16 de outubro de 2016

Doze - Com quem será, com quem será, com quem será que a Sam vai conversar?

QUANDO AS PESSOAS foram saindo do salão, vi Samirah voar para longe.
— Ei! — gritei, mas não tinha como ela ter me ouvido em meio à barulheira dos einherjar.
Peguei meu pingente e chamei Jacques.
— Você pode voar atrás de Sam? Diga que preciso falar com ela.
— Posso fazer ainda melhor — disse Jacques. — Segure firme.
— Opa. Você pode me carregar?
— Por uma distância curta, sim.
— Por que você não me disse isso antes?
— Mas eu falei! Além do mais, está no manual do usuário.
— Jacques, você não tem manual do usuário.
— Aguente aí. Mas é claro que, quando você me botar de volta em forma de pingente, você vai sentir...
— Como se tivesse voado por aí. E vou desmaiar ou algo assim. Tudo bem. Vamos.
Não havia nada de gracioso em voar pela Jacques Linhas Aéreas. Eu não parecia um super-herói nem uma valquíria. Eu parecia um cara pendurado no cabo de uma espada disparando para o alto – a bunda contraída, as pernas balançando. Perdi um sapato lá pelo vigésimo andar. Quase caí para a morte duas vezes. Fora isso, é, foi uma ótima experiência.
Quando cheguei perto de Sam, gritei:
— À sua esquerda!
Ela se virou e parou no ar.
— Magnus, o que você...? Ah, oi, Jacques.
— E aí, moça do leão? Podemos pousar em algum lugar? Esse cara é pesado.
Nós pousamos no galho mais próximo. Contei para Sam sobre o assassino de bodes escondido em Laeradr, e ela partiu para alertar as valquírias. Cinco minutos depois, ela voltou, a tempo de interromper a versão de Jacques de “Hands to Myself”.
— Isso é perturbador — disse Sam.
— Eu sei — concordei. — Jacques não consegue cantar Selena Gomez.
— Não, eu estava falando do assassino — disse Sam. — Ele desapareceu. Toda a equipe do hotel está em alerta, mas... — ela deu de ombros — ele não está em lugar algum.
— Posso terminar minha música agora? — perguntou Jacques.
— Não! — dissemos Sam e eu em uníssono.
Eu quase falei para Jacques voltar para a forma de pingente. Mas lembrei que, se ele voltasse, eu provavelmente desmaiaria por doze horas.
Sam pousou no galho ao meu lado.
Bem abaixo, o resto do pessoal do jantar estava saindo do salão. Meus amigos do andar dezenove, T.J., Mallory e Mestiço, cercaram Alex Fierro e a levaram para fora. Ali de cima, era difícil saber se tinha sido uma escolta alegre de “companheiros” ou uma marcha forçada para garantir que ela não mataria ninguém.
Sam seguiu meu olhar.
— Você tem dúvidas sobre ela, eu sei. Mas ela merece estar aqui, Magnus. O jeito como ela morreu... Tenho tanta certeza do heroísmo dela quanto tive do seu.
Como nunca tive confiança no meu próprio heroísmo, o comentário de Sam não me tranquilizou.
— Como está seu olho?
Ela tocou no hematoma.
— Não é nada. Alex só surtou. Demorei um pouco para entender, mas quando você pega a mão de alguém e leva para Valhala, tem um vislumbre da alma dessa pessoa.
— Aconteceu isso quando você me trouxe?
— Com você, não tinha muito para ver. É meio vazio aí dentro.
— Boa! — disse Jacques.
— Existe uma runa que faria vocês dois calarem a boca? — perguntei.
— Enfim — continuou Sam —, Alex estava com raiva e assustada. Depois que a deixei aqui, comecei a entender por quê. Ela tem gênero fluido. Achou que, se virasse einherji, ela ficaria presa a um gênero para sempre. E odiou essa ideia.
— Ah — falei, o que queria dizer: Eu entendo, mas na verdade não entendo.
Eu vivi preso a um gênero a vida toda. Nunca me incomodou. Agora, eu me perguntava como isso seria para Alex. A única analogia que consegui elaborar não era muito boa. Minha professora do segundo ano, a srta. Mengler (também conhecida como srta. Monga), me obrigava a escrever com a mão direita apesar de eu ser canhoto. Ela prendeu minha mão esquerda à mesa com fita adesiva. Minha mãe ficou furiosa quando soube, mas eu ainda me lembrava da sensação de pânico de ficar preso, forçado a escrever de uma maneira nada natural só porque a srta. Mengler insistiu. Esse é o jeito normal, Magnus. Pare de reclamar. Você vai se acostumar.
