16 de outubro de 2016

Cinquenta e um - Oi, paranoia, como vai?

É POR ISSO que eu odeio reuniões de família.
A gente sempre tem que falar com aquele tio que não quer ver, o que sai de uma castanha e exige uma espada.
Parte de mim ficou tentada a dar um pescotapa em Randolph com a pedra Skofnung. A outra parte queria enfiá-lo de volta na castanha, guardar no bolso e levá-lo para longe de Loki. Nenhuma das duas ficou tentada a entregar a espada que poderia libertar o deus.
— Não posso fazer isso, Randolph.
Ele fez uma careta. A mão direita ainda estava com um curativo no local onde cortei dois dedos dele. Randolph a encostou no peito e esticou a mão esquerda, os olhos desesperados e pesados. Um gosto de cobre se espalhou na minha língua. Percebi que meu tio rico agora parecia mais um mendigo do que eu durante os dois anos em que morei nas ruas.
— Por favor — implorou ele. — Eu tinha que trazê-la hoje, mas você a pegou. Eu... eu preciso dela.
Esse era o trabalho dele, eu percebi. Além de encontrar a localização da caverna, ele foi encarregado de libertar Loki, empunhando a espada Skofnung como só alguém de sangue nobre poderia fazer.
— Loki não vai dar o que você quer. Sua família está morta.
Ele piscou, como se eu tivesse jogado areia em seus olhos.
— Magnus, você não entende...
— Nada de espada — afirmei. — Só quando virmos o martelo de Thor.
— O martelo é o morgen-gifu, humano idiota! — disse o rei gigante, rindo. — Só vai ser entregue depois da noite de núpcias!
Ao meu lado, Alex estremeceu. Os arcos dourados de seu colar me lembraram a ponte arco-íris, o jeito como ela se deitou de maneira tão casual e relaxada em Bifrost, fazendo um anjinho na luz. Eu não podia permitir que ela fosse obrigada a se casar com um gigante. Só queria saber como impedir.
— Nós precisamos do martelo para abençoar o casamento — falei. — É direito da noiva. Queremos vê-lo e usá-lo na cerimônia. Depois, você pode levar de volta até... até amanhã.
Loki riu.
— Não mesmo, Magnus Chase. Mas foi uma boa tentativa. Agora, Skofnung...
— Espere. — Thrynga dirigiu a Loki seu olhar de Vou bater em você com um banco de bar. — A garota tem direito. Se deseja a bênção do martelo, assim deve ser. Ou meu irmão quer romper com nossa tradição sagrada?
Thrym se encolheu. Seu olhar passou da irmã a seus súditos, depois a Loki.
— Eu... hã... não. Quer dizer, sim. Minha noiva, Samirah, pode receber a bênção. Na hora da cerimônia, vou trazer Mjölnir. Vamos começar?
Os olhos de Thrynga brilharam com malícia. Eu não sabia o que ela pretendia, nem por que queria trazer o martelo logo, mas não ia discutir.
Thrym bateu palmas. Eu não tinha reparado, mas alguns gigantes no final do cortejo haviam trazido alguns móveis do bar. À esquerda do local onde Loki estava preso, colocaram um banco de madeira e cobriram o assento com peles. Dos dois lados do banco, fincaram postes como totens, cada um entalhado com caras de animais ferozes e inscrições rúnicas.
Thrym se sentou. O banco gemeu sob o peso dele. Um dos gigantes colocou uma coroa de pedra em sua cabeça, um aro entalhado de uma única peça de granito.
— Garota, você fica aí — disse a giganta para Alex —, entre seu pai e seu futuro marido.
Alex hesitou.
Loki estalou a língua.
— Venha, filha. Não seja tímida. Fique ao meu lado.
Alex fez o que ele mandou. Eu quis acreditar que foi por ela estar dando corda para a situação e não por estar sendo forçada, mas me lembrei da maneira como ela fora arrastada ao comando de Loki.
Sam estava de pé ao meu lado, retorcendo as mãos com ansiedade. Randolph se moveu para esperar aos pés de Loki. Ele ficou encolhido ali como um cão culpado que voltou da caça sem nenhum animal morto para o mestre.
