31 de outubro de 2016

Capítulo 9

New York

A escuridão caiu enquanto se dirigiam para Nova York. Os limpadores de para-brisa marcavam o seu progresso com um constante wish, wish. Dan estava sentado na parte de trás, encarando uma paisagem borrada. A cada quilômetro, a culpa o apertava mais forte.
Se o soro estivesse solto no mundo... a culpa era dele.
Se Sammy Mourad tinha vendido a fórmula... a culpa era dele.
Minha culpa, minha culpa, minha culpa.
Wish, wish, wish.
Ele estava prestes a mergulhar num túnel do horror.
Se Pierce realmente tivesse o soro...
... o item mais destrutivo conhecido pela humanidade...
... Minha culpa, minha culpa, minha culpa.
Wish, wish, wish.
Eu não posso mais fazer isso, Dan pensou.

* * *

Dan tinha mandado uma mensagem para Sammy do carro para perguntar se ele estava trabalhando até tarde e se Dan poderia levar uma pizza. O texto retornando foi de apenas uma palavra:

pepperoni.

Sammy esperava do lado de fora do prédio de química no campus da Universidade de Columbia. Estava recostado a uma parede de pedra, sem se importar com a garoa. Seus grossos cabelos longos e pretos eram agitados pela brisa, e as mangas de seu suéter cinza estavam dobradas até os antebraços. Ele tinha um nariz reto, um meio sorriso no rosto e grossas sobrancelhas escuras encimando olhos negros líquidos.
— Oh. Meu. Deus — disse Nellie em três respirações curtas. —Dan, você falou que ele era um gênio Ekat. Esqueceu da parte em que ele era uma obra de arte.
— O quê? — Dan se virou. Mesmo Amy estava encarando. — Ah sim. Desculpe. Não achei que a parte da beleza fosse relevante.
— É sempre relevante, garoto — respondeu Nellie.
Sammy se aproximou, sorrindo.
— Dan! Você é o cara! Trazer um lanche para um estudante de graduação faminto conta como status de herói por aqui.
Dan entregou a pizza para Sammy e rapidamente apresentou Nellie e Amy.
Sammy entrou no prédio com o seu cartão de identificação, e eles seguiram-no para o andar superior para seu laboratório. Era limpo e arrumado, com pilhas de pastas de arquivos e blocos de anotação. Uma pirâmide de latas de refrigerante de laranja fora grudada com fita adesiva roxa e enfeitava uma grande janela. Sammy mandou alguns bancos de rodinhas na direção deles e empurrou algumas pastas para abrir espaço para a pizza sobre a mesa de laboratório. Então ele abriu uma gaveta de arquivos e voltou com pratos de papel, guardanapos, orégano, pimenta vermelha moída, alho e sal.
— Aos trabalhos — ele falou com satisfação. — Veem o sal de alho? Eu não cozinho com ele – prefiro controlar o alho e o sal separadamente. Mas para pizza, você tem que usar isso. É um clássico — ele colocou fatias de pizza nos pratos e entregou-os a Amy e Nellie, juntamente com guardanapos.
— Palavra — concordou Nellie, estendendo a mão para pegar a pimenta. — Ninguém consegue cozinhar com sal de alho. O que você gosta de cozinhar?
— Bem, eu comecei com comida egípcia, por causa da minha avó. Meus pais são egípcios, mas eles não cozinham. Ela me ensinou de verdade. Agora que vivo no meu próprio apartamento, estou diversificando. Só tive uma aula de culinária vietnamita, e foi incrível.
Nellie soltou a pizza.
— Espera aí! Vietnamita é o meu favorito!
Dan a chutou. Eles vieram para descobrir se Sammy os havia traído. Se Nellie começasse a falar sobre culinária, nunca seriam capazes de ter uma conversa relevante.
Ela pegou um pedaço de queijo fora de sua fatia e comeu enquanto olhava nos olhos escuros de Sammy. Dan estava surpreendido por Sammy não ter explodido em chamas. A pizza ficou parada no ar, a centímetros de sua boca, enquanto ele olhava para Nellie. Segundos se passaram. Dan a chutou mais forte.
