26 de novembro de 2016

Fanfic: Tom Riddle e o diário de Ravenclaw


Sinopse:
Tom Riddle sempre foi diferente, de um modo que assustava as pequenas crianças no velho Orfanato Wool. Tom sabia que era especial, mas quem poderia acreditar nele? Tudo muda, porém, quando uma visita sensacional informa sua verdadeira natureza: Tom é um bruxo.
Em Hogwarts, a escola de magia e bruxaria, o garoto busca as várias respostas que o assombram, além de se encantar e aprender cada dia mais com o novo mundo que lhe foi mostrado.
Mas alguma coisa está errada, algo de ruim está acontecendo no mundo bruxo, ao mesmo tempo em que exigências são feitas e uma sombra de medo se cria para aqueles que não são puro sangue.
Antigos segredos buscam vir à tona, caminhos se cruzam e palavras se recitam nesse primeiro ano de uma lenda em formação.


Autora: Srta. Bagshot
Categorias: ficção, aventura, fantasia, Harry Potter
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CAPÍTULO UM — Tom Marvolo Riddle


Londres, 31 de Dezembro de 1926.


A Sra. Cole recolheu as cortinas pesadas tentando com o gesto minimizar os barulhos lá fora. A agitada rua onde o orfanato Wool se encontrava era o local onde famílias caminhavam de mãos dadas, senhores corriam contra a garoa fria e o montante de barulhos automotivos aumentasse a reputação do lugar ao ponto de se encher de orgulho: totalmente movimentada e barulhenta. Não que fosse um ponto comercial de lá grande valor em Londres, por Deus não, achava-a muito miserável ainda, mas essa já era há muito tempo a rotina da acinzentada avenida, algo que passara a alguns anos de inconveniente para normal, uma sincronia acolhedora assim como gostava que fosse. Algo na ordem tinha o seu charme, assim como o brilho de algo devidamente polido tinha a sua beleza. Alterações eram manchas em sua prataria.
E era assim que se sentia no maldito dia de virada de ano, como se uma grande mancha encobrisse sua normalidade. A simples regra de cotidiano acabava, cavaleiros se juntavam com seus amigos para rirem de coisa alguma, beberem até o dia amanhecer e abobadamente, envergonharem seus sobrenomes.
A cortina se fechou com mais força que o necessário escondendo todo um mar de neve.
Haidê Cole era uma jovem senhorita astuciosa, pequena de altura com ombros magros e mãos fortes. Com pouco mais dos seus vinte anos os cabelos cor de mel começavam a apresentar algum desleixamento, nada com o que se preocupar na verdade, vaidade passara a ser inútil a ela depois de alguns acontecimentos. Muita coisa mudara depois que tinha vindo morar no orfanato há dois anos e seus costumes e rotinas tinham sido totalmente alteradas. Agora pensava que tinha que ser assim para as outras pessoas também, para ela vaidade era um crime sério e ela odiava, do mesmo jeito que odiava os baderneiros na rua.
— O mundo está infestado de pragas — lamuriou sozinha.
A sineta tocou percorrendo as paredes escuras do orfanato, logo, Mahyn Dualt entraria sem ar procurando por instruções do que fazer. Cole sentiu a paciência se esvair como um balão de ar antes mesmo que isso acontecesse. Mahyn Dualt era uma menina de 16 anos, tão tola quanto o piso gelado que agora pisava. Na primeira vez que levou as meninas para passearem pelo pequeno labirinto que a família Goodenouth preservava, uma delas havia se perdido. Quando Mahyn sentiu por sua falta entrara num estupor de desespero e resolveu procurar ela mesma a menina. A Sra. Cole ainda lembrava-se da raiva que sentiu quando descobriu que Clarisse, a menina que havia se perdido, já esperava junto com as outras por uma hora desde que Mahyn entrara e ainda não tinha voltado. Ela havia se perdido lá dentro e não conseguia sair.
Mentes atrapalhadas, pensara amargurada no momento, também deveria ser um crime.