— O cálice! — ordenou Thrym.
Um dos homens colocou um cálice cravejado de pedras na mão dele. Um líquido vermelho escorreu pela beirada.
Thrym tomou um gole e ofereceu o cálice para Alex.
— Samirah al-Abbas, filha de Loki, dou a você bebida, e com ela a promessa do meu amor. Com minha promessa, você será minha esposa.
Alex pegou o cálice com os dedos cobertos de renda. Olhou ao redor, como se procurasse orientação.
Passou pela minha cabeça que ela talvez não conseguisse imitar a voz de Sam do mesmo modo como havia imitado o rosto.
— Não precisa falar, garota! — disse Thrynga. — Só beba!
Eu teria ficado preocupado com a ressaca, mas Alex levantou parte do véu e tomou um gole.
— Excelente. — Thrynga se virou para mim, o rosto tremendo de impaciência. — Agora, finalmente, o mundr. Entregue a espada, garoto.
— Irmã, não — rosnou Thrym. — Não é para você.
Thrynga se virou para o irmão.
— O quê? Eu sou sua única parente! O dote precisa passar pelas minhas mãos!
— Tenho um acordo com Loki. — Thrym parecia mais confiante agora, quase arrogante, com Alex tão perto. Tive uma sensação horrível de que ele estava ansioso pelo final da cerimônia e pela chance de beijar a noiva. — Garoto, dê a espada para o seu tio. Ele vai segurar.
Thrynga me olhou com raiva. Ao encará-la, percebi o que ela queria. Ela pretendia tomar Skofnung para si, e provavelmente Mjölnir também. Não tinha interesse em uma aliança de casamento com Loki. Thrynga via aquele casamento como a oportunidade de tomar o trono do irmão. Mataria qualquer um que ficasse em seu caminho. Talvez ela não soubesse que a espada Skofnung não podia ser desembainhada na presença de mulheres. Talvez achasse que podia usá-la mesmo assim. Ou talvez ficasse feliz em usar o poder de um banco de bar, desde que as duas outras armas estivessem guardadas em segurança com ela.
Em circunstâncias diferentes, eu poderia desejar sorte na tentativa de assassinar o irmão. Caramba, eu até daria um troféu com descontos de cinquenta por cento nos restaurantes de Asgard. Infelizmente, tive a sensação de que o plano de Thrynga também incluía matar a mim, Sam, Alex e, provavelmente, o tio Randolph.
Dei um passo para trás.
— Já falei, Thrym. Sem martelo não tem espada.
Randolph andou na minha direção, a mão com curativo encostada na faixa do smoking.
— Magnus, você tem que entregar — disse ele. — É a ordem da cerimônia. O mundr tem que ser dado primeiro, e cada casamento exige uma espada ancestral para as alianças. A bênção do martelo vem depois.
O pingente de Jacques vibrou no meu pescoço. Talvez ele estivesse tentando me avisar. Ou talvez só quisesse dar outra olhada em Skofnung, a maior gata entre as espadas. Ou talvez estivesse com ciúmes porque ele queria ser a espada cerimonial.
— O que foi, garoto? — resmungou Thrym. — Eu já prometi que os direitos tradicionais serão garantidos. Você não confia em nós?
Quase dei uma gargalhada.
Olhei para Sam. O mais discretamente que conseguiu, ela sinalizou: Não há escolha. Mas fique de olho nele.
De repente, me senti um idiota. Esse tempo todo poderíamos estar usando a linguagem de sinais para trocar mensagens secretas.
Por outro lado, Loki podia estar controlando Sam, obrigando-a a dizer isso. Será que ele conseguia entrar na mente dela sorrateiramente, sem nem precisar estalar os dedos? Eu me lembrei do que Sam me pediu no átrio de Sif: Você tem que impedi-lo. Se formos incapacitadas, talvez você seja o único que consiga. Pelo que me constava, eu era o único no local que não estava sob o controle de Loki.
Uau. Oi, paranoia.
