16 de outubro de 2016

Nove - Nunca tome banho de banheira com um deus decapitado

ALGUÉM PODE ME explicar por que eu tenho que sonhar quando estou morto?
Lá estava eu, flutuando na escuridão da não existência, cuidando da minha vida, tentando superar o fato de que tinha acabado de ser decapitado. E caí de repente em uns pesadelos estranhos e vívidos.
Muito irritante.
Eu me vi em um iate de trinta pés no meio de uma tempestade. O convés oscilava. Ondas batiam na proa. Filetes de chuva cinza escorriam no vidro das janelas da cabine de comando. Na cadeira do capitão estava o tio Randolph, segurando o leme com uma das mãos e apertando o rádio com a outra. A capa de chuva amarela pingava e formava poças ao redor dos pés. A cabeça raspada brilhava com a água salgada. Na frente dele, os monitores do painel de controle não mostravam nada além de estática.
— SOS! — gritou ele como se o rádio fosse um cachorro teimoso se recusando a fazer um truque. — SOS, seus malditos. SOS!
No banco ao lado dele, uma mulher e duas garotas se abraçavam. Eu não as conheci em vida, mas reconheci das fotos no escritório do tio Randolph. Talvez porque eu tivesse acabado de estar na cabeça do meu tio, consegui pescar o nome delas da memória dele: sua esposa, Caroline, e as filhas, Aubrey e Emma.
Caroline estava sentada no meio, com o cabelo castanho-escuro grudado no rosto, os braços ao redor dos ombros das meninas.
— Vai ficar tudo bem — disse a mãe para as garotas. Ela encarou Randolph com uma acusação silenciosa no olhar: Por que você fez isso com a gente?
Aubrey, a mais nova, tinha o cabelo louro ondulado da família Chase. Sua cabeça estava abaixada, o rosto bem concentrado. Ela estava com um modelo do iate no colo, tentando manter o brinquedo reto apesar das ondas de quatro metros e meio que balançavam a cabine de comando, como se, ao fazer isso, pudesse ajudar o pai.
Emma não estava tão calma. Ela parecia ter uns dez anos, tinha cabelo escuro como o da mãe e olhos tristes e cansados como os do pai. De algum modo, eu sabia que era ela quem tinha ficado mais empolgada com aquele passeio. Emma insistira em ir junto na grande aventura do pai na busca por uma espada viking desaparecida que finalmente provaria suas teorias. Papai seria um herói! Randolph não conseguira dizer não.
Mas, agora, ela tremia de medo. O odor leve de urina me disse que a bexiga de Emma não estava conseguindo suportar tanto estresse. A cada oscilar do barco a menina gritava e agarrava um pingente que trazia no peito – uma runa que Randolph dera a ela no último aniversário. Eu não conseguia ver o símbolo, mas sabia qual era:


Othala: herança. Randolph via Emma como sua sucessora, a próxima grande historiadora-arqueóloga da família.
— Vou levar a gente para casa. — A voz de Randolph estava tomada de desespero.
Ele estava seguro de seus planos e confiante em relação à previsão do tempo. Seria uma viagem fácil a partir do porto. Randolph tinha feito uma pesquisa detalhada. Ele sabia que a Espada do Verão devia estar no fundo da baía de Massachusetts. Randolph se imaginou dando um mergulho rápido. Os antigos deuses de Asgard abençoariam seus esforços. Ele poderia levar a espada para a superfície e levantar a lâmina ao sol pela primeira vez em mil anos. A família estaria junto para testemunhar seu triunfo. Mas ali estavam eles, presos em uma tempestade bizarra, com o iate sendo jogado de um lado para outro feito o brinquedo no colo de Aubrey.
O barco virou para estibordo. Emma gritou.
Um muro de água me engoliu.

