16 de outubro de 2016

Cinquenta - Um pouco de veneno refrescante no rosto, senhor?

EU ODEIO QUEBRA-CABEÇAS. Já mencionei isso?
Odeio principalmente quando olho para a peça durante horas, me perguntando onde se encaixa, aí outra pessoa aparece, coloca no lugar e diz: Ali, seu burro!
Foi assim que me senti quando finalmente entendi o plano de Loki.
Eu me lembrei dos mapas espalhados na escrivaninha do tio Randolph quando fui com Alex na casa dele. Talvez, no fundo da minha mente, eu tivesse estranhado aquilo. A busca de Randolph pela Espada do Verão tinha acabado. Por que ele ainda estaria olhando mapas? Mas não questionei Alex e nem a mim mesmo. Estava distraído demais.
Agora, eu podia apostar que Randolph estava estudando mapas topográficos da Nova Inglaterra, comparando com mapas e lendas nórdicos antigos. Ele recebeu a ordem de fazer uma busca diferente: encontrar as coordenadas da caverna de Loki em relação à fortaleza de Thrym. Se alguém era capaz disso, esse alguém era o meu tio. Foi por isso que Loki o manteve vivo.
Não era surpresa que Loki e Randolph não tivessem aparecido no bar. Eles estavam nos esperando do outro lado do túnel.
— Precisamos dos bodes! — gritei.
Fui andando pela multidão até chegar à carruagem. Segurei a cara de Otis e apertei minha testa contra a dele.
— Testando — sussurrei. — Este bode está ligado? Thor, está me ouvindo?
— Você tem olhos lindos — disse Otis.
— Thor, alerta vermelho! Estamos nos deslocando. Vão nos levar para a caverna de Loki. Eu... eu não sei onde ela fica. O túnel está na parede da direita, descendo. Só... encontre a gente! Otis, ele recebeu o recado?
— Que recado? — perguntou o bode com voz sonhadora.
— Magnus Chase! — gritou o rei gigante. — Está pronto?
— Hã, claro! — respondi. — Só temos que ir de carruagem porque... bem, por motivos tradicionais de casamento.
Os outros gigantes deram de ombros e assentiram, como se aquilo fizesse sentido para eles. Apenas Thrynga pareceu desconfiada. Fiquei com medo de ela estar começando a duvidar que a carruagem fosse alugada.
De repente, o bar ficou pequeno demais, com todos os gigantes vestindo paletós, ajeitando gravatas, bebendo os restos de hidromel e tentando descobrir seu lugar na procissão de casamento.
Samirah e Alex se aproximaram da carruagem.
— O que a gente faz? — sibilou Alex.
— Não sei! — disse Sam. — Onde está nossa ajuda?
— Vamos estar no lugar errado — falei. — Como eles vão nos encontrar?
Isso foi tudo o que tivemos tempo de conversar antes de Thrym se aproximar e pegar as rédeas dos nossos bodes. Ele puxou a carruagem para o túnel, com a irmã ao lado e o resto dos gigantes atrás de nós, seguindo em pares.
Assim que o último gigante entrou no túnel, a entrada se fechou.
— Ei, Thrym? — Minha voz tinha uma semelhança infeliz com a do Mickey Mouse, me fazendo pensar em que tipo de gases estranhos devia haver naquele túnel. — Tem certeza de que é uma boa ideia confiar em Loki? Quer dizer... não foi ideia dele levar Thor escondido para o casamento do seu avô? Ele não ajudou Thor a matar sua família?
O rei gigante parou tão abruptamente que Marvin se chocou contra ele. Eu sabia que estava fazendo uma pergunta indelicada, principalmente no dia do casamento do sujeito, mas queria me agarrar a qualquer coisa que pudesse diminuir o ritmo do cortejo.
Thrym se virou, os olhos feito diamantes rosados e úmidos na escuridão.
— Você acha que não sei disso, humano? Loki é traiçoeiro. É da natureza dele. Mas foi Thor quem matou meu avô, meu pai, minha mãe, minha família inteira!
— Menos eu — murmurou Thrynga.