Como esperado a Srta. Mahyn veio a passos curtos rápidos, as bochechas coradas e os cabelos vermelhos se desfazendo no coque que ordenavam que fizessem. Era mesmo uma menina na aparência, não aparentando pesar 45 quilos com as formas de mulher bem mirradas e cabelos rebeldes. Seu único ponto forte era o rosto, forma de coração com um tantinho de sardas que se destacavam quando ela ficava nervosa ou envergonhada, os olhos eram azuis claros e Deus deu-lhe a graça de colocar-lhe um pequeno nariz no rosto, fazendo suas feições bonitas.
É claro que a Sra. Cole não enxergava nada disso, tudo o que ela viu foi que a roupa da outra estava amarrotada, o cabelo estava se desmanchando e ela tinha um brilho de travessura no rosto, junto com aflição ou cansaço. Nada daquilo agradou à senhora um pouco mais experiente.
— Esteve sendo alvo de piadas mais uma vez? — perguntou ríspida antes mesmo que a outra estivesse a dez passos. — As crianças já deviam estar dormindo há dez minutos.
Mahyn se assustou, ela sempre se assustava, parecia um rato. Aquele pensamento divertiu Haidê, mas suas feições já enferrujadas não lembravam como era sorrir.
— Me desculpe Sra. Cole, é que os meninos estavam pulando sobre as camas...
— E você resolveu pular junto com eles pelo jeito — ela se deixou mostrar observando a garota dos pés à cabeça, fazendo Mahyn se enrubescer ainda mais. Mesmo com pouco tempo no orfanato e para muitos, pouca idade, Haidê Cole tinha buscado, exigido e recebido com méritos, respeito de todas as pessoas que trabalhavam no lugar. Era detalhista e observadora com um palavreado tão rígido que até mesmo as mulheres tinham medo dela.
Seus argumentos saíram como um guincho sussurrado.
— Não senhora... Senhorita! É que eles são tantos... Toda vez que eu tentava segurar um, outros me cercavam e pulavam mais alto...
Ela não parecia saber mais o que dizer, Cole deixou melhor o assunto morrer, Hêstia ou Marta resolveriam isso do jeito que deveria ser feito, ela sabia.
— Veio perguntar o que fazer, presumo? — a menina balançou a cabeça concordando.
— Está há três meses aqui, já é mais do que tempo para ter aprendido suas obrigações diárias.
— Eu vou senhorita, prometo.
— Chega de bajulações, tenho cara de ainda ser uma senhorita? — como se não soubesse do meu casamento fracassado... O pensamento a rondou como um fantasma. Sempre ouvia as outras mulheres rindo dela, ela tinha certeza que sim.
— Não, senhora, desculpe.
— As crianças estão deitadas?
— Sim.
— Cada uma em seu próprio quarto?
— Sim, senhora.
— Colocou um saco plástico por debaixo dos cobertores de Matias Keegan? Não quero outra surpresa fedorenta de manhã, se isso acontecer você irá lavar, está me entendendo?
Dessa vez Mahyn não reagiu à crítica e sim a balburdia lá fora quando um dos fogos de artifício explodiu no ar da noite.
— Oh céus, é apenas barulho! — não tinha medo dessas coisas e jamais pularia um metro como a menina fez na sua frente. Puxou um pouco a cortina para mostrar os resíduos de luz que provavelmente deveriam restar. Para a sua surpresa não havia teias coloridas no céu escuro, o que era estranho, já passava das oito da noite, normalmente fogos e mais fogos iluminavam o céu de Londres nessa hora. A sua resposta veio quando outro relâmpago surgiu, maior e mais potente que qualquer coisa que o homem pudesse criar, quatro segundos depois e o som retumbou mais forte que o primeiro, estralando no ouvido de todos.
— Jesus, Maria, José! — Mahyn exclamou se afastando da janela.
O céu escuro pelo inverno rigoroso também trazia nuvens carregadas de chuva que chegaria ao chão transformado em centímetros e mais centímetros de neve. O vento lá fora empurrava com força as copas dos altos pinheiros magricelos, até mesmo onde estava, protegida pelas paredes grossas, parecia que a neve conseguia se infiltrar, chegando sorrateiramente até os ossos. O país não se lembrava de ver um inverno tão intenso há anos, plantações eram queimadas pelo gelo e até mesmo animais eram sufocados pela neve mortal.
