21 de outubro de 2016

Parte I


Na grandiosa cidade de Itjtawy, o ar denso e pesado refletia a disposição dos homens presentes no templo, sobretudo a expressão do rei e o terrível fardo que lhe oprimia o coração. Em pé atrás de uma pilastra, observando as pessoas reunidas, o rei Heru ponderava se a resposta que seus conselheiros e sacerdotes tinham lhe dado significava a salvação de seu povo ou, pelo contrário, sua total destruição.
Mesmo que a oferenda tivesse sucesso, o povo com certeza sofreria uma perda aterradora, e para ele, pessoalmente, não haveria recuperação possível.
Apesar do calor escaldante do dia, ele tremia na sombra do templo, com certeza um mau presságio. Preocupado, correu uma das mãos pela cabeça raspada e largou a cortina. Para acalmar os nervos, começou a andar de um lado para outro do tablado liso e encerado do templo e a avaliar suas alternativas.
Heru sabia que, mesmo desafiando as exigências propostas, precisava de alguma ação drástica para apaziguar o temível deus Seth. Se ao menos houvesse alguma escapatória, pensou. Submeter a proposta ao povo era algo que nenhum rei jamais tinha feito.
Um rei ocupava sua posição justamente porque era seu direito, e dever, prover as necessidades de seu povo, e um rei incapaz de tomar uma decisão sensata, por mais difícil que fosse, era um forte candidato à deposição. Heru sabia que, se deixasse a população decidir, estaria se revelando um fraco, um covarde, mas mesmo assim não via outra saída que lhe permitisse viver com as consequências.
Vinte anos antes da época do rei Heru, todo o povo do Egito sofria. Anos de uma seca terrível, tornados ainda mais difíceis por devastadoras tempestades de areia e pestes, haviam quase destruído a civilização. Saqueadores e velhos inimigos aproveitaram-se da fraqueza do Egito. Vários dos povoados mais antigos tinham sido inteiramente dizimados.
Em um ato de desespero, o rei Heru convidou os líderes das principais cidades que haviam sobrevivido a visitá-lo em sua casa. O rei Khalfani, de Asyut, e o rei Nassor, de Waset, concordaram em se reunir por uma semana, e os três, junto com seus sacerdotes mais poderosos, desapareceram atrás de portas fechadas.
O resultado desse encontro foi uma decisão que desestabilizou o equilíbrio no panteão dos deuses. Cada cidade venerava um deus distinto: os moradores de Asyut, que abrigava os mais famosos mágicos, cultuavam Anúbis; os de Waset, conhecida pela tecelagem e pela construção de navios, Khonsu; e os súditos do rei Heru, versados em cerâmica e na arte de esculpir a pedra, veneravam Amon-Rá e seu filho Hórus. Os reis foram convencidos por seus sacerdotes de que seus padroeiros os haviam abandonado e que deveriam se reunir e fazer oferendas para apaziguar um novo deus – Seth –, o deus obscuro, de modo a garantir a segurança e o bem-estar do povo.
E assim os reis fizeram. Naquele ano, as chuvas foram abundantes. O Nilo transbordou de suas margens e criou terras férteis para o plantio. Os rebanhos prosperaram e se multiplicaram por três. No ano seguinte, mulheres deram à luz mais bebês saudáveis do que jamais se tivera registro. Mais espantoso ainda foi quando as rainhas das três cidades, as mais loquazes opositoras da troca de divindade, acalmaram-se ao descobrir que elas também haviam concebido.
Quando cada uma das três rainhas deu a seu marido um filho cheio de saúde, elas reconheceram as bênçãos recebidas, sobretudo a esposa de Heru, que nunca tivera filhos e já passara havia muito da idade fértil. Embora em seus corações as novas mães ainda prestassem homenagem aos deuses de antigamente, concordaram que, dali em diante, nunca mais falariam mal do deus obscuro. O povo se regozijou.
O povo prosperou.
Os três reis choraram de gratidão.
Em uma era de paz e harmonia, os filhos das três rainhas foram criados como irmãos, na esperança de que um dia pudessem unir o Egito inteiro sob um único líder. O culto a Seth se tornou a norma, e os templos antigos foram praticamente abandonados.
Os filhos consideravam os três reis como pai, e as três rainhas como mãe. Os reis os amavam. Seu povo os amava. Eles eram a esperança no futuro, e nada podia separar os três.
Agora, mesmo agora, no dia mais sombrio da vida de seus pais, os três rapazes estavam ali, juntos, à espera do anúncio surpresa que os reis fariam.
Em poucos instantes, os três governantes iriam pedir o impensável. Um favor que nenhum rei, nenhum pai deveria pedir ao filho. Aquilo fazia o sangue de Heru gelar e o assombrava com imagens infernais de que o seu coração, ao ter o peso comparado com o da pena da verdade no dia do juízo final, seria considerado indigno.
Os três reis saíram à luz ofuscante do sol que se refletia nas pedras brancas do templo. Heru ficou no meio enquanto os dois outros o ladeavam. Ele não só era o mais alto dos três como também o orador mais eloquente. Erguendo as mãos, começou:
— Meu povo, e visitantes de nossas muito amadas cidades rio acima, como todos sabem, nós, seus reis, estávamos reunidos com nossos sacerdotes para determinar por que motivo o rio, que nos últimos vinte anos banhou nossas margens tão gentilmente, não prospera como deveria nesta estação tão importante. Segundo Runihura, nosso principal sacerdote, o deus Seth, que temos venerado com tanto fervor nos últimos anos, exige agora um novo sacrifício.
O filho do rei Heru deu um passo à frente.
— Sacrificaremos o que o senhor julgar necessário, pai — disse ele.
O rei ergueu a mão para fazer o filho calar e lhe dirigiu um sorriso triste antes de se virar novamente para a multidão.
— O que Seth está nos pedindo em sacrifício este ano não é um touro de boa estirpe, nem sacos de cereais, tecidos nobres ou mesmo nossos frutos de melhor qualidade. — Fez uma pausa e esperou o povo se aquietar. — Não. Segundo Runihura, Seth nos deu muito, e em troca de tudo que recebemos devemos oferecer aquilo que nos é mais precioso.
Após uma breve pausa, concluiu:
— O deus Seth exige que três jovens de sangue real sejam sacrificados a ele para lhe servir eternamente na vida após a morte. — Heru suspirou pesadamente. — Caso contrário, ele jura que fará chover destruição sobre todo o Egito.

8 comentários:

  1. Isso da ficando bom!
    Ass: Bina.

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  2. Muito bom!!
    Ass: Vish

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  3. que deus mau...gooooossssteeei,
    adoro violência

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  4. Está escrito: "e os súditos do rei Heru, versados em cerâmica e na arte de esculpir a pedra, veneravam Amon-Rá e seu filho Hórus.". Aí eu me pergunto: Mas Hórus não era filho de Osíris? Ou de Geb?

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    Respostas
    1. Seria "filho", no sentido de afilhado, alguém semelhante

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