14 de outubro de 2016

Capítulo 9

Kylie girou sobre seus tênis, provavelmente deixando marcas de derrapagem no assoalho de madeira, e começou a sair do quarto.
— Não vá! — disse Lucas. — Por favor! Você vai ter que falar comigo mais cedo ou mais tarde.
Mais tarde seria muito melhor. Então a raiva a fez apertar as mãos. Não era justo. Ela olhou fixamente para a parede, ainda sem querer enfrentá-lo.
— Por quê? Por que eu tenho que falar com você? Não lhe devo nada. Nenhuma explicação, nenhuma desculpa. Não fui eu quem... — Sua garganta se estreitou e ela ficou em silêncio. Ouviu-o se deslocar atrás dela.
— Eu sei... Estraguei tudo. Eu admito isso. Eu... deveria ter contado. Não, está errado, eu nunca deveria ter deixado ir tão longe. Eu deveria ter dito ao meu pai para se danar logo no início. Fui eu quem errei, mas não fiz nada... além disso. Eu não dormi com ela. Beijei-a duas vezes. Você viu um desses momentos. E em ambas as vezes eu estava em apuros. Só fiz aquilo para tentar convencer o meu pai de que eu tinha concordado com o casamento. Mas nunca, nem por um minuto, planejei me casar com ela.
O nó na garganta de Kylie apertou ainda mais. Seus olhos ardiam, assim como seu coração. Ela balançou a cabeça e conseguiu dizer uma palavra.
— Não. — Ela nem sabia direito a que se referia ao dizer não. Então se virou e o encarou.
Não importava o que ela dissesse, porque ele não estava ouvindo.
Ele ficou lá olhando para ela em seu próprio mundo de dor e sofrimento.
— Você me ama — disse ele. — Eu sei disso.
Agora era a hora de ela dizer não, mas não conseguiu pronunciar a palavra. Ah, ela estava na ponta da língua, mas ficou colada ali. Claro que teria sido uma mentira, mas não se podia mentir em momentos como aquele? Quando a verdade era muito dolorosa? Quando a verdade poderia dilacerar você?
— Eu também sei que você está me castigando. E está funcionando, porque estou sofrendo como um cachorro. Não que eu não mereça isso. — Ele estendeu a mão e passou-a na parte de trás do pescoço.
Kylie piscou para conter as lágrimas. Mesmo na escuridão ela podia ver os hematomas no pescoço dele. Contusões que ela mesma provocara. Ela apertou as mãos ao se lembrar de quanto chegara perto de esmagar a traqueia de Lucas.
— Eu não queria sufocá-lo — ela disse. — Foi um truque de... de Mario. Eu não sei como ele fez isso, mas...
— Eu sei. Não acho que você quisesse... me punir com isso. — Ele passou a mão sobre as contusões. — Isso não é nada comparado ao que sinto por dentro. Estou falando de você não querer falar comigo, não querer me ter por perto. Você não tem ideia do quanto dói ficar bem aqui, tão perto... Você pode imaginar quão difícil é ficar aqui e saber que você não quer que eu a toque? — Ele deu um passo, como se a testasse.
Embora ele ainda estivesse a alguns centímetros, o aroma veio com ele. Ela se lembrou de ter sentido esse cheiro quando entrou na cabana. Ela deveria saber. Deveria ter percebido que parte do cheiro da casa que lhe dera as boas-vindas era a essência dele. Ele representava um lar para ela.
Ou tinha representado.
Agora ela se sentia uma sem-teto.
Ele deve ter reunido um pouco mais de coragem, porque deu outro passo.
Ela recuou. E aquele pequeno recuo disse tanto!
— Está vendo? — ele disse, e até respirar lhe parecia doloroso. — Mas eu sei que você ainda gosta de mim porque... porque você salvou minha vida. Você poderia não ter feito nada e deixado Mario me matar. Você não fez isso. Pegou as bolas de fogo que ele atirou em mim.
