14 de outubro de 2016

Capítulo 7

— Nos encontramos de novo! — exclamou Mario, uma brisa quente e sombria agitando a bainha de seu manto. O céu parecia ter ficado mais escuro. Mesmo a lua e as estrelas pareceram se encolher diante da presença dele.
— Infelizmente — disse Kylie, respirando fundo. O ar da noite parecia impregnado com a maldade que emanava dele. Ela sentiu o sangue ferver em suas veias e a sensação de perigo quase sugava o oxigênio do ar.
Derek se moveu atrás dela e Kylie o empurrou de volta, segurando-o atrás de si. Protegê-lo. Protegê-lo. As palavras se repetiam na sua alma como uma ladainha.
Mario riu como se pudesse ler a mente dela.
— Não se preocupe, garota. Eu não quero nada com o seu amiguinho. No que me diz respeito, ele não está em perigo.
O velho sorriu. Seus dentes, finos, ligeiramente amarelados pela idade, apareceram sob o lábio.
A bizarrice do momento causou um tremor na espinha de Kylie.
— Pode acalmar esse seu lado protetor — disse Mario, como se sentisse o instinto de defesa dela vindo à tona. — Não lhe fará nenhum bem. Só estou atrás de você. Não vou causar nenhum mal a esse frangote.
Com um puxão, Derek se soltou de Kylie e foi para cima do velho malfeitor. Kylie deu um protetor passo à frente para intervir. Mario ficou invisível e Derek caiu no chão.
Mario reapareceu a alguns metros de distância.
— Que lindo... — ele zombou. — O rapazinho quer protegê-la.
Derek não hesitou em avançar contra ele novamente. Mas, como antes, Mario desapareceu no ar e reapareceu novamente a poucos metros do fae.
— Pare com isso! — Kylie disse Derek.
Ele a ignorou e seus olhos dispararam punhais contra Mario.
— Não sou eu quem está desaparecendo, seu cretino. Lute como um homem.
Mario riu, e a maldade de seu tom estilhaçou os nervos de Kylie como cacos de vidro.
— Sei que quer lutar comigo para despertar os poderes da sua namorada. Eu não sou nenhum tolo, garoto.
Por mais que ela se ofendesse com isso, Mario estava certo; se ele não machucasse Derek, ela não podia recorrer aos seus poderes para lutar contra ele. O medo invadiu suas entranhas.
— Vá embora! — Kylie insistiu e, logo em seguida, viu os espíritos se aglomerando atrás dos portões, seus murmúrios cheios de preocupação por ela.
— Não sem você — Mario exigiu, mas sua confiança pareceu ligeiramente abalada quando ele olhou na direção dos portões do cemitério.
Será que ele podia sentir os espíritos, também? Ele deu um passo para chegar mais perto dela. Ou seria apenas para se distanciar um pouco mais do portão do cemitério?
Ela deu um passo para trás. Pelo canto do olho, viu Derek pegar uma grande pedra a seus pés.
Ela sabia que seu plano era deixar Mario furioso a ponto de se transformar numa ameaça para ele e ela poder proteger a ambos, mas Kylie não tinha certeza se esse plano daria certo. A indecisão encheu seu peito, pois não sabia se deveria impedi-lo ou não. Porque o plano de Derek podia ser a sua única chance, gostasse dele ou não.
Mario, concentrado nela, não viu a pedra sendo atirada. Ela bateu em sua têmpora com um baque.
Mas Kylie sabia que viria um contra-ataque. E ela deveria estar pronta para enfrentá-lo.
A tensão engrossou o ar em torno deles, enquanto os olhos do marginal brilhavam num tom verde-limão e o sangue vermelho jorrava da sua testa. Um rosnado baixo serpenteou pelos lábios do homem quando ele olhou para Derek.
Kylie sentiu a força começar a se acumular nos seus músculos, mas aquilo não era nada em comparação ao que deveria sentir para despertar seu verdadeiro poder.
— Venha me pegar, seu covarde! — Derek provocou.
Mario limpou o sangue da testa e a fúria em seus olhos se desvaneceu.
— Você não me interessa.
— E quanto a mim, seu vampiro filho da mãe? — Lucas apareceu do nada, avançou de trás das árvores e empurrou o velho, fazendo-o cair.
