4 de outubro de 2016

Capítulo 8

— O que foi isso? — Della perguntou.
Kylie olhou para o pássaro. Ele não se moveu. Não fez um barulho. Será que...? Seu coração se apertou.
— Engula essa! Está chovendo passarinho morto. Agora eu estou realmente apavorada. Podemos ir embora, por favor?
O espírito olhou da gralha azul para Kylie.
— Está morto? — ela se ajoelhou e olhou para o pássaro. Quando olhou para cima, tinha lágrimas nos olhos. — Está morto. Assim como eu. Assim como os anjos da morte avisaram. Alguém vive e alguém morre.
— Ninguém vai morrer.
Kylie pegou o corpinho flácido do pássaro. Seu pescoço pendeu para um lado. Ela se lembrava de ter visto o pássaro tão cheio de vida apenas alguns instantes antes. O que tinha acontecido? Ela olhou para o espírito.
— Você o matou?
— Não, eu não o matei! — disse Della. — Espere, você não está falando comigo, não é? É um anjo da morte ou só um fantasma?
— Não. — Jane olhou em volta como se estivesse tão assustada quanto Della. Ela se aproximou. — Os outros o mataram. Eles não são do bem.
Kylie tremia com o frio fantasmagórico.
— Quem são os outros?
— Psiu. — O espírito levantou um dedo e o pousou sobre os lábios. — Eles estão vindo. — Então desapareceu no ar.
Della ficou para trás e continuou a olhar o pássaro fixamente. Kylie colocou as mãos em torno da gralha azul. Ela tinha curado Sara. Seria possível que fosse capaz de...?
Kylie fechou os olhos e tentou se concentrar em pensamentos de cura.
O pássaro começou a estremecer. Kylie abriu as mãos e suas asas se abriram. Suas penas, brancas e de um brilhante azul royal, ficaram sob um facho de luz do sol e refulgiram, então a ave arremeteu aos seus pés e voou para longe. Kylie o assistiu desaparecer sobre as copas das árvores, com emoções ambivalentes. Por um lado, ela tinha dado vida a alguma coisa, e isso era legal. Por outro lado... Bem, isso era muito estranho.
— Você fez o que eu acho que você fez? — Della perguntou. — Acabou de trazer aquele pássaro morto de volta à vida?
Kylie olhou para a amiga.
— Eu não tenho certeza.
De repente, o silêncio reinou na floresta. As palavras do espírito ecoaram na cabeça de Kylie. Eles estão vindo.
A ausência de barulho parecia ameaçadora.
Kylie olhou para Della.
— Por acaso você está sentindo alguém aqui?
Della farejou o ar.
— Não. Mas tudo está quieto demais.
— É melhor a gente ir — Kylie sussurrou.
— Não vai precisar pedir duas vezes.
Kylie correu atrás de Della, na esperança de fugir do silêncio, do sentimento de perigo e de outra constatação surpreendente sobre seus poderes.


 — Tem certeza de que estava morto? — Holiday perguntou.
— Eu não ouvi a pulsação. — Kylie andava de um lado para o outro no escritório. — Mas os pássaros costumam cair das árvores inconscientes?
Holiday reprimiu um sorriso.
— Acho que não.
Por alguma razão, para a líder do acampamento a notícia não parecia nem de longe tão surpreendente quanto para Kylie.
Esta, ainda sem fôlego por causa da corrida, havia saído da floresta e ido direto falar com Holiday. Della, que levava a sério a sua incumbência de sombra, esperava do lado de fora.
— O fantasma estava lá. Você acha que a presença dele fez isso? Talvez não tivesse nada a ver comigo. O pássaro voltou à vida quando ele se foi. Então, talvez fosse só o espírito.
— Pode ser. Mas nunca ouvi falar que a presença de um espírito pode matar animais selvagens, ainda que temporariamente. Talvez o pássaro estivesse atordoado. Talvez tudo isso seja uma pista.
— De quê? — Kylie perguntou, frustrada.
— Da identidade do espírito, talvez.
Kylie parou em frente à mesa.
— Como um pássaro morrendo vai me revelar quem o fantasma é?
— Às vezes, os espíritos têm maneiras estranhas de se comunicar.
