16 de outubro de 2016

Dezenove - Devo ficar nervoso porque nossa piloto está rezando?

O AEROPORTO DE Provincetown era o lugar mais deprimente que já conheci. Para ser justo, talvez fosse porque eu estava em companhia de um anão petrificado, um elfo de coração partido, uma valquíria furiosa e uma espada que não calava a boca.
Sam chamou um Uber para nos buscar no Pilgrim Monument. Eu me perguntei se ela usava o Uber como alternativa para transportar almas para Valhala. Durante todo o caminho até o aeroporto, espremido no banco de trás de um Ford Focus sedã, eu não conseguia parar de cantarolar “Cavalgada das Valquírias”.
Ao meu lado, Jacques botou o cinto de segurança e me encheu de perguntas.
— Podemos desembainhar Skofnung de novo, só por um minuto? Quero dar um oi.
— Jacques, não. Ela não pode ser desembainhada de dia, nem na presença de mulheres. E, se nós a desembainhássemos, ela teria que matar alguém.
— É, mas, fora isso, não seria incrível? — Ele suspirou, suas runas iluminando a lâmina. — Ela é tão linda.
— Por favor, volte para a forma de pingente.
— Você acha que ela gosta de mim? Eu não falei nenhuma besteira, falei? Seja sincero.
Engoli alguns comentários mordazes. Não era culpa de Jacques estarmos naquela situação difícil. Mesmo assim, fiquei aliviado quando finalmente o convenci a virar pingente. Falei que ele precisaria do sono da beleza para o caso de desembainharmos Skofnung mais tarde.
Quando chegamos ao aeroporto, ajudei Hearthstone a tirar nosso anão de granito do carro enquanto Sam ia até o terminal. O aeroporto em si não era grande coisa, só uma sala para embarque e desembarque, alguns bancos na frente e, depois da cerca de segurança, duas pistas para aviões pequenos.
Sam não explicou por que estávamos ali. Imaginei que ela estivesse usando seus contatos de piloto para conseguir um voo para Boston. Obviamente, ela não podia levar nós quatro com o poder de valquíria, e Hearthstone não estava em condições de usar mais runas.
O elfo tinha gastado suas últimas energias mágicas para conjurar plástico bolha e fita adesiva, usando uma runa que parecia um X comum. Talvez fosse o símbolo viking antigo para um selo do correio. Talvez fosse a runa do Álfaheim Express. Hearthstone estava com tanta raiva e tão infeliz que não tive coragem de perguntar. Só fiquei do lado de fora do terminal, esperando Sam voltar enquanto Hearth embalava cuidadosamente seu melhor amigo.


