16 de outubro de 2016

Dezoito - Preciso aprender muito mais palavrões em linguagem de sinais

EU UIVEI DE fúria.
Ataquei com Jacques desferindo um arco para cima, e a espada Skofnung voou da mão de Randolph, junto com (eca, talvez vocês queiram pular essa parte) umas coisas rosadas que pareciam dedos.
Meu tio cambaleou para trás, segurando o punho contra o peito. A espada Skofnung tombou no chão.
— Ah. — Blitzen arregalou os olhos. A espada passou direto pelo colete de cota de malha. Sangue escorria por entre os dedos do anão.
Ele cambaleou. Hearthstone o segurou e o arrastou para longe de Randolph e Loki.
Eu me virei para Loki. Ergui a lâmina de Jacques de novo e cortei o rosto arrogante do deus, mas a forma dele só tremeluziu, como uma projeção.
— Ele ataca! Ele erra! — Loki balançou a cabeça. — Fala sério, Magnus, nós dois sabemos que você não pode me machucar. Não estou totalmente aqui! Além do mais, lutar não é seu ponto forte. Se precisar descontar a ira em alguém, pode ir em frente e matar Randolph, mas seja rápido. Temos muito o que conversar, e seu anão está sangrando.
Eu não conseguia respirar. A sensação era de que alguém estava derramando ódio puro goela abaixo. Eu queria atacar meu tio. Queria detonar aquela tumba até não sobrar pedra sobre pedra. De repente, entendi Ratatosk, o esquilo que tinha raiva de tudo e queria destruir a própria árvore onde morava.
Não foi fácil, mas sufoquei a raiva. Salvar Blitz era mais importante do que me vingar.
— Jacques — falei —, fique de olho nesses meinfretrs. Se eles tentarem machucar Sam ou pegar a espada Skofnung, ataque sem dó.
— Pode deixar — disse Jacques com voz mais grave do que a habitual, provavelmente para impressionar a espada Skofnung. — Vou proteger a espada gata com minha vida! Ah, e Sam também.
Corri até Blitz.
— Isso aí! — comemorou Loki. — Esse é o Magnus Chase que eu conheço e amo! Sempre pensando nos outros. Sempre o curandeiro!
Coloquei as mãos na barriga de Blitzen e olhei para Hearthstone.
— Você tem alguma runa que possa ajudar?
Ele fez que não. Seu ódio nível Ratatosk fervia nos olhos. Eu via o desespero neles, o desejo de fazer alguma coisa, qualquer coisa, mas Hearth já tinha usado duas runas naquela manhã. Mais uma provavelmente o mataria.
Blitzen tossiu. Seu rosto ficou branco como rejunte de banheiro.
— Eu... eu estou bem, pessoal. Só preciso... de um minuto.
— Aguente firme, Blitz.
Mais uma vez, conjurei o poder de Frey. Minhas mãos se aqueceram como as resistências de um cobertor elétrico, espalhando calor para todas as células do corpo do anão. Fiz a circulação dele ficar mais lenta. Diminuí a dor. Mas o ferimento em si se recusava a ser curado. Eu o senti lutando contra mim, abrindo tecidos e capilares mais rápido do que eu conseguia consertá-los, atacando com fome maliciosa.
Eu me lembrei da profecia de Hearthstone: Blitzen. Banho de Sangue. Não pode ser impedido.
Era culpa minha. Eu devia ter previsto aquilo. Devia ter insistido para Blitz ficar no esconderijo de Mímir comendo pizza. Devia ter ouvido aquele assassino de bodes idiota em Back Bay.
— Você vai ficar bem — prometi. — Fique comigo.
Os olhos de Blitz estavam começando a perder o foco.
— Tem... um kit de costura no bolso do colete... se ajudar.
Eu queria gritar. Que bom que Jacques não estava mais nas minhas mãos, porque eu teria dado um ataque de birra digno do Kylo Ren.
Eu me levantei e olhei para Loki e Randolph. Minha expressão devia estar bem assustadora. Randolph recuou até um dos nichos de zumbi, deixando uma trilha de sangue no chão. Eu provavelmente poderia curar sua mão ferida, mas não fiquei nem um pouco tentado.
— Loki, o que você quer? — perguntei. — Como posso ajudar Blitzen?
O deus abriu os braços.
— Estou tão feliz de você ter perguntado. Por sorte, as duas perguntas têm a mesma resposta!
— A pedra — ofegou Blitz. — Ele quer... a pedra.
— Exatamente! — concordou Loki. — Sabe, Magnus, os ferimentos feitos pela espada Skofnung nunca cicatrizam. Só ficam sangrando para sempre... ou até a morte, o que vier primeiro. O único jeito de curar essa ferida é com a pedra Skofnung. É por isso que os dois formam um conjunto tão importante.
Hearthstone explodiu em uma torrente de xingamentos em linguagem de sinais tão impressionante que seria uma bela arte performática. Mesmo para quem não sabia linguagem de sinais, os gestos transmitiam a raiva dele melhor do que qualquer gritaria.