Kylie refletiu sobre algumas lembranças, em sua mente já confusa, e então se lembrou.
— Jane Doe não tem padrão cerebral. Nada. É uma mente em branco.
— Em branco? — Desta vez Holiday pareceu realmente intrigada.
 — É. Eu ficava tentando me concentrar no padrão dela, achando que eu não estava... vendo direito. Porque achava que todo mundo tinha padrão cerebral, como impressões digitais.
Kylie se deixou cair na cadeira em frente à líder do acampamento.
— Eu nunca vi uma mente em branco, mas...
— Acho que ela é sobrenatural. — Kylie mordeu o lábio.
— Por que você acha isso?
— Porque ela sabia sobre os anjos da morte.
Holiday pareceu refletir sobre isso.
— Ela provavelmente ouviu você falando sobre eles.
— Talvez. Mas... ela está realmente com medo de alguma coisa.
— Morrer pode ser assustador se você não estiver preparado.
— Acho que é mais do que isso — disse Kylie.
— Como assim?
— Eu não sei ainda. Mas é... alguma coisa.
— Espere. — Holiday pousou a mão sobre a mesa. — Você não me disse que ela tinha algum tipo de cicatriz na cabeça?
— Disse. — Kylie tocou a têmpora. — Ela tem pontos e sua cabeça está raspada.
— É provavelmente um tumor. Eu nunca vi ninguém com um, mas ouvi falar que tumores podem fazer coisas estranhas com o padrão cerebral.
— Mas um tumor pode fazê-lo desaparecer? — Kylie perguntou. — E por que ela ficou assustada quando perguntei o que ela era? Eu realmente acho que ela é sobrenatural.
— Eu não estou dizendo que ela não seja um de nós, mas... raramente nós, seres sobrenaturais, ficamos por aqui por muito tempo depois de morrer. Em todos esses anos em que lidei com fantasmas, só cruzei com três sobrenaturais.
— Mas o meu pai ainda está por aqui.
— Ele tinha uma razão muito boa para ficar. Cuidar de você.
Kylie colocou a perna sobre a cadeira e abraçou-a. Seus pensamentos desviaram-se do fantasma para o seu pai e depois para o fantasma novamente.
— Eu não sei... Alguma coisa nela é... diferente. Lembra que ela me disse que tinha mensagens dos outros?
— Isso não é incomum. Eu sempre vejo espíritos que me dizem alguma coisa sobre alguém. — Holiday rolou um lápis entre as mãos.
— Mas uma mensagem dos anjos da morte? — Kylie perguntou.
— Não, mas como eu disse, ela pode ter ouvido você mencionar os anjos da morte e simplesmente ficado confusa. Ela mencionou a mensagem de novo?
— Sim. Todas as vezes, como se fosse importante. — Kylie fez uma careta. — Ela vive dizendo que alguém vai viver e alguém vai morrer. E eu não gosto da parte do “morrer” — disse, abraçando mais forte o joelho.
— Nem eu — Holiday concordou. — Mas como você já sabe, os fantasmas não se comunicam muito bem. Portanto, não entre em pânico. Basta continuar fazendo perguntas e procurando pistas.
— É possível que ela só esteja aqui para me transmitir essa mensagem?
— Dificilmente. É mais provável que o motivo seja outro.
Kylie franziu a testa.
— Então como, pelo amor de Deus, eu vou ajudá-la se ela nem se lembra de quem é?
Holiday apoiou o queixo na palma da mão.
— Eu acho que esse espírito pode ser um dos difíceis.
— Como se eu já tivesse visto algum fácil... — Kylie apertou os braços ao redor da perna. — Tem uma coisa que eu queria checar.
— O quê?
— O Cemitério de Fallen. Eu sei que você disse que ela poderia ter vindo de qualquer lugar, mas ainda acho estranho que tenha surgido no carro da minha mãe bem na frente dele.
Holiday franziu as sobrancelhas.
— Eu não vou dizer a você para não ir, mas cemitérios não são o melhor lugar para alguém que vê fantasmas. A esta altura você deve ser capaz de ver mais de um de uma vez, e muitos deles ficam perto de cemitérios por um longo tempo.
