14 de outubro de 2016

Capítulo 8

— Vamos esperar Burnett.
— Vamos é dar o fora daqui agora!
Kylie lentamente ficou consciente das vozes. De quem eram? Esperar Burnett para quê? As perguntas se sucediam na sua mente confusa. Onde ela estava? Quem a segurava no colo com tanto...?
Ela ouviu o som de uma batida rítmica. A batida de um coração? Mas não era o seu. O calor, a sensação quente de alguém pressionado contra ela, era celestial. Ela tinha sentido tanto frio! Por quê?
Se ela se concentrasse conseguiria descobrir. Mas parte dela não queria se concentrar; parte dela queria ficar assim. Inconsciente, aquecida e sentindo-se segura nos braços de alguém que a abraçava.
Que a segurava com ternura.
Que a segurava como se ela fosse um tesouro precioso.
— Não podemos sair daqui — disse uma das vozes. Uma voz a distância. Não a que a segurava.
— Ele pode voltar. Precisamos sair daqui enquanto ainda for seguro.
Ela ouviu as palavras vibrarem profundamente no peito da pessoa que falava.
— Eu não acho. Você disse que Burnett estava a caminho. Precisamos esperar aqui.
— Só porque você está com medo...
— Eu não estou com medo, porra! Estou sendo racional. Kylie veio até aqui por um motivo. Os fantasmas, e eu aposto que foram eles que afugentaram aquele cretino.
Kylie reconheceu a voz de Derek.
Tudo voltou à sua memória numa fração de segundo. A traição do avô, a ajuda de Jenny, Derek encontrando-a, Mario aparecendo, a luta, e Lucas... A sensação familiar dos braços em volta dela revelou quem a segurava, de quem era o calor que ela agora absorvia. Enrijecendo, ela empurrou o peito de Lucas.
— Ponha-me no chão.
Os olhos azul-escuros, agora de um laranja brilhante, sem dúvida ainda sentindo o perigo, fixaram-se em seu rosto.
— Você consegue ficar de pé sozinha?
— Consigo — disse ela. Quando viu os hematomas no pescoço dele seu coração se apertou.
Santo Deus, ela quase o matara! Apertara as mãos ao redor do pescoço de Lucas, fazendo a vida quase se esvair dele, e por pouco não tinha terminado o serviço.
Lágrimas fizeram suas narinas arderem, mas ela piscou, evitando que transbordassem. Agora não era hora de desmoronar. Mais tarde ela iria deixar isso acontecer. Mais tarde teria bastante tempo para sentir pena de si mesma. Ela merecia isso. Mas não agora. Agora não, ela repetiu mentalmente, tentando combater a sobrecarga emocional.
— Você está machucada? — perguntou Lucas.
— Ela pediu para você colocá-la no chão — Derek insistiu, em tom firme, sem dúvida captando as emoções dela em conflito.
— Eu ouvi — Lucas rosnou, e Kylie desviou os olhos dos hematomas em seu pescoço e olhou-o no rosto. A antipatia que o lobisomem sentia por Derek fazia seus olhos brilharem num tom laranja mais claro. — Só quero ter certeza de que ela está bem.
— Estou bem — ela mentiu, as emoções pipocando num turbilhão.
Traição.
Medo.
Seu olhar desviou-se para o pescoço machucado.
Culpa.
— Por favor, me coloque no chão — ela insistiu.
Ele fez o que ela pedia. Seus joelhos estavam fracos, mas Kylie se concentrou para não deixá-los virar geleia e conseguiu permanecer em pé.
Lucas manteve a mão estendida, pronto para ampará-la caso as pernas dela fraquejassem. Ela não queria precisar da ajuda dele. Por que Lucas estava ali? Ela não tinha dito a Burnett para não colocá-lo de guarda? Então Kylie se lembrou de ter pensado que vira Monique. Teria sido ela?
Suas emoções sofreram uma reviravolta e ela percebeu quanto isso era insignificante naquele momento. Agora ela tinha que se certificar de que voltariam para Shadow Falls em segurança. Mais tarde, durante o período que reservaria para sentir pena de si mesma, ela poderia lamentar por Lucas e pelos seus problemas.
— Você está pronta para voltar? — Lucas perguntou.
— Nós não vamos sair daqui até Burnett aparecer — Derek insistiu novamente.
Kylie olhou para Derek e depois para os portões do cemitério, que agora estavam fechados. Os espíritos montavam guarda, com o rosto entre as barras de metal enferrujado.
— Derek tem razão. Vamos ficar aqui até Burnett aparecer.
Um flash passou por Kylie, e depois outro.