— Minha nossa — disse Loki. — Não sou chamado de alguns desses nomes desde minha última competição de insultos com os aesires! Lamento por você se sentir assim, amigo elfo, mas você é o único capaz de conseguir a pedra. Você sabe que é a única solução. É melhor ir correndo para casa!
— Casa? — Minha mente se movia em câmera lenta. — Você quer dizer... Álfaheim?
Blitzen gemeu.
— Não faça Hearth voltar pra lá. Não vale a pena, garoto.
Olhei com raiva para o tio Randolph, que estava se acomodando no nicho do zumbi. Com o terno maltrapilho, o rosto marcado e os olhos vidrados devido à dor e à hemorragia, Randolph já estava a meio caminho de se tornar um morto-vivo.
— O que Loki quer? — perguntei a ele. — O que isso tem a ver com o martelo de Thor?
Ele me lançou a mesma expressão desolada do meu sonho, quando se virou para a família no iate açoitado pela tempestade e disse: Vou levar a gente para casa.
— Magnus, eu... eu sinto...
— Muito? — ofereceu Loki. — Sim, você sente muito, Randolph. Nós sabemos. Mas, falando sério, Magnus, você não vê a ligação? Talvez eu precise ser mais claro. Às vezes esqueço como vocês mortais podem ser lentos. Um-gigante-está-com-o-martelo.
Ele ilustrou cada palavra com linguagem de sinais exagerada.
— Gigante-dá-martelo-para-Samirah. Nós-trocamos-presentes-no-casamento. Martelo-por-S-K-O-F-N-U-N-G.
— Pare com isso! — rosnei.
— Então você entendeu tudo? — Loki balançou as mãos. — Que bom, porque meus dedos estavam ficando cansados. Eu não posso dar metade do dote, posso? Thrym nunca vai aceitar. Preciso da espada da pedra. Felizmente, seu amigo Hearthstone sabe exatamente onde a pedra está!
— Foi por isso que você armou essa armadilha? Por que você...? — Eu indiquei Blitz, que estava deitado em uma poça vermelha cada vez maior.
— Pode chamar isso de incentivo — disse Loki. — Eu não sabia se você pegaria a pedra para mim só por causa do casamento de Samirah, mas vai fazer para salvar seu amigo. E, devo lembrar, tudo isso é para que eu possa ajudar você a recuperar aquele martelo idiota. Todo mundo sai ganhando. A não ser que o anão morra. São criaturas tão pequenas e ridículas. Randolph, vamos!
Meu tio andou na direção de Loki como um cachorro esperando uma surra. Eu não sentia muito amor por ele no momento, mas também odiava a maneira como Loki o tratava. Eu me lembrei da ligação que compartilhei com Randolph em meus sonhos... de sentir a dor arrasadora que o motivava.
— Randolph, você não tem que ir com ele.
Ele olhou para mim, e então percebi o quanto eu estava errado. Quando meu tio enfiou a espada em Blitzen, alguma coisa dentro dele se quebrou. Ele foi puxado tão fundo naquela negociação do mal, abriu mão de tanta coisa para recuperar a esposa e as filhas mortas, que não conseguia imaginar outro caminho.
Loki apontou para a espada Skofnung.
— A espada, Randolph. Pegue a espada.
As runas de Jacques pulsaram em um roxo furioso.
— Experimente, amigo, e você vai perder mais do que dois dedos.
Randolph hesitou, como as pessoas costumam fazer quando são ameaçadas por espadas falantes e brilhantes.
A confiança arrogante de Loki foi abalada. Seus olhos escureceram. Os lábios marcados se curvaram para baixo. Vi quanto ele queria aquela espada. Ele precisava dela para alguma coisa bem mais importante do que um presente de casamento.
Coloquei o pé em cima da lâmina de Skofnung.
— Jacques está certo. A espada não vai a lugar algum.
As veias no pescoço do deus pareciam prestes a explodir. Fiquei com medo de ele matar Samirah e pintar as paredes com desenhos abstratos de anão, elfo e einherji.
Eu o encarei mesmo assim. Não sabia qual era seu plano, mas estava começando a perceber que ele precisava de nós vivos... pelo menos por enquanto.
No espaço de um nanossegundo, o deus recuperou a compostura.
— Tudo bem, Magnus — disse ele, casualmente. — Leve a espada e a pedra quando entregar a noiva. Você tem quatro dias. Vou avisar o local. E arrume um smoking. Randolph, venha comigo. Vamos estar esperando de dedos cruzados!
Meu tio fez uma careta.
— Ah, desculpe. — Ele balançou o mindinho e o anelar. — Cedo demais?
Loki segurou a manga de Randolph. Os dois homens voltaram pelo portal como se estivessem sendo sugados para fora de um jato em movimento. O caixão implodiu em seguida.