Kylie não teve tempo para pensar na sua devastação emocional. Derek, obviamente vendo uma oportunidade, atacou com tudo. Kylie o acompanhou, agora com força total. Mas sua força e sua velocidade não eram nada comparadas às de Mario. Ela não tinha chegado ao tumulto de punhos atacando, quando viu Mario livrando-se primeiro de Lucas e depois de Derek. Seus corpos voaram no ar como bonecas de trapo. Com a respiração presa na garganta diante daquela visão, Kylie deu um salto e agarrou os dois garotos no ar. Depois de apenas uma fração de segundo, deixou os dois no chão para em seguida investir contra o agressor.
Provando mais uma vez suas habilidades, Mario deu um salto antes que ela o alcançasse, se desviado do seu ataque. Ela se deteve, assustada, e olhou em volta. Ele estava a vários metros de distância, observando-a como se ela não passasse de um entretenimento.
Mario estava brincando com ela. E Kylie não sabia como virar o jogo.
Agarrando o próprio punho com tanta força que chegou a machucar a mão, ela se forçou a aceitar que não era páreo para o malfeitor. Ele podia ser velho, mas, obviamente, ainda era ágil e rápido. Ele olhou para ela e sorriu, em seguida, com os olhos sedentos para ver mais, ele estendeu a mão em direção a Lucas.
— Até onde você vai para salvá-los?
Kylie viu uma bola de fogo surgir nos dedos dele. Ela correu e se colocou entre a bola de fogo e Lucas. Então arrebatou a bola de chamas e atirou-a de volta, na direção de Mario. Ele conseguiu desviar, e em seguida jogou mais duas. Kylie pegou uma delas e a outra passou raspando por ela. Ela olhou por cima do ombro e viu a outra bola de fogo derrubar Lucas. O gosto de fúria, amargo e salgado, espalhou-se pela língua dela. Apesar do seu estado emocional com relação a Lucas, seu coração pedia que fosse até ele e se assegurasse de que o ex-namorado não tinha se ferido gravemente. Mas a necessidade de deter Mario fez com que ela o encarasse novamente.
— Você vai morrer para salvá-lo? — Um sorriso encheu seus olhos acinzentados pela idade. — Qual deles vai salvar primeiro? — Mario analisou a expressão dela como se se divertisse, definitivamente sem nenhum medo e, aparentemente, tão ocupado em atormentá-la que não percebeu Derek se aproximando dele novamente. E nem Kylie, ou ela o teria impedido. Ela o deteria antes que alguém morresse.
No momento em que Derek atacou Mario, o homem estendeu a mão na direção dele e apertou os dedos retorcidos em torno do pescoço do rapaz. Kylie avançou, cega em sua fúria, em sua necessidade de vingança. Fechando uma mão em torno da garganta de Mario, ela usou a outra para arrancar as mãos do velho do pescoço de Derek. No segundo em que ela o sentiu se libertando, usou ambas as mãos para apertar a garganta do malfeitor.
— Solte-o! — A voz ecoou no ouvido dela ao mesmo tempo, em que o frio fantasmagórico deslizou pela sua espinha. — Pare!
Kylie ignorou o espírito. Aquela não era hora de parar.
Ela ouviu Derek lutando para respirar. Agora era Mario que não podia respirar. Ela sentia os tendões rígidos sob seu aperto. Seu objetivo era simples. Detê-lo. Pará-lo agora e para sempre. Tudo o que tinha a fazer era apertar um pouco mais.
Ela iria esmagar a traqueia dele com um pouco mais de força.
Iria mandá-lo para o inferno, o lugar a que ele pertencia.
Seus pensamentos voaram para Ellie, que Mario tinha levado deste mundo ainda tão jovem. Ela pensou no neto desse homem, que tinha morrido sabendo que seu próprio sangue causara sua morte.
Mario merecia essa morte.
Um pensamento passou pela sua mente. Matar não era fácil. Nem quando era a coisa certa a fazer.
— Largue-o! — o espírito gritou. — Você está cega. Nada é como você vê!
Ela enxergava muito bem, obrigada! Apertou mais o pescoço do velho, tentando convencer a si mesma de que precisava terminar o que havia começado. O som áspero de Derek tentando insuflar ar nos pulmões ecoou atrás dela. O braço de Mario se agitou dos lados, tentando encontrar algo a que se segurar. Tentando se agarrar à vida.
Ela ouviu Derek gritar seu nome, a voz rouca, mas ela o ignorou. Ignorava tudo que não fosse o fato de que estava prestes a tirar uma vida.
De repente, uma sensação de mal-estar invadiu seu estômago, como se algo estivesse terrivelmente errado. E foi aí que ela viu Mario. Parado vários metros atrás e sorrindo. Conteve o fôlego e seu olhar se desviou para o rosto da pessoa que ela estava matando.
Lucas!
A risada de Mario ecoou ao redor dela.
