16 de outubro de 2016

Dez - O luau viking mais estranho do mundo

COMO SE A quinta de dragões não fosse ruim o bastante, também era noite temática no Salão de Banquete dos Mortos: luau havaiano.
Ugh.
Eu entendia que a gerência precisava manter os eventos interessantes, principalmente para os guerreiros que esperavam o Juízo Final desde a Idade Média. Mesmo assim, o luau me parecia um pouco de apropriação cultural demais. (Os vikings eram famosos por se apropriar de outras culturas. Também por pilhar e por queimar tais culturas.) Além disso, ver milhares de einherjar de camisas floridas e colares havaianos era como receber uma granada de tinta néon entre os olhos.
O salão estava lotado até o teto: centenas de mesas arrumadas como um anfiteatro, todas viradas para o centro, onde uma árvore grande como um shopping espalhava os galhos pelo enorme teto abobadado. Perto das raízes, girando em um espeto acima do fogo, estava nosso jantar de sempre: a carcaça de Saehrímir, o animal mágico, que esta noite usava um lindo colar de orquídeas. Um abacaxi do tamanho de Wisconsin estava enfiado em sua boca.
Valquírias voavam de um lado para outro do salão, enchendo jarras, servindo comida e conseguindo não botar fogo nas saias de capim com as tochas havaianas que ardiam nos corredores.
— Magnus! — chamou T.J., acenando para mim. O rifle estava apoiado ao lado dele, com a parte quebrada colada com fita adesiva.
Não tínhamos lugar marcado. Isso acabaria com a diversão de brigar pelos melhores lugares. Esta noite, meus companheiros de corredor tinham conseguido um excelente local na terceira fila, a algumas fileiras da mesa dos lordes.
— Chegou nosso dorminhoco! — Mestiço sorriu, os dentes sujos de Saehrímir assado. — Alicarl, meu amigo!
Mallory o cutucou.
— É aloha, idiota. — Ela revirou os olhos para mim. — Alicarl é norueguês para gorducho, como Mestiço sabe perfeitamente.
— Cheguei perto! — Mestiço bateu o cálice para chamar a atenção das valquírias. — Tragam hidromel e carne para o meu amigo!
Eu me sentei entre Mallory e T.J. Em pouco tempo, tinha à minha frente uma caneca de hidromel frio e um prato de Saehrímir quente com pãozinho e molho. Apesar de toda a loucura que vivi hoje, minha fome era enorme. Ressuscitar sempre provocava isso em mim. Fui com tudo.
Na mesa dos lordes estava a variedade de sempre de pessoas mortas. Reconheci Jim Bowie, Crispus Attucks e Ernie Pyle, todos pessoas que morreram corajosamente em combate, junto com Helgi, o gerente do hotel, e uns outros vikings antigos. O trono de Odin, no centro, estava vazio, pra variar. De tempos em tempos, supostamente, Sam recebia ordens do Pai de Todos, mas Odin não aparecia em Valhala desde o final de nossa missão em janeiro. Devia estar trabalhando no novo livro – Cinco dias até o melhor Ragnarök do mundo! – e na apresentação de PowerPoint que o acompanharia.
À esquerda dos lordes havia a mesa de honra. Esta noite, estava ocupada por apenas duas pessoas: Alex Fierro e sua valquíria, Samirah al-Abbas. Isso queria dizer que, em todos os nove mundos, nas últimas vinte e quatro horas, só Alex tivera uma morte digna de Valhala.
Isso não era necessariamente incomum. Os números por noite variavam de zero a doze. Mas eu não conseguia afastar a sensação de que mais ninguém tinha morrido bravamente no dia de hoje só porque não queria dividir a mesa com Alex. Duas guardas valquírias estavam atrás dela, como se prontas para impedir uma tentativa de fuga.
A linguagem corporal de Sam era pura tensão. Eu estava longe demais para ouvi-la, mas imaginei que a conversa com Alex fosse alguma coisa assim:
Sam: Que papo constrangedor.
Alex: Superconstrangedor.
Sam (assentindo): Constrangedor pra caramba.
Ao meu lado, T.J. empurrou o prato vazio.
— Que combate o de hoje. Eu nunca vi ninguém fazer isso — ele passou o dedo no pescoço — tão rápido e com tanta frieza.
Resisti à vontade de tocar meu pescoço.
— Foi a primeira vez que fui decapitado.
— Não é divertido, é? — perguntou Mallory. — O que estava acontecendo com você, soltando fumaça e ameaçando explodir daquele jeito?
Eu já conhecia meus companheiros de corredor havia um tempo. Confiava neles como família, e queria dizer família estilo Annabeth, não estilo tio Randolph. Contei tudo para eles: Loki com o smoking verde horrendo me convidando para um casamento; os sonhos com meu tio, Hearth e Blitz e os irmãos gigantes no bar.
— Thrym? — Mestiço Gunderson tirou uns pedaços de pãozinho da barba. — Conheço esse nome das antigas lendas. Ele era um dos reis dos gigantes da terra, mas não pode ser o mesmo cara. Aquele Thrym foi bem morto séculos atrás.
Pensei no bode Otis, que supostamente podia retornar da névoa de Ginnungagap.
— Os gigantes não ressuscitam?
Mestiço riu com deboche.
— Não que eu saiba. Deve ser outro Thrym. É um nome comum. Mas se ele estiver com o martelo de Thor...
— Nós não devíamos espalhar a notícia de que está desaparecido — alertei.
— Isso aí — resmungou Mallory. — Você diz que esse gigante planeja se casar... — O dedo dela se virou na direção de Sam. — Ela sabe sobre esse plano?
— Preciso perguntar a ela. De qualquer modo, nós temos cinco dias. Se esse gigante Thrym não tiver sua noiva...
— Ele corre para o telégrafo — disse T.J. — e conta para todos os outros gigantes que está com o martelo de Thor. E eles invadem Midgard.
Decidi não lembrar a T.J. que ninguém mais usava telégrafos.
Mestiço pegou a faca de carne e começou a limpar os dentes.