Kylie se lembrou.
— No enterro de Nana, eu tive uma dor de cabeça terrível.
— Provavelmente eram eles tentando se comunicar. E isso foi antes de você poder vê-los. Às vezes, eles podem se aproximar todos de uma vez e aí fica... difícil.
— Mas se essa é a única pista, eu tenho que tentar.
— Você não é obrigada — Holiday argumentou. — No começo, eu nunca me recusava a ajudar um espírito. Mas aprendi que às vezes você tem que dizer não para preservar a própria sanidade.
— Mas eles vão simplesmente continuar voltando.
Holiday inclinou a cabeça um pouco.
— Você não se lembra de que conversamos sobre como se fechar para eles?
Kylie franziu a testa.
— Eu me lembro, mas não domino muito bem essa técnica.
— Podemos praticá-la novamente, mas... — Holiday consultou o relógio. — Tenho um compromisso agora.
— Eu quero ajudar esse espírito. Ele tem alguma coisa especial. — Kylie podia não sofrer de amnésia, mas havia muito na sua vida que ela ainda não sabia... coisas que queria saber.
Holiday assentiu com a cabeça.
— Eu entendo. E vou apoiar você independentemente do que decidir fazer. Apenas me avise antes de ir. Como Burnett já disse, você não pode ir a nenhum lugar sem uma sombra.
— Eu não estou gostando muito dessa coisa toda de sombra — disse ela.
— É só até vermos que rumo as coisas vão tomar.
Kylie mordeu o lábio, lembrando-se das outras coisas que precisava discutir com Holiday. Todas aquelas questões sobre ser capaz de curar e de ser protetora.
Sem mencionar as perguntas que queria fazer sobre o efeito avassalador que tinha sobre as emoções de Derek.
E havia também... Ela nunca iria se livrar das sombras se confessasse suas outras preocupações! Mas não discuti-las era idiotice. E Kylie não era idiota.
— As nossas câmeras de segurança são capazes de detectar... metamorfos?
Holiday se inclinou para a frente.
— Tenho certeza de que são. Por quê?
— Provavelmente não é nada, mas aconteceram algumas coisas. Pode ser que não seja nada demais, mas não é essa a impressão que eu tenho.
Holiday parou de rolar o lápis nas mãos.
— Que tipo de coisas?
— Quando saí para voltar à cabana, topei com uma cascavel, mas eu não a vi até que uma águia desceu do céu e a agarrou. Foi estranho.
— Ela foi atrás de você? — A preocupação obscureceu os olhos verdes de Holiday.
— Não, não teve chance. Mas a coisa toda foi simplesmente estranha.
— Estranha como?
— A águia simplesmente desceu do céu. — Kylie de repente sentiu como se estivesse exagerando.
Holiday acrescentou:
— Há muitas cascavéis nesta época do ano e concordo que ver uma águia arremetendo pode ser...
Kylie não esperou que Holiday continuasse.
— E então, quando eu comecei a... correr pelo bosque, um cervo, um macho imenso, surgiu no meu caminho. Eu parei e, uma fração de segundo depois, um raio atingiu uma árvore um pouco adiante de onde ele estava. Se o cervo não tivesse bloqueado o meu caminho, eu poderia ter sido atingida.
Holiday franziu a testa.
— Eu não estou gostando nem um pouco dessa história.
— E o cervo e a águia, eles... olharam bem pra mim como se estivessem tentando me dizer algo.
Holiday franziu a testa.
— Você acha que pode se comunicar com os animais?
— Não. Eu acho que não. Eles pareciam malévolos.
Holiday inclinou a cabeça para o lado, intrigada.
— O cervo e a águia pareciam malévolos?
Quando Kylie confirmou com a cabeça, Holiday pareceu ficar mais perplexa e preocupada.
 — Com essas coisas estranhas acontecendo, eu não posso acreditar que seja tudo pura coincidência. Mas, se estou entendendo, tanto a águia quanto o cervo pouparam você de se machucar. Como poderiam ser malévolos? Se fizeram alguma coisa, foi proteger você.
Kylie puxou um punhado de cabelo por sobre o ombro e o torceu.