Por incrível que parecesse as pessoas ainda continuavam na rua, ainda barulhentas, ainda felizes e a Sra. Cole esperava que uma tempestade fizesse companhia para suas festas.
— Uma forte chuva está vindo, Mahyn vá falar com cada uma das mulheres, quero todos em menos de quinze minutos em suas camas, com as luzes apagadas. A ala juvenil também, de meninos e meninas.
— Foi prometido aos mais velhos verem a virada de ano no pátio. Senhora.
A boca da Sr. Cole virou uma linha reta fazendo as futuras rugas se apresentarem. Menina tola, pensou selvagemente.
— Eu sei sua criatura parva, eu prometi isso a eles se você se esqueceu. Mas não preciso de uma epidemia de gripe no orfanato, narizes escorrendo e uma generalização de tosse que os podem levar até a morte. O que quer? Que tenham pneumonia para que deem mais trabalho?
Não esperou resposta da mente desprezível a sua frente.
— Se eles querem mesmo ficar olhando para o céu, façam isso de seus dormitórios, com as luzes apagadas e em silêncio.
— Sim, Sra. Cole — Mahyn Dualt começou a andar, o brilho das velas quase a perseguindo lutando contra a escuridão que as paredes se empunhavam.
Era um orfanato sombrio não se podia negar de modo algum, tão pobre que talvez se no letreiro de fora não tivesse escrito "Orfanato Wool" ninguém nunca imaginaria que o mesmo chão velho e horrível, abrigava pés de pequeninos que uma vez ou outra encontravam alegria em correr pelos corredores. A aparência era quase de um mini castelo de pedra, daqueles que uma criança monta colocando uma pedra quadrada sobre a outra e fingindo que parece mesmo um lar aconchegante e bonito.
Décadas e décadas atrás tinha sido a mansão de uma rica família Irlandesa que teve toda a sua fortuna confiscada pelo governo Inglês, o motivo havia sido esquecido pelas senhoras residentes, não que realmente importasse. Deveria ter sido mais mobiliado, com tapeçarias ricas e quadros coloridos, quem sabe até mesmo as cortinas eram puxadas todas, para que o sol entrasse e aquecesse tudo no verão. Não tem mal em sonhar com isso.
Mas agora era o lar de órfãos de até dezoito anos, não que alguém ficasse realmente esse tempo todo, sete professoras encarregadas das mais diversas funções, um jardineiro, uma cozinheira e uma cadela escocesa abandonada nas escadas em frente aos grandes portões de ferro. Mahyn Dualt ainda não representava coisa alguma no orfanato, mas não pode nunca se esquecer de contá-la. Tudo isso por fora estava escondido pela neve que caía sem cessar desde o final de outubro. Por dentro nada impressionava, era feio, escuro, com mobílias raquíticas e desgastadas, e a sala onde a pouco as duas estavam, era muito fria. 
Se pode pensar que morar em uma mansão limpa é bem mais que agradável, mas o limpar não. A cada quinzena as crianças capazes de segurar um escovão ou uma esponja eram submetidas a todo o sacrifício, um trabalho tedioso e dolorido que faziam normalmente até a criança mais doce dizer alguns baixos palavrões dirigidos à Sra. Cole. Os brilhos de seus trabalhos eram vistos de dia, quando o sol nascia e trazia luz se intensificando à tarde. Não que houvesse algo encantador, era apenas o brilho da limpeza para lá de sem graça mesmo.
Haidê Cole era a quinta mulher mais velha das que trabalhavam ali, baixa e de fala rápida se enganara quem pensou que poderia ser dócil, não havia pessoa mais rígida que a pequena “senhorita” de linhas duras. Administrado daqui a duas semanas por ela com consentimento mais que de bom grado, obrigado, do próprio prefeito, Cole sabia que faria de seu orfanato um reino onde era ela a própria lei.