Burnett, juntamente com três outras pessoas da UPF, assim como vários campistas, inclusive Perry, de repente os rodearam.
— Estou aqui — disse Burnett. Seus olhos brilhantes pareciam dizer que ele estava preparado para a briga. Ele olhou em volta, como se calculasse o perigo, antes de voltar a se concentrar neles. — E é melhor que alguém me diga que diabos está acontecendo.
Quando ninguém falou rápido o suficiente para aplacar a sua impaciência, seu olhar se fixou em Kylie.
— Era para eu vir buscá-la pela manhã. — Seu olhar saltou para Derek. — Você deveria estar montando guarda perto da casa do avô dela. — Ele olhou para Lucas. — E você me disse que estava indo para a casa do seu pai.
— Bem, eu menti — Lucas confessou, embora não fosse alguém que aceitasse facilmente uma reprimenda. — Eu queria ter certeza de que Kylie não precisaria de mim. E ela precisou.
— O que aconteceu? — Burnett perguntou de novo, seu tom de voz indicando que ele estava perdendo a paciência.
— Mario — respondeu Kylie.
Os olhos de Burnett iluminaram-se e ele olhou ao redor novamente.
— Você tem certeza de que era ele?
— Tenho. — Kylie estremeceu, lembrando-se da maldade que sentira emanando do camaleão.
Ela se lembrou da sensação de que ele gostava de brincar com ela, como um gato perseguindo um rato. Mas o rato tinha vencido dessa vez. Graças aos mortos, ninguém tinha morrido nas mãos de Mario, mas como seria da próxima vez? Ela ouviu a ameaça de Mario ecoar em sua cabeça. Você virá até mim, Kylie Galen, virá até mim disposta a morrer, a sofrer em minhas mãos, para a minha alegria, porque o preço será muito alto!
Ele falou com certeza, como se já tivesse traçado um plano. O medo subiu da ponta dos pés e atravessou a sua espinha.
Burnett continuou a olhar em volta. Depois de mais alguns segundos farejando o ambiente, ele olhou para Derek.
— Ele já foi — disse Derek.
— Isso eu posso ver.
Mas será que tinha realmente ido embora? Sendo um camaleão, ele podia ficar invisível. Ele ainda poderia estar ali. Kylie quase disse isso, mas lembrou-se dos outros membros da UPF.
Sua falta de confiança neles a levou a ficar de boca fechada. Quanto menos eles soubessem sobre ela e sobre os camaleões como um todo, melhor.
— E o que vocês estavam fazendo aqui? — perguntou Burnett, aparentemente cada vez mais frustrado à medida que pensava no que havia acontecido. — As ordens eram para que me esperassem até amanhã. Por que eu dou ordens aqui se ninguém me ouve?
— Nós não pudemos. Eles não iriam deixá-la partir — defendeu-se Derek, olhando para Kylie como se soubesse quanto era difícil para ela ouvir a verdade. E ele estava certo. A dor em seu peito ficou mais forte.
— Eles quem? — Burnett perguntou. — Quem não iria deixá-la partir? — Seu olhar oscilava entre Derek e Kylie.
— Os camaleões — respondeu Derek.
O olhar de Burnett voltou a se fixar em Kylie e o peito dela ficou oprimido, pois sabia que Burnett iria pôr a culpa em seu avô.
— Meu avô não sabia disso — disse Kylie, mas ela não tinha como ter certeza. E sabia que Burnett perceberia sua mentira inocente.
Sua expressão se suavizou por uma fração de segundo, como se ele pudesse perceber a dor que ela sentia.
— Você devia ter me ligado. — Burnett olhou de volta para Derek.
— Ele tentou — defendeu-o Kylie, sem querer que Derek levasse a culpa. — Tivemos que sair de lá às pressas, para fugir dos guardas, e então... então, quando ele tentava ligar para você, Mario... ele detonou o telefone de Derek.
De repente, a escuridão da noite foi cortada pelo feixe de faróis. Um carro se aproximou até frear abruptamente, fazendo os pneus guincharem no asfalto. O carro de Holiday.
Ela desceu apressada do Honda, o cabelo vermelho solto como se tivesse acabado de sair da cama. E quando os seus olhos marejados se iluminaram ao ver Kylie, ela murmurou “Graças a Deus” e colocou a mão sobre os lábios.
Ver a emoção de Holiday enfraqueceu a determinação de Kylie de esperar até mais tarde para desmoronar. Ela correu para a amiga e caiu em seus braços.
Com a cabeça enterrada no ombro da líder do acampamento, Kylie ouviu Burnett repreender:
— Eu pensei que tivesse falado para você esperar no acampamento.
