16 de outubro de 2016

Dois - A cena padrão de perseguição no telhado envolvendo espadas falantes e ninjas

EU JÁ DEVIA ter apresentado minha espada.
Jacques, esses são os leitores. Leitores, este é Jacques.
O verdadeiro nome dele é Sumarbrander, a Espada do Verão, mas Jacques prefere Jacques, sei lá por quê. Quando Jacques decide tirar um cochilo, o que acontece na maior parte do tempo, ele fica em uma corrente no meu pescoço na forma de um pingente marcado com fehu, a runa de Frey:


Quando preciso de sua ajuda, ele vira uma espada e mata coisas. Às vezes, Jacques faz isso enquanto eu o empunho. Outras vezes, faz isso voando sozinho e cantando músicas pop irritantes. Ele é mágico assim.
Enquanto eu corria pela rua Newbury, Jacques ganhou forma na minha mão. A lâmina, setenta e cinco centímetros de aço de osso, era entalhada com runas que pulsavam em cores diferentes quando Jacques falava.
— O que está acontecendo? — perguntou ele. — Quem vamos matar?
Jacques alega que não presta atenção às minhas conversas quando está na forma de pingente. Ele diz que fica de fones de ouvido. Não acredito nisso, porque ele não tem fones. E muito menos ouvidos.
— Caçando um assassino — balbuciei, desviando de um táxi. — Bode morto.
— Certo — respondeu a espada. — O mesmo de sempre, então.
Pulei na lateral do prédio da Pearson Publishing. Tinha passado os últimos dois meses aprendendo a usar meus poderes de einherji, então um salto me levou a um patamar três andares acima da entrada principal, e sem dificuldade alguma, mesmo segurando a espada. Depois saltei de peitoril em peitoril pela fachada de mármore branco, incorporando meu Hulk interior, até chegar ao telhado.
Do outro lado, uma silhueta escura e bípede se escondeu atrás de uma fileira de chaminés. O assassino de bodes parecia humanoide, o que descartava bodicídio cometido por outro bode, mas eu já tinha visto o suficiente dos nove mundos para saber que humanoide nem sempre significava humano. Ele podia ser um elfo, um anão, um gigante pequeno ou até um deus do machado. (Por favor, tudo menos um deus do machado.)
Quando cheguei nas chaminés, meu alvo tinha pulado para o telhado do prédio ao lado. Pode não parecer impressionante, mas o prédio ao lado era uma mansão de tijolos marrons a cerca de quinze metros de distância, com um pequeno estacionamento no meio. O assassino de bodes nem sequer teve a decência de quebrar o tornozelo. Ele rolou para amortecer a queda e saiu correndo. Em seguida, pulou por cima da rua Newbury e caiu na torre de uma igreja, a Church of the Covenant.
— Odeio esse cara — falei.
— Como você sabe que é um cara? — perguntou Jacques.
A espada tinha razão. As roupas pretas e largas e o elmo de metal do assassino de bodes tornavam impossível saber seu gênero, mas decidi continuar pensando nele como homem por enquanto. Não sei bem por quê. Talvez tenha achado a ideia de uma assassina de bodes mais assustadora.
Recuei, peguei impulso e pulei na direção da igreja.
Adoraria dizer que caí na torre, botei algemas no assassino e anunciei: Você está preso por matar um animal da fazenda!
Mas... bem, a Church of the Covenant tem lindas janelas de vitral feitas pela Tiffany nos anos 1890. No lado esquerdo do santuário, uma janela está com uma rachadura enorme no alto. Foi mal.
Caí no telhado inclinado da igreja e deslizei, agarrando a calha com a mão direita. Pontadas de dor subiram pelos meus dedos. Fiquei pendurado na beirada, com as pernas balançando, chutando o belo vitral bem no Menino Jesus.
O lado bom é que ficar pendurado no telhado salvou minha vida. Quando eu me mexi, um machado veio voando do alto e cortou os botões da minha jaqueta jeans. Um centímetro para o lado e teria empalado meu peito.
— Ei! — gritei.
Costumo reclamar quando as pessoas tentam me matar. Claro, em Valhala, os einherjar estão sempre matando uns aos outros, e somos ressuscitados a tempo para o jantar. Mas, fora de Valhala, eu sou bem matável. Se morresse em Boston, não teria uma segunda chance cósmica.