Trinta minutos e todas as alas estavam em silêncio, quartos em breus e o único lugar com som era o dormitório onde o grupo de mulheres se preparava. Ali havia quinze leitos, camas retiradas da enfermaria quando o número de mulheres ajudando a causa era maior. Mirase Doustage era a mais velha, com oitenta e três anos todo o seu cabelo já era branco leitoso e olhos que um dia foram azuis, eram cinzas com a aparecia de cegos. Hêstia e Rose Tourment eram irmãs com quatro anos de diferença, duas senhoras gorduchas com grandes papadas e seios que chegavam muito antes que elas. Profa. Clifton era uma mulher com o corpo escuro e enrugado que não parecia lá muito resistente. Tânia a cozinheira ou coruja empalhada, como era chamada quando não estava por perto, estava sempre pronta para abrir uma ferida na cabeça ou nos calos dos dedos de quem deixava sobras no prato. Baixinha, gorda e de grandes olhos quase saindo das orbitas, parecia mesmo uma coruja com o dobro de ferragem que uma pessoa normal empalharia o animal. (Cole achava o nome apropriado, mesmo que não usasse em voz alta). E havia ainda Ellen e Marta, jovens e de personalidades distintas como água e vinho.

A chuva começara a cair vinte minutos antes, gordos pingos de água que pareciam pedras contras as janelas de vidro, Haidê Cole deixou de lado a roupa cinza a dobrando no final do colchão, os sapatos ficaram do mesmo lado no chão. Por baixo uma camisola fina a cobria enquanto dobrava o joelho e começava sua prece matinal. Não estava acostumada a isso, em todos os seus anos nunca precisou dobrar os joelhos para agradecer ou pedir alguma coisa e, apesar de ser uma das primeiras a começar a prece, era uma das que menos acreditava. Mas tinha que seguir firme, tudo em sua vida mudou, o passado estava morto assim como os erros, não era tempo para ficar rebelando contra si mesma.
As outras mulheres faziam o mesmo em suas próprias camas, menos Mahyn, Haidê não pode deixar de notar. Ela ainda não retornara, era sempre a última para tudo.
Mais trovões percorreram o céu, fazendo até mesmo a mulher de pedra ali no pé da cama estremecer. É apenas chuva, disse a si mesmo tentando se tranquilizar. Minutos depois quando se levantou um pedaço do céu parecia cair sobre Londres, se havia lua lá fora até mesmo ela tinha se escondido para se proteger da chuva.
Foi até a janela observar a tempestade, não havia mais ninguém nas ruas com uma garrafa de bebida alcoólica na mão, nenhuma cantoria e graças aos céus, nenhum grupo de casal fazendo as mais horrendas coisas sobre o efeito da bebida. A chuva engole com clamor a bagunça, pensou orgulhosa apesar de não ter nenhum controle sobre o tempo.
— Quer que eu feche as cortinas, Mirase? — perguntou à mulher mais velha.
— Não, por favor, gosto de observar a chuva.
Se dirigiu às lamparinas, já fazia algum tempo que o controle de energia elétrica tinha se intensificado no país, as chances eram de que a situação piorasse gradualmente.
— E May? Não vamos esperá-la antes de dormir? — Rose já estava deitada, o cobertor até a altura do nariz.
— Ela já deve estar vindo.
Não era a primeira vez que se atrasava e nunca ousava acender nem mesmo uma vela. Haidê olhou de relance as duas portas que estavam entreabertas, era muito atrevimento para uma menina que batera nas portas suplicando por um teto e um pedaço de pão. Talvez seus modos de ruas não tivessem se extinguido, mas não importava quão doce a destrambelhada parecia, amanhã de manhã teriam uma conversa mais que esclarecedora.
A chama se apagou e a Sra. Cole já retornava à sua cama quando as portas se escancararam com um barulho do diabo. Uma das mulheres gritou assustada fazendo a sua espinha gelar de cima abaixo. Mahyn estava encharcada embaixo da soleira tremendo descontroladamente, pálida e com os cabelos grudando no rosto enquanto abria a boca como um peixe fora d’água. A Sra. Cole entendeu imediatamente que algo havia acontecido, talvez um dos órfãos tenha tentado fugir ou, desejou estar muito errada­, tenha conseguido. Não era raro acontecer, mas a mulher amaldiçoou a sorte por ter sido Mahyn Dualt a tentar parar a criança.
— O que aconteceu? — Tânia perguntou já saindo de sua cama. A tempestade lá fora aumentava a cada grau de segundo.
— Estava verificando as janelas e então ouvi... Pensei que fosse um trovão, mas foi muito perto... — seria mais fácil se ela se lembrasse de respirar enquanto falava, mas era como se estivesse perdido a capacidade. — Podia ser um dos senhores que estava lá fora... A tempestade, não tem mais ninguém lá...
— Pelo amor de Deus May, fale logo! — Hêstia falou exaltada. Ainda estava de camisola, todas estavam.
— Tem uma mulher aqui pedindo ajuda! — quase gritou. — E está prestes a dar a luz!