A emoção dele ecoou pelo cômodo, e ela daria qualquer coisa para não ter que sentir isso. Quanta emoção ela ainda podia aguentar?
Não havia um limite? Certamente ela havia chegado ao seu.
— Sim, eu salvei a sua vida, mas não me faça me arrepender. — Ela acenou em direção à porta. — Saia. Eu não quero você aqui. — E era a verdade.
Ela não queria ali o Lucas que a traíra. Ela queria o Lucas em quem ela confiava, o Lucas que ela achava que iria até o fim do mundo para protegê-la. E, no entanto, eles eram todos a mesma pessoa.
Ele deu mais um passo. Ela viu seu pomo de adão subir e descer. Parecia doloroso engolir.
— Eu magoei você — disse ele. — Sei disso, e estou disposto a ouvir tudo que você queira jogar na minha cara. Eu mereço. Foi isso que eu vim dizer. Que aceito que o que fiz foi errado. Mas não fiz outras coisas que talvez você pense que eu fiz. E quando a sua raiva passar, eu ainda vou estar aqui. Não importa quanto tempo leve.
Ela desviou o olhar, lembrando-se dele de pé na frente da família e dos amigos. Ele usava um smoking e parecia tão bonito... Parecia um homem, não um garoto. A imagem dele pegando as mãos de Monique passou-lhe pela cabeça e ela ouviu as promessas que ele tinha feito. O tipo de promessa que não se quebrava.
Uma nova onda de dor tomou conta dela. Kylie o olhou novamente.
— Você deu a ela sua alma.
Ele balançou a cabeça.
— Não, você está errada. Eu não dei a ela a minha alma. Eu menti. Eu não poderia ter dado a ela a minha alma. Porque eu já tinha dado a minha alma. Você a roubou quando eu tinha 7 anos de idade. — A voz dele tremeu. — E se ainda restasse uma parte dela comigo, você teria pego o resto quando entrou em Shadow Falls naquele primeiro dia. Na cultura dos lobisomens, acredita-se que só exista uma alma gêmea. E você é minha, Kylie Galen. Eu soube disso naquele momento e isso não mudou.
A visão dela estava borrada de lágrimas. Ela inspirou, esperando manter as emoções sob controle. Mas sentiu uma lágrima deslizar dos cílios para a bochecha.
Ela a secou. A respiração estremeceu quando Kylie sorveu o ar e inflou os pulmões. Por que doía respirar?
Você é minha, Kylie Galen. As palavras dele ecoaram em seu coração. Ela não podia negar que parte dela queria ir com ele, para fazê-lo dizer aquilo várias e várias vezes até que a dor que borbulhava em seu peito tivesse um fim. Até que ela pudesse olhar para ele sem se lembrar de como tinha se sentido ao vê-lo fazendo promessas para outra pessoa. Mas ela não conseguia se aproximar dele, porque sabia que a dor não iria embora.
Não agora.
Talvez nunca.
Ela não tinha certeza.
Lucas fez uma pausa e ela viu a mesma dor que sentia no peito se refletir nos olhos dele. Sua própria dor dobrou de tamanho ao saber que ela o feria. Mas não tinha sido tudo culpa dele? Por que ela deveria se sentir culpada por ele estar sofrendo agora?
— Sinto muito ter te causado essa dor — disse ele. — E por mais raiva que você esteja sentindo agora, precisa saber que estou com mais raiva ainda de mim mesmo. Eu fiz isso com você. Conosco. Machuquei a pessoa mais importante na minha vida. Se mais alguém tivesse feito tanto mal a você, eu arrancaria o coração dessa pessoa.
Ele ficou ali, só olhando para ela. O silêncio no quarto parecia muito alto. Ou era a dor ecoando na sala que perfurava seus ouvidos?
— Eu vou embora agora — ele disse, e Kylie não conseguia se lembrar de algum dia tê-lo visto parecer tão derrotado. Tão perdido. — Já disse o que queria, e apenas saiba que vou te dar todo o tempo que quiser para me perdoar. Mas não me perdoar... isso eu não vou aceitar. Porque eu te amo.