* * *

Saí em um sonho diferente. Minha cabeça degolada oscilava em uma banheira cheia com cheiro de sabonete de morango e toalhas mofadas. À minha direita flutuava um pato alegre de borracha com olhos apagados. À minha esquerda flutuava a não tão alegre cabeça do deus Mímir. Algas e peixinhos mortos se embrenhavam na barba dele. Espuma de banho pingava dos olhos, ouvidos e do nariz.
— Estou dizendo — a voz dele ecoou no banheiro de azulejos —, vocês têm que ir. E não só porque eu sou seu chefe. O destino exige isso.
Ele não estava falando comigo. Ao lado da banheira, sentado em uma linda latrina de porcelana cor de abacate, estava meu amigo Hearthstone, com os ombros caídos, a expressão desanimada. Ele usava a jaqueta de couro e a calça pretas de sempre, uma camisa branca engomada e um cachecol de bolinhas que parecia ter sido feito do tapete de um jogo de Twister. O cabelo louro arrepiado era quase tão pálido quanto o rosto dele.
Hearth gesticulou em linguagem de sinais, tão rápido e com tanta irritação que só consegui captar algumas palavras: Perigoso demais... morte... proteger esse idiota.
Ele apontou para Blitzen, encostado na pia com os braços cruzados. O anão estava elegante, como sempre, com um terno castanho de três peças que combinava com o tom de sua pele, uma gravata-borboleta tão preta quanto sua barba e um chapéu estilo Frank Sinatra que fazia o visual todo funcionar.
— Nós temos que ir — insistiu Blitz. — O garoto precisa de nós.
Eu queria dizer quanto sentia a falta deles, quanto queria vê-los, mas também que eles não deviam arriscar a vida por mim. Infelizmente, quando abri a boca, a única coisa que saiu foi um peixe dourado se sacudindo desesperadamente para se salvar.
Meu rosto despencou para a frente, no meio da espuma. Quando voltei à superfície, o sonho havia mudado.
Eu ainda era uma cabeça sem corpo, mas agora estava flutuando em um pote enorme cheio de picles e vinagre. Era difícil ver através do líquido esverdeado e do vidro curvo, mas eu parecia estar em um bar.
Anúncios de bebidas em néon brilhavam nas paredes. Formas enormes e indistintas estavam sentadas em bancos. Gargalhadas e conversas provocavam tremores no líquido do pote.
Eu não tinha passado muito tempo em bares. E não tinha passado muito tempo olhando através de potes imundos de picles. Mas alguma coisa naquele lugar parecia familiar: a disposição das mesas, a janela chanfrada em padrão de diamantes na parede oposta, até as fileiras de taças de vinho suspensas acima de mim como lâmpadas penduradas.
Uma nova forma surgiu no meu campo de visão, maior do que os clientes e vestida de branco.
— SAIAM! — A voz dela era rouca e irregular, como se ela passasse o tempo livre fazendo gargarejo com gasolina. — TODOS VOCÊS, PARA FORA! QUERO FALAR COM MEU IRMÃO!
Sob muitos protestos, as pessoas se dispersaram. O bar ficou em silêncio, exceto pelo som de uma TV em algum lugar do aposento; era uma transmissão esportiva, e um comentarista dizia:
— Ah, veja isso, Bill! A cabeça dele se soltou inteira!
Levei esse comentário para o lado pessoal.
Na extremidade do bar, outra pessoa se mexeu – uma figura tão escura e grande que achei que era só uma sombra.
— O bar é meu. — A voz era um barítono grave, rouca e úmida. Se uma morsa pudesse falar, o som seria mais ou menos esse. — Por que você sempre expulsa meus amigos?
— Amigos? — gritou a mulher. — Eles são seus súditos, Thrym, não seus amigos! Comece a agir como um rei!
— Eu estou agindo! — disse o homem. — Vou destruir Midgard!
— Ah. Vou acreditar nisso quando vir. Se você fosse um rei de verdade, teria usado aquele martelo imediatamente em vez de esconder e enrolar por meses, decidindo o que fazer. E não o trocaria com aquele imprestável...
— É uma aliança, Thrynga! — gritou o homem. Eu duvidava que esse tal de Thrym fosse realmente uma morsa, mas o imaginei pulando de nadadeira em nadadeira, com os bigodes esticados. — Você não entende como isso é importante. Eu preciso de aliados para dominar o mundo humano. Quando eu tiver me casado com Samirah al-Abbas...
BLUP.
Eu não pretendia, mas assim que ouvi o nome de Samirah, gritei dentro do pote de picles, fazendo uma bolha enorme estourar na superfície do líquido verde oleoso.
— O que foi isso? — perguntou Thrym.
A forma branca de Thrynga surgiu acima de mim.
— Veio do pote de picles. — Ela falou como se fosse o título de um filme de terror.
— Bem, mate-o! — gritou Thrym.
Thrynga pegou um banco de bar e bateu no pote com ele, me jogando contra a parede e me fazendo cair no chão em uma poça de picles, líquido de conserva e vidro quebrado.