* * *

Sam se mexeu. Sentou-se abruptamente, como se o despertador tivesse tocado. O hijab escorregou por cima do olho direito, como um tapa-olho de pirata.
— O que... o que aconteceu?
Eu estava entorpecido demais para explicar. Estava ajoelhado ao lado de Blitzen, fazendo tudo o que podia para mantê-lo estável. Minhas mãos brilhavam com poder de Frey suficiente para criar uma fusão nuclear, mas não estava ajudando. Meu amigo estava morrendo.
Os olhos de Hearth estavam cheios de lágrimas. Ele estava sentado ao lado de Blitz, com o cachecol de bolinhas sujo de sangue. De vez em quando, batia um sinal de V na própria testa: Burro. Burro.
A sombra de Sam assomou sobre nós.
— Não! Não, não, não. O que aconteceu?
Hearthstone fez outra sequência de sinais: Eu falei! Perigoso demais! Sua culpa...
— Amigo... — Blitzen puxou as mãos de Hearthstone com fraqueza. — Não é culpa... da Sam. Também não é sua. Foi... ideia minha.
Hearthstone balançou a cabeça. Valquíria burra. Eu também sou burro. Deve ter um jeito de curar você.
Ele olhou para mim, desesperado por um milagre.
Eu odiava ser um curandeiro. Pelas firulas de Frey, eu queria ser um guerreiro. Ou metamorfo, como Alex Fierro, ou mago das runas, como Hearthstone, ou até um berserker, como Mestiço, partindo para a batalha apenas com as roupas de baixo. Saber que meus amigos dependiam de minhas habilidades, ver a luz dos olhos de Blitzen se apagando aos poucos e saber que não havia nada que eu pudesse fazer... era insuportável.
— Loki não nos deixaria outra escolha — falei. — Temos que encontrar a pedra Skofnung.
Hearthstone grunhiu de frustração. Eu a encontraria. Por Blitz. Mas não temos tempo. Demoraria pelo menos um dia. Ele terá morrido até lá.
Blitzen tentou dizer alguma coisa. Nenhuma palavra saiu. A cabeça dele pendeu para o lado.
— Não! — disse Sam, chorando. — Não, ele não pode morrer. Onde está essa pedra? Eu vou buscar!
Observei a tumba, desesperado por ideias. Meus olhos encontraram a única fonte de luz: a lança de Sam, caída na poeira.
Luz. Luz do sol.
Havia um último milagre que eu podia tentar, um milagre bobo e meia-boca, mas era tudo o que eu tinha.
— Precisamos ganhar tempo — falei —, então vamos criar mais tempo. — Eu não sabia se Blitzen ainda estava lúcido, mas apertei o ombro dele. — Vamos trazer você de volta, amigão. Eu prometo.
Fiquei de pé. Ergui o rosto na direção do teto abobadado e imaginei o sol acima. Convoquei os poderes do meu pai, o deus do calor e da fertilidade, o deus das coisas vivas que abriam caminho pela terra para chegar à luz.
A tumba ribombou. Poeira caiu do alto. Acima de mim, o teto rachou como uma casca de ovo, e uma abertura irregular surgiu ali, permitindo que a luz do sol penetrasse a escuridão e iluminasse o rosto de Blitzen.
Enquanto eu observava, um dos meus melhores amigos nos nove mundos se transformou em pedra.


4 comentários:

  1. "Eu queria gritar. Que bom que Jacques não estava mais nas minhas mãos, porque eu teria dado um ataque de birra digno do Kylo Ren."
    Eu referi a entendência😉
    -Sinead

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  2. Depois de virar pedra ele pode voltar ao normal???

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    Respostas
    1. É a esperança. Eles tem que descobrir

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  3. — A espada, Randolph. Pegue a espada.
    As runas de Jacques pulsaram em um roxo furioso.
    — Experimente, amigo, e você vai perder mais do que dois dedos.

    Queria ter uma espada que me defende se assim.
    Kkkkk

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