16 de outubro de 2016

Cinquenta e três - Hora do martelo! (Alguém tinha que dizer isso)

UM RELÓGIO.
Os aesires realmente precisavam de um relógio.
Nosso reforço divino ainda não havia chegado. Tínhamos um martelo, mas ninguém para empunhá-lo.
E Loki estava liberto na nossa frente, em toda a sua glória mutilada, com gelo grudado no cabelo e veneno ainda pingando do rosto.
— Ah, sim. — Ele sorriu. — Como meu primeiro ato...
Ele avançou com mais velocidade e força do que deveria ser possível para um cara que ficou acorrentado por mil anos, pegou a cobra que ficava pingando veneno no rosto dele, arrancou-a da estalactite e a brandiu como um chicote.
A espinha da cobra se estilhaçou com um som que parecia com plástico bolha estourando. Loki a largou, tão sem vida quanto uma mangueira de jardim, e se virou para nós.
— Eu odiava essa cobra — disse ele. — Quem é o próximo?
Jacques estava pesado na minha mão. Alex mal conseguia ficar de pé. Sam segurava a lança com força, mas parecia relutante em atacar, provavelmente porque não queria ser paralisada pelo pai de novo... ou coisa pior.
Meus outros amigos se aproximaram de mim: três einherjar fortes, Blitzen com a cota de malha elegante, Hearthstone com as runas de sorveira estalando na bolsa enquanto mexia lá dentro.
— A gente consegue encarar esse cara — disse T.J., o rifle úmido de sangue de gigante. — Todos juntos. Prontos?
Loki abriu os braços em um gesto de boas-vindas. Randolph se ajoelhou aos pés do deus, sofrendo em silêncio enquanto vapor azul subia por seu braço, consumindo sua carne. Na parede mais distante, Sigyn estava imóvel, os olhos vermelhos indecifráveis, pressionando a tigela de veneno vazia contra o peito.
— Venham, então, guerreiros de Odin — provocou Loki. — Estou desarmado e fraco. Vocês conseguem!
Foi nessa hora que eu soube que nós não conseguiríamos. Nós atacaríamos e morreríamos. Acabaríamos caídos no chão com as espinhas partidas, como a cobra.
Mas não tínhamos escolha. Precisávamos tentar.
De repente, ouvimos um estalo vindo da parede às nossas costas, seguido de uma voz familiar.
— Chegamos! Sim, Heimdall, tenho certeza desta vez. Eu acho.
A ponta de um cajado de metal surgiu na pedra e girou. A parede começou a desmoronar.
Loki baixou os braços e suspirou. Parecia mais irritado do que apavorado.
— Ah, bem. — Ele piscou para mim, ou talvez fosse apenas um tique causado por séculos de veneno. — Fica pra próxima?
O chão se abriu sob os pés dele. Os fundos da caverna desabaram. Estalagmites e estalactites implodiram. Poças de líquido fervente viraram cachoeiras fumegantes antes de desaparecerem na escuridão. Loki e Sigyn caíram no nada. Meu tio, que estava ajoelhado na beirada do abismo, também caiu.
— Randolph!
Eu me aproximei da fenda.
Cerca de quinze metros abaixo, Randolph estava encolhido em uma protuberância de pedra molhada e fumegante, tentando manter o equilíbrio. O braço direito não existia mais, e o vapor azul agora subia pelo ombro. Ele olhou para mim, o crânio sorrindo no rosto translúcido.
— Randolph, se segure!
— Não, Magnus. — Ele falou em voz baixa, como se não quisesse acordar ninguém. — Minha família...
— Eu sou sua família, seu idiota!
Talvez eu devesse ter dito algo mais carinhoso. Talvez eu devesse ter pensado já vai tarde e deixado que ele caísse. Mas Annabeth estava certa. Randolph era da família. Todo o clã Chase atraía a atenção dos deuses, e Randolph carregava essa maldição com mais peso do que a maioria de nós. Apesar de tudo, eu ainda queria ajudá-lo.
Ele balançou a cabeça, a tristeza e a dor lutando por dominância nos olhos dele.
— Desculpe. Eu quero vê-las.
Randolph tombou na escuridão sem emitir qualquer som.
Não tive tempo de sofrer, nem de processar o que havia acontecido, pois três deuses de armadura de combate entraram na caverna.
Todos estavam de capacete, óculos de visão noturna, botas e armadura completa à prova de balas com as letras MRRD no peito. Eu talvez os confundisse com uma equipe tática da SWAT, não fossem as barbas fartas e as armas nada comuns.
Thor entrou primeiro, segurando o cajado de ferro como um rifle, apontando em todas as direções.
— Chequem os cantos! — gritou ele.
O próximo deus a entrar foi Heimdall, sorrindo como se estivesse se divertindo muito. Também segurava a espada enorme como um rifle, com o Tablet do Juízo Final preso na ponta. Ele apontou para toda a câmara, tirando selfies de vários ângulos.
Não reconheci o terceiro sujeito. Ele entrou na caverna com um CLANG, porque usava no pé direito o sapato mais grotesco que eu já tinha visto. Era enorme e feito de pedaços de couro e metal, partes de tênis de cor néon, tiras de velcro e fivelas velhas de metal. Até tinha uns seis saltos agulha projetados na ponta como espinhos de um porco-espinho.
Os três deuses andaram de um lado para outro, procurando ameaças.
Escolhendo o pior momento possível, o rei gigante Thrym começou a recuperar a consciência. O deus com o sapato esquisito correu até lá e levantou o pé direito. A bota cresceu para o tamanho de um carro esportivo; pedaços de sucata misturados a partes de sapatos velhos e restos de metal, tudo compactado em um grande bloco esmagador da morte. Thrym nem teve tempo de gritar antes de o Homem Sapato pisar nele.
PLOFT. Fim das ameaças.
— Boa, Vidar! — exclamou Heimdall. — Pode fazer de novo para eu tirar uma foto?
Vidar franziu a testa e apontou para o que sobrara do gigante. Em linguagem de sinais perfeita, o deus sinalizou: Ele já está esmagado.
Do outro lado da câmara, Thor ofegou.
— Meu bebê! — Ele passou correndo pelos bodes e pegou o martelo Mjölnir. — Enfim, juntos! Você está bem, Mimi? Os gigantes malvados reprogramaram seus canais?
Marvin balançou os guizos.
— Sim, nós estamos bem, chefe — murmurou o bode. — Obrigado por perguntar.
Eu olhei para Sam.
— Ele chamou o martelo de Mimi?
Alex grunhiu.
— Ei, aesires idiotas! — Ela apontou para o abismo recém-formado. — Loki foi por ali.
— Loki? — Thor se virou. — Onde?
Um relâmpago brilhou na barba dele, o que deve ter tornado os óculos de visão noturna inúteis.
Escolhendo um momento ainda pior do que o de Thrym, a giganta Thrynga decidiu mostrar que ainda estava viva. Ela surgiu da fossa mais próxima feito uma baleia saltando e caiu aos pés de Heimdall, ofegante e fumegante.
— Matar todos! — grunhiu ela, o que não foi a coisa mais inteligente de se dizer ao encarar três deuses com armaduras de combate.
Thor apontou o martelo para Thrynga com a casualidade de quem está zapeando por canais de TV. Relâmpagos foram disparados das runas gravadas no metal. A giganta explodiu em um milhão de pedacinhos.
— Cara! — reclamou Heimdall. — O que eu falei sobre relâmpagos tão perto do meu tablet? Você quer fritar a placa-mãe?
Thor grunhiu.
— Bem, mortais, que bom que chegamos na hora certa, senão essa giganta poderia ter machucado alguém! Agora, o que vocês estavam dizendo sobre Loki?