— Na verdade — falou Nellie — há uma razão para estarmos aqui. Queríamos lhe fazer algumas perguntas.
— Manda — respondeu Sammy.
Seu sorriso era tão aberto e amável que Dan esperava que Amy estivesse errada. Sammy não poderia ter repassado o soro para um estranho.
— Sammy — disse Dan — você se lembra daquele favor que fez para mim no ano passado?
— Claro. Eu misturei uma pequena poção para você.
— Quando entrei em contato, você disse que manteria segredo.
Sammy parecia desconfortável. O coração de Dan começou a bater mais rápido.
— Precisamos saber exatamente o que aconteceu — falou Amy.
Sammy parecia engolir seu pedaço de pizza com esforço. Ele limpou a boca com força com um guardanapo.
— A coisa é, eu sou um cientista. E a principal característica que você precisa para ser um cientista é a curiosidade.
A voz de Dan saiu rouca.
— O que você fez?
— Eu trabalho com substâncias que têm de ser eliminadas de acordo com os regulamentos — Sammy falou. Ele apontou para uma caixa vermelha depositada no balcão que apontava resíduos perigosos. — Uma pia para lavar vidraria. Outra para produtos químicos. Há um reservatório na pia que eu esvazio de tempos em tempos.
Dan afundou. O pedaço de pizza em seu estômago revirou.
— Eu joguei o resto no ralo...
— Para dentro do reservatório — completou Sammy. — Então, eu tinha um pouquinho. Um resíduo. Mas foi o suficiente.
— O suficiente para quê? — perguntou Amy com a voz cortante.
— Para fazer experimentos.
Nellie soltou o ar que estava segurando.
— Oh, não.
— Eu sou um Cahill em ambos os lados — disse Sammy. — Minha mãe é Lucian, meu pai é Ekat. Meu pai fazia parte do círculo de liderança antes de sair. Ele sabia sobre o soro, me contou sobre isso também. Então, quando Dan Cahill entrou no meu laboratório... Eu não podia deixar minha curiosidade de lado.
— Você replicou o soro? — perguntou Amy. — Percebe quão perigoso que foi?
Sammy ergueu as duas mãos. Seus olhos confessavam para eles.
— Eu sei! Tomei muito cuidado! Eu sei que não deveria ter feito isso! Mas supõe-se que seja a substância mais potente na história da humanidade. Então eu não pude resistir a apenas fazer alguns testes simples. Quero dizer, pensem nisso. Como a mente humana realmente funciona? É biologia e química ou algum híbrido nem sequer nomeamos ainda? O soro em si traz tantas perguntas fascinantes.
— Ele traz — respondeu Nellie. — Traz totalmente. — Ela limpou a garganta. — Mas essas não são questões que você tivesse permissão, hã, de formular.
— Essas são perguntas que, se pudéssemos responder, beneficiariam a todos — Sammy declarou, inclinando-se atentamente. — E quanto mais eu pensava nisso, mais lembrei sobre todas aquelas lendas Cahill sobre a força física dos Tomas, e da forma como a mente Lucian funciona... e imaginei como essas cepas do soro se entrelaçam com o DNA... e eu pensei, tudo bem, se eu apenas fizer algumas experiências, talvez possa encontrar algo de bom a partir deste soro maluco. E se certas partes pudessem ser recalibradas e eu pudesse diminuir os efeitos colaterais, impulsionar os elementos separadamente e personalizá-lo para qualquer pessoa que desejasse ou precisasse? E se eu pudesse eliminar o fator de DNA? Apenas torná-lo uma espécie de medicamento? Apenas como um experimento — acrescentou rapidamente. — Pensem nisso. Houveram saltos enormes no campo da bioquímica desde os tempos de Gideon Cahill. Se ele soubesse o que sabemos, o que teria feito? Como ele poderia ter tornado o soro mais seguro? O que poderia ter curado?
— Você não pode torná-lo seguro — disse Amy. — Esse é o ponto. É um poder destrutivo! Isso pode levar a... coisas terríveis.
— Eu sei disso — Sammy respondeu rapidamente. — Foi por isso que dei fim à pesquisa.