Kylie sentiu a tensão de Holiday ao ouvir a reprimenda, então levantou a cabeça.
— E eu pensei que você soubesse que não sigo as ordens de ninguém.
— Alguém aqui por acaso me ouve? — perguntou Burnett, a frustração fazendo seu tom parecer quase cômico.
— Obviamente que não — disse um dos agentes da UPF, rindo.
Burnett gemeu, mas Kylie ouviu seu suspiro de puro alívio. Ela sabia que ele via a proteção de todos em Shadow Falls como sua responsabilidade pessoal. E ela o amava por isso, também.
— O que aconteceu? — perguntou Holiday, estreitando os ombros de Kylie em seu abraço reconfortante.
— Vamos falar sobre isso mais tarde — disse Burnett. — Precisamos voltar a Shadow Falls agora.
Kylie sabia que a conversa incluiria acusações ao seu avô. Embora ela ficasse apreensiva ao pensar nessa conversa, naquele momento, com os braços quentes e reconfortantes de Holiday em torno dela, até mesmo ouvir Burnett e Holiday brigando a tranquilizava. Era quase como se sentir em casa outra vez.
E aquilo era muito bom.


Atravessar os portões de Shadow Falls transmitiu a Kylie uma sensação de calidez. Aquele era o lugar a que ela pertencia. Nem mesmo pensar que passaria a próxima hora enfrentando as perguntas de Burnett dissipou completamente a sensação de estar em casa.
— Me desculpe ter que fazer isso agora — Burnett disse várias vezes. Ele já tinha recapitulado tudo com Lucas e Derek, enquanto Kylie estava sentada no escritório com Holiday. Elas não tinham falado sobre o que havia acontecido aquela noite porque Kylie sabia que Burnett gostaria de estar presente, de modo que falaram sobre o pouco que ela tinha aprendido com o avô.
Quando Burnett entrou, o clima ficou mais sério.
— Sei que você não dormiu a noite toda, mas, de acordo com as estatísticas, quanto mais esperarmos, mais provável é que você se esqueça de alguma coisa.
Kylie, sentada no sofá ao lado de Holiday, assentiu.
— Eu sei. — Ela mordeu o lábio e tentou se concentrar e colocá-lo a par de tudo o que havia acontecido. Ela contou sobre Mario e sua ameaça ao ir embora. Então começou do início novamente e contou a ele sobre Jenny vindo à sua janela.
A única coisa que ela não disse foi que Jenny era irmã de Hayden Yates. Ela nem mesmo tinha certeza de que Burnett tinha descoberto que Hayden era um camaleão. Em seguida, ela contou mais uma vez sobre Derek aparecendo na floresta. Ela propositadamente contou novamente sobre a pessoa invisível que havia sentido ali, antes de fugirem. E lembrou Burnett de que ela acreditava que essa pessoa fosse o seu avô, e que ele não estava lá para impedi-la de ir embora, mas para ver como ela estava.
— Mas você não falou com ele? — perguntou Burnett. — Então você não sabe com certeza se era ele mesmo, ou se a presença dele ali significava que ele não estava por trás de tudo isso.
Kylie o olhou com uma expressão séria.
— Eu conheço o meu avô. Não acho que ele faria isso. Até Jenny disse que ele era diferente dos outros anciãos. E não quero que você comece a pensar nele como um inimigo.
Burnett cerrou os dentes.
— Ele se preocupa com você, Kylie. Senti isso quando nos falamos. Mas ele nunca escondeu o fato de que não confiava em mim e em Shadow Falls. Ele poderia muito bem se justificar, dizendo que sentiu que sua vida estava em perigo. Ele pode achar que tem boas intenções a seu respeito, mas está errado. E, embora eu saiba que é difícil para você aceitar isso, não podemos mais confiar nele.
A observação de Burnett criou um nó na garganta de Kylie. Ela compreendia o ponto de vista dele, mas não podia ir contra o que seu coração dizia. E seu coração dizia que o avô não estava por trás das tentativas de mantê-la com ele contra a vontade dela.
— Você não pode confiar nele — disse Kylie. — Eu ainda tenho que decidir. E por que você está desperdiçando tanto tempo se preocupando com ele se o verdadeiro vilão é Mario?
— Eu sei muito bem quem é o verdadeiro vilão — respondeu Burnett. — Mas é por causa do seu... devido às ações de pessoas que estão com o seu avô que Mario quase pegou você.
— Elas não tiveram nada a ver com o fato de Mario aparecer.
— Concordo, mas elas tiveram tudo a ver com o fato de você estar numa situação de vulnerabilidade.
— Fui eu que optei por fugir. — Ela torceu as mãos no colo.
