez a cada milênio, e gozarão de uma breve trégua do além para poderem continuar a fazer o trabalho divino até a hora em que os deuses... — ele executou um leve floreio com a mão — ... e o Egito, naturalmente, não precisarem mais dos seus serviços.
Os reis e rainhas se prostraram aos pés de Anúbis e choraram de gratidão. Os corpos dos três rapazes foram levados até ele.
Aproximando-se do primeiro, ele falou:
— Príncipe de Asyut, filho de Khalfani; eu, Anúbis, deus das estrelas, atendi ao grito da sua gente e, para protegê-la, concedo a você parte do meu poder. Você agora será escriba, mediador, mágico celeste, sonhador cósmico e orador. Daqui em diante, seu nome será Asten, que significa “estrela que acaba de acender”.
Anúbis uniu as mãos em concha e, ao afastá-las, pequeninas estrelas se agitavam entre elas. O deus soprou as mãos e as estrelas correram na direção do príncipe morto, pousando sobre ele como uma delicada chuva de pétalas de dente-de-leão antes de afundar na pele, deixando em seu rastro pequenos pontos de luz pulsante que por fim se apagaram.
O deus egípcio então passou ao segundo irmão.
— Príncipe de Waset, filho do rei Nassor; Khonsu, deus da lua, lhe concedeu parte do seu poder. Você agora será curandeiro, senhor dos animais, abre-caminhos e mestre das tempestades. Daqui em diante, seu nome será Ahmose, que significa “lua crescente”.
Depois de falar, Anúbis uniu os pulsos, e no espaço entre as palmas de suas mãos e os dedos foi surgindo uma suave luz prateada que formou uma meia-lua. Quando considerou o objeto suficientemente sólido, ele o segurou entre os dedos e lhe deu um peteleco. A pequenina meia-lua partiu rodopiando pelo ar feito um disco até bater na testa do filho de Nassor. Sobre sua pele, tornou-se mais brilhante até que, como as estrelas, nela também afundou, e a luz foi diminuindo e desapareceu.
Por fim, Anúbis se postou diante do filho de Heru. Quando o rei o encarou, preocupado, o deus fez uma pausa e pousou uma das mãos em seu ombro.
— Tanto o grande deus Amon-Rá quanto seu filho Hórus desejam presentear seu príncipe. — Anúbis se dirigiu à rainha: — A prece especial que a senhora fez pelo seu filho vai ser atendida, mas isso acontecerá na hora que melhor nos aprouver, em um lugar diferente deste aqui. A senhora concorda?
Novas lágrimas escorreram pelas faces da mulher, e ela meneou a cabeça.
— Sim, Magnífico.
— Muito bem. Príncipe de Itjtawy, filho de Heru; Amon-Rá, deus do sol, lhe concedeu parte de seu poder. Você agora será revelador de segredos, protetor dos aflitos, senhor da luz, caçador da verdade e protetor do Olho de Hórus, e adotará o nome do próprio deus-sol. Daqui em diante, seu nome será Amon.
Anúbis ergueu as mãos para o sol da manhã, palmas para cima, recolheu os raios dourados e, quando a luz começou a vazar de suas mãos, lançou-a na direção do corpo do terceiro filho real. A luz jorrou de suas mãos no formato de um arco e foi cair sobre o peito do rapaz, que inspirou e abriu os olhos.
A luz do sol ricocheteou em seu peito na direção dos dois outros príncipes mortos e, quando seus peitos se inflaram de ar, eles também se sentaram. Uma vez absorvidos os últimos raios de luz, todos os três se levantaram e abraçaram os pais.
— Hoje à noite vocês irão banquetear-se — disse Anúbis. — Passem esse precioso tempo com aqueles que mais amam, pois mais tarde precisaremos concluir a cerimônia de alinhamento do sol, da lua e das estrelas, para que os filhos do Egito fiquem a salvo do caos do Obscuro.
O povo celebrou com um banquete, mas sua felicidade durou pouco. Embora Anúbis houvesse de fato ressuscitado os príncipes mortos, seu tempo como mortais foi curto. Naquela mesma noite, o deus voltou para concluir a cerimônia e, quando chegou a hora, levou consigo os três príncipes reais, deixando para trás três famílias enlutadas, uma lenda que seria transmitida de geração em geração e três múmias com um objetivo especial a cumprir – um destino que as faria despertar outra vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!