Ela se afastou para que Lucas passasse e ele saiu pela porta. Ela foi para a cama. Sentou-se. Chutou os sapatos.
— Gatinho, gatinho... — ela chamou, querendo algo para abraçar. Mas Socks não apareceu. Ele realmente não gostava de lobisomens. Nesse exato momento, uma parte dela concordava com ele.
Ela colocou as pernas para cima e abraçou os joelhos contra o peito tão apertado que chegou a doer.
E então esperou.
Esperou que as lágrimas fluíssem com força total.
Esperou que um pouco da pressão que oprimia seu coração desaparecesse. Mas as lágrimas não fluíram. A pressão manteve-se.
Fechando os olhos, ela mordeu o lábio. Por que não conseguia chorar?
Será que estava simplesmente esgotada?
E confusa?
Sim, ela estava confusa demais.
Como Lucas podia agora ver que estava errado e ter sido incapaz de ver isso na época? Como é que ele pôde ter ficado lá em pé e prometido sua alma, prometido se casar com outra pessoa, se ele amava Kylie?
Mas por que ele mentiria? Por que teria vindo dizer todas aquelas coisas se elas não fossem verdadeiras?
Ela ficou sentada ali, no quarto escuro, por longos minutos. Sentia-se sozinha. Solitária. Um pensamento louco e um pouco infantil lhe ocorreu: Eu quero a minha mãe. Mas a mãe dela não estava ali. Não em Shadow Falls. Nem mesmo no país. A mãe dela estava na Inglaterra transando com um cara que Kylie odiava.
Mas ela ainda podia lhe telefonar. Quem sabe conseguisse até mesmo causar um leve transtorno nos planos de John de seduzir sua mãe. Isso tornou a ideia de telefonar ainda mais tentadora. Ela queria que John soubesse que sua mãe não estava sozinha no mundo.
Ela enfiou a mão no bolso e, em seguida, gemeu. Havia deixado o telefone na casa do avô.
— Droga! — Kylie murmurou. À medida que as frustrações pelo telefone perdido ocupavam o seu cérebro, seus pensamentos foram para Jenny, para a conversa em que ela tinha confessado falar com Hayden e para algumas das acusações que tinha feito com relação aos anciãos. Será que os jovens camaleões eram realmente forçados a viver num mundo de isolamento? Parecia tão errado!
De repente ela se sentiu compelida a procurar Hayden Yates. Ele teria respostas. Talvez pudesse até mesmo garantir que o avô não estava por trás disso. Ela ficou de pé num salto, correu para a porta, mas abrandou o passo quando chegou à porta. Ah, droga! Ela só poderia ir com uma sombra.
Burnett surtaria se descobrisse que Kylie estava vagando sozinha à noite. Mas, dane-se!, ela precisava de respostas. E às vezes era preciso quebrar as regras. Ela saiu, fechando a porta silenciosamente para não acordar Miranda. Descendo os degraus da varanda, ela se dirigiu para o caminho que levaria à cabana de Hayden. Ele provavelmente ainda estaria dormindo, mas ela não se importava.
Kylie estava a poucos metros quando viu alguém aparecer por entre as árvores. Sua respiração ficou presa na garganta quando viu quem era.
O pensamento que lhe veio à mente foi uma frase que Nana tinha lhe dito muitas vezes, quando ela se via numa situação ruim. Ela estava num mato sem cachorro.
— Eu... Sinto muito — Kylie murmurou.
— Não precisa nem mesmo tentar me convencer a não ficar furioso! — Burnett rosnou. — Nem uma palavra!
— Eu só...
— Já são duas palavras e eu disse “nenhuma”! — ele retrucou, e fez um gesto com a mão para dar mais ênfase.
Kylie mordeu o lábio e, como dava para imaginar, as lágrimas começaram a fluir. Grossas e rápidas. Ela fungou e enxugou o rosto com as costas da mão. Sua respiração ficou presa no peito.