* * *

O problema dos deuses é que não dá para simplesmente estapeá-los quando eles agem como idiotas.
Eles só vão revidar com outro tapa e matar você.
Além do mais, eu estava exausto, em choque, fervido e sofrendo demais para reclamar muito, apesar de os aesires terem deixado Loki fugir.
Não, me corrigi. Nós deixamos Loki fugir.
Enquanto Thor murmurava coisas fofas para o martelo, Heimdall parou na beira do abismo e espiou na escuridão.
— Segue até Helheim. Não há sinal de Loki.
— E meu tio? — perguntei.
As íris brancas de Heimdall se viraram para mim. Pela primeira vez, ele não estava sorrindo.
— Sabe, Magnus... às vezes é melhor não olhar até onde conseguimos olhar, nem ouvir tudo o que conseguimos ouvir.
Ele me deu tapinhas no ombro e se afastou, e eu fiquei me perguntando o que foi que ele quis dizer com aquilo.
Vidar, o deus do sapato, deu uma volta para checar os feridos, mas todo mundo parecia mais ou menos bem; todo mundo fora os gigantes, claro. Todos estavam mortos agora. Mestiço tinha estirado a virilha tentando levantar o martelo de Thor. Mallory ficou com dor de estômago de tanto rir dele, mas os dois problemas eram fáceis de resolver. T.J. saiu sem nenhum arranhão, mas estava preocupado com como tirar o sangue dos gigantes da terra da coronha do rifle.
Hearthstone estava bem, mas ficava sinalizando othala, o nome da runa que faltava. Ele sinalizou para Blitz que poderia ter impedido Loki, se tivesse a runa. Eu achava que ele estava se cobrando demais, mas não tinha certeza. Quanto a Blitz, o anão estava encostado na parede da caverna tomando alguma coisa de um cantil, parecendo cansado depois de escavar em pedra até chegar na caverna de Loki.
Assim que os deuses chegaram, Jacques virou pingente de novo, murmurando alguma coisa sobre não querer ver a espada metida a diva de Heimdall. Na verdade, acho que ele se sentia culpado por não ter sido muito útil para nós e que lamentava o fato de Skofnung não ser a lâmina dos seus sonhos. Agora, Jacques estava pendurado no meu pescoço de novo, em um sono agitado. Felizmente, ele não sofreu nenhum dano. E como Jacques ficou atordoado durante grande parte da briga, eu quase não absorvi o cansaço dele. Ele viveria para lutar (e cantar músicas pop de sucesso) em outra ocasião.
Sam, Alex e eu nos sentamos na beirada do abismo, ouvindo os ecos na escuridão. Vidar enfaixou minhas costelas, depois passou um bálsamo nas queimaduras em meus braços e em meu rosto e me disse em linguagem de sinais que eu não morreria. Ele também fez um curativo na orelha de Alex e sinalizou: Concussão pequena. Fique acordada.
Sam não tinha ferimentos físicos, mas eu sentia a dor emocional irradiando dela. Estava sentada com a lança no colo como um remo de caiaque, parecendo pronta para remar direto para Helheim. Acho que Alex e eu soubemos por instinto que não devíamos deixá-la sozinha.
— Fiquei impotente de novo — disse ela, infeliz. — Ele simplesmente... me controlou.
Alex deu um tapinha na perna dela.
— Não é totalmente verdade. Você está viva.
Eu olhei de uma para a outra.
— O que você quer dizer?
O olho castanho-escuro de Alex estava mais dilatado do que o cor de mel, provavelmente devido à concussão. O que fez o olhar dela parecer ainda mais vazio e vidrado.
— Quando as coisas ficaram ruins na briga — contou ela —, Loki simplesmente... ordenou que a gente morresse. Ele mandou meu coração parar de bater, meus pulmões pararem de respirar. Acho que fez o mesmo com Sam.
Samirah assentiu, os nós dos dedos ficando brancos no cabo da lança.
— Pelos deuses.
Eu não sabia o que fazer com toda a raiva dentro de mim. Meu peito ferveu na mesma temperatura que as poças fumegantes. Se eu já odiava Loki o bastante antes, agora estava determinado a persegui-lo até o fim dos nove mundos e... e fazer alguma coisa terrível com ele.
