16 de outubro de 2016

Cinquenta e quatro - Os esquilos na janela podem ser maiores do que parecem

ADORO QUANDO DEUSES se oferecem para pagar um jantar que já é de graça.
Quase tanto quanto adoro esquadrões de ataque que aparecem depois do ataque.
Mas não tive chance de reclamar. Quando voltamos a Valhala, usando a carruagem superlotada de Thor, ganhamos uma festa de comemoração que foi louca até para os padrões vikings. Thor desfilou pelo salão de banquete segurando Mjölnir acima da cabeça, sorrindo e gritando “Morte aos nossos inimigos!” e causando um grande alvoroço. Cornetas foram tocadas. Hidromel foi consumido. Piñatas foram destruídas com o poderoso Mjölnir e doces foram ingeridos.
Só nosso grupinho estava desanimado, amuado na mesa, aceitando sem muito ânimo os tapinhas nas costas e os elogios dos nossos colegas einherjar. Eles nos garantiram que éramos heróis. Além de termos recuperado o martelo de Thor, destruímos uma festa de casamento de gigantes da terra cruéis e malvestidos!
Ninguém reclamou da presença de Blitz e Hearth. Ninguém prestou muita atenção ao nosso novo amigo, Vidar, apesar do sapato estranho. O Silencioso fez jus ao nome e ficou sentado à mesa em silêncio, fazendo perguntas ocasionais a Hearthstone com gestos de linguagem de sinais que não reconheci.
Heimdall saiu cedo para voltar para a ponte Bifrost. Havia muitas selfies importantes para ele tirar. Enquanto isso, Thor comemorou feito um louco, pulando nas multidões de einherjar e valquírias. O que quer que fosse que ele queria nos falar sobre a localização de Loki havia sido esquecido, e eu não ia me aproximar dele naquela multidão.
Meu único consolo: alguns lordes na mesa dos lordes também estavam incomodados. De tempos em tempos, o gerente Helgi olhava de cara feia para as pessoas, como se estivesse com vontade de gritar o que eu estava pensando: PAREM DE COMEMORAR, SEUS IDIOTAS! LOKI ESTÁ LIVRE!
Talvez os einherjar preferissem não se preocupar. Talvez Thor tivesse garantido a eles que era um problema fácil de resolver. Ou talvez eles estivessem comemorando porque o Ragnarök estava próximo.
Essa era a ideia que mais me assustava.
Quando o jantar terminou, Thor foi embora em sua carruagem sem nem falar com a gente. Ele bradou para todos no salão que tinha que correr para as fronteiras de Midgard e demonstrar o poder do martelo transformando alguns exércitos de gigantes em pedacinhos fritos. Os einherjar comemoraram e começaram a deixar o salão, sem dúvida a caminho de festas menores e ainda mais loucas.
Vidar se despediu depois de uma conversa rápida com Hearthstone naquela linguagem estranha. O que quer que ele tenha dito, o elfo não contou para nós. Meus companheiros de corredor se ofereceram para me fazer companhia, mas tinham sido convidados para uma festa depois da festa depois da festa, e eu falei para eles irem. Eles mereciam se divertir depois do tédio de abrir caminho até a caverna de Loki.
Sam, Alex, Blitz e Hearth me acompanharam até os elevadores. Antes de chegarmos lá, Helgi apareceu e segurou meu braço.
— Você e seus amigos precisam vir comigo.
A voz do gerente estava sombria. Tive a sensação de que não receberíamos troféus ou cupons de desconto por nossos feitos corajosos.
Helgi nos levou por passagens que eu nunca tinha visto e por escadas em locais ermos do hotel. Eu sabia que Valhala era grande, mas toda vez que saía para explorar, ficava impressionado de novo. O local parecia ser infinito, como uma aula de química.
Finalmente, chegamos a uma porta pesada de carvalho com uma placa de metal dizendo GERENTE.
Helgi abriu a porta, e entramos atrás dele no escritório.
Três das paredes e o teto eram cobertos de lanças: varas de carvalho polido com pontas brilhantes de prata. Atrás da mesa de Helgi, a parede era tomada por uma janela de vidro enorme com vista para os galhos oscilantes e infinitos da Árvore do Mundo.
Eu já conhecia várias vistas das janelas de Valhala. O hotel tinha acesso a cada um dos nove mundos. Mas eu nunca tinha visto uma assim, com vista direta para a árvore. Aquilo me deixou meio desorientado, como se estivéssemos flutuando nos galhos... o que, cosmicamente falando, estávamos mesmo.
— Sentem-se.
Helgi apontou para um semicírculo de cadeiras de um dos lados da mesa. Sam, Alex, Blitz, Hearth e eu nos acomodamos com muito couro gemendo e madeira estalando. Helgi se sentou atrás da imensa escrivaninha de mogno, que estava vazia exceto por um daqueles brinquedinhos com bolas prateadas penduradas que ficam batendo umas nas outras.
Ah... e os corvos. Nos dois cantos da mesa havia um corvo de Odin, ambos olhando para mim de cara feia, parecendo em dúvida entre me mandar para a detenção ou me jogar como alimento para os trolls.
Helgi se recostou na cadeira e uniu as pontas dos dedos. O gerente pareceria intimidante se seu cabelo não lembrasse um animal morto e ele não tivesse restos de comida na barba.
Sam mexeu com nervosismo no chaveiro.
— Senhor, o que aconteceu na caverna de Loki... não foi culpa dos meus amigos. Eu assumo total responsabilidade...
— De jeito nenhum! — disse Alex com rispidez. — Sam não fez nada de errado. Se você vai punir alguém...
— Parem! — ordenou Helgi. — Ninguém aqui vai ser punido.
Blitzen soltou o ar, aliviado.
— Ah, isso é bom. Porque não tivemos tempo de devolver isto para Thor, mas pretendíamos, de verdade.
Hearthstone pegou o passe livre de Thor e o colocou na mesa do gerente.
Helgi franziu a testa, colocou o passe na gaveta, e eu me perguntei quantos outros ele tinha ali.
— Vocês estão aqui — disse o gerente — porque os corvos de Odin chamaram.
— Hugin e Munin?
Pensamento Memória, eu me lembrei de ter lido no Guia do Hotel Valhala.
As aves fizeram aquele barulho esquisito que os corvos adoram fazer, como se regurgitassem as almas de todos os sapos que tinham comido ao longo dos séculos. Eles eram bem maiores do que corvos normais... e mais apavorantes. Os olhos eram como portais para um abismo. As penas tinham mil tons diferentes de ébano. Quando a luz batia neles, runas pareciam brilhar na plumagem, palavras sombrias surgindo em um mar de tinta preta.