— Não entendo por que esse Thrym esperou tanto tempo. Se ele está com o martelo há meses, por que não estamos sob ataque?
Eu não tinha uma resposta, mas imaginava que tivesse alguma coisa a ver com Loki. Como sempre, ele devia estar sussurrando no ouvido das pessoas, manipulando eventos por trás das cenas. O que quer que Loki quisesse dessa transação esquisita de casamento, eu tinha certeza de uma coisa: ele não estava tentando recuperar o martelo de Thor só porque era um cara legal.
Olhei para o outro lado do salão, para Alex Fierro. Eu me lembrei do que ela dissera no campo de batalha quando enfrentamos Grimwolf: Ele mandou o lindwyrm por minha causa. Ele sabe que estou aqui.
Mallory me cutucou.
— Você está pensando a mesma coisa que eu? Não pode ser coincidência Alex Fierro ter chegado no meio disso tudo. Você acha que Loki a mandou?
Senti como se uma banheira cheia de peixinhos dourados estivesse tentando subir pela minha garganta.
— Como Loki poderia armar para alguém se tornar einherji?
— Ah, meu amigo... — T.J. balançou a cabeça. A combinação da camisa havaiana com estampa floral e da jaqueta da União o fazia parecer um detetive de Hawai Five-0: versão 1862. — Como Loki conseguiria soltar um lindwyrm ancestral em Valhala? Como poderia ajudar os confederados com a Primeira Batalha de Bull Run?
— Loki ajudou o quê?
— O que quero dizer é que Loki é capaz de fazer muitas coisas — disse T.J. — Nunca o subestime.
Era um bom conselho. Mesmo assim... ao olhar para Alex Fierro, eu tinha dificuldade em achar que ela fosse uma espiã. Apavorante e perigosa, sim. Um pé no saco, claro. Mas trabalhando para o pai?
— Loki não escolheria alguém que... se misturasse um pouco melhor? — perguntei. — Além do mais, quando estava na minha cabeça, ele me pediu para não levar Alex ao casamento. Loki disse que ela estragaria tudo.
— Psicologia reversa — sugeriu Mestiço, ainda usando a faca nos dentes.
Mallory riu com deboche.
— O que você sabe sobre psicologia, seu pateta?
— Ou psicologia reversa da reversa da reversa! — Mestiço balançou as sobrancelhas peludas. — Aquele Loki é traiçoeiro.
Mallory jogou uma batata assada nele.
— Só estou dizendo que vale a pena ficar de olho em Alex Fierro — continuou Mallory. — Depois que ela matou o lindwyrm...
— Com uma ajudinha minha — acrescentou T.J.
— ... ela desapareceu na floresta. Deixou a gente nos defendendo sozinhos. O resto dos dragões surgiu do nada...
— E nos matou — disse T.J. — É, foi mesmo meio estranho...
Mestiço grunhiu.
— Fierro é filha de Loki e é um argr. Não dá para confiar em um argr em combate.
Mallory bateu no braço dele.
— Sua atitude é mais ofensiva que seu cheiro.
— Acho sua ofensa ofensiva! — protestou Mestiço. — Argrs não são guerreiros. Foi o que eu quis dizer!
— Tá, e o que é um argr? — perguntei. — Quando você falou pela primeira vez, achei que fosse um monstro. Depois, achei que era outra palavra para pirata, tipo, quem fica falando argh. Quer dizer pessoa transgênero ou o quê?
— Literalmente, quer dizer não másculo — disse Mallory. — É um insulto mortal entre vikings grosseiros como esse cara.
Ela cutucou Mestiço no peito.
— Humf — disse Mestiço. — Só é ofensa se você chamar de argr alguém que não é um argr. Pessoas de gênero fluido não são novidade, Magnus. Existiam muitos argrs entre os nórdicos. Eles têm seus propósitos. Alguns dos maiores padres e sacerdotes eram... — Ele fez círculos no ar com a faca de carne. — Você sabe.
Mallory franziu a testa para mim.
— Meu namorado é um neandertal.
— De jeito nenhum! — disse Mestiço. — Sou um homem moderno e iluminado do ano 865 EC. Agora, se você falar com os einherjar de 700 EC, bem... eles não têm a mente tão aberta para essas coisas.
T.J. tomou um gole de hidromel com o olhar perdido.
— Durante a guerra, tínhamos um mensageiro da tribo Lenape que se referia a si mesmo, ou a si mesma, como Mãe William.
— Que nome de guerra horrível! — reclamou Mestiço. — Quem tremeria de pavor frente a alguém chamado Mãe William?
T.J. deu de ombros.
— Admito que a maioria de nós não conseguia entender. Seu gênero parecia mudar de um dia para o outro. Ele dizia que tinha dois espíritos no corpo, um masculino e um feminino. Mas que alma incrível. Nos salvou de uma emboscada durante a marcha pela Geórgia.
Observei Alex jantando, pegando cuidadosamente pedaços de cenoura e batata no prato. Era difícil acreditar que poucas horas antes os mesmos dedos delicados derrubaram um dragão e cortaram minha cabeça com um fio.
Mestiço se inclinou na minha direção.
— Não há vergonha em sentir atração, Magnus.
Eu engasguei com um pedaço de carne.
— O quê? Não, eu não estava...
— Encarando? — Mestiço sorriu. — Sabe, os sacerdotes de Frey eram muito fluidos. Durante o festival da colheita eles usavam vestidos e faziam danças incríveis...
— Você está de onda comigo — respondi.
— Não. — Mestiço riu. — Uma vez, em Uppsala, eu conheci uma linda...
A história dele foi interrompida pelo som de cornetas se espalhando pelo salão. Na mesa dos lordes, Helgi se levantou. Desde a última vez que eu o tinha visto, de manhã, ele havia ajeitado o paletó e aparado a barba, mas agora estava usando um elmo de guerra grande demais, provavelmente para esconder os danos causados por Alex Fierro ao seu penteado de urubu morto.
— Einherjar! — ribombou a voz dele. — Esta noite, só um guerreiro se juntou a nós, mas me disseram que a história de sua morte é impressionante. — Ele olhou de cara feia para Samirah al-Abbas como quem diz: é melhor que seja mesmo. — Levante-se, Alex Fierro, e nos fascine com seus feitos gloriosos!