Sam soltou um suspiro.
— Admito que não tenho muita experiência com...
Jacques se empertigou na minha mão.
— Argrs? Ah, eles são ótimos! Uma vez, Frey e eu...
— Jacques... — falei.
As runas dele mudaram para um magenta controlado.
— Tudo bem, vou ficar aqui parado como um objeto inanimado.
Isso arrancou uma gargalhada de Sam. Ela tinha descoberto o cabelo, como costumava fazer em Valhala. Sam me disse que considerava o hotel sua segunda casa, e os einherjar e as valquírias como sendo da família, então não sentia necessidade de usar o hijab aqui. Os cachos castanhos caíam pelos ombros, e o lenço de seda verde estava enrolado no pescoço, cintilando enquanto tentava ativar a camuflagem mágica. Era um pouco perturbador, porque de vez em quando os ombros e o pescoço de Sam davam a impressão de terem desaparecido.
— Alex Fierro incomoda você? — perguntei. — Quer dizer... o fato de ela ser transgênero? Por você ser religiosa e tal?
Sam arqueou uma sobrancelha.
— Sendo “religiosa e tal”, muitas coisas me incomodam neste lugar. — Ela indicou nossos arredores.
— Tive que fazer uma reflexão de alma quando me dei conta de que meu pai era... você sabe, Loki. Ainda não aceito a ideia de que os deuses nórdicos são deuses. Eles são apenas seres poderosos. Alguns são parentes irritantes meus. Mas não passam de criações de Alá, o único deus, assim como você e eu somos.
— Você lembra que sou ateu, né?
Ela riu.
— Parece o começo de uma piada, não acha? Um ateu e uma muçulmana entram em uma pós-vida pagã. O fato de Alex ser transgênero é o menor dos meus problemas. Estou mais preocupada com a... ligação dela com nosso pai.
Sam passou o dedo na linha da vida na palma de sua mão.
— Alex muda de forma com muita frequência. Ela não se dá conta de quanto é perigoso contar com o poder de Loki. Não se pode dar a ele mais controle do que já tem.
Eu franzi a testa. Samirah havia me dito uma coisa assim antes, que ela não gostava de mudar de forma porque não queria ficar como o pai, mas eu não tinha entendido. Pessoalmente, se eu pudesse mudar de forma, viraria um urso-polar, tipo, a cada dois minutos.
— De que tipo de controle estamos falando?
Ela não olhou nos meus olhos.
— Esqueça. Você não veio voando atrás de mim para falar de Alex Fierro, veio?
— É verdade. — Descrevi o que tinha acontecido no campo de batalha: o dragão e o jeito como Loki invadira minha mente usando um smoking ridículo e me convidando para um casamento. Depois, contei sobre meus sonhos e que, aparentemente, esse casamento seria entre ela e um gigante chamado Thrym que falava com voz de morsa e cujo bar servia os picles mais fedidos de Jötunheim.
Jacques também não tinha ouvido ainda parte disso. Apesar da promessa de ficar inanimado, ele ofegou e gritou “Tá de brincadeira!” em todos os momentos apropriados, e também em alguns inapropriados.
Quando eu terminei, Sam ficou em silêncio. Um sopro frio passou entre nós, como um vazamento de fréon do ar-condicionado.
Lá embaixo, a equipe de limpeza chegou. Corvos pegaram os pratos e copos. Grupos de lobos comeram a comida que sobrou e lamberam o chão até ficar limpo. Higiene era importante em Valhala.
— Eu queria contar para você — disse Sam. — Tudo aconteceu tão rápido. Simplesmente... caiu no meu colo.
Ela secou uma lágrima da bochecha. Eu nunca tinha visto Sam chorar. Eu queria consolá-la – dar um abraço, um tapinha na mão, alguma coisa assim – mas Sam não gostava de contato físico, mesmo eu sendo parte da família estendida em Valhala.
— É assim que Loki está estragando sua vida pessoal — adivinhei. — Ele foi falar com seus avós? Com Amir?
— Ele deu convites para eles.
Sam tirou um do bolso e me entregou: letra cursiva dourada em papel dourado, como o que Loki tinha colocado no bolso do tio Randolph.