Na escuridão, ela brilhava de leve, uma aparição de feiura com dois metros de altura. Eu não tinha reparado nisso antes. Talvez fosse uma habilidade que os gigantes da terra podiam ligar e desligar.
Thrym a ignorou.
— Essa aliança foi o jeito que Loki encontrou para pedir desculpas; você não vê? Ele percebeu que os deuses sempre foram seus inimigos. Então, se arrependeu de ter traído meu avô. Nós vamos unir nossas forças, dominar Midgard e invadir Asgard!
Atrás da carruagem, os gigantes soltaram um grito ensurdecedor.
— Matem todos os humanos!
— Calados! — gritou Thrynga. — Temos humanos aqui conosco!
Os gigantes resmungaram. Alguém no fundo emendou:
— Todos, menos os presentes.
— Mas, grande rei Thrym — disse Sam —, você realmente confia em Loki?
Thrym riu. Para um cara tão grande, ele tinha dentes muito pequenos.
— Loki é prisioneiro em sua própria caverna. Está vulnerável! Ele me convidou para ir até lá. Me indicou a localização. Por que faria um gesto tão grandioso de confiança?
A irmã giganta riu com deboche.
— Ih, não sei, irmão. Talvez porque Loki precise de um gigante da terra para abrir um túnel até o local onde ele está preso? Ou talvez porque ele quer se libertar?
Eu desejava que Thrynga estivesse do nosso lado, a não ser pelo fato de que ela era uma giganta faminta por poder, decidida a se vingar e assassinar todos os humanos.
— Nós tomamos as decisões — insistiu Thrym. — Loki não ousaria nos trair. Além do mais, sou eu que vou abrir a caverna dele! Loki vai ficar agradecido! Se ele honrar sua parte do acordo, será um prazer libertá-lo. E a bela Samirah... — Thrym olhou para Alex com malícia. — Ela vale o risco.
Por baixo do véu, Alex piou feito um papagaio. O barulho foi tão alto que Thrynga quase bateu no teto.
— O que foi isso? — perguntou a giganta. — A noiva está engasgada?
— Não, não! — Sam deu um tapinha nas costas de Alex. — A pobrezinha só está nervosa. Samirah fica pouco à vontade quando é elogiada.
Thrym riu.
— Então ela vai ficar bem pouco à vontade quando for minha esposa.
— Ah, Vossa Majestade! — disse Sam. — Palavras mais verdadeiras nunca foram ditas!
— Em frente!
Thrym prosseguiu pelo caminho gelado.
Eu me perguntei se esse atraso teria ganhado algum tempo para nossas tropas de apoio. Supondo que tivéssemos uma. Thor conseguiria seguir nosso progresso pelos olhos e ouvidos dos bodes? Será que havia algum modo de passar uma mensagem para Blitz e Hearth e para os meus colegas einherjar do andar dezenove?
O túnel se fechou atrás de nós conforme descemos. Tive uma visão horrível de Thor no banheiro dos gigantes, tentando quebrar a parede com um saca-rolhas e uma furadeira elétrica.
Depois de mais alguns minutos, o túnel começou a estreitar. O progresso de Thrym ficou mais lento. Tive a sensação de que a própria terra estava lutando contra ele agora, tentando empurrá-lo para trás. Talvez os aesires tivessem colocado uma barreira mágica em torno da prisão de Loki. Se era esse o caso, não foi o bastante. Seguimos em frente e cada vez mais fundo, com a carruagem agora raspando nas paredes. Atrás de nós, os gigantes agora andavam em fila indiana. Ao meu lado, Sam murmurava baixinho um cântico em árabe que eu me lembrava de ter ouvido durante as orações dela.
Um cheiro ruim veio das profundezas – leite azedo, ovos podres e carne queimada. Infelizmente, eu achava que não era Thor.
— Consigo senti-lo — sussurrou Alex, a primeira coisa que disse em quase uma hora. — Ah, não, não, não...
O túnel se alargou de uma hora para outra, como se Thrym tivesse finalmente rompido as defesas da terra. Nosso cortejo entrou na câmara de Loki.