Como prendê-lo com as entranhas dos próprios filhos?, perguntou uma vozinha na minha mente. Colocar uma cobra venenosa acima do rosto dele? Esse tipo de punição deu muito certo para os aesires, não é?
— Então vocês resistiram — falei para as garotas. — Isso é bom.
Alex deu de ombros.
— Eu já disse, Loki não consegue me controlar. Mais cedo, fingi para ele não desconfiar. Mas, Sam, é... foi um bom começo. Você sobreviveu. Não dá para esperar resistência completa na primeira tentativa. Podemos trabalhar nisso juntas...
— Ele está livre, Alex! — disse Sam com rispidez. — Nós falhamos. Eu falhei. Se tivesse sido mais rápida, se tivesse percebido...
— Falhou? — O deus do trovão surgiu à nossa frente. — Besteira, garota! Vocês recuperaram meu martelo! Vocês são heróis e vão todos receber troféus!
Vi Sam segurando sua raiva, cerrando os dentes, tentando não explodir com Thor. Fiquei com medo de ela estourar outro capilar com aquele esforço todo.
— Eu agradeço, lorde Thor — disse Sam. — Mas Loki nunca se importou com o martelo. O roubo era apenas uma distração para ele se libertar.
Thor franziu a testa e ergueu Mjölnir.
— Ah, não se preocupe, garota. Nós vamos prender Loki de novo. E prometo que ele vai se importar com o martelo quando eu o enfiar goela abaixo!
Palavras corajosas, mas quando olhei para os meus amigos, percebi que ninguém estava muito confiante.
Encarei as letras no colete à prova de balas de Thor.
— O que é M-R-R-D, afinal?
— Se pronuncia mrrd — disse Thor. — É sigla de Mobilização de Resposta Rápida dos Deuses.
— Rápida? — rosnou Alex. — Tá de brincadeira? Vocês levaram uma eternidade para chegar aqui!
— Calma, calma. — Heimdall se aproximou. — Vocês eram um alvo móvel, não eram? Nós entramos no túnel em Bridal Veil Falls direitinho! Mas aí teve toda aquela coisa de ir para a caverna de Loki, e isso nos pegou desprevenidos. Ficamos cercados de pedra endurecida por gigantes da terra. Cavando atrás de vocês... bem, mesmo com três deuses, foi difícil.
Principalmente quando um fica tirando fotos e não ajuda, sinalizou Vidar.
Os outros dois deuses o ignoraram, mas Hearthstone sinalizou: Eles nunca ouvem, não é?
Pois é, sinalizou o deus. Pessoas que escutam. Idiotas.
Decidi que gostava de Vidar.
— Com licença — falei para ele, sinalizando enquanto falava. — Você é o deus dos sapatos? Da cura? Ou...?
Vidar deu um sorrisinho. Dobrou os dois indicadores. Colocou um debaixo do olho e bateu nesse dedo com o outro. Eu nunca tinha visto esse sinal, mas entendi: Olho por olho.
— Você é o deus da vingança.
Isso me pareceu estranho, porque ele parecia muito gentil e era mudo. Por outro lado, usava um sapato que se expandia e podia esmagar reis gigantes.
— Ah, Vidar é o cara para todo tipo de emergência! — disse Heimdall. — O sapato dele é feito dos restos de todos os sapatos que já foram jogados fora! Ele pode... bem, você viu o que pode fazer. Ei, o que vocês acham de uma foto em grupo?
— Não — responderam todos.
Thor olhou com irritação para o guardião da ponte.
— Vidar também é chamado de “O Silencioso”, o que quer dizer que é mudo. Ele também não fica tirando selfies o tempo todo, o que o torna uma boa companhia.
Mallory Keen embainhou as duas facas.
— Bom, isso é fascinante, tenho certeza. Mas vocês, aesires, não deviam estar fazendo alguma coisa produtiva agora, como... ah, sei lá, talvez procurar Loki e o prender de novo?
A garota está certa, sinalizou Vidar. O tempo está correndo.
— Escute o corajoso Vidar, garota — disse Thor. — A captura de Loki pode esperar mais um dia. Agora, devíamos comemorar por eu ter recuperado meu martelo!
Não foi isso que eu falei, sinalizou Vidar.
— Além do mais — continuou Thor —, não preciso procurar o patife. Eu sei exatamente para onde ele está indo.
— Sabe? — perguntei. — Para onde?
Thor bateu nas minhas costas, felizmente com a mão e não com o martelo.
— Vamos conversar sobre isso em Valhala. O jantar é por minha conta!