— Eu sei que não faz sentido, mas foi o que pareceu.
Holiday colocou o lápis sobre a mesa e pegou o telefone.
— É melhor avisar Burnett... Não. — Ela largou o telefone. — Burnett foi a uma reunião com a UPF. Eu não quero incomodá-lo agora, mas vou falar sobre isso assim que ele voltar.
Kylie ouviu a porta da frente da cabana se abrir.
Holiday olhou para o relógio e franziu a testa.
— Eu tenho outra reunião, mas precisamos conversar mais sobre isso. Você pode esperar até que eu termine para que possamos continuar nossa conversa?
— Eu posso voltar mais tarde — disse Kylie, sem querer ficar mais tempo ali no escritório. Ela ia se sentir como uma criança enviada para a diretoria. — Ah, Burnett ainda precisa das fotos do meu pai? Se não, eu gostaria de ficar com elas.
— Ele está fazendo testes para ver se são originais ou cópias. Só deve precisar de mais alguns dias.
— Oi — soou uma voz feminina desconhecida por trás de Kylie. — Me desculpe. Eu não sabia que você estava com alguém aqui. Eu posso esperar no...
— Tudo bem — disse Holiday.
O coração de Kylie deu um salto quando ela reconheceu a morena como a garota que estava beijando Derek na foto do celular de Della.
— Kylie — Holiday apresentou-a, — esta é Ellie Mason. Ela acabou de se matricular em Shadow Falls.
Hora da encenação, pensou Kylie. Hora de tempo para fingir que não doeu. Ela forçou um sorriso.
— Oi.
— Você é Kylie Galen?
Kylie concordou com a cabeça, sem saber o que esperar.
— Derek me contou de você. — Ela sorriu, e então apertou as sobrancelhas para verificar o padrão cerebral de Kylie. — Uau! Você realmente tem um padrão estranho.
Ellie fez uma cara engraçada como se estivesse constrangida.
— É — disse Kylie. — Todo mundo diz isso. — Seu sorriso forçado se desvaneceu.
— Sinto muito — disse Ellie. — Eu não quis ser rude. Derek só tem coisas boas pra dizer a seu respeito.
— Não acredite em tudo que ele diz. — Kylie tentou suavizar o tom de voz, porque se sentia muito mal por não gostar da garota. Mas como ela poderia gostar de Ellie quando tudo o que podia pensar era que ela provavelmente era uma das quatro meninas com que Derek tinha transado? Então ela se perguntou se aquele beijo era tudo o que tinha acontecido na Pensilvânia.
— Eu sempre acredito em Derek. Especialmente quando se trata de pessoas. — Ellie deu outro passo para dentro da sala.
Kylie odiava admitir, mas Ellie era bonita. Olhos azuis, cabelos castanhos abundantes e covinhas no rosto. A garota abriu um sorriso sincero.
— Derek não costuma exagerar. E por ser meio fae, ele sabe avaliar o caráter das pessoas. Se gosta de alguém, é porque essa pessoa merece.
Kylie queria poder discordar. Não tanto porque não se considerasse merecedora do afeto de Derek. Mas porque, obviamente, ele se importava com Ellie a ponto de trazê-la de volta a Shadow Falls, o que significava que Ellie era uma pessoa que valia a pena.
Kylie se sentiu envergonhada novamente por pensar mal de Ellie e tentou reprimir o sentimento.
— Talvez quando me conheceu seu lado fae estivesse de folga. — Ela tentou acrescentar um pouco de humor ao comentário e se levantou. — Eu preciso ir.
— Kylie, que tal se eu for à sua cabana daqui a cerca de meia hora? — Holiday perguntou, a preocupação aprofundando o seu tom de voz.
Kylie acenou com a cabeça, concordando.
— E tenha cuidado! — Holiday disse.
— Terei. — Kylie parou quando se aproximava de Ellie. — Bem-vinda a Shadow Falls — ela disse, tentando de fato desejar isso a ela.
— Obrigada — disse Ellie.


— Será que a minha audição de vampira está com defeito?! Você disse mesmo, “Bem-vinda a Shadow Falls”? — Della perguntou, com sarcasmo, quando Kylie saiu da cabana. — Eu teria dado um soco naquela safada.