Foi preciso a ajuda de todas para levar a mulher à enfermaria, sua pele estava pálida e tão gelada que a Sra. Cole pensou já estar morta. Observou sua aparência enquanto as outras iam de um lado para o outro pegando panos limpos, água quente e um cobertor grosso para tentar aquecê-la. A mulher, ainda sem nome, gemia e sussurrava delirante enquanto Mirase a tentava confortar. Alta, de corpo magro rente aos ossos e pele tão branca quanto a própria neve, a barriga parecia a única coisa avantajada e viva nela. Os cabelos lisos estavam grudados sobre sua testa, um pouco da chuva neles escorrendo até a boca roxa.
Como sempre o alarde de Mahyn foi maior do que a sua própria percepção do que estava acontecendo, a mulher estava sim em processo de parto, mas não prestes como a coisinha estúpida disse.
Rose tinha chegado com uma bacia de água quente, para ela foi mandado que limpasse o rosto da mulher mesmo enquanto estivesse em trabalho de parto. A mulher murmurou dando sinal de vida. Marta e Mirase seguravam sua mão tentando ajudá-la, professora Clinfton se sentou, estava cansada demais para fazer algo que mais que esperar.
A luz no lugar não era a ideal, muitas lâmpadas estavam quebradas nesta ala do orfanato e combustível era caro. Ellen correu o até o corredor onde no final ainda restava um candeeiro-de-petróleo, segurou atrás de seu ombro tão perto que a chama era um incômodo. Mas ajudava, isso era óbvio.