Mais de duas dezenas de gigantes estavam me encarando. Meu tio esticou a mão boa. Por acaso, olhei nos olhos vermelhos e vazios de Sigyn. A deusa inclinou a cabeça de leve. Não sei por que isso me convenceu, mas soltei a espada e coloquei Skofnung na mão de Randolph, a pedra pesando no punho.
— Você ainda é um Chase — disse, baixinho. — Ainda tem família viva.
O olho de Randolph tremeu. Ele pegou a espada em silêncio.
Randolph se ajoelhou na frente do banco do rei. Com dificuldade por causa da mão machucada, ele segurou a bainha na horizontal, como uma bandeja. Thrym colocou duas alianças de ouro no centro e sustentou a mão acima delas, como uma bênção.
— Ymir, ancestral dos deuses e dos gigantes, ouça minhas palavras — disse ele. — Essas alianças selam nosso casamento.
Ele colocou uma aliança no próprio dedo e outra no dedo de Alex. Em seguida, fez sinal para o tio Randolph se afastar. Meu tio deu alguns passos com a espada, mas Sam e eu nos movemos para interceptá-lo, bloqueando o caminho para impedi-lo de se aproximar de Loki.
Eu estava prestes a insistir pelo martelo, mas Thrynga foi mais rápida.
— Irmão, honre sua promessa.
— Sim, sim — concordou Thrym. — Samirah, minha querida, pode se sentar.
Alex se moveu como se estivesse em transe e se sentou ao lado do gigante. Era difícil saber por debaixo do véu, mas ela parecia estar olhando para a aliança em seu dedo como se fosse uma aranha venenosa.
— Gigantes, fiquem de prontidão — disse Thrym. — Vocês vão cercar o martelo e trazê-lo aqui. Vão segurá-lo acima da minha noiva, com muito cuidado, enquanto eu pronuncio a bênção. Depois, vou mandá-lo imediatamente de volta à terra... — Ele se virou para Alex. — Até amanhã de manhã, meu amor, quando Mjölnir será oficialmente seu morgen-gifu. Depois disso, vou mantê-lo em segurança para você.
Ele deu um tapinha no joelho de Alex, o que ela pareceu apreciar quase tanto quanto a aliança venenosa.
Thrym esticou a mão. Parecia fazer força, pois seu rosto ficou da cor de geleia de amora. A caverna rugiu. O chão se abriu a uns seis metros de nós, e cascalho e lama subiram, como se um inseto enorme estivesse cavando um túnel. O martelo de Thor surgiu e pousou sobre uma camada de destroços.
Parecia o que eu tinha visto no meu sonho: uma enorme cabeça trapezoidal de metal com desenhos entrelaçados de runas e um cabo groso e curto envolto em couro. A presença de Mjölnir encheu a caverna com um cheiro de tempestade. Enquanto os gigantes corriam para cercar o martelo, eu sinalizei para Sam: Vigie Randolph. Em seguida, fui na outra direção, a da carruagem.
Segurei o focinho de Otis e encostei o rosto no dele.
— Está rolando — sussurrei. — O martelo está na caverna. Repito: o martelo está na caverna. Outubro vermelho. A águia pousou. Padrão de Defesa Ômega!
Não sei bem de onde vieram os códigos militares. Mas achei que era o tipo de coisa a que Thor responderia. E, ei, eu estava meio nervoso.
— Você tem olhos lindos — murmurou Otis.
— Tragam o martelo! — Thrym ordenou aos gigantes. — Sejam rápidos!
— Sim — concordou Loki, balançando a cabeça para tirar o cabelo cheio de veneno dos olhos. — E, enquanto vocês estão fazendo isso... Randolph, você pode me soltar.
Foi nessa hora que Alex surtou.


6 comentários:

  1. Thrym parecia mais confiante agora, quase arrogante, com Alex tão perto. Tive uma sensação horrível de que ele estava ansioso pelo final da cerimônia e pela chance de beijar a noiva.

    Impressão minha ou tem um tal de Magnus com ciúmes!?😏😂😍

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  2. EU TO EM PÂNICO AQUI
    PARA ALEX
    FICA QUEITA
    VAI DAR RUIM
    SOCORRO

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  3. Você tem olhos lindos- mumurou Otis
    Eu amo esse bode cara

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