Helgi bateu no brinquedinho. As bolas começaram a bater umas nas outras com um click, click, click irritante.
— Odin gostaria de estar aqui — disse o gerente —, mas está cuidando de outros assuntos. Hugin e Munin estão presentes como seus representantes. A vantagem — Helgi se inclinou para a frente e baixou a voz — é que os corvos não exibem PowerPoints motivacionais.
Os pássaros grasniram em concordância.
— Agora, vamos ao assunto principal — disse Helgi. — Loki fugiu, mas nós sabemos onde ele está. Samirah al-Abbas... sua próxima missão como a valquíria de Odin encarregada das operações especiais será encontrar seu pai e prendê-lo de novo.
Samirah baixou a cabeça. Não pareceu surpresa – estava mais para alguém que perdeu o apelo final em uma sentença de morte contra a qual lutou a vida toda.
— Senhor — disse ela —, vou obedecer à ordem. Mas, depois do que aconteceu nas últimas duas vezes que enfrentei meu pai, a facilidade com que ele me controlou...
— Você pode aprender a resistir — interrompeu Alex. — Eu posso ajudar...
— Eu não sou você, Alex! Não consigo... — Sam fez um gesto vago para a irmã, como se para indicar todas as coisas que Alex era e Sam jamais poderia ser.
Helgi tirou os restos de comida da barba.
— Samirah, eu não falei que seria fácil. Mas os corvos dizem que você é capaz. Precisa fazer isso. E vai fazer.
Sam olhou para as bolinhas indo de um lado para outro. Click, click, click.
— Esse lugar para onde meu pai foi... — disse ela. — Onde fica?
— Na Costa Oriental — respondeu Helgi. — Como contam as antigas histórias. Agora que Loki está livre, ele foi para o porto, onde espera terminar a construção de Naglfar.
Hearthstone sinalizou: O Navio das Unhas. Isso não é bom.
Senti um calafrio... e fiquei meio enjoado.
Lembrei ter visitado aquele navio em um sonho, de estar de pé no convés de um drácar viking do tamanho de um porta-aviões, todo feito das unhas dos mortos. Loki me avisou que, quando o Ragnarök começasse, ele seguiria no navio até Asgard, destruiria os deuses, roubaria as jujubas deles e provocaria caos em massa.
— Se Loki está livre, já não é tarde demais? — perguntei. — A libertação dele não é um dos eventos que sinalizam o início do Ragnarök?
— Sim e não — respondeu Helgi.
Eu esperei.
— Tenho que escolher uma das respostas?
— A libertação de Loki ajuda o início do Ragnarök — continuou Helgi. — Mas nada indica que essa fuga é a última fuga, a derradeira. É possível que vocês consigam recapturá-lo e prendê-lo de novo, adiando assim o Juízo Final.
— Como fizemos com o lobo Fenrir — murmurou Blitz. — Aquilo foi moleza.
— Exatamente. — Helgi assentiu com entusiasmo. — Moleza.
— Eu estava sendo sarcástico — disse Blitz. — Imagino que não haja sarcasmo em Valhala, tanto quanto não há barbeiros decentes.
Helgi ficou vermelho.
— Escute aqui, anão...
Ele foi interrompido por uma criatura marrom e alaranjada enorme se chocando contra a janela.
Blitzen caiu da cadeira. Alex pulou e se agarrou no teto na forma de um morcego. Sam se levantou segurando o machado, pronta para lutar. Eu corajosamente me escondi atrás da mesa de Helgi. Hearthstone só ficou ali sentado, franzindo a testa para o esquilo gigante.
Por quê?, sinalizou ele.
— Está tudo bem, pessoal — garantiu Helgi. — É só Ratatosk.
As palavras só Ratatosk não combinavam. Eu tinha sido caçado pela Árvore do Mundo por aquele roedor monstruoso. Tinha ouvido sua voz chamejante e horrenda. Nunca estava tudo bem quando ele aparecia.
— Não, é sério — insistiu Helgi. — A janela é à prova de som e à prova de esquilo. Ratatosk gosta de passar por aqui para me provocar, às vezes.
Espiei por cima da mesa. Ratatosk estava berrando e gritando, mas só um leve murmúrio passava pelo vidro. Ele estalou os dentes para nós e encostou a bochecha na janela.
Os corvos não pareceram incomodados. Olharam para trás como quem diz Ah, é você e voltaram a cuidar das próprias penas.
— Como você aguenta? — perguntou Blitzen. — Essa... essa coisa é mortal!
O esquilo inflou a boca no vidro, mostrando os dentes e as gengivas, depois lambeu a janela.
— Eu gosto de saber onde ele está — disse Helgi. — Às vezes, consigo saber o que está acontecendo nos nove mundos só de observar o nível de agitação do esquilo.
A julgar pelo atual estado de Ratatosk, tinha alguma coisa séria acontecendo nos nove mundos. Para aliviar nossa ansiedade, Helgi se levantou, fechou as persianas e voltou a se sentar.
— Onde estávamos? — disse ele. — Ah, sim, moleza e sarcasmo.
Alex desceu do teto e voltou à forma humana. Tinha tirado o vestido de noiva mais cedo e colocado novamente o colete quadriculado. Ela mexeu nele de forma casual, como quem diz: Sim, era minha intenção virar um morcego desde o início.
Sam baixou o machado.
— Helgi, sobre essa missão... eu não sei nem por onde começar. Onde o navio está atracado? A Costa Oriental pode ser em qualquer mundo.
O gerente levantou as mãos.
— Não tenho essas respostas, Samirah, mas Hugin e Munin vão lhe passar todas as instruções. Vá com eles para os telhados de Valhala. Deixe que eles lhe mostrem pensamentos e lembranças.
Para mim, isso parecia uma missão meio doida com Darth Vader aparecendo em uma caverna enevoada.
Sam também não pareceu feliz.
— Mas, Helgi...
— Sem discussão, Samirah — insistiu o gerente. — Odin escolheu você. Escolheu esse grupo todo porque...
Ele fez uma pausa repentina e levou o dedo ao ouvido. Nunca tinha percebido que Helgi usava ponto eletrônico, mas ele estava escutando alguma coisa.
O gerente olhou para nós.
— Peço desculpas. Onde eu estava? Ah, sim, vocês cinco estavam presentes quando Loki fugiu. Portanto, os cinco vão ter um papel crucial na recaptura do deus foragido.
— Aqui se faz, aqui se paga — murmurei.
— Exatamente! — Helgi sorriu. — Agora que isso está resolvido, vocês vão ter que me dar licença. Houve um massacre no estúdio de yoga, e precisamos trocar os tapetes.


4 comentários:

  1. Blitzen caiu da cadeira. Alex pulou e se agarrou no teto na forma de um morcego. Sam se levantou segurando o machado, pronta para lutar. EU CORAJOSAMENTE ME ESCONDI ATRÁS DA MESA DE HELGI. Hearthstone só ficou ali sentado, franzindo a testa para o esquilo gigante.

    Nunca comentei mais tive que fazer desta vez ...
    Este Magnus é literalmente demais +++++ , ele tipo não tem pinta nenhuma de herói, não se vangloria em nada e sarcástico .. estou adorando ele, e já me arrependendo de estar terminando a leitura deste livro :(
    Devia ter lido mais devagar kkkkkk

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    1. “Devia ter lido mais devagar”, falasse tudo Nayara

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  2. Aaaahhhnnnnn! AGORA intendi como funciona o Ragnarok. Loki vai ter q esperar o barco, Fenrir e tudo mais d qualquer jeito, então já é um ponto positivo. O pessoal pode dar um jeitinho.
    (Eu sendo MUITO otimista 🙂)

    Ass.: Mutta Chase Hayes

    Ps: Concordo TOTALMENTE com vc, Nayara

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  3. "Loki me avisou que, quando o Ragnarök começasse, ele seguiria no navio até Asgard, destruiria os deuses, ROUBARIA AS JUJUBAS DELES e provocaria caos em massa."

    Eu acho q no meio desse texto tem algo de errado.... Ah não, é o Loki, ELE É errado... E doido, e idiota, e doido, e sem consideração, e doido, e feio, e doido, e imbecil, e doido, e maníaco, e doido ,e otário, e doido, e um péssimo pai/mãe, e doido, eu já disse que ele é doido?

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