Tínhamos chegado a uma espécie de trégua enquanto esperávamos o Uber. Hearth, Sam e eu nos sentíamos como fios desencapados, superenergizados com culpa e ressentimento, prontos para matar qualquer um que nos tocasse. Mas sabíamos que isso não ajudaria Blitzen. Nós não discutimos, mas chegamos a um acordo silencioso de só gritar, berrar e bater uns nos outros mais tarde. Naquele bmomento, tínhamos um anão para curar.
Finalmente, ela saiu do terminal. Sam devia ter feito uma parada no banheiro, porque suas mãos e seu rosto ainda estavam úmidos.
— O Cessna está a caminho — disse ela.
— O avião do seu instrutor?
Ela assentiu.
— Precisei implorar e suplicar. Mas Barry é muito legal. Ele entendeu que é uma emergência.
— Ele sabe sobre...?
Fiz um gesto ao redor, implicando fracamente os nove mundos, anões petrificados, guerreiros mortos-vivos, deuses perversos e todas as outras coisas malucas que faziam parte das nossas vidas.
— Não — disse ela. — E gostaria que continuasse assim. Não posso pilotar aviões se meu instrutor achar que eu sou doida.
Ela olhou para o projeto de plástico bolha de Hearthstone.
— Nenhuma mudança em Blitzen? Ele ainda não começou... a se desfazer?
Um nó se formou em minha garganta.
— Se desfazer? Diga que isso não vai acontecer.
— Eu espero que não. Mas, às vezes... — Sam fechou os olhos e demorou um segundo para se recompor. — Às vezes, depois de alguns dias...
Como se eu precisasse de outro motivo para me sentir mais culpado.
— Quando encontrarmos a pedra Skofnung... deve haver um jeito de despetrificar Blitz, certo?
Aquela parecia ser uma pergunta que eu devia ter feito antes de transformar meu amigo em um bloco de granito, mas, bem, eu estava sob muita pressão.
— Eu... eu espero que sim.
Isso me fez sentir muito melhor.
Hearthstone olhou para nós. Sinalizou para Sam com movimentos curtos e furiosos: Avião? Você vai deixar Magnus e a mim. Depois vai embora.
Sam pareceu magoada, mas levantou a mão ao lado do rosto, com o indicador apontando para cima.
Entendido.
Hearthstone continuou embrulhando nosso anão.
— Dê um tempo a ele — falei para Sam. — Não é culpa sua.
Sam encarou o asfalto.
— Eu queria acreditar nisso.
Tive vontade de perguntar sobre o controle de Loki sobre ela, de dizer quanto eu me sentia mal por isso, de prometer que encontraríamos um jeito de derrotar seu pai. Mas achei que era cedo demais para tocar em todos esses assuntos. A vergonha dela estava recente demais.
— O que Hearthstone quis dizer com nos deixar? — perguntei.
— Explico quando estivermos no avião. — Sam pegou o celular e olhou a hora. — É a zuhr. Temos uns vinte minutos até o avião pousar. Magnus, posso conversar com você em particular?
Eu não sabia o que era zuhr, mas a segui até uma área gramada no meio de uma entrada circular para carros.
Sam remexeu na mochila, pegou um tecido azul que parecia um lenço enorme e abriu na grama. Meu primeiro pensamento foi: vamos fazer um piquenique?
Mas percebi que ela estava alinhando o pano virado para o sudeste.
— É um tapete para orações?
— É — disse ela. — Está na hora das orações do meio-dia. Você pode ficar vigiando para mim?