O processo começou lento como era de natureza acontecer, como não conseguia ficar em pé seu corpo foi arrastado para que não gritasse de dor e a deitaram.
Às vezes se esforçava para ficar sentada, tentando respirar com alguns intervalos de minutos de dor. Não tinha dito uma palavra, sua aparecia cadavérica mais parecia algo como operação de salvamento para ela, do que gravidez. Difícil acreditar que conseguisse carregar uma vida dentro de si.
Tinham repetido o processo por muito tempo, como não havia relógio ali era difícil de estipular um horário.
Horas, dias, talvez semanas. Não havia diferença.
Mas tudo se refletia nos braços cansados da Sra. Cole, nos olhos inchados das outras mulheres e agora nas verdadeiras e profundas dores de parto que começavam.
O primeiro grito foi algo meio assustador e improvável, como alguém que parece totalmente morta e abre os olhos. Da mulher saiu um grito agudo e alto, expondo os caninos tão impetuosamente que fez Rose se sobressaltar. Na segunda vez que o grito veio a Sra. Cole trincou os dentes em sua mandíbula ossuda, já tinha visto muito disso em seus anos de dançarina, mulheres da vida que não tinham forças para mais nada. Apenas se ela ganhasse um novo espírito de força iria conseguir dar a luz à criança e se conseguisse seria o seu último ato, disso ela tinha certeza. Uma tragédia ia acontecer, fraca do jeito que se encontrava foi um milagre ter chegado ao orfanato.
Mahyn se esgueirou para ficar do seu lado, os olhos com o dobro do tamanho que aumentavam ainda mais a cada grito estridente.
— Empurre! — Haidê exclamou. E a mulher tornou a gritar. E vai desmaiar, pensou a observando.
Seu rosto era molhado empurrando os longos fios do cabelo para trás. Com o movimento angustiante diversas vezes, quase sentando, eles voltavam teimosamente como se achassem que era ali o seu lugar.
Mahyn ajoelhada tentava parecer útil dizendo palavras baixas em seu ouvido. Provavelmente também era uma moradora de rua, como se podia ver pelas suas roupas, podia ser que as duas se entendessem mesmo. Quem sabe não se conhecessem e a casualidade não fora afinal, manipulada.
— Tom... — falou roucamente entre as duas, sua voz morreu saindo apenas como um sussurro. Tinha um leve toque de sotaque do interior — ele vai nascer...
— Sim. Ele vai nascer você tem que apenas continuar tentando.
A mulher concordou com a cabeça e gritou mais uma vez.
Lençóis foram trocados, sentindo já uma enorme dor nas costas, a Sra. Cole continuava a repetir a mesma palavra sem emoção, só queria que tudo acabasse. Todas pareciam exaustas, a mulher meio morta. A cada minuto mais nomes saiam da sua boca, Marvolo, Morfino, Caráteco e Tom. Sempre Tom, ela caia exausta sem lágrimas, sussurrava seu nome e de algum jeito isso era força o bastante para continuar de novo.
Os cabelos de Haidê caíram sobre os olhos, mel, ela pensou inconscientemente.
A tempestade era um contraste estranho, raios velozes cruzavam a noite iluminando o rosto de todas em um único segundo. Subitamente a mente de Haidê Cole fora para um outono ameno onde a voz de uma mulher a ordenava que continuasse enquanto a dor quase a cegava. Era tarde, um dia de sol raro no outono Londrino...
Se pudesse se estapear e tirar esses pensamento e lembranças da mente ela faria. Não podia deixar que essas coisas a afetasse, é um passado morto, se ordenou. Tão morto quanto essa mulher.
— Força! — o corpo se convulsionou para frente, as costas da mulher se arqueando de dor, os cotovelos pontudos não aguentaram o peso do corpo e novamente, como nas outras, ela desabou. Mas não tinha sido de todo o mal, a Sra. Cole se surpreendeu, dessa vez tivera resultado e uma pequena parte da criança aparecera.
— Ele (ela presumiu que serie ele) está vindo, força! — agarrou a perna da mulher, já não sabia se estava ali a duas ou três horas, parecia uma semana. Mahyn, já não mais assustada continuava sussurrando para a mulher, palavras de incentivo. Talvez tivesse obtido informações dela, contudo não era importante.
Talvez saber que poderia estar acabando deu algum renovo a mulher, ela olhou pela primeira vez em volta como se percebesse quantas pessoas havia ali. Seu rosto não era bonito, a desnutrição apenas aumentava isso, tinha sobrancelhas arqueadas e olhos assimétricos em uma testa longa com o crânio em destaque, os dedos longos e finos ainda agarrava a mão de Mirase. Era tão magra, Mahyn parecia corpulenta ao seu lado.
A tempestade caía e caía.
