21 de outubro de 2016

Parte II


Murmúrios de alarme e medo percorreram a multidão quando o rei Heru terminou seu discurso. Houve gritos pedindo que os três príncipes fossem salvos, enquanto outros levantaram a voz para dizer que os filhos deviam ser sacrificados. Uma das rainhas, sentada em um trono próximo, gritou e caiu de joelhos. As outras duas a abraçaram, e seus soluços foram se disseminando pela multidão.
Pessoas avançaram, procurando romper a linha de soldados. Acenando com os braços, berraram, tentando se fazer ouvir acima da gritaria, mas os três reis não lhes deram atenção. Pesarosos, encararam as esposas e então se viraram para os filhos, que conferenciavam em voz baixa.
Como se fossem um só, os três rapazes se aproximaram do tablado em que seus pais estavam. O filho de Heru se dirigiu à multidão em voz alta:
— Nós três concordamos em ser sacrificados para proteger nossa terra. Com a bênção de nossos pais, faremos o que pede o formidável deus Seth.
O povo respondeu com um silêncio estupefato de apenas alguns segundos antes de encher novamente o ar de perguntas, gritos de protesto e lágrimas.
Heru levou a mão ao ombro do filho e disse:
— Não estou lhe pedindo isso. Na verdade, preferiria morrer mil mortes a ter que suportar a perda de alguém que amo tanto quanto você. — Ele se virou para a multidão. — Pergunto a vocês, meu povo: é seu desejo que acatemos essas demandas? Devemos permitir ao deus Seth nos privar de nosso futuro?
Embora algumas pessoas assustadas defendessem o sacrifício, ficou evidente que a maioria queria salvar os príncipes, por mais alto que fosse o preço.
Heru se dirigiu à multidão:
— O povo falou. — Sua mulher se aproximou e ele segurou a mão dela, secando suas lágrimas enquanto tornava a afirmar: — Vamos dar outro jeito.
Enquanto as rainhas iam até seus filhos e as famílias iniciavam um debate, o sacerdote Runihura emergiu das sombras das cortinas e passou a entoar um cântico em tom baixo e ameaçador. Da cortina atrás dele começou então a sair um grupo impressionante de sacerdotes. Todos tinham os olhos negros e se moviam como se fossem uma só criatura, com as cabeças viradas na direção de Runihura. Seguravam adagas de aspecto perverso, que ergueram à medida que se aproximavam das famílias reais.
Mulheres na multidão gritaram quando Runihura, com gestos lentos, invocou uma nuvem de fumaça preta à sua volta. Seu semblante ficou sério e nuvens raivosas se juntaram no céu azul até cobrir o sol.
— Tolos! — bradou ele com o som de mil tambores, fazendo um eco assustador reverberar em todos os corações. Raios atingiram o chão perto dele e outro rosto ocultou os traços do sacerdote. — Minha ira vai se derramar sobre vocês! Eu lhes dei uma chance de me prestar homenagem, mas vocês se voltaram contra mim. Saibam que tirarei a vida dos seus rapazes. Vocês vão pagar pelas ofensas que me infligiram!
Runihura enfiou os dedos nos próprios olhos e arrancou das órbitas dois globos sanguinolentos. Diante do povo horrorizado, esmagou os dois globos oculares nas mãos e as abriu em seguida; uma nuvem de luz se ergueu de cada palma. A luz ondulou no ar feito uma cobra e, com as bocarras abertas, um dos arcos luminosos voou na direção do filho de Nassor, outro na direção do filho de Khalfani.
A luz perfurou suas testas, e os rapazes gritaram enquanto a magia negra os erguia do chão e os atirava do outro lado do templo. Quando os reis acorreram aos príncipes atingidos, o filho de Heru sacou a espada e partiu para cima do sacerdote maligno. O templo, antes pacífico e imaculado, virou uma confusão caótica de espadas em choque, gritos e sangue.
O filho de Heru ergueu a espada, mas, antes de brandi-la, perguntou:
— Por quê? Nós veneramos Seth. Fizemos o que ele nos pediu. Por que você fez isso?
Chamas ardiam nas órbitas vazias do sacerdote de Seth, que, com um sorriso de crocodilo, respondeu apenas:
— Pelo caos. O Egito já foi uma nação rebelde e poderosa, mas eu o capturei, domestiquei e o obriguei a ser complacente. Durante vinte anos, cuidei dele e lhe fiz todas as vontades. E agora conduzi o Egito domesticado ao altar. Está na hora de jogar gordura no fogo, de fazer um sacrifício derradeiro que aniquilará para sempre a sua nação outrora poderosa.
Sem suportar mais escutar aquilo, o filho de Heru mergulhou a espada no peito do traidor, mas o homem agonizante apenas segurou a lâmina e riu enquanto desabava de joelhos no chão.
— Runihura era só um mensageiro — disse o sacerdote possuído. — Um discípulo dedicado, sim, mas — ele fez uma pausa e gesticulou para que o filho de Heru chegasse mais perto — outros vão surgir para ocupar o seu lugar. Cá entre nós, jovem príncipe, o mundo tal como você o conhece vai acabar. Vocês três são as chaves, e de uma forma ou de outra irão se submeter, baixar a cabeça e me obedecer. — Deliciado com a expressão horrorizada do príncipe, Runihura começou a rir, enlouquecido, mas o som logo se dissipou quando ele desabou inerte no chão do templo.
Depois de liquidar os outros sacerdotes possuídos, os soldados cercaram o filho de Heru, que havia se abaixado sobre um dos joelhos para escutar melhor Runihura. O príncipe agarrou a túnica do maligno.
— Como assim? Que envolvimento meus irmãos e eu temos nisso? — perguntou ele.
Com uma voz chiada, Runihura respondeu:
— Acho que vocês vão descobrir sozinhos muito em breve. — O discípulo de Seth levou os dedos ensanguentados à testa. — Eu voltei meu olho da vingança na sua direção — disse ele com uma voz áspera para o rei Heru, que finalmente os havia alcançado. — Saiba o seguinte: não estou exigindo apenas a vida dos seus três filhos reais, mas a de todos os jovens do Egito.
À beira da morte, o sacerdote reuniu o que lhe restava de forças e cuspiu. Sangue e saliva se espalharam pela face do rei e salpicaram de vermelho suas vestes brancas.
Num rompante de cólera, o rei Heru partiu para cima do sacerdote e cravou a adaga no seu pescoço, e ele enfim sucumbiu à morte.
filho de Heru deixou o corpo cair no chão e estava prestes a se levantar quando viu uma luz brilhando no meio da testa de Runihura, onde se localizaria um terceiro olho. Antes de o rei poder reagir, a luz saiu voando na direção de seu filho feito uma cobra e perfurou-lhe a testa. Com um breve grito de agonia, o rapaz desabou nos braços do pai.
O sacerdote maligno estava morto, derrotado, mas o custo fora a vida dos três jovens príncipes, um preço maior do que suas famílias conseguiam suportar. Heru, porém, era o rei, o que significava que precisava deixar de lado o sofrimento e tentar descobrir uma forma de ajudar seu povo. Embora Runihura estivesse morto, o rei não era tolo. Levaria a sério o aviso sobre os jovens do Egito.
Todos, reis e soldados, rainhas e criadas, escribas e agricultores, caíram de joelhos e começaram a rezar. No entanto, não rezaram para aquele que havia causado a destruição dos jovens príncipes. Em vez disso, as rainhas incentivaram o povo a buscar a ajuda dos deuses que haviam abandonado tempos antes. E ao raiar o dia seguinte suas preces foram atendidas.

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