* * *

Acordei na minha cama, ofegante, tentando respirar. Minhas mãos voaram até o pescoço.
Graças a Frey, minha cabeça estava novamente presa ao corpo. As narinas ainda ardiam do cheiro de picles e de sabonete líquido de morango.
Tentei analisar o que havia acabado de acontecer: que partes eram reais e que partes eram sonho. O dragão Grimwolf. Alex Fierro e seu garrote. Loki queimando meu cérebro para abrir caminho e entrar na minha mente, de algum modo usando meu tio para isso. O aviso dele de um casamento em cinco dias.
Tudo isso tinha acontecido de verdade.
Infelizmente, meus sonhos pareciam tão concretos quanto todo o resto. Estive com o tio Randolph no barco no dia que a família dele morreu. As lembranças dele estavam agora misturadas com as minhas. Sua angústia pesava no meu peito como um bloco de aço: a perda de Caroline, Aubrey e Emma era tão dolorosa para mim quanto a morte da minha própria mãe. Até pior, de certa maneira, porque Randolph ainda estava de luto. Ele ainda sofria todas as horas de todos os dias.
O resto das visões: Hearthstone e Blitzen vindo me ajudar. Eu devia estar alegre, mas me lembrava dos sinais frenéticos de Hearthstone: Perigoso demais. Morte.
E a cena do pote de picles. O que em Helheim era aquilo? Aqueles irmãos misteriosos, Thrym e Thrynga... eu estava disposto a apostar cinquenta moedas de ouro vermelho e um jantar de falafel que eles eram gigantes. Thrym estava com o martelo de Thor e planejava trocá-lo – eu engoli bile com gosto de picles – por Sam.
Depende de você levar a noiva e o dote, dissera Loki. Uma proposta única.
Loki devia estar louco. Ele queria “nos ajudar” a pegar o martelo de Thor oferecendo Samirah em casamento?
Por que Sam não falou nada sobre isso?
A pobrezinha está constrangida, dissera Loki.
Eu me lembrei do desespero na voz de Sam quando conversamos no café, como os dedos dela tremeram ao segurar o copo. Não era surpresa ela precisar tanto encontrar o martelo. Não era só para salvar o mundo de uma invasão, blá-blá-blá. Nós estávamos sempre salvando o mundo. Sam queria impedir esse acordo de casamento.
Mas por que ela acharia que precisava honrar um acordo tão idiota? Loki não tinha o direito de dizer a ela o que fazer. Ela estava noiva de Amir. Ela o amava. Eu levantaria um exército de einherjar, de elfos mágicos e de anões bem-vestidos e botaria fogo em Jötunheim para impedir que coagissem minha amiga.
Fosse qual fosse o caso, eu precisava falar com ela de novo, e logo.
Eu me esforcei para sair da cama. Meus joelhos ainda estavam cansados e doloridos como os de Randolph, apesar de eu saber que era coisa da minha cabeça. Manquei até o armário, desejando ter a bengala do meu tio.
Eu me vesti e peguei o celular na cozinha.
A tela mostrava 7h02. Eu estava atrasado para o jantar de Valhala.
Nunca demorei tanto para ressuscitar depois de morrer em batalha. Normalmente, era um dos primeiros a renascer. Eu me lembrei de Alex Fierro de pé acima de mim, cortando calmamente minha cabeça com o garrote.
Verifiquei minhas mensagens de texto. Nada de Annabeth. Eu não devia estar surpreso, mas não perdia as esperanças. Precisava da opinião da minha prima agora, do bom senso dela, da garantia dela de que eu era capaz de lidar com tanta bizarrice.
Minha porta se abriu. Três corvos entraram voando, espiralaram em volta da minha cabeça e pousaram no galho mais baixo da árvore do átrio. Eles me olharam do jeito que só os corvos conseguem, como se eu não fosse digno de ser carniça deles.
— Sei que estou atrasado — falei. — Acabei de acordar.
CAW!
CAW!
CAW!
Tradução mais provável:
“ANDA!”
“LOGO!”
“IDIOTA!”
Samirah estaria no jantar. Talvez eu conseguisse falar com ela.
Peguei meu cordão e pendurei no pescoço. O pingente de runa dava uma sensação quente e reconfortante, como se Jacques estivesse tentando me tranquilizar. Ou talvez ele estivesse de bom humor depois de um encontro agradável com uma lança. De qualquer modo, eu estava feliz em tê-lo de volta.
Tive a sensação de que não usaria a espada de treino nos próximos cinco dias. Agora, as coisas ficariam dignas de Jacques.


5 comentários:

  1. Como assim nenhum comentário?😱

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    Respostas
    1. O povo ficou sem palavras...

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  2. Quando eu tiver me casado com Samirah al-Abbas...
    Put* vida bicho!

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  3. Eu levantaria um exército de einherjar, de elfos mágicos e de anões bem-vestidos e botaria fogo em Jötunheim para impedir que coagissem minha amiga.

    Hum hum

    Tem certeza que é só amiga?, Magnus. ( ˘ ³˘)♥
    ( ˘ ³˘)♥
    ( ˘ ³˘)♥
    Kkkkkk

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  4. CASAR? QUE?
    AMIR,TU VAI PERMITIR ISSO VIADO???

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