— Qual é o seu nome? — Mahyn sussurrou a ela.
— Força — a Sra. Cole gritou por cima. Não precisava saber o nome da mulher, ela daria a luz, recolheria o filho ou a filha e então quando a tempestade parasse, os dois iriam embora. Ela queria acreditar que sim.
O corpo dela respondeu e a criança se agarrou a vida quase se como quisesse sair por ela mesma, estava vindo por completo. Ela soltou um grito alto o bastante para o orfanato inteiro ouvir. Mahyn quase gritou também, as mãos da Sra. Mirase e Srta. Marta estavam brancas sem a circulação do sangue.
O cabelo da criança era tão escuro quanto a tempestade lá fora.
Não chorou. Nenhum som além das tempestades e gritos. Foi a primeira coisa que notou, a segunda era que segurava um menino entre as mãos, um menino saudável e forte com um bom numero de cabelos lisos, mas ainda sujos. Ele continuou em silêncio por um tempo. Estremeceu pensando que talvez estivesse certa e ele não sobreviveria ao parto como presumira antes.
Mas seu peito subiu pela primeira vez respirando o ar gelado de Londres, era tão pálido quanto a mãe, a Sra. Cole não sabia se era neve contra sangue ou sangue contra neve.
Tinha sido o pior inverno e agora a chuva começava a levar tudo no lado de fora.
Abriu os olhos prematuramente, duas pedras de ônix escuras como a maioria dos recém-nascidos, a mão se agitou tentando agarrar o ar, estava frio e ele experimentava isso pela primeira vez.
Fazendo a sua parte a Sra. Cole recolheu a criatura indefesa e cortou o cordão umbilical que ligava o menino a mãe, desinteressada a cada movimento da criança o limpou na água morna, a pele realmente era branca como a da mãe com uma saúde que ela nunca experimentara. Normalmente quando aspirava o ar pela primeira vez a criança chorava, um choro de vida. Mas nem quando lhe deu um brevíssimo tapa na coxa conseguiu alguma coisa, seus olhos muito grandes continuava a olhar para tudo, a mão ainda tentando agarrar algo.
Levou o menino à mãe enrolado a uma manta fina, a mulher meio consciente conseguiu sorrir quando o viu chegar. Até a tempestade passar, disse a si mesma, e então eles irão embora. Todas pareciam emocionadas com a cena menos Haidê, essa mulher amargurada olhava para a tempestade pensando no seu dia de sol. Era um dia lindo, refletiu, um dos poucos, mas ele não resistiu. Esse viera na tempestade, uma noite feia com a fúria de Deus, não podia ser boa coisa.
Normalmente a Sra. Cole tinha esses tipos de pensamentos banais e lembrar-se do filho não ajudavam. Estava sempre errada, mas por impiedade do destino, seu julgamento na noite não estava equivocado.
May sorriu quando a mulher conseguiu beijar o filho.
— Qual é o seu nome? — perguntou mais baixo que da primeira vez. Dessa vez a Sra. Cole não interrompeu, fingindo estar alheia sobre ela começou a arrumar tudo.
— Merope — respondeu fraquinho, inconsciente as palavras agora. — Merope Gaunt... — não conseguiu continuar pelo acesso de tosse. Devia estar cansada, com sono e apenas queria fechar os olhos. Mas se fechasse parecia que nunca mais veria o filho. Aninhou a criança de um modo a ficar mais perto do seu rosto. Ficaram assim por muito, muito tempo, May ao lado deles o tempo todo.
Estava mais escuro, apenas o final da sala trazia alguma luz agora, todas andavam em silêncio e sussurravam como se fosse acordá-los de um sonho bom. Na luz fraca a mulher na cama parecia um cadáver em ossos, os olhos fundos e sombreados já não se mexiam há algum tempo e apenas sabiam que respirava pelo chiado que seus pulmões faziam. De poucos em poucos minutos se contorcia em tosse com tanta agonia quanto tinha sido o parto.
— Ele é lindo — a profa. Clinfton disse fraquinho e as mulheres que acabavam de guardar tudo e jogar fora o que tinha que ser jogado, concordaram balançando a cabeça em uníssono.
Merope abriu os olhos, sorriu levemente. Parecia cansada, mas muito feliz.
— É lindo. Como o pai.
Uma nova tosse se agravou, o menino que começara a embaraçar o braço nos cabelos da mãe agora puxava tentando sair. May a cutucou de leve.
— Srta. Gaunt, acorde, veja é quase meia noite...
— Espero que ele sempre pareça com o pai. Tom Riddle... O nome do pai é Tom.
— É um bonito nome — May chorava sem perceber o porquê. Talvez tenha sentido o que todas as outras sete, quem sabe até mesmo as oito mulheres, já tinham certeza.
— Por favor, o nome dele é Tom — sussurrou mais uma vez.
— Sim, é sim.