* * *

Eu já tinha visto o lugar em um sonho, mas isso não me preparou para a realidade. A caverna era do tamanho de uma quadra de tênis, com um teto alto e abobadado de pedra rachada e estalactites quebradas, cujos pedaços cobriam o chão. Não havia outras saídas que eu pudesse ver. O ar estava rançoso e desagradavelmente doce com o fedor de podridão e carne queimada. Por toda a câmara, estalagmites enormes se projetavam do chão. Em outros lugares, crateras de líquido viscoso borbulhavam e fumegavam, enchendo a caverna com gás tóxico. A temperatura devia estar por volta de quarenta graus, e todos aqueles gigantes da terra entrando lá não ajudou com o calor nem com o cheiro.
No centro da caverna, como eu tinha visto no sonho, Loki estava deitado no chão, os tornozelos unidos e amarrados a uma estalagmite, os braços esticados e acorrentados a duas outras rochas. Diferentemente das manifestações dele que eu tinha visto, o verdadeiro Loki não era bonito nem atraente. Não estava usando nada além de uma tanga em farrapos. O corpo era esquelético, imundo e coberto de cicatrizes. O cabelo comprido e fino podia ter sido castanho-avermelhado, mas agora estava queimado e desbotado pelos séculos naquela caverna tóxica. E o rosto – ou o que tinha sobrado dele – era uma máscara meio derretida de cicatrizes.
Enrolada na estalactite acima da cabeça de Loki, uma serpente enorme olhava para o prisioneiro, as presas pingando veneno amarelo.
Ao lado de Loki havia uma mulher ajoelhada usando vestes brancas e capuz. Ela segurava uma tigela de metal acima do rosto do deus para recolher o veneno da serpente. Mas a cobra era uma produtora e tanto. O veneno pingava das presas como uma torneira quebrada, e a tigela da mulher era pequena demais.
Enquanto olhávamos, o veneno encheu a tigela até as bordas e a mulher se virou para esvaziá-la, derramando o conteúdo em uma das poças fumegantes atrás de si. Apesar de a mulher ter sido rápida, algumas gotas do veneno da serpente pingaram direto no rosto de Loki. Ele se contorceu e gritou. A caverna tremeu. Achei que o teto ia desabar em cima de nós, mas de algum modo aguentou. Talvez os deuses tivessem criado aquela câmara para aguentar o tremor, assim como tinham criado as amarras de Loki para nunca se partirem, a cobra para nunca secar e a tigela da mulher para nunca ser grande o suficiente.
Eu não era religioso, mas aquela cena toda me lembrou o crucifixo da igreja católica: um homem em dor excruciante, os braços esticados. Claro que Loki não era a ideia que ninguém fazia de um salvador. Ele não era bom. Não estava se sacrificando por uma causa nobre. Era um imortal mau pagando por seus crimes. Mesmo assim, ao vê-lo ali, em pessoa, destruído, imundo, sofrendo, não consegui não sentir pena. Ninguém merecia aquele tipo de punição, nem mesmo um assassino mentiroso.
A mulher de branco levantou a tigela de novo para proteger o rosto dele. Loki balançou a cabeça para tirar o veneno dos olhos. Respirou com dificuldade e olhou em nossa direção.
— Bem-vindo, Magnus Chase! — Ele me deu um sorriso horrendo. — Espero que me perdoe por não ir até aí recebê-lo.
— Pelos deuses — murmurei.
— Ah, não; não tem deuses aqui! — disse Loki. — Eles nunca vêm visitar. Eles nos trancaram e nos largaram aqui. Somos só eu e minha adorável esposa, Sigyn. Diga oi, Sigyn.
A mulher de branco levantou a cabeça. Por baixo do capuz, o rosto estava tão cadavérico que ela podia ser um draugr. Os olhos eram vermelhos e vazios. Lágrimas vermelhas escorriam pelo rosto de pele grossa.
— Ah, é verdade. — A voz de Loki soou ainda mais ácida do que o ar. — Sigyn não fala há mil anos, desde que os aesires, em sua sabedoria infinita, mataram nossos filhos e nos abandonaram aqui para sofrermos por toda a eternidade. Mas onde estão meus modos? É uma ocasião feliz! Como você está, Thrym, filho de Thrym, neto de Thrym, bisneto de Thrym?
O rei não parecia muito bem. Ele ficava engolindo em seco, como se os nachos não quisessem ficar na barriga.
— O-oi, Loki. N-na verdade, são só três Thryms. E estou pronto para selar nossa aliança com um casamento.
— Sim, claro! Magnus, você trouxe a espada Skofnung.
