16 de outubro de 2016

Dezesseis - Hearthstone desperta sua alma bovina

JACQUES DECIDIU QUE aquele era um excelente momento para uma sessão de treinamento.
Apesar de ser totalmente capaz de lutar sozinho, ele acreditava mesmo que eu devia aprender a portá-lo com minha própria força. Era algo sobre ser digno e competente, sei lá. A questão é que eu era péssimo com a espada. Além disso, Jacques sempre decidia me treinar nas piores situações possíveis.
— Não tem hora melhor do que agora! — gritou ele, ficando pesado e inútil na minha mão.
— Pare com isso, cara! — Eu desviei da primeira lâmina, que não acertou minha cabeça por um triz. — Vamos treinar depois, com manequins ou algo do tipo!
— Desvie para a esquerda! — gritou Jacques. — Sua outra esquerda! Me deixe orgulhoso, senhor. A lâmina Skofnung está olhando!
Quase fiquei tentado a morrer só para constranger Jacques na frente da outra espada. Mas como eu não estava em Valhala e minha morte ali seria permanente, decidi que esse plano talvez não fosse lá muito inteligente.
Os zumbis se aproximaram.
O espaço apertado era nossa única vantagem. Cada draugr estava armado com uma espada de lâmina larga, que exigia pelo menos um metro e meio de espaço livre para ser manuseada com eficiência. Doze berserkir mortos com espadas largas, cercando um grupo unido de defensores em uma câmara pequena?
Não fazia diferença quanto eles eram bons de quórum, os zumbis não conseguiriam nos massacrar com facilidade sem acertar os próprios companheiros.
Nossa luta virou um empurra-empurra confuso com muitos xingamentos e bafo fedido de zumbi. Samirah enfiou a lança embaixo do maxilar de Arvid. A luz da arma queimou a cabeça dele como fogo em papel higiênico.
Outro zumbi cutucou o peito de Blitzen, mas o colete forrado de cota de malha fez a lâmina entortar. Blitzen bateu na barriga do draugr com o punho envolto na gravata-borboleta e, para desgosto de todos, ficou com a mão presa na cavidade abdominal do zumbi.
— Que nojo! — Blitzen deu um pulo para trás, puxando o zumbi consigo, balançando-o feito um parceiro de dança desajeitado e derrubando outros draugrs no caminho.
Hearthstone levou o prêmio de Melhor Preparado para Combate Corpo a Corpo. Ele pegou uma runa:


Hearth foi imediatamente envolto em luz dourada. Ficou mais alto. Os músculos incharam, como se alguém estivesse inflando suas roupas. Os olhos ficaram injetados. O cabelo se arrepiou com a estática.
Ele agarrou o zumbi mais próximo e o jogou do outro lado da câmara. Pegou outro e literalmente o quebrou no meio usando o joelho.
Como vocês podem adivinhar, os outros zumbis recuaram para longe do elfo maluco e bombado.
— Que runa é essa?
Sem querer, acertei o topo do caixão de Gellir com Jacques, criando um teto solar.
Blitz soltou a mão do parceiro de dança, que desabou em pedaços.
— Uruz — disse Blitz. — A runa do touro.
Acrescentei silenciosamente a runa de uruz à minha lista de Natal.
Enquanto isso, Samirah foi acertando os inimigos um a um, girando a lança em uma das mãos como uma vareta cintilante da morte. Qualquer zumbi que conseguisse evitar ser queimado, ela picava com o machado.
Jacques continuou gritando instruções inúteis.
— Se esquive, Magnus! Se abaixe! Padrão de defesa ômega!
Eu tinha quase certeza de que isso nem existia. Nas poucas vezes que consegui acertar um zumbi, Jacques o cortou em pedaços, mas duvidava que os golpes fossem impressionantes o bastante para ele conseguir um encontro com a outra espada.
Quando ficou claro que Gellir estava ficando sem guarda-costas, ele entrou na batalha, batendo em mim com a espada embainhada e gritando:
— Mortal mau! Mortal mau!
Eu tentei reagir, mas Jacques resistiu. Deve ter achado que não seria cavalheiresco lutar contra uma moça, principalmente se ela ainda estava na bainha. Jacques era mesmo um cara antiquado.
Finalmente, Gellir foi o único draugr que restou. Seus guarda-costas estavam caídos no chão em uma coleção assustadora de braços, pernas, armas e agulhas de tricô.
Gellir recuou na direção do caixão, aninhando a espada Skofnung contra o peito.
— Esperem. Sessão encerrada. Sugiro que adiemos o combate até...
Hearthstone contestou a sugestão de Gellir correndo até o príncipe e arrancando a cabeça dele. O corpo de Gellir caiu para a frente, e nosso elfo bombado pisou nele, chutando e espalhando os restos ressecados até não haver nada além da espada Skofnung.
Hearthstone começou a chutá-la também.
— Parem esse elfo! — gritou Jacques.
Segurei o braço de Hearth, o que foi a coisa mais corajosa que fiz naquele dia. Ele se virou para mim, os olhos ardendo de fúria.
Ele está morto, eu sinalizei. Você pode parar agora.
Havia uma boa chance de eu ser decapitado de novo.
Hearthstone piscou. Os olhos injetados ficaram límpidos. Os músculos murcharam. O cabelo se assentou na cabeça. Ele desmoronou, mas Blitzen e eu conseguimos segurá-lo. Estávamos acostumados com os desmaios pós-magia de Hearthstone.
Sam enfiou a lança no cadáver de Dagfinn e a deixou de pé como um bastão néon gigante. Ela andou pela tumba, xingando baixinho.
— Desculpe, pessoal. Tanto risco, tanto esforço e nada de Mjölnir.
— Ah, tudo bem — disse Jacques. — Nós resgatamos a espada Skofnung do dono malvado! Ela vai ficar tão agradecida. Nós temos que levá-la conosco!
Blitzen abanou o lenço laranja no rosto de Hearth, tentando acordá-lo.
— Levar essa espada seria uma ideia muito ruim.
— Por quê? — perguntei. — E por que Hearth ficou tão nervoso quando ouviu o nome dela? Você falou alguma coisa sobre uma pedra...
Blitz aninhou a cabeça de Hearth no colo como se estivesse tentando proteger o elfo da nossa conversa.
— Garoto, quem quer que tenha nos mandado aqui... Era uma armadilha, sim. Mas os draugrs não eram a coisa mais perigosa nesta câmara. Alguém queria que a gente libertasse essa espada.
Uma voz familiar disse:
— Você está totalmente certo.
Meu coração deu um salto. De pé na frente do caixão de Gellir estavam os dois homens que eu menos queria ver nos nove mundos: tio Randolph e Loki. Atrás deles, o painel nos fundos do caixão cortado tinha virado um portal tremeluzente. Do outro lado estava o escritório de Randolph.
Os lábios marcados de Loki se retorceram em um sorriso.
— Bom trabalho em encontrar o dote da noiva, Magnus. A espada será o presente de casamento perfeito!

9 comentários:

  1. Falafel sabor feijoada17 de outubro de 2016 14:51

    Só um registro: adoro o Loki! *-*

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  2. Quase fiquei tentado a morrer só para constranger Jacques na frente da outra espada. Mas como eu não estava em Valhala e minha morte ali seria permanente, decidi que esse plano talvez não fosse lá muito inteligente.

    Annabeth aprovaria sua inteligência.

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  3. Amo o loki, ele é um excelente vilão

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