O pânico atravessou Kylie como uma dor lancinante. Ela afrouxou o aperto em torno do pescoço do lobisomem. Ele desabou no chão como um saco de batata, mas Kylie não tirou os olhos de Mario.
Lucas se moveu aos pés dela. Lágrimas encheram seus olhos quando ela percebeu quanto estivera perto de tirar a vida de alguém que amava.
— Eu deveria matá-la agora — disse Mario —, mas é muito mais divertido vê-la sofrer.
Kylie inspirou o ar, estremecendo ao senti-lo entrar em seus pulmões.
— Ah, ele está vivo, mas por quanto tempo? — perguntou Mario, o tom de voz expressando a emoção que sentia com a dor que causava em Kylie.
A maldade do homem parecia contaminar o ambiente. Ela não fazia ideia de como Mario tinha trocado de lugar com Lucas, mas o que importava era impedi-lo de fazer coisas piores. E se ela não conseguisse pensar em algo rápido, ele iria derrotá-la. E ela não iria ser derrotada sozinha.
O sangue de Kylie correu mais rápido, o ar que respirava parecia saturado de gás carbônico pelas emoções violentas que a invadiam como um vírus. Então o medo, como um líquido tentando afogá-la, brotou em seu peito.
Seu coração se enfureceu com horror ao pensar que essa era uma batalha perdida. Por um segundo, ela aceitou a derrota e lamentou. Não chorou por sua vida, mas pela de Derek e de Lucas.
Eles tinham vindo salvá-la e, agora, morreriam por causa da sua lealdade. E, em seguida, outros viriam. Mario não iria parar.
A voz pareceu vir com o vento. Você não está sozinha. Peça e lhe será concedido.
Os anjos da morte estariam ali? Ela se concentrou em Mario, mas rezou pedindo ajuda. Orações sem fé, seu coração parecia sussurrar. A dúvida a corroía e ecoou em sua alma. Se os anjos da morte iriam ajudá-la, eles já não deviam estar lá? Por que ela se sentia tão só, tão desprotegida? Por que eles não ofereceram ajuda antes de ela quase matar um dos seus?
Num lampejo, ela se lembrou das garotas mortas no portão, e algo que Holiday lhe dissera uma vez surgiu em sua mente como um pensamento que ela precisava captar. Às vezes eu acho que todos os mortos são meus anjos da morte.
Kylie deu um suspiro de esperança. Ajudem-me. O apelo ecoou em sua mente. Sejam meus anjos da morte.
Um ranger alto, de gelar os ossos, ecoou no escuro. Os portões começaram a se abrir. O barulho do metal enferrujado sendo forçado retiniu nos seus ouvidos. Então os mortos começaram a sair por ali às centenas. Homens, mulheres, jovens, velhos, todos vinham correndo, com as mãos estendidas. Os olhos fantasmagóricos. Mas suas expressões não imploravam ajuda; elas a ofereciam.
A sensação gelada da sua presença queimava a pele de Kylie. O ar em seus pulmões parecia muito frio para respirar. Mas mesmo em sua dor, ela viu que não estava sozinha. E isso lhe deu esperança. Sentimento a que ela se agarrou.
O rosto de Mario, velho e enrugado, contorceu-se de angústia. Dor, talvez o mesmo frio que ela sentia em seu corpo, se refletiu em seus olhos cinzentos. Ele atirou a cabeça para trás e rugiu. Vapor subiu de sua boca e dançou sobre seus lábios. Ele prendeu a respiração e saltou para trás alguns metros.
Como se a distância lhe oferecesse um certo alívio, seu olhar se voltou para ela.
Kylie apertou os olhos e viu o padrão do malfeitor. Mario era certamente um camaleão. Curiosamente, com a visão um pouco fora de foco, ela sentiu algo levemente diferente com relação a ele. Familiar, mas de um jeito diferente. O pensamento pareceu importante, mas como uma nuvem de tempestade que prometia voltar, ele se desvaneceu.
— Você pode ter vencido desta vez, mas o meu momento se aproxima — ele disse com aspereza. — Você vai vir até mim, Kylie Galen, vai vir até mim disposta a morrer, a sofrer em minhas mãos, para minha alegria, porque o preço será muito alto! Sua fraqueza será sua ruína.
Minha fraqueza? Que fraqueza?, Kylie se perguntou. Mas com a mente cheia de dor e esperança ao mesmo tempo, a pergunta não foi formulada e permaneceu sem resposta.
Em vez disso, ela se concentrou na esperança. Esperança de ter poupado a vida de Lucas e Derek. