16 de outubro de 2016

Cinco - Minha espada tem uma vida social mais agitada que a minha

FOI BOM EU não ter ido almoçar.
Normalmente, era preciso lutar até a morte para se chegar ao bufê, e do jeito que eu estava distraído, seria empalado por um garfinho de fondue antes mesmo de encher o prato.
A maioria das atividades em Valhala era feita até a morte: Scrabble, rafting em corredeiras, comer panquecas, yoga. (Dica: nunca façam yoga viking.)
Fui para meu quarto e respirei fundo algumas vezes. Eu meio que esperava que tudo ali estivesse tão destruído quanto o quarto de A.F – como se, pelas suítes serem tão parecidas, a minha fosse decidir se destruir em solidariedade. Mas estava do jeito que deixei, apenas mais limpa.
Eu nunca via a equipe de limpeza. De alguma forma, eles sempre conseguiam arrumar tudo enquanto eu estava fora. Eles faziam a cama quer eu tivesse dormido nela ou não. Lavavam o banheiro mesmo se eu tivesse acabado de fazer isso. Passavam e dobravam minhas roupas, apesar de eu sempre tomar o cuidado de não deixar nenhuma peça espalhada pelo chão. Falando sério, quem passa e engoma cuecas?
Eu já sentia culpa de ter aquela suíte enorme só para mim; e a ideia de empregados cuidando de tudo me parecia ainda pior. Minha mãe me criou para arrumar minha bagunça. Mesmo assim, por mais que eu tentasse fazer isso aqui, a equipe do hotel aparecia lá diariamente para limpar tudo, sem misericórdia. Outra coisa que eles faziam era me deixar presentes. Isso me incomodava mais do que as cuecas engomadas.
Fui até a lareira. Quando olhei pela primeira vez, só havia uma foto sobre ela: uma imagem da minha mãe comigo quando eu tinha oito anos, no cume do monte Washington. Depois disso, mais fotos apareceram, algumas das quais eu me lembrava da infância, algumas que eu nunca tinha visto. Não sabia onde o pessoal do hotel as encontrava. Talvez, conforme a suíte fosse ficando mais sintonizada comigo, as fotos fossem surgindo do cosmos. Talvez Valhala tivesse um backup da vida de todos os einherjar no iCloud.
Em uma das fotos, minha prima Annabeth estava em uma colina, com a ponte Golden Gate e a cidade de São Francisco ao fundo. O cabelo louro estava revolto. Os olhos acinzentados brilhavam, como se alguém tivesse acabado de lhe contar uma piada.
Olhar para Annabeth me deixava feliz, porque ela era da família. Também me deixava ansioso, porque era um lembrete constante da nossa última conversa.
De acordo com Annabeth, nossa família, os Chase, tinha algum tipo de apelo especial aos deuses antigos. Talvez fosse nossa personalidade encantadora. Talvez fosse nossa marca de xampu. A mãe de Annabeth, a deusa grega Atena, se apaixonou pelo pai dela, Frederick. Meu pai, Frey, se apaixonou pela minha mãe, Natalie. Se alguém virasse para mim amanhã e me dissesse que – surpresa! – os deuses astecas estavam vivendo em Houston e que minha prima de segundo grau era neta de Quetzalcóatl, eu acreditaria numa boa. E, depois, sairia correndo e me jogaria de um penhasco em Ginnungagap.
Minha prima achava que todos os mitos antigos eram reais. Eles se alimentavam da memória e das crenças humanas – dezenas de panteões velhos ainda lutando uns contra os outros como faziam antigamente. Enquanto suas histórias sobrevivessem, os deuses sobreviveriam. E histórias eram quase impossíveis de matar.
Annabeth prometeu que conversaríamos mais sobre o assunto. Até o momento, não tivemos oportunidade. Antes de voltar para Manhattan, ela tinha me avisado que raramente usava o celular porque o aparelho era perigoso para semideuses (embora eu nunca tivesse tido nenhum problema). Tentei não me preocupar por não conseguir falar com ela desde janeiro. Mas me perguntei o que poderia estar acontecendo lá na terra grega e romana.
Minha mão seguiu até a foto seguinte.
Essa era mais difícil de olhar. Minha mãe e seus dois irmãos, todos com vinte e poucos anos, sentados juntos nos degraus da casa da família. Mamãe estava como eu sempre me lembrava dela: cabelo curto, sorriso contagiante, sardas, calça jeans surrada e camisa de flanela. Se desse para ligar um gerador à sua alegria de viver, seria possível iluminar a cidade inteira.