— Você não acha que devemos terminar por essa noite? — Holiday interveio. — Vamos parar agora e continuar pela manhã.
Burnett franziu o cenho para Holiday, em seguida ajoelhou-se em frente à Kylie. Colocou a mão sobre as mãos crispadas dela. Seu toque era frio, mas terno e carinhoso. O nó na garganta de Kylie dobrou de tamanho. Quando ele a fitou, Kylie viu a luta em seu olhar para manter a calma e não deixar que o seu temperamento intempestivo o dominasse. Ele queria fazer exigências, dar ordens. No entanto, Kylie também sentiu que ele se esforçava para fazer o que Holiday tentava incutir nele: fazer concessões em vez de impor.
Olhando a mão dele sobre os seus dedos crispados, Kylie soube que Burnett se preocupava – ela sabia que a intenção dele não era magoá-la, mas sim ajudá-la. No entanto, não era exatamente isso que seu avô também queria?
— Kylie, eu sei que isso é difícil pra você — disse Burnett. — Eu de fato sei. Mas preciso da sua promessa de que não fugirá para ver o seu avô.
Ele apertou o pulso dela.
— Por favor. Não vou ter um momento de paz se você não me prometer isso.
— Não vou fugir. — Ela não podia lhe negar isso, não quando ele estava quase implorando. No entanto, lá no fundo, ela se perguntava se seu batimento cardíaco dizia que era mentira e, se fosse, se Burnett teria ouvido.
Que Deus a ajudasse, porque, se o avô lhe pedisse para encontrá-lo, como ela podia lhe dizer não? Ela estava verdadeiramente dividida em sua lealdade. Só rezava para que não tivesse que chegar a esse ponto.
O horizonte a leste já estava um pouco mais claro do que o resto do céu quando Burnett e Holiday levaram Kylie até a sua cabana. As estrelas brilhavam no céu, como se soubessem que estavam prestes a ser ofuscadas pelo sol e quisessem oferecer um pouco mais da sua luz.
Ela deveria estar exausta, e parte dela estava, mas duvidava que conseguisse dormir assim que caísse na cama. Sua mente remoía tantas coisas que parecia impossível desligá-la. Além disso, ela tinha assumido um compromisso consigo mesma: iria se permitir um pouco de autopiedade. O nó que sentira na garganta antes agora estava preso na região do coração. No passado, Kylie tinha aprendido que não existia nada como um bom choro para aliviar esse tipo de dor.
Obviamente, os efeitos calmantes do toque de Holiday já estavam se dissipando. Ou talvez aquilo tudo fosse demais para ser amenizado apenas com a magia de um fae. Algumas coisas precisavam ser processadas. Coisas como deixar a casa do avô sem dizer adeus. Como o fato de quase ter matado Lucas. Como saber se era realmente Monique, a noiva de Lucas, que ela vira aquela noite. Como a falta que a mãe fazia e o fato de ela estar do outro lado do mundo dormindo com um estranho.
Coisas como ter um assassino psicótico querendo acabar com ela.
A ameaça dele ecoou em sua cabeça como um verso ruim de uma canção que não se consegue esquecer. Você vai vir até mim, Kylie Galen, vai vir até mim disposta a morrer, a sofrer em minhas mãos, para minha alegria, porque o preço será muito alto! Sua fraqueza será sua ruína.
E pensar em coisas desse tipo podia incluir derramar algumas lágrimas. Quem poderia censurá-la por isso? Claro, ela provavelmente ia ter que passar algum tempo tentando descobrir o que Mario queria dizer com “sua fraqueza”.
— Que tal fazer um passeio até a cachoeira amanhã? — Holiday sugeriu e, em seguida, como se estivesse captando o estado emocional de Kylie, estendeu a mão e apertou o braço da amiga.
Kylie assentiu.
— Amanhã bem cedo eu vou descobrir qual o melhor horário para esse passeio — Burnett acrescentou, deixando claro que iria com elas.
O silêncio caiu sobre eles como uma chuva suave. O céu estava um pouco mais púrpura, como se já fosse amanhecer. Burnett limpou a garganta.
— Você sabe que vai ter que voltar a ter uma sombra?
— Eu imaginei — disse Kylie.
— Antes que eu prepare a escala de sombras, hã... queria saber se há alguém que você não queira como sombra.
— Apenas uma pessoa — disse Kylie. — E acho que você sabe quem é.
Burnett apenas balançou a cabeça.
Seus passos no caminho de cascalho enchiam a noite com um som de trituração.
— Como está Helen? — perguntou Kylie.
— Muito melhor — disse Holiday.