O assassino de bodes me olhou do topo do telhado. Graças aos deuses, ele parecia ter usado todos os machados. Infelizmente, ainda tinha uma espada. A calça e a túnica eram cobertas de pelo preto. Uma cota de malha manchada de fuligem caía frouxa no peito. O elmo de ferro tinha uma cortina de cota de malha na base – o que, no meio viking, chamamos de almôfar – cobrindo o pescoço. Suas feições estavam obscurecidas por uma viseira feita para parecer um lobo rosnando.
Claro que tinha que ser um lobo. Todo mundo nos nove mundos ama lobos. As pessoas têm escudos de lobo, elmos de lobo, protetores de tela de lobo, pijamas de lobo e festas de aniversário com decoração de lobo.
Já eu não curto muito lobos.
— Se toca, Magnus Chase. — A voz do assassino soou, indo de soprano a barítono na mesma frase, como se passasse por algum tipo de aparelho de efeitos especiais. — Fique longe de Provincetown.
Os dedos da minha mão esquerda apertaram o cabo da espada.
— Jacques, manda ver.
— Tem certeza? — perguntou Jacques.
O assassino arfou. Por algum motivo, as pessoas ficam chocadas quando descobrem que minha espada pode falar.
— Quer dizer — continuou Jacques —, sei que esse cara matou Otis, mas todo mundo mata Otis. Morrer é uma das funções dele.
— Corte a cabeça dele! Faça alguma coisa!
O assassino, que não era burro nem nada, deu meia-volta e fugiu.
— Pega ele! — falei para a espada.
— Por que eu tenho que fazer todo o trabalho duro? — reclamou Jacques.
— Porque eu estou pendurado aqui e você é imortal!
— O fato de você ter razão não deixa a coisa mais divertida.
Eu o joguei para o alto. Jacques zuniu para longe, voando atrás do assassino de bodes enquanto cantava sua versão de “Shake It Off”. (Nunca consegui convencê-lo de que um dos versos não é cheese graters gonna grate, grate, grate, grate, grate.)
Mesmo com a mão esquerda livre, demorei alguns segundos para subir no telhado. Ao longe, ouvi o estalo de lâminas ecoando nos prédios de tijolos. Corri na direção do som, pulando pelas torretas da igreja e saltando sobre a rua Berkeley. Pulei de telhado em telhado até ouvir Jacques gritar ao longe:
— Ai!
A maioria das pessoas não correria até uma batalha para verificar o bem-estar de sua espada, mas foi o que eu fiz. Na esquina da rua Boylston, subi pela lateral de um estacionamento coberto, cheguei ao telhado e encontrei Jacques lutando pela... bem, talvez não pela vida, mas pelo menos pela sua dignidade.
Jacques costumava se gabar de ser a lâmina mais afiada dos nove mundos. Dizia poder cortar qualquer coisa e lutar contra dezenas de inimigos ao mesmo tempo. Eu tendia a acreditar nele, pois já o tinha visto derrubar gigantes do tamanho de arranha-céus. Mas o assassino de bodes não estava tendo dificuldade de forçá-lo a recuar pelo telhado. O assassino podia ser pequeno, mas era forte e rápido. A espada de ferro negro soltava fagulhas ao bater em Jacques. Toda vez que as lâminas se chocavam, Jacques gritava: “Ai! Ai!”
Eu não sabia se minha espada corria um perigo real, mas tinha que ajudá-la. Como eu não tinha outra arma e não estava a fim de lutar de mãos vazias, corri até o poste mais próximo e o arranquei da calçada.
Parecia até que eu estava me exibindo. Sinceramente, eu não estava. O poste foi o objeto mais parecido com uma arma que consegui encontrar, com exceção de um Lexus estacionado no meio-fio, mas eu não era forte o bastante para erguer um carro de luxo.
Ataquei o assassino de bodes com minha lança-poste de seis metros. Isso chamou a atenção dele.
Quando ele se virou para mim, Jacques atacou e abriu um corte fundo na coxa do assassino, que grunhiu e cambaleou.
Essa era minha chance. Eu podia tentar derrubá-lo. Mas, quando estava a três metros do assassino, um uivo distante cortou o ar e me fez parar na hora.
Caramba, Magnus, vocês devem estar pensando, foi só um uivo distante. Qual é o seu problema?
