16 de outubro de 2016

Onze - O que um cara precisa fazer para ser aplaudido de pé?

ALEX NÃO DEMONSTROU animação por ter que nos fascinar.
Ela se levantou, puxando o colete, e observou a plateia, como se desafiasse cada guerreiro para um duelo.
— Alex, filho de Loki! — começou Helgi.
— Filha — corrigiu Alex. — Se eu não disser o contrário, é filha.
Na ponta da mesa dos lordes, Jim Bowie tossiu na caneca de hidromel.
— Como é?
Ernie Pyle murmurou alguma coisa no ouvido de Bowie. Eles aproximaram as cabeças. Pyle pegou seu bloco de jornalista e uma caneta. Pareceu estar desenhando um diagrama para Bowie.
O rosto de Helgi se contorceu.
— Como preferir, filha de Loki...
— E não precisa citar Loki — acrescentou Alex. — Eu não gosto muito dele.
Gargalhadas nervosas se espalharam pelo aposento. Ao lado de Alex, Samirah apertou os punhos, como se aquecesse os músculos da estrangulação. Duvido que ela estivesse com raiva de Alex – Sam também não gostava de Loki. Mas, se por algum motivo os lordes decidissem que Alex não era uma escolha digna de Valhala, Sam podia ser expulsa das valquírias e exilada em Midgard. Eu sabia disso porque foi o que aconteceu quando ela me apresentou.
— Muito bem, filha de alguém. — A voz de Helgi estava seca como a órbita vazia de Odin. — Vamos apreciar suas façanhas, cortesia da Visão das Valquírias!
Esses vikings de hoje e suas tecnologias complicadas... Ao redor do tronco da árvore Laeradr, telas holográficas enormes surgiram. Imagens da câmera de valquíria de Sam começaram a aparecer. Sam era especialista em trigonometria, cálculo e aviação, então era de se pensar que ela saberia usar uma câmera. Mas não. Ela sempre esquecia quando ligar e desligar. Na metade das vezes, os vídeos saíam de lado porque ela prendia a câmera errado. Às vezes, ela gravava missões inteiras com a câmera mostrando só suas narinas.
Esta noite, a qualidade do vídeo estava boa, mas Sam tinha começado a gravar cedo demais. Hora no vídeo, 7h03 da manhã: tivemos uma vista da sala da casa dos avós, um espaço pequeno e arrumado com mesa de centro baixa e dois sofás de camurça. Acima da lareira havia uma gravura emoldurada de caligrafia árabe, um desenho com tinta dourada em pergaminho branco. Orgulhosamente exibidas na prateleira da lareira estavam fotos de Sam quando bebê com um avião de brinquedo, quando criança no campo de futebol e quando adolescente segurando um grande troféu.
Assim que Sam percebeu o ponto em que o vídeo começava, ela sufocou um grito. Mas não havia o que pudesse fazer para pará-lo.
O vídeo virou para a esquerda, para uma sala de jantar onde três pessoas mais velhas tomavam chá em xícaras com bordas douradas. Eu conhecia uma delas: Abdel Fadlan, o dono do Falafel do Fadlan. Não havia como confundir o cabelo branco denso e o terno azul bem cortado. Os outros dois deviam ser os
avós de Sam: Jid e Bibi. Jid parecia o Papai Noel, ou Ernest Hemingway – tinha o peito largo e o rosto redondo, com barba branquinha e muitas marcas de expressão, embora hoje estivesse com a testa franzida. Ele usava um terno cinza que devia ter servido vinte anos e dez quilos antes. Bibi estava usando um elegante vestido vermelho e dourado bordado, com hijab combinando. Estava sentada com uma pose perfeita, como a realeza, enquanto servia chá para o convidado, o sr. Fadlan.
Pelo ângulo da câmera, concluí que Samirah estava sentada em uma cadeira entre os dois sofás. A uns três metros, na frente da lareira, Amir Fadlan andava de um lado para outro com agitação, passando as mãos pelo cabelo preto. Ele estava lindo, para variar, com calça jeans skinny, camiseta branca e um colete elegante, mas o sorriso fácil de sempre não estava presente. A expressão dele era de angústia, como se alguém tivesse pisado em seu coração.
— Sam, eu não entendo — disse ele. — Eu te amo!