Ao lado dela estava meu tio Frederick, o pai de Annabeth. Ele usava um cardigã grande demais por cima de uma camisa de botão e uma calça bege que ia até os tornozelos. Estava segurando um modelo de biplano da Primeira Guerra Mundial e tinha um sorriso bobo no rosto.
Ao lado dos dois, no degrau mais alto, com as mãos pousadas nos ombros deles, estava o irmão mais velho, Randolph. Ele parecia ter uns vinte e cinco anos, apesar de ser uma daquelas pessoas que nasceram para ser velhas. O cabelo curto era tão louro que parecia branco. O rosto grande e redondo e o corpo robusto o faziam parecer mais um segurança de boate do que um universitário. Apesar do sorriso, os olhos eram penetrantes, e a postura, controlada. Ele parecia prestes a atacar o fotógrafo a qualquer segundo para pegar a câmera e pisar nela.
Minha mãe me disse várias vezes: não peça ajuda a Randolph, não confie nele. Ela o afastou durante anos, se recusou a me levar até a mansão da família em Back Bay.
Quando fiz dezesseis anos, Randolph me encontrou. Ele me contou sobre meu pai divino. Ele me guiou até a Espada do Verão, e eu acabei morrendo.
Isso me deixou com o pé atrás sobre ir ver o tio Randolph de novo, embora Annabeth achasse que devíamos dar a ele o benefício da dúvida.
Ele é da família, Magnus, disse minha prima antes de partir para Nova York. Nós não podemos desistir da família.
Parte de mim achava que ela estava certa. A outra parte achava que Randolph era perigoso. Eu não confiava nele nem um pouco.
Nossa, Magnus, vocês devem estar pensando, como você é rancoroso. Ele é seu tio. Só porque sua mãe o odiava, ele ignorou você boa parte de sua vida e te deixou morrer, agora você não confia nele?
É, eu sei. Eu estava exagerando.
A questão é que o que mais me incomodava no tio Randolph não era nosso passado. Era o fato de a foto dos três irmãos ter mudado desde a semana anterior. Em algum momento, não sei como, uma nova marca apareceu na bochecha de Randolph, um símbolo suave, como uma marca d’água. E agora eu sabia o que significava.
Levantei o vaso que peguei no quarto de A.F: as iniciais na argila, o selo com as duas serpentes entrelaçadas. Definitivamente, o mesmo desenho.
Alguém fez a marca de Loki no rosto do meu tio.
Olhei para as cobras por bastante tempo, tentando entender.
Queria poder falar com Hearthstone, meu especialista em runas e símbolos. Ou com Blitzen, que conhecia itens mágicos. Queria que Sam estivesse aqui, porque, se eu estava enlouquecendo e vendo coisas, ela seria a primeira a me dar uns tapas e me devolver o bom senso.
Como eu não tinha ninguém com quem conversar, puxei meu pingente e chamei Jacques.
— Oi! — Jacques fez uma pirueta no ar, com as runas brilhando em azul e vermelho. Não havia nada melhor que um clima de discoteca quando se queria ter uma conversa séria. — Estou feliz de você ter me acordado. Tenho um encontro esta tarde com uma lança muito gata, e se eu perdesse... Ah, cara, eu me daria uma facada.
— Jacques, prefiro não saber sobre seus encontros com outras armas mágicas.
— Ah, não seja assim. Você precisa sair mais! Se você me ajudar, posso arrumar alguém para você. Essa lança tem uma amiga...
— Jacques.
— Tudo bem. — Ele suspirou, o que fez sua lâmina brilhar em um lindo tom de anil. Sem dúvida as lanças achariam isso muito atraente. — O que está rolando? Nenhum ninja apareceu por aqui, não é?
Eu mostrei a marca de serpente no pedaço de vaso.
— Você sabe alguma coisa sobre esse símbolo?
Jacques se aproximou.
— Ah, claro. É uma das marcas de Loki. Não tenho doutorado em literatura germânica nem nada, mas acho que representa, sei lá, traição.
Comecei a me perguntar se chamar Jacques tinha sido uma boa ideia.
— Nosso novo vizinho de corredor faz artesanato. E todos os vasos têm isso gravado embaixo.
— Hum... Eu diria que ele é um filho de Loki.
— Eu sei disso. Mas por que se gabar? Sam não gosta nem de mencionar o pai. E esse cara coloca o símbolo de Loki em todos os seus trabalhos.
— Gosto não se discute — retrucou Jacques. — Já conheci uma faca com cabo de acrílico verde. Dá para imaginar?