8 comentários:

  1. Serio que tio Rick tinha que fazer Thor tão burro assim??? Ele parecia tão inteligente na Marvel.

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    1. Ainda imagino ele como o Thor da Marvel só que mais burro kk

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    2. Eu ainda tenho uma enorme dificuldade em imaginar ele ruivo...

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  2. Nos contos ele e muito sanguinario e mortal , todos deuses sao kkkkkkkk

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  3. O Thor do tio Rick:😑
    - Feio;
    - Ignorante;
    - Nojento;
    - Burro;
    - Cruel e idiota com Ótis e Marvim;
    - Casado com uma Sif fútil e que inicialmente era uma Hera, mas depois foi ficando mais legal;
    - Totalmente inútil (94,6% das vezes).

    X

    O Thor da Marvel:😏
    - Bonito;
    - Esperto;
    - Educado (de vez em quando, apenas a partir da metade do primeiro filme dele);
    - Inteligente;
    - É muito legal com as outras pessoas (principalmente com a namorada humana);
    - Não é casado com Sif, aparentemente, q é muito mais maneira é legal no filme;
    - Beeem útil [92,3% das vezes (e do q sobra, 69,6% ele faz algumas burradas, mas OK 🙂)].

    Hummm, qual escolher??? 😒

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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    1. Essa é mt difícil...

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    2. No filme Thor era burro,mal educado... Só ficou dahora quando a humana mudou ele,nesse livro ele já é casado então não tem humana pra transformar ele em gente

      G.R

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    3. Já imaginou q louco se o Thor do livro tivesse tido um caso com a Nattalie Portman?

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