A Sra. Cole que voltava no momento entendeu o que a mulher queria. E a afirmação veio a sua mente, a mulher não sobreviveria, o orfanato Wool tinha mais um órfão em seus cuidados.
— Seu filho vai ter o nome do pai — a assegurou. — Tom Riddle.
Merope assentiu com a cabeça. — Meu pai, Marvolo...
Se perguntou se a mulher iria colocar todos os nomes que sussurrou no menino, já não o bastante ser órfão, teria ainda um martírio como nome? E ainda mais esse?
— Trabalha em um circo? — perguntou, parecia um nome esquisito desses que se dizem artistas de circo.
— Não — disse em um fio de voz.
— Se fugiu diga, não iremos condená-la.
— Ela já disse que não, Haidê, deixe-a descansar — disse Mirase, deixando claro a repreensão.
— Tudo bem — experimentou os nomes na mente antes que a cabeça delirante de Merope pedisse algo que não pudesse recusar em leito de morte
— Tom Marvolo Riddle?
A mulher, já quase morta, teve um relâmpago de felicidade em seus olhos.
— Tom. Tom Marvolo Riddle.
— Tom Marvolo Riddle — todas disseram juntas em uma promessa.
Na última vez que a tosse se formou tiveram que tirar a criança de seus braços, seu corpo teve um acesso de convulsões, as costas subindo e descendo rápido enquanto tentavam segurá-la na cama. Suas pernas e braços se agitavam para todos os lados e se estivesse sozinha provavelmente estaria no chão se contorcendo.
E então parou. Se aquietou levemente na cama puxando o cobertor para mais perto do rosto. Já não se podia fazer nada e o corpo de Merope permaneceu inerte na cama. Sem choro ou dor, fechou os olhos e não voltou a abri-los. O rosto virado contra o filho.
Uma noite horrível, a Sra. Cole observou, pela primeira vez não estava descontente em ver as luzes no céu, mesmo que a chuva atrapalhasse. Um manto caiu no lugar, morbidade se instalou nas paredes como uma sombra física no primeiro instante. Apenas no primeiro. Praticamente as obrigou agirem quase que automaticamente, não poderia dar espaço para chorarem, seria muitas lágrimas por alguém que elas mal conheceram, porém sabia que iriam gasta-las. Sempre faziam algo do tipo.
Perguntava-se se a rotina iria mudar muito até que a criança conseguisse cuidar de si própria. Não deu muita importância, pelo jeito Mahyn Dualt se comovera com a mãe, iria se comover pelo filho. Nada iria mudar, se prometeu espreitando o menino que ainda olhava para cima quase sem piscar, foi apenas uma noite ruim.
A explosão de fogos se sobressaiu à tempestade, em muitos lugares várias pessoas deveriam estar comemorando com suas cabeças secas e sonhos para o ano que chegava. Na pequena enfermaria, sete mulheres choravam baixinho por um corpo sem vida, uma relembrava a dor a muito esquecida em frente à janela minúscula e em um lugar menor ainda, experimentando os pequenos goles de ar, Tom Riddle experimentava pela primeira vez tudo o que um bebê é capaz de experimentar com uma hora de vida.
Sem distinção de nada, sem ter noção alguma do que acabara de perder no momento, ou do que iria ser o menino continuava olhando para cima, seus grandes olhos escuros prematuramente abertos encarando as pedrinhas verdes do teto.
Um relâmpago recaiu ali, tão perto que quase se podia ver sua essência. Meio segundo depois o som o acompanhou, assustando a todos em um orfanato de pouca luz acessa e muitas pessoas acordadas, mas ainda assim o menino não chorou.
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Contato: anneamidala.arau@gmail.com

7 comentários:

  1. Qdo vira o livro todo?

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    1. Aqui é só divulgação mesmo, então apenas o primeiro capítulo

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  2. excelente realmente me impressionou nao foi de modo algum inferior a uma profissional e em toda a minha vida nunca elogiei o trabalho de ninguem.PARABÉNS! ASS:LOTUSFLOWER

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  3. Olá...sou eu de novo...ok que é só divulgação, mas onde posso conseguir o restante....amei...

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    1. Oi Cidinha! Para saber mais, entre em contato com a autora, deixei o e-mail dela no final do post :)

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    2. Ola Cidinha, Vou adorar mostrar mais da fanfic se entrar em contato comigo pelo e-mail.
      Um beijão!
      Srta. Bagshot.

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    3. Olá, boa noite...qual o email pra entrar em contato contigo?

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