Mas caramba! Por que isso não poderia ter acontecido quando ela estava sozinha?
— Essas lágrimas não me afetam, mocinha! — Ele apontou um dedo para ela. Embora ela não pudesse ouvir seu coração bater no ritmo de uma mentira, ela a pressentiu em sua voz. As lágrimas dela na verdade o afetavam. Não o suficiente para impedi-lo de ficar furioso, mas o suficiente para que sua voz denunciasse sua emoção.
E saber que ela o desapontara adicionou outra camada de dor no seu peito. Justamente aquilo de que ela precisava... mais dor.
Ela abraçou a si mesma e tentou parar de chorar. Mas as lágrimas continuavam brotando. Ele não disse nada. Apenas ficou andando de um lado para o outro, na frente dela.
De um lado para o outro.
De um lado e para o outro.
Olhando para ela o tempo todo com total descontentamento e decepção. Ela começou a voltar para sua cabana, e ele rosnou. Apenas um rosnar. Sem palavras, mas com entonação suficiente para ela saber que ele não queria que ela saísse da cabana. Obviamente, sua punição era ficar ali e aceitar o fato de que o decepcionara.
Num recôndito da sua mente, ela se perguntou se era assim que Lucas se sentia.
Mais uma vez sentiu o tremor em sua respiração.
— Eu só...
— Eu disse que você poderia falar? — ele perguntou. Ele andou mais três vezes de um lado e para o outro, como se estivesse tentando se acalmar, antes de olhar para ela novamente. — Onde você estava indo?
Quando ela o olhou, ele cuspiu:
— Responda.
— Você disse que eu não podia falar. — Ela enxugou o rosto novamente.
— Onde você estava indo, Kylie?
Santo Deus, ela não sabia o que dizer! Não podia dizer a verdade. Ela tinha prometido ao avô que nunca entregaria Hayden Yates.
Sim, ela estava definitivamente num mato sem nenhum cachorro à vista.
— Você ia ver Lucas? — perguntou Burnett.
Ela começou a concordar com a cabeça, mas sentiu o coração disparar só de pensar numa mentira.
— Então não era Lucas — ele sibilou, obviamente, ouvindo o coração dela e sabendo que ela estava tentada a mentir.
Ele se aproximou um pouco mais e seus olhos escuros a analisaram. Ele estava perto demais. Tão perto que ela viu novamente a decepção em seus olhos, e o nó na garganta ressuscitou.
Ela tentou pensar no que dizer, algo para ajudar, algo inofensivo. Algo que não fosse uma mentira.
— Eu só...
— Não precisa nem falar se você vai mentir.
Ok, então seu coração não ia permitir nem mesmo uma mentirinha para tirá-la dessa encrenca.
— Eu quero a verdade — disse ele. — Você estava indo se encontrar com seu avô?
— Não — Kylie disse com sinceridade, e com ela veio um enorme alívio.
Ele a estudou mais de perto. Seus olhos se estreitaram.
— Ok, vou fazer uma pergunta direta e quero que me diga sim ou não. Não tente me enganar, porque eu vou saber. — Ele fez uma pausa para causar mais efeito, ou talvez apenas para ordenar seus pensamentos. — Você ia ver Hayden Yates?
A mente de Kylie disparou. O que Burnett sabia? Quando o avô lhe contara que Burnett tinha acreditado na mentira de Hayden, de que ela tinha simplesmente enganado o professor, levando-o a pensar que tinha permissão para sair, ela não tinha acreditado que Hayden havia enganado Burnett.
Ele sabia alguma coisa. Mas quanto e o que ele sabia continuavam sendo um mistério.
— Ok, seu silêncio praticamente responde à minha pergunta. Vamos. — Ele fez sinal para que ela começasse a andar.
— Para onde? — ela perguntou, com medo do que ele ia dizer.
— Você queria ver Hayden, então vamos vê-lo. E então ou vocês dois vão me dizer que diabos está acontecendo ou o bicho vai pegar!

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