A plateia toda do salão reagiu:
— Ooooh!
— Calem a boca! — disse Samirah com rispidez, o que só fez todos rirem. Percebi que ela estava usando toda a sua força de vontade para não chorar.
O vídeo continuou. Vi Sam voar para se encontrar comigo no Thinking Cup, depois receber uma mensagem no celular com um possível código 381. Ela saiu voando do café e atravessou o parque na direção de Downtown Crossing.
Desceu do céu e pairou acima de um beco sem saída escuro entre dois teatros em ruínas. Eu sabia exatamente onde ficava, na esquina de um abrigo para sem-teto. Viciados em heroína gostavam de se drogar naquele beco, o que o tornava um ótimo lugar para levar uma surra, ser roubado ou morto.
Assim que Sam chegou, o local também se tornou um ótimo lugar para ser atacado por lobos brilhantes malvados.
Na rua sem saída, três animais grandes encurralavam um mendigo desgrenhado. A única coisa entre o homem e a morte certa era um carrinho de compras cheio de latas para reciclagem. Meu jantar pesou na barriga. Os lobos traziam muitas lembranças do assassinato da minha mãe.
Mesmo se eles não fossem do tamanho de cavalos adultos, eu saberia que não eram lobos comuns de Midgard. Uma névoa azul fosforescente grudava no pelo deles, gerando ondas de luz que lembravam um aquário nas paredes de tijolos. Os rostos eram expressivos demais, com olhos humanos e lábios com expressão de desdém. Eram filhos de Fenrir. Eles andaram de um lado para outro, rosnando e farejando o ar, apreciando o cheiro de medo vindo da presa.
— Para trás! — grunhiu o homem, empurrando o carrinho de compras na direção dos animais. — Já falei que não quero! Não acredito nisso!
No Salão de Banquete, os einherjar reunidos murmuraram com reprovação.
Eu tinha ouvido histórias de alguns semideuses modernos, filhos e filhas de deuses ou deusas nórdicos, que se recusavam a aceitar seu destino. Eles davam as costas para a esquisitice dos nove mundos. Em vez de lutar quando monstros apareciam, eles corriam e se escondiam. Alguns concluíam que eram realmente loucos. Tomavam remédios. Internavam-se em hospitais. Outros se tornavam alcoólatras ou viciados e acabavam nas ruas. Aquele cara devia ser um deles.
Eu podia sentir a pena e a repulsa no salão. Aquele velho podia ter passado a vida fugindo, mas agora estava encurralado. Em vez de ir para Valhala como herói, ele morreria como covarde e iria para a terra fria de Hel – o pior destino que qualquer einherji podia imaginar.
Nesse momento, na entrada do beco, uma voz gritou:
— Ei!
Alex Fierro tinha chegado. Ela estava com os pés separados, os punhos na cintura como a Supergirl – isso se a Supergirl tivesse cabelo verde e usasse um colete rosa e verde.
Alex devia estar passando por ali. Talvez tivesse ouvido o homem gritando ou os lobos rosnando. Não havia motivo para ela se envolver. Os lobos estavam tão concentrados na presa que jamais teriam reparado nela.
Mas Alex atacou os animais, se transformando enquanto se movia e partindo para a batalha como um pastor alemão.
Apesar da diferença de tamanho, Alex conseguiu derrubar o lobo maior. Ela enfiou os dentes no pescoço dele. O animal se contorceu e rosnou, mas Alex pulou para longe antes que ele pudesse mordê-la. Enquanto o lobo ferido cambaleava, os outros dois a atacaram.
Com a fluidez de água corrente, Alex voltou à forma humana. Ela atacou com o fio de aço, usando como chicote. Com um único movimento, um dos lobos perdeu a cabeça.
— Ooooh! — fez a plateia com apreciação.
Antes que Alex pudesse atacar de novo, o outro lobo pulou em cima dela. Os dois rolaram pelo beco. Alex virou pastor alemão outra vez, arranhou e mordeu, mas estava fora da sua classe de peso.
— Vire uma coisa maior. — Eu me vi murmurando. Mas, por algum motivo, Alex não virou.