Talvez eu já tenha mencionado que não gosto de lobos. Quando eu tinha quatorze anos, dois lobos com olhos azuis brilhantes mataram minha mãe. E meu encontro recente com Fenrir não ajudou em nada a aumentar minha admiração pela espécie.
Esse uivo, em particular, foi definitivamente de um lobo. Veio de algum lugar na direção do parque Boston Common e reverberou pelos prédios altos, transformando meu sangue em fréon. Era exatamente o mesmo som que eu tinha ouvido na noite da morte da minha mãe: faminto e triunfante, o som de um monstro que encontrou a presa.
O poste escorregou da minha mão e bateu no asfalto.
Jacques flutuou ao meu lado.
— Hã... ainda vamos lutar contra esse cara ou não?
O assassino cambaleou para trás, o pelo preto da calça brilhava com o sangue.
— E assim começa... — A voz dele soou ainda mais distorcida. — Cuidado, Magnus. Se você for a Provincetown, estará fazendo o que o inimigo deseja.
Eu encarei a viseira de lobo. Senti como se tivesse quatorze anos de novo, sozinho no beco atrás do meu prédio na noite em que minha mãe foi assassinada. Eu me lembro de olhar para a escada de incêndio da qual tinha acabado de descer e de ouvir os lobos uivarem na nossa sala. As chamas explodiram pelas janelas.
— Quem... quem é você?
O assassino soltou uma gargalhada gutural.
— Pergunta errada. A correta é: está preparado para perder seus amigos? Se não estiver, não procure o martelo de Thor.
Ele recuou até a beirada do telhado e pulou.
Corri até lá na mesma hora que um bando de pombos voou para o telhado, criando uma parede azul acinzentada, girando acima da floresta de chaminés de Back Bay. Na calçada não havia movimento, nem corpo, nem sinal do assassino.
Jacques pairou ao meu lado.
— Eu podia ter matado o cara. Fui pego desprevenido. Não tive tempo de me alongar.
— Espadas não precisam se alongar — respondi.
— Ah, desculpe, sr. Especialista em Técnicas Adequadas de Aquecimento!
Uma pena de pombo voou em espiral até a beirada do telhado e grudou em uma poça do sangue. Eu a peguei e vi o líquido vermelho manchá-la.
— O que vamos fazer agora? — perguntou Jacques. — E o que foi aquele uivo?
Uma sensação gelada se espalhou pelo meu rosto, deixando um gosto frio e amargo na minha boca.
— Não sei — falei. — O que quer que tenha sido, já parou.
— Vamos dar uma olhada?
— Não! Quer dizer... quando descobrirmos de onde veio o som, será tarde demais para fazermos qualquer coisa. Além disso...
Eu observei a pena de pombo suja de sangue. Pensei na maneira eficiente como o assassino de bodes desapareceu e sobre como ele sabia que o martelo de Thor estava sumido. A voz distorcida reverberou na minha mente: Está preparado para perder seus amigos?
Alguma coisa no assassino pareceu muito errada... e muito familiar.
— Precisamos avisar Sam.
Peguei o punho de Jacques, e a exaustão tomou conta de mim.
O lado ruim de ter uma espada que lutava sozinha: o que quer que Jacques fizesse, eu pagava o preço assim que ele voltava para a minha mão. Senti hematomas se espalhando pelos meus braços, um para cada vez que Jacques foi acertado pela outra espada. Minhas pernas tremiam como se eu tivesse passado a manhã toda correndo. Um nó de emoção se formou na minha garganta: a vergonha de Jacques por deixar o assassino de bodes escapar.
— Ei, cara — falei para ele —, pelo menos você o feriu. É mais do que eu fiz.
— Ah, bem... — Jacques pareceu envergonhado. Ele não gostava de dividir os seus problemas comigo. — Talvez você devesse descansar um pouco. Você não está em condições...
— Estou ótimo. Obrigado, Jacques. Você agiu bem.
Fiz com que ele voltasse à forma de pingente e prendi a pedra na corrente.
A espada estava certa sobre uma coisa: eu precisava descansar. Estava com vontade de entrar naquele Lexus para tirar um cochilo, mas se o assassino de bodes decidisse voltar ao Thinking Cup, se pegasse Sam desprevenida...
Saí correndo pelos telhados, torcendo para não ser tarde demais.