17 comentários:

  1. shippo Alex e Magnus, mais alguém? o/

    eu já li em pdf, só vim aqui expressar os meu votos para esse casal maravilhoso, juntamente com Mallory e Mestiço

    sério, vcs vão AMAR o final ¬u¬ tem umas pessoas beeeemm legais

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    1. Agr to ansioso, sou uma pessoa mt ansiosa.., vou te acahr e te dar um tapa por isso kkkk

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    2. Totalmente shippado!!! os dois casais!!!

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    3. Siiiiiiiiiiiiiiiiiiim, eu não vou conseguir esperar até ano que vem para descobrir o que vai acontecer!!!

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    4. Onde vc conseguiu o PDF? Gostaria do endereço. Agradeço.

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  2. Ok, é oficial. Escritores/ roteiristas fazem macumba da pesada pra nada que eu shippar dar certo. E olha, tá funcionando. Ridículos. Vou escrever fanfic e tacar fogo no meu diário

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  3. Mestiço sorriu. — Sabe, os sacerdotes de Frey eram muito fluidos. Durante o festival da colheita eles usavam vestidos e faziam danças incríveis...
    kkkkkkkkkkkkk muitos fluidos kkkk

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  4. Campanha abaixo o preconceito!
    Se um viking berseker que morreu há uns duzentos anos não têm preconceito, por quê você teria?

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  5. Mestiço se inclinou na minha direção.
    — Não há vergonha em sentir atração, Magnus.
    Eu engasguei com um pedaço de carne.
    — O quê? Não, eu não estava...
    O SHIPP RETORNA!!

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  6. Eu shippava Magnus com Sam, mas já que ela é toda caidinha pelo figurante, vamo shippar Malex e vê no que dá!
    Aí meu deus, outro Ale com um Magnus! É muita inspiração em TMI, sociedade!

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    1. Caçadora de sombras17 de novembro de 2016 18:35

      Juro q primeira vez que li, li MALEC kkk vício em TMI <3

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  7. "Mestiço se inclinou na minha direção.
    — Não há vergonha em sentir atração, Magnus.
    Eu engasguei com um pedaço de carne.
    — O quê? Não, eu não estava...
    — Encarando? — Mestiço sorriu. — Sabe, os sacerdotes de Frey eram muito fluidos. Durante o festival da colheita eles usavam vestidos e faziam danças incríveis...
    — Você está de onda comigo — respondi.
    — Não. — Mestiço riu. — Uma vez, em Uppsala, eu conheci uma linda..."

    ADORO
    AMÉM MALEX

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  8. Pera, resumindo, Alex é um garoto mas já q ele é metamorfo, aproveita para se transformar em garota. Já q ele se sente garota?

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