Eu sempre gostei de cachorros, mais do que gosto da maioria das pessoas e definitivamente mais do que de lobos. Foi difícil ver o lobo atacar o pastor alemão, arrancando o focinho e a garganta de Alex, cobrindo seu pelo com sangue. Finalmente ela conseguiu mudar de forma, encolhendo-se até virar um lagarto e sair correndo de debaixo do agressor. Ela virou humana de novo a poucos metros de distância, com as roupas em farrapos e o rosto um show de horrores de cortes e mordidas.
Infelizmente, o primeiro lobo tinha se recuperado. Ele uivou de raiva, um som que ecoou pelo beco e ricocheteou nos prédios ao redor. Percebi que era o mesmo uivo que eu tinha ouvido do outro lado da cidade, enquanto lutava com o assassino de bodes.
Juntos, os dois lobos que restaram avançaram na direção de Alex, com os olhos azuis brilhando de raiva.
Alex mexeu no suéter que usava amarrado na cintura. Um dos motivos para usá-lo ficou evidente: escondia uma faca que Alex levava no cinto. Ela puxou a arma e jogou na direção do sem-teto.
— Me ajude! — gritou. — Lute!
A faca deslizou pelo asfalto. O homem recuou, mantendo o carrinho de compras entre ele e a luta.
Os lobos partiram para cima de Alex.
Finalmente, ela tentou virar uma coisa maior – talvez um búfalo ou um urso, era difícil saber – mas acho que não estava com força suficiente. Ela desabou na forma humana na hora que os lobos pularam, derrubando-a.
Alex lutou com ferocidade, enrolando o garrote no pescoço de um lobo, chutando o outro, mas estava em número menor e tinha perdido muito sangue. Ela conseguiu estrangular o lobo maior. Ele caiu em cima dela e a esmagou. O último animal a atacou no pescoço. Alex colocou os dedos no pescoço do animal, mas seus olhos estavam perdendo o foco.
Tarde demais, o homem tinha pegado a faca. Ele se aproximou do último lobo. Com um grito horrorizado, enfiou a lâmina nas costas do bicho.
O monstro caiu morto.
O velho se afastou da cena: três lobos mortos, com o pelo ainda cintilando em nuvens leves de azul néon; Alex Fierro, com o último suspiro tremendo o peito, uma poça de sangue se espalhando ao redor dela como uma aura.
O velho largou a faca e saiu correndo, chorando.
A câmera se aproximou quando Samirah al-Abbas desceu na direção da guerreira caída. Sam esticou a mão. Do corpo destruído de Alex Fierro, um espírito dourado cintilante surgiu, já fazendo cara feia para o chamado inesperado.
O vídeo ficou escuro. Não mostrou Alex discutindo com Sam, dando um soco no olho dela nem provocando o caos quando finalmente chegou em Valhala. Talvez a câmera de Sam tenha ficado sem bateria. Ou talvez Sam tenha intencionalmente interrompido o vídeo naquele ponto para fazer Alex parecer mais heroica.
O Salão de Banquete estava em silêncio, exceto pelo estalar das tochas havaianas. E os einherjar explodiram em aplausos.
Os lordes ficaram de pé. Jim Bowie secou uma lágrima do olho. Ernie Pyle assoou o nariz. Até Helgi, que parecia tão furioso minutos antes, chorou abertamente enquanto aplaudia Alex Fierro.
Samirah olhou ao redor, perplexa com as reações.
Alex parecia uma estátua. Seus olhos ficaram fixos no lugar escuro onde a tela de vídeo estava, como se pudesse fazer a morte voltar atrás apenas pela força de vontade.
Quando os aplausos cessaram, Helgi levantou o cálice.
— Alex Fierro, você lutou com poucas chances, sem pensar na própria segurança, para salvar um homem mais fraco. Você ofereceu uma arma a esse homem, uma chance de se redimir em batalha e chegar a Valhala! Tanta bravura e honra em uma filha de Loki é... é verdadeiramente excepcional.
Sam parecia ter algumas palavrinhas especiais para compartilhar com Helgi, mas foi interrompida por outra rodada de aplausos.
— É verdade — prosseguiu Helgi — que aprendemos a não julgar os filhos de Loki rápido demais. Recentemente, Samirah al-Abbas foi acusada de comportamento não condizente com sua posição de valquíria, e nós a perdoamos. Mais uma vez, temos prova de nossa sabedoria!