— Será que ela se lembra de alguma coisa? Sabemos se foi ou não Mario?
— Não — respondeu Holiday.
— Ainda estamos investigando — disse Burnett, e um pouco de frustração se evidenciou em sua voz. — Mas sabemos que Mario foi flagrado em Shadow Falls naquela mesma manhã. E com o aparecimento dele esta noite, tudo indica que está por trás disso.
Eles estavam quase chegando à curva do caminho. A distância, Kylie podia ver a cabana. Não havia nenhuma luz lá dentro. Ela olhou para Burnett.
— Della ainda não voltou?
— Não, ainda não — disse ele, e algo na maneira como pronunciou aquelas três palavras disparou um alarme dentro de Kylie.
Ela o pegou pelo braço.
— O que aconteceu?
Burnett levantou a mão, como se estivesse se defendendo.
— Ela está bem. Teve alguns problemas ontem à noite, mas tudo está bem agora. Ela deve estar de volta hoje, mais tarde, ou amanhã.
— Que tipo de problema? — perguntou Kylie, sua preocupação com Della trazendo algum alívio com relação aos seus próprios problemas.
Burnett hesitou em responder, o que deixou Kylie ainda mais desconfiada.
— O que aconteceu? — Kylie insistiu.
— Ela entrou numa briga com alguns membros da gangue. Mas...
— Tem certeza de que não era Mario?
— Tenho — afirmou Burnett.
— Ela está machucada? — O peito de Kylie doía. — Eu sabia que trabalhar para a UPF era uma má ideia.
— Ela apenas apanhou um pouco e saiu meio machucada... — disse Burnett.
— Quanto ela apanhou e quanto está machucada?! — perguntou Kylie.
— Não tanto que eu não possa dizer que seu ego é que deve ter ficado mais ferido — Burnett respondeu.
— Ela está ótima. Eu juro — Holiday acrescentou. — Eu mesma falei com ela.
Kylie suspirou, sabendo que provavelmente estava exagerando, mas suas emoções represadas estavam a ponto de transbordar de novo. Ela recomeçou a andar, agora quase correndo para a cabana, querendo ficar sozinha antes que as emoções transbordassem de fato.
Holiday acompanhou o ritmo dela e pegou a mão de Kylie, fazendo-a parar antes de subir os degraus da varanda.
— Você quer que eu entre para podermos conversar um pouco?
— Não — Kylie disse, sentindo-se uma idiota. — Eu só preciso de um tempo para me recuperar. — Ela abraçou a amiga, absorvendo um pouco mais de seu toque calmante. Quando Kylie deu um passo para trás e começou a se virar para a porta, Burnett pigarreou. Ela olhou para ele.
O vampiro estendeu as mãos.
— Eu não ganho um também?
Kylie viu o brilho de surpresa nos olhos de Holiday, então não conseguiu resistir e sorriu.
— Cuidado, as pessoas podem pensar que conseguimos te dobrar.
— Duvido muito — disse ele, dando-lhe um abraço rápido. Com o queixo pressionado contra seu cabelo, ele sussurrou: — Eu vou pegar aquele filho da mãe. Prometo a você.
Ela não precisava perguntar quem era o filho da mãe. Sabia que era Mario.
— Obrigada — disse ela, se afastando. E antes que realmente começasse a chorar, ela entrou na cabana.
O cheiro do lugar encheu seus sentidos. Ela não sabia bem o que contribuía para aquele aroma, mas fosse o que fosse, exercia um efeito calmante. E então ela percebeu que a cabana tinha o cheiro das pessoas que ela amava. Miranda, Della. E havia um perfume amadeirado que ela conhecia. Um cheiro que pertencia... Não! Ela só cheirava à casa, disse a si mesma.
A porta do quarto de Della estava aberta, como uma placa em néon avisando que ela não estava ali. A vampira, uma pessoa super-reservada, sempre mantinha a porta fechada.
O olhar de Kylie voltou-se para a porta de Miranda.
— Tempo para me recuperar... — ela sussurrou para si mesma. Se ia desmoronar, queria fazer isso sozinha. Começou a entrar no seu quarto, mas mal tinha aberto a porta quando ouviu o piso de madeira ranger. Ela não estava sozinha. Seu olhar desviou-se para o canto do quarto e viu alguém de pé ali.
Viu e reconheceu.
Talvez, no final das contas, ela não fosse ter um tempo para se recuperar...

2 comentários:

  1. Talvez a "Fraqueza" dela seja alguém que ela ama muito, talvez.

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    Respostas
    1. Ou que nem perceba... mas o amor vai evidenciar apesar de uma coisa ou outra!

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