— Eu... espere. O quê? — Senti como se ela estivesse me entregando um bebê recém-nascido e me pedindo para cuidar dele. Desde que eu conheci Sam, nunca a tinha visto orar. Achei que ela não fazia isso com frequência. Era o que eu teria feito no lugar dela, a menor quantidade de coisas religiosas possível. — Como você pode orar em um momento desses?
Ela riu sem muito entusiasmo.
— A verdadeira pergunta é: como eu posso não orar em um momento desses? Só fique vigiando caso... sei lá, trolls ataquem, alguma coisa assim.
— Por que eu nunca vi você fazer isso?
Sam deu de ombros.
— Eu rezo todos os dias. Cinco vezes, como exigido. Normalmente, vou para um lugar tranquilo, mas se estiver viajando ou em uma situação perigosa, eu adio as orações até ter certeza de estar em segurança. Isso é permitido.
— Como quando estávamos em Jötunheim?
Ela assentiu.
— É um bom exemplo. Já que não estamos em perigo no momento e você está comigo, e também como está na hora... você se importa?
— Hã... não. Quer dizer, claro. Vá em frente.
Eu já tinha estado em situações bem surreais. Fui a um bar anão. Fugi de um esquilo gigante na Árvore do Mundo. Desci de rapel por uma cortina na sala de jantar de um gigante. Mas proteger Samirah al-Abbas enquanto ela orava no estacionamento do aeroporto... isso era novidade.
Sam tirou os sapatos. Ficou parada na ponta do tapete, com as mãos unidas na altura da barriga, os olhos fechados. Ela sussurrava alguma coisa, baixinho. Levou as mãos aos ouvidos por um momento, o mesmo gesto que usávamos em linguagem de sinais para escute com atenção. Então começou a orar, um cantarolar suave em árabe que parecia que ela estava recitando um poema que sabia de cor ou uma canção de amor. Sam se curvou, se empertigou e se ajoelhou com os pés embaixo do corpo e encostou a testa no pano.
Não estou dizendo que fiquei olhando. Parecia errado encarar. Mas fiquei vigiando do que eu esperava ser uma distância respeitosa.
Tenho que admitir que fiquei um pouco fascinado. E talvez também tenha sentido um pouco de inveja. Apesar de tudo o que acabara de acontecer com ela, depois de ter sido controlada e deixada inconsciente pelo pai do mal, Sam parecia em paz naquele momento. Ela estava criando sua própria bolha de tranquilidade.
Eu nunca rezava, porque não acreditava em um Deus Todo-Poderoso. Mas, como Sam, gostaria de ter fé em alguma coisa.
A oração não demorou. Sam dobrou o tapete e se levantou.
— Obrigada, Magnus.
Eu dei de ombros, ainda me sentindo um intruso.
— Está melhor agora?
Ela abriu um sorrisinho debochado.
— Não é magia.
— É, mas... nós vemos magia o tempo todo. Não é difícil acreditar, tipo, que existe por aí algo mais poderoso do que todos esses seres nórdicos que enfrentamos? Principalmente, e não quero ofender ninguém, considerando que esse Cara não intervém para ajudar?
Sam guardou o tapete de orações na bolsa.
— Não intervir, não interferir, não forçar... a mim, isso parece mais misericordioso e mais divino, não acha?
Eu assenti.
— Bom argumento.
Não vi Sam chorando, mas os cantos dos olhos dela estavam rosados. Eu me perguntei se ela chorava do mesmo jeito que rezava: em particular, em um lugar tranquilo, para nós não percebermos.
Ela olhou para o céu.
— Além do mais, quem disse que Alá não ajuda? — Ela apontou para a forma branca e brilhante de um avião se aproximando. — Vamos encontrar Barry.