Era uma afirmação, não uma pergunta. Ele falou com tanta autoridade que precisei resistir à vontade de soltar a espada das costas e mostrar para ele.
— Nós trouxemos — falei. — Mas uma coisa de cada vez. Queremos ver o martelo.
Loki riu, um som molhado e gorgolejante.
— Primeiro, vamos confirmar que a noiva é realmente a noiva. Venha aqui, Samirah. Deixe-me ver seu rosto.
As duas garotas se aproximaram dele como se estivessem sendo puxadas.
Minha pulsação latejou na gola do smoking. Eu devia ter imaginado que Loki ia querer verificar por baixo dos véus das meninas. Afinal, ele era o deus da trapaça. Apesar das garantias de Alex de que podia resistir às ordens de Loki, ela cambaleou para a frente do mesmo jeito que Samirah.
Eu me perguntei com que velocidade seria capaz de pegar minha espada e quantos gigantes conseguiria matar. Pensei se Otis e Marvin ajudariam em uma briga. Devia ser demais esperar que eles fossem treinados em bode-fu.
— Prontinho — disse Loki. — Agora, que tal a noiva mostrar o rosto, hein? Só para ter certeza de que todo mundo está jogando limpo.
As mãos de Alex se levantaram como se estivessem presas por fios de marionete. Ela começou a levantar o véu. A caverna estava em silêncio, exceto pelo borbulhar das fontes ferventes e pelo gotejar constante de veneno na tigela de Sigyn.
Alex levantou o véu por cima da cabeça e mostrou... o rosto de Samirah.
Por um segundo, entrei em pânico. As garotas tinham trocado de lugar? E então percebi, não sei como, talvez por algum brilho nos olhos, que Alex ainda era Alex. Ela tinha se metamorfoseado para parecer Sam, mas se isso enganaria Loki ou não...
Passei os dedos pelo pingente. O silêncio durou tempo o bastante para eu começar a compor meu testamento mentalmente.
— Bem... — disse Loki, por fim. — Tenho que admitir que estou surpreso. Você realmente seguiu as ordens. Boa menina! Acho que isso quer dizer que sua madrinha é...
A tigela de Sigyn escorregou e virou veneno no rosto de Loki. O deus gritou e se contorceu nas amarras. As garotas recuaram rapidamente.
Sigyn endireitou a tigela. Tentou limpar o veneno dos olhos de Loki com a manga, mas isso só o fez gritar mais. A bainha soltou fumaça e ficou cheia de buracos.
— Mulher burra! — gritou Loki.
Por um momento, o olhar de Sigyn encontrou o meu, embora fosse difícil ter certeza, com aqueles olhos vermelhos. A expressão dela não mudou. As lágrimas continuaram escorrendo. Mas me perguntei se ela havia derramado o veneno de propósito. Até onde eu sabia, Sigyn estava fielmente ajoelhada ao lado do marido havia séculos. Mesmo assim... me pareceu um descuido em um momento oportuno.
Thrynga limpou a garganta – um belo som, feito uma serra elétrica cortando lama.
— Você perguntou sobre a madrinha, lorde Loki. Ela disse que seu nome é Prudence.
Loki riu, ainda tentando piscar para tirar o veneno dos olhos.
— Tenho certeza de que disse. O verdadeiro nome dela é Alex Fierro, e eu avisei a ela para não vir hoje, mas não importa! Vamos em frente. Thrynga, você trouxe o convidado especial que eu pedi?
A giganta curvou os lábios manchados de tinta. Pegou a castanha que estava jogando para o alto mais cedo.
— Seu convidado especial é uma noz? — perguntei.
Loki deu uma gargalhada rouca.
— Podemos dizer que sim. Vá em frente, Thrynga.
A giganta enfiou a unha na casca e abriu a castanha. Jogou-a no chão, e uma coisa pequena e escura rolou para fora; não a polpa da castanha, mas uma pequena forma humana, que cresceu até um homem corpulento aparecer na minha frente, o smoking preto amassado sujo de terra, a bochecha com a marca de uma queimadura em formato de mão.
Qualquer otimismo que eu ainda pudesse ter se desfez com mais rapidez do que o cabelo de ouro de Sif.
— Tio Randolph.
— Oi, Magnus — cumprimentou ele, o rosto contorcido de tristeza. — Por favor, meu rapaz... me dê a espada Skofnung.


3 comentários:

  1. Loki pode até ser um escroto, mas os aesires sempre vão ser piores.
    Não me admira que o cara queira iniciar o Ragnarok o quanto antes, quem iria suportar um destino desses?

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  2. Meu Deus,eu to nervosa
    Na verdade,eu to muito nervosa!

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