Mais aplausos. Os lordes assentiram e bateram nas costas uns dos outros, como quem diz: Caramba! Nós somos mesmo sábios de mente aberta! Merecemos biscoitos!
— E, além disso — acrescentou Helgi —, tal heroísmo vindo de um argr! — Ele sorriu para os outros lordes, compartilhando sua estupefação. — Nem sei o que dizer. Verdadeiramente, Alex Fierro, você superou todas as nossas expectativas. A Alex Fierro! — brindou ele. — À morte sangrenta!
— MORTE SANGRENTA! — rugiu a multidão.
Mais ninguém parecia ter reparado em quanto Alex estava apertando as mãos fechadas ou em como olhava com raiva para a mesa dos lordes. Meu palpite era que ela não tinha gostado de algumas escolhas de palavra dele.
Helgi não se deu ao trabalho de chamar uma völva, ou vidente, para ler o destino de Alex nas runas como fizera quando eu cheguei em Valhala. Ele devia ter concluído que os lordes já sabiam que Fierro faria coisas incríveis quando todos partíssemos para a morte no Ragnarök.
Os einherjar entraram no modo festa com toda a força. Eles riram, lutaram e pediram mais hidromel. Valquírias voavam de um lado para outro com as saias de capim e os colares de flores, enchendo jarras o mais rápido que conseguiam. Músicos tocavam melodias nórdicas de dança que pareciam metal mortal acústico tocado por gatos selvagens.
Na minha opinião, duas coisas estragaram o clima de festa.
Primeiro, Mallory Keen se virou para mim.
— Você ainda acha que Alex é uma einherji legítima? Se Loki quisesse colocar um agente em Valhala, ele não podia ter arrumado uma apresentação melhor...
A ideia me fez sentir como se estivesse de volta ao barco de Randolph, sendo jogado de um lado para outro por ondas de quatro metros e meio. Eu queria dar uma chance a Alex. Sam tinha me dito que era impossível trapacear para entrar em Valhala. Por outro lado, desde que eu tinha me tornado einherji, eu presenciava o impossível diariamente.
A segunda coisa que aconteceu: captei um vislumbre de movimento em algum lugar acima de mim. Olhei para o teto, esperando ver uma valquíria voando alto ou talvez um dos animais que moravam na árvore Laeradr. Mas, trinta metros acima, quase perdida na escuridão, uma figura de preto se encostava no canto de um galho, batendo palmas lentamente enquanto via nossa comemoração. Na cabeça dele havia um elmo de aço com o rosto de um lobo.
Antes que eu pudesse dizer Ei, olhem, tem um assassino de bodes na árvore, eu pisquei e ele sumiu.
Do local onde ele estava, uma única folha veio descendo e caiu na minha caneca de hidromel.


9 comentários:

  1. Ah, eu acho que Alex é do bem... Será que ela é mesmo?

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    1. Do bem ou do mal, eu estou amando ela! ahushausha e estou shippando bem forte

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    2. se ela não for vai ser uma baita decepção.

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  2. Alguém sabe qual o terapeuta do Otis? A depressão shippal tá forte

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  3. Muitas suposições, MUITAS.
    A/O Alex parece muito legal,não acho que ela/e é um espião, mas não posso deixar de shipar Sam e Magnus

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  4. "A expressão dele era de angústia, como se alguém tivesse pisado em seu coração.
    — Sam, eu não entendo — disse ele. — Eu te amo!
    A plateia toda do salão reagiu:
    — Ooooh!"

    OOOOOOOH QUE AMOR ❤

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  5. Cara imagina a Alex encontrando o Frank ,o meus deuses

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  6. Caçadora de sombras17 de novembro de 2016 18:49

    Okay, shippo mt Malex ( gente eu n me conformo em como se parece com Malec!!!)

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