— Não, você não teria. — Kylie notou que a tempestade tinha passado.
— Talvez não, mas gostaria de dar. — A preocupação deixou os olhos de Della sombrios.
— E você acha que eu não gostaria? — As inseguranças cresciam no peito de Kylie. — Ela é bonita, não é?
— Não — disse Della, mas Kylie sabia que era mentira. Ellie era bonita e agradável e provavelmente tinha feito sexo com Derek.
O peito de Kylie ficou oprimido com um ciúme indesejado, e sua mente criou uma imagem de Ellie e Derek juntos. Eles se beijando... Eles...
Ela começou a andar em direção à sua cabana. Andar rápido. Della ficou ao lado dela o tempo todo, mas deve ter percebido o humor de Kylie, porque não disse mais nada.
Kylie foi até a cabana sem falar, mas, assim que pisou na varanda, olhou para Della.
— Você acha que eles fizeram sexo?
— Eu... — Della fez uma careta.
— Eu sei que eu não devia me importar. Mas acho que me importo. Droga! Por que parece que tudo gira em torno de sexo? Estou começando a odiar sexo e nem experimentei ainda. Essas imagens ficam girando na minha cabeça. É como um filme pornô que eu não consigo parar de assistir...
Della apertou a mão sobre a boca de Kylie e desviou o olhar para um ponto sobre o ombro dela.
Kylie estendeu a mão e tirou a mão da amiga dos lábios.
— Tem alguém atrás de mim? — Ela rezou para a resposta ser não.
O sorriso maroto de Della fez Kylie ter certeza de que sua oração não tinha sido atendida.
Ela engoliu em seco de vergonha e tentou imaginar qual seria a pior pessoa possível para estar atrás dela. Ellie? Derek? Não. Ela fitou os olhos de Della e murmurou a palavra Lucas.
Por favor. Por favor. Por favor, que não seja Lucas.
Della fez que sim com a cabeça. Kylie reprimiu um gemido. Ainda não estava pronta para enfrentá-lo, então olhou para o bosque. Em meio ao labirinto de árvores, viu o Sol se deitar no horizonte. Quem dera pudesse segui-lo e desaparecer também.
— Pode nos dar um minuto? — A voz de Lucas veio de algum ponto atrás do ombro de Kylie.
Sabendo que era inevitável, ela se voltou. Seu rosto ardeu, quando se lembrou do seu comentário sobre o filme pornô e toda aquela conversa sobre odiar sexo. Que ótimo! Ele tinha ouvido tudo.
— Não vai dar — Della respondeu. — Eu sou a sombra dela.
— Bem, digamos que eu esteja assumindo o posto — disse ele, quase rosnando.
— Está tudo bem — Kylie disse para Della.
Della franziu a testa.
— Se algo acontecer com ela no meu turno, juro que arranco esse seu rabo lupino.
— Nada vai acontecer. — Os olhos azuis dele escureceram e, em torno das bordas, Kylie viu um brilho laranja incandescente que indicava raiva.
Kylie não podia deixar de se perguntar se ela era direcionada a Della ou...
— Tudo bem. — Della entrou na cabana batendo o pé. E bateu a porta com tanta força que toda a varanda estremeceu.
Kylie olhou para o lobisomem. Ele ainda parecia meio chateado.
— Vamos dar uma volta — disse ele.
Kylie lembrou como todo o corpo de Lucas tinha enrijecido quando ela defendera Derek. Será que ele estava com raiva dela, também? A ideia de magoá-lo depois de ele ter arriscado a vida para salvá-la embrulhou seu estômago. Ele não merecia aquilo, e Kylie não tinha intenção de magoá-lo. Mas Derek também não merecia ser acusado por tentar ajudá-la.
Ele deu um passo para fora da varanda e olhou para trás.
Os olhos dele tinham uma tonalidade laranja brilhante agora. Kylie se lembrou de que um tempo atrás ela se assustava ao ver um lobisomem furioso. Quer dizer, ela se lembrava de uma época em que nem mesmo acreditava que lobisomens existiam, estivessem furiosos ou não.
— Você vem? — Lucas perguntou.

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