O incomparável Loki e algumas outras pessoas
convidam você para o casamento de
Samirah al-Abbas Bint Loki
e
Thrym, filho de Thrym, neto de Thrym
QUANDO: Daqui a cinco dias
ONDE: Avisamos depois
POR QUÊ: Porque é melhor que o dia do Juízo Final
Presentes são bem-vindos!
Danças e sacrifícios pagãos depois da cerimônia

Eu levantei o rosto.
— Sacrifícios pagãos?
— Dá para imaginar como meus avós encararam isso.
Observei o convite de novo. A linha quando tremeluziu, e a palavra cinco se apagou e virou quatro. O onde também tinha um brilho holográfico, como se pudesse acabar mudando para um endereço específico.
— Você não podia dizer para os seus avós que era pegadinha?
— Não com meu pai indo entregar pessoalmente.
— Ah.
Imaginei Loki sentado à mesa de jantar dos al-Abbas, tomando chá em uma das lindas xícaras com detalhes dourados. Imaginei o rosto de Papai Noel de Jid ficando cada vez mais vermelho, Bibi se esforçando para manter a pose majestosa enquanto um vapor furioso saía pelas beiradas do hijab.
— Loki contou tudo para eles — disse Sam. — Como conheceu minha mãe, como eu me tornei valquíria, tudo. Disse que eles não tinham o direito de planejar um casamento para mim porque ele era meu pai e já tinha planejado um.
Jacques estremeceu na minha mão.
— O lado bom — disse ele — é que o convite é bonito.
— Jacques... — falei.
— Certo. Inanimado.
— Me diga que seus avós não aceitaram isso. Eles não esperam que você se case com um gigante.
— Eles não sabem o que pensar. — Sam pegou o convite de volta. Ficou olhando para ele como se torcesse para que queimasse. — Eles tinham desconfianças sobre o relacionamento da minha mãe. Como eu falei, minha família interage com os deuses nórdicos há gerações. Os deuses têm essa... essa atração pelo meu clã.
— Bem-vinda ao clube — murmurei.
— Mas Jid e Bibi não tinham ideia da extensão de tudo até Loki aparecer. O que eles acharam pior foi eu ter escondido deles minha vida como valquíria. — Outra lágrima escorreu pela lateral do nariz de Sam. — E Amir...
— O vídeo da Visão das Valquírias... Ele e o pai foram até sua casa hoje de manhã e você tentou explicar.
Ela assentiu e puxou o canto do convite.
— O sr. Fadlan não entende o que está acontecendo, só que tem algum tipo de desacordo. Mas Amir... nós conversamos de novo esta tarde, e eu... eu contei a verdade para ele. Toda a verdade. E prometi que jamais aceitaria esse casamento maluco com Thrym. Mas não sei se Amir consegue me ouvir a essa altura. Ele deve pensar que estou louca...
— Nós vamos resolver — prometi. — Você não vai ser obrigada a se casar com um gigante.
— Você não conhece meu pai como eu, Magnus. Ele pode destruir minha vida. Já começou. Ele tem meios de... — Ela hesitou. — A questão é, Loki decidiu que ele é o único que pode negociar pelo martelo de Thor. Não consigo imaginar o que ele vai ganhar no acordo, mas não pode ser boa coisa. O único jeito de impedi-lo é encontrando o martelo primeiro.
— Então vamos fazer isso. Nós sabemos que esse tal de Thrym está com ele. Vamos buscar. Melhor ainda, diga para Thor e faça com que ele vá buscar.
Nos meus joelhos, Jacques vibrou e brilhou.
— Não vai ser tão fácil, senhor. Mesmo que você conseguisse encontrar a fortaleza de Thrym, ele não seria burro o bastante de deixar o martelo de Thor lá. Ele é um gigante da terra. Pode ter enterrado em qualquer lugar.
— O dólmen do draugr — disse Sam.
— Em Provincetown — completei. — Você ainda acha que é nossa melhor aposta? Mesmo com o assassino de bodes nos dizendo que é armadilha?
Sam olhou por cima do meu ombro. Ela parecia estar olhando o horizonte, imaginando uma nuvem cogumelo subindo da bomba que Loki jogou no futuro dela.
— Eu tenho que tentar, Magnus. O dólmen do draugr. De manhã logo cedo.
Eu odiei a ideia. Infelizmente, não tinha outra melhor.
— Tudo bem. Você fez contato com Hearth e Blitz?
— Eles vão nos encontrar em Cape Cod. — Ela se levantou e amassou o convite de casamento. Antes que eu pudesse protestar e dizer que nós podíamos precisar dele, ela o jogou para os corvos e lobos. — Encontro você depois do café. E traga um casaco. Vai ser uma manhã gelada para voar.


5 comentários:

  1. Tio Rick ahazou na ideia da Alex, apenas isso *0*

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  2. "Não havia nada de gracioso em voar pela Jacques Linhas Aéreas. Eu não parecia um super-herói nem uma valquíria. Eu parecia um cara pendurado no cabo de uma espada disparando para o alto – a bunda contraída, as pernas balançando. Perdi um sapato lá pelo vigésimo andar. Quase caí para a morte duas vezes. Fora isso, é, foi uma ótima experiência." HUEHUEHUEHUEHUR manooo

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  3. Acho que o Amor vai ter algum papel a desempenhar nessa história.
    Não pode ser apenas uma coincidência a família dele ser dona de uma "lanchonete" de falafel e ele ser noivo da Samirah! 👀 Apenas observo...

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  4. "Cinco minutos depois, ela voltou, a tempo de interromper a versão de Jacques de “Hands to Myself”.
    — Isso é perturbador — disse Sam.
    — Eu sei — concordei. — Jacques não consegue cantar Selena Gomez."

    KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

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