Peguei a foto dos três irmãos Chase.
— Mas em algum momento da semana passada, esse mesmo símbolo de Loki apareceu no rosto do meu tio. Alguma ideia?
Jacques apoiou a ponta da lâmina no tapete da sala. Ele se inclinou para a frente até o cabo estar a centímetros da foto. Talvez estivesse ficando míope.
— Hum... — disse ele. — Você quer a minha opinião?
— Quero.
— Acho isso bem estranho.
Esperei um pouco. Jacques não elaborou a resposta.
— Tudo bem, então — falei. — Você não acha que pode haver uma ligação entre... sei lá, outro filho de Loki aparecer em Valhala, essa marca estranha no rosto do meu tio e o fato de que, de repente, depois de dois meses de tranquilidade, temos que encontrar o martelo de Thor o mais rápido possível para impedir uma invasão?
— Pensando por esse lado, você está certo, é bem estranho. Mas Loki sempre aparece em lugares estranhos. E o martelo de Thor... — Jacques vibrou, como se estivesse tremendo ou segurando uma gargalhada. — Mjölnir sempre desaparece. Eu juro, Thor precisa grudar aquele martelo na cabeça com fita adesiva.
Eu duvidava que fosse esquecer essa imagem tão cedo.
— Como Thor pode perder aquilo com tanta facilidade? E como alguém poderia roubá-lo? Achei que Mjölnir fosse tão pesado que era impossível de levantar.
— Engano comum — disse Jacques. — Esqueça todo aquele papo de “só os dignos conseguem levantar Mjölnir” que aparece nos filmes. O martelo é pesado, mas se você reunir uma quantidade razoável de gigantes? Claro que eles conseguem carregar. Agora empunhá-lo, jogá-lo corretamente, pegá-lo de novo, conjurar relâmpagos com ele, isso, sim, exige habilidade. Perdi a conta de quantas vezes Thor dormiu no meio de uma floresta, gigantes brincalhões apareceram com uma retroescavadeira, e, quando acordou, o deus do trovão se viu sem martelo. Na maior parte das vezes, ele consegue recuperá-lo rápido, mata os brincalhões e vive feliz para sempre.
— Mas não desta vez.
Jacques balançou para a frente e para trás, a versão dele de dar de ombros.
— Acho que recuperar Mjölnir é importante. O martelo é poderoso. Inspira medo nos gigantes. Destrói exércitos inteiros. Impede que as forças do mal destruam o universo e tal. Pessoalmente, eu sempre achei meio sem graça. Ele só fica parado na maior parte do tempo. Não diz nada. E nunca o convide para um karao kê no Nuclear Rainbow. Foi um desastre. Eu tive que cantar as duas partes de “Love Never Felt So Good” sozinho.
Eu me perguntei se a lâmina de Jacques era afiada o bastante para cortar o excesso de informações que ele estava me dando. Eu achava que não.
— Última pergunta: Mestiço mencionou que esse novo filho de Loki é um argr. Você tem alguma ideia...
— Eu AMO argrs! — Jacques deu uma pirueta de alegria e quase arrancou meu nariz. — Firulas de Frey! Nós temos um argr morando no corredor? Que ótima notícia.
— Hã, então...
— Uma vez, estávamos em Midgard, Frey, eu e dois elfos, certo? Eram umas três da manhã, e um argr veio falar com a gente... — Jacques uivou de tanto rir e suas runas pulsaram no modo Os Embalos de Sábado à Noite. — Ah, uau. Foi uma noite épica!
— Mas o que exatamente...?
Alguém bateu à porta. A cabeça de T.J. apareceu na fresta.
— Magnus, desculpe incomodar... Ah, oi, Jacques, beleza?
— T.J.! — disse Jacques. — Já se recuperou da noite de ontem?
T.J. riu, mas parecia constrangido.
— Um pouco.
Eu franzi a testa.
— Vocês foram para a farra ontem à noite?
— Ah, Magnus — repreendeu Jacques —, você precisa mesmo sair com a gente. Você ainda não viveu se não foi para uma festa com um rifle da Guerra Civil.
T.J. pigarreou.
— Então, eu vim buscar você, Magnus. A batalha vai começar.
Procurei um relógio, mas lembrei que não tinha um.
— Não está um pouco cedo?
— Hoje é quinta-feira.
Soltei um palavrão. As quintas eram especiais. E complicadas. Eu odiava esse dia da semana.
— Vou pegar meu equipamento.
— Tem outra coisa — disse T.J. — Os corvos do hotel encontraram nosso novo vizinho. Acho que deveríamos ir ficar com ele. Estão levando o cara para a batalha... quer ele queira ou não.