Amy perdeu a firmeza.
— Você fez isso?
— Percebi rapidamente que eu estava indo por um caminho perigoso. Se formos capazes de aumentar artificialmente coisas como destreza física, criatividade, a parte do cérebro que controla a estratégia e análise... bem, quem controlaria isso? Quem decidiria quem fica com o quê? Há algumas coisas que é melhor não serem inventadas. Quero dizer, esse tipo de coisa vai contra a filosofia Ekat, mas minha mãe me criou direito.
— Sammy, acreditamos que você não queria fazer nenhum mal — falou Amy. — Mas existe alguma maneira de alguém ter colocado as suas mãos em suas experiências?
— Claro que não! — exclamou Sammy. — Eu sei quão sensível é este assunto. Minhas anotações foram codificadas e ocultas por um firewall enquanto eu fazia as experiências, e eu as apaguei quando terminei. O laboratório está sempre trancado. E eu sempre destruí os soros que formulei — ele olhou para cada um de seus rostos. — De qualquer forma, sabem a fórmula original de Gideon? É basicamente uma sentença de morte.
— Sentença de morte? — perguntou Amy. — Sabíamos que era perigoso, mas...
— É a forma como ele reage com o sistema nervoso humano. Ele desliga. Levaria cerca de uma semana e então...
— Assim, com estas experiências, o que exatamente você conseguiu? — perguntou Nellie.
— Eu experimentei pequenas doses em uma variedade de cargas — explicou Sammy. — Agora temos centrífugas, analisadores automáticos... máquinas e procedimentos que Gideon não poderia sequer sonhar. Eu, basicamente, alterei a fórmula de uma forma sofisticada.
— Você alterou a fórmula?
— Bem, a primeira parte foi para torná-lo menos tóxico. Eu era capaz de fazer isso.
— Então a sua versão não é uma sentença de morte?
— Eu não penso assim – mas não posso dizer que não haveria efeitos colaterais. Não teria como saber realmente sem testes em animais, e eu não vou fazer isso. Pude fazer um esforço rudimentar em impulsionar alguns dos traços separadamente e depois baixá-los para uma dose diária – um pequeno traço do soro em suspensão num líquido – suco de frutas funcionou bem. Eu até fiz quatro cepas com a fórmula para cada clã: Lucian, Ekat, Tomas e Janus. O próximo passo seria descobrir exatamente como combiná-los em diferentes intensidades.
— Tem certeza de que não contou a ninguém? — perguntou Nellie.
— Positivo — concordou Sammy.
Dan fechou os olhos. Alívio o inundou. O vazamento de informações não tinha vindo dele. Amy pegou sua fatia de pizza.
— Exceto por Fiske, é claro — continuou Sammy. — E ele ficou bem quando falei que não me sentia mais confortável ao continuar com a pesquisa. Ele concordou.
Amy derrubou a pizza.
— O quê?
—Você quer dizer o nosso Fiske? — Dan engasgou.
Sammy assentiu.
— Seu tio Fiske. Cara alto, jeans e cabelos pretos? Reconheci-o a partir da descrição do meu pai. Ele veio me ver, ah, cerca de cinco ou seis meses atrás? Me falou que Dan lhe contara sobre a fabricação do soro, e ele adivinhou o que eu tinha imaginado. Contei-lhe sobre as experiências. Então ele pediu todas as minhas anotações e disse que elas pertenciam ao arquivo Madrigal.
— Arquivo Madrigal? — perguntou Amy. — Vocês sabem algo sobre isso, Nellie? Dan?
Os dois balançaram a cabeça.
Dan engoliu em seco.
— Em que... em que mês você o conheceu?
— Outubro.
— Fiske estava na reabilitação durante todo o mês de outubro — Amy sussurrou.
A voz de Sammy tremeu.
— Você está me dizendo que o homem com quem falei não era Fiske Cahill?
— Eu duvido que fosse — disse Dan.
Ele sentiu-se nauseado.
— Mas ele sabia muito sobre os Cahill — Sammy parecia pálido.
Amy olhou para o relógio e pulou.
— Nós temos que falar com Fiske. Agora mesmo!

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