17 comentários:

  1. Qual é a dessa adoração do Rick Riordan pela Taylor Swift? kkkkkkk

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  2. Será que era alguém da família dele? Ele tem tantos parentes... hum, como posso dizer... diferentes.

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    1. Eu só consigo pensar que é o noivo da Sam.

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    2. Eu só consigo pensar q é um filho de Hades! Espada preta... desaparece do nada... um uivo sinistro (q eu acho que é um Cão do Inferno, e torço para ser a Sra. O'Lary)... Eu fiquei imaginando o Jacques lutando contra o Nico.

      Ou então podia ser o Percy... A Sra. O'Lary estaria esperando na calçada, ele pularia nas costas dela e desapareceriam... Faz sentido, pq o Percy é um ótimo espadachim, mas o problema é q a espada seria de ferro estigio, e eu não sei se alguém além de um filho de Hades pode portar esse tipo de espada.

      OMGs! Eu n sei o que pensar!!!!! Estou me corroendo aqui!!!

      Ass.: Mutta Chase Hayes

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    3. Mas gente, quanta sdd do Percy e do Nico. Nenhum dos dois é assassino de bodes, eu espero e muito menos é nórdico. Eles são gregos, devem estar pouco se fudendo pra martelo de Thor.
      Sem contar q nenhum dos dois ameaça amigo de ngm, né?

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  3. Agora estou criando mil e uma teorias de quem pode ser o cara do telhado

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  4. Amei!
    Obrigada por postar Karina, n via a hora de começar a ler esse livro...
    Amo os livros do tio Rick :)

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  5. Aaaah essa série está cada vez mais perfeita. Senti falta da narração em primeira pessoa do Magnus.

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  6. 🎶"cheese graters gonna grate, grate, grate, grate, grate" 🎶 kkk melhor frase ever!

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  7. Rick Riordan só pode ser fã da Taylor Swift. Que saudade que tava de rir das piadas bobas dele <3.

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  8. Jacques, manda ver.
    — Tem certeza? — perguntou Jacques.
    O assassino arfou. Por algum motivo, as pessoas ficam chocadas quando descobrem que minha espada pode falar.
    — Quer dizer — continuou Jacques —, sei que esse cara matou Otis, mas todo mundo mata Otis. Morrer é uma das funções dele.
    — Corte a cabeça dele! Faça alguma coisa!
    O assassino, que não era burro nem nada, deu meia-volta e fugiu.
    — Pega ele! — falei para a espada.
    — Por que eu tenho que fazer todo o trabalho duro? — reclamou Jacques.
    — Porque eu estou pendurado aqui e você é imortal!
    — O fato de você ter razão não deixa a coisa mais divertida.

    😂😂😂😂😂 adorando a narração do Magnus

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  9. Eu fui a única q quando descreveu a pessoa do telhado (mais especificamente a espada) pensou no Nico???

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  10. tio rick sendo tio rick <3 não tem como não amar !

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  11. Caçadora de sombras9 de novembro de 2016 21:10

    Mdssssss Tay <3 "cheese graters gonna grate, grate, grate, grate, grate" kkkkkk

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