14 comentários:

  1. Mano, o filho de Loki, o que quer que ele seja, vai destruir tudo na batalha, só pode.

    ResponderExcluir
  2. Mds, eu amo essa espada,kkkkkkk, quero uma!

    ResponderExcluir
  3. CHAMA O GUINNESS BOOK! ANNABETH FALO BURRICE! VAI TER FESTA HJ NO CHALÉ 5!

    ResponderExcluir
  4. Até a espada tem um encontro e eu aqui...

    ResponderExcluir
  5. Eii Magnus, vc nem é tão rancoroso assim... só pq seu tio te deixou morrer? Tenho uma tia que não fala comigo por muito menos rs

    ResponderExcluir
  6. esse questão do que esse filho de Loke tá matando minhas unhas, aparece de uma vez muleke!!

    ResponderExcluir
  7. Jacques é tipo eu no meio de uma conversa séria: não se concentra, fala de farra, lembranças, fala mal dos coleguinhas, e não ajuda em nada XD.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Né...
      Eu e minha mania de falar merda no meio da conversa 😂😂

      Excluir
  8. Eu só queria saber qual é o problema do tio rick em deixar alguém dar uma explicação... sempre um meliante atrapalha, agrr isso tá me dando nos nervos.

    Alvaro

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu te entendo perfeitamente...droga tio Rick, não podia ser em outra hora?

      Excluir
  9. Meu Deus do Céu... Jacques realmente tem mais vida social do que Magnus, como diz o nome do capitulo.

    ResponderExcluir
  10. Eu tbm odeio quintas, o q por coincidência é hj 😑

    ResponderExcluir
  11. Será que depois o tio Rick vai fazer uma série sobre deuses Astecas?? Realmente espero.kk

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!