* * *

Surpresa! Além de conseguir um avião e um piloto, a gente também conseguiu a companhia do namorado de Sam.
Ela estava correndo pela pista quando a porta do avião se abriu. A primeira pessoa a descer os degraus foi Amir Fadlan, vestindo uma jaqueta de couro marrom por cima da camiseta do Falafel do Fadlan, o cabelo penteado para trás com gel, e óculos escuros de aros dourados – ele parecia um personagem saído do filme Top Gun.
Sam diminuiu o passo quando o viu, mas era tarde demais para ela se esconder. Ela olhou para mim com uma expressão de pânico e foi encontrar o noivo.
Perdi o começo da conversa. Estava ocupado demais ajudando Hearthstone a carregar um anão de pedra até o avião. Sam e Amir ficaram junto à escada, trocando gestos exasperados e expressões de sofrimento
Quando finalmente os alcancei, Amir estava andando de um lado para outro como se estivesse treinando um discurso.
— Eu nem devia estar aqui. Achei que você estivesse em perigo. Achei que era uma questão de vida ou morte. Eu... — Ele parou na mesma hora. — Magnus?
Ele me olhou como se eu tivesse acabado de cair do céu, o que não era justo, pois eu não caía do céu havia horas.
— Oi, cara — cumprimentei. — Tem um bom motivo para isso tudo. Bom mesmo. Tipo, Samirah não fez... nada do que você possa estar achando que ela fez de errado. Porque ela não fez nada de errado.
Sam me olhou de cara feia. Você não está ajudando.
O olhar de Amir se desviou para Hearthstone.
— Eu reconheço você também. De uns meses atrás, na praça de alimentação. Do suposto grupo de estudos de matemática de Sam... — Ele balançou a cabeça com descrença. — Então você é o elfo de quem Sam falou? E, Magnus... você... você está morto. Sam disse que levou sua alma para Valhala. E o anão... — ele olhou para Blitzen enrolado em plástico bolha — é uma estátua?
— Temporariamente — respondi. — Isso também não foi culpa da Sam.
Amir soltou uma daquelas gargalhadas loucas que ninguém gosta de ouvir, do tipo que indica que o cérebro desenvolveu algumas rachaduras, e elas não vão sumir tão cedo.
— Nem sei por onde começar. Sam, você está bem? Está... está com algum problema?
As bochechas de Sam ficaram da cor de molho de cranberry.
— É... complicado. Desculpe, Amir. Eu não esperava...
— Que ele estivesse aqui? — disse uma nova voz. — Querida, ele não aceitou não como resposta.
Na porta do avião havia um homem magro de pele morena tão bem-vestido que Blitzen teria chorado de alegria: calça skinny marrom, camisa verde-pastel, colete trespassado e botas de bico fino. A identificação de piloto plastificada e pendurada no pescoço dele dizia BARRY AL-JABBAR.
— Queridos — disse Barry —, se queremos manter nosso plano de voo, precisamos subir a bordo. Só temos que reabastecer e podemos seguir viagem. E quanto a você, Samirah... — Ele ergueu uma sobrancelha. Tinha os olhos dourados mais calorosos que já vi. — Me perdoe por contar para Amir, mas, quando você ligou, fiquei preocupadíssimo. Amir é um amigo querido. E, seja qual for o drama rolando entre vocês, espero que resolvam! Assim que ele soube que você estava com problemas, insistiu em vir junto. Então... — Barry juntou as mãos em torno da boca e fingiu sussurrar: — Vamos dizer que estou supervisionando vocês, está bem? Agora, todos a bordo!
Barry se virou e desapareceu dentro do avião. Hearthstone foi atrás dele, puxando Blitzen junto pelos degraus.
Amir retorceu as mãos.
— Sam, eu estou tentando entender. De verdade.
Ela olhou para o cinto, talvez percebendo que ainda estava carregando o machado.
— Eu... eu sei.
— Eu faço qualquer coisa por você — disse Amir. — Só... não pare de falar comigo, está bem? Me conte. Por mais louco que seja, me conte.
Ela assentiu.
— É melhor você subir a bordo. Preciso fazer a inspeção externa.
Amir olhou para mim mais uma vez, como se estivesse tentando encontrar onde estavam meus ferimentos mortais, e subiu a escada.
Eu me virei para Sam.
— Ele veio até aqui por você. Sua segurança é a única coisa que importa para ele.
— Eu sei.
— Isso é bom, Sam.
— Eu não mereço. Não fui honesta com Amir. Eu só... Eu não queria contaminar a única parte normal da minha vida.
— A parte anormal da sua vida está bem aqui.
Os ombros dela murcharam.
— Desculpe. Sei que você está tentando ajudar. Eu não tiraria você da minha vida, Magnus.
— Ah, que bom — falei. — Porque tem muito mais maluquice a caminho.
Sam assentiu.
— Falando nisso, é melhor você ir se sentar e afivelar o cinto.
— Por quê? Barry pilota mal?
— Ah, Barry é um excelente piloto, mas ele não vai pilotar hoje. Eu vou, e direto para Álfaheim.


10 comentários:

  1. Amei esse capítulo ❤
    Demonstrando que quando a amizade é verdadeira nós fazemos de tudo para ajudar nossos amigos 😍

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  2. Amei esse capítulo ❤
    Demonstrando que quando a amizade é verdadeira nós fazemos de tudo para ajudar nossos amigos 😍

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  3. Alguém me faz um favor e tranca esses dois no quartinho escuro? Velho, meu coração de shipper não aguenta mais essa enrolação. Espero que não seja igual Percabeth.
    -Sinead

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  4. tipo se pode voar de um mundo pra outro como no CK???

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    1. Se eles conseguiram navegar de um mundo para o outro eu imagino que sim...

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  5. Eu sou a única q n shippa a sam com o magnus e sim com o amir?

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  6. Hummm... me ajuda.
    Sinead
    São quais nomes juntos?

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    1. Ahn? Sinead é um nome por si só, não um shipp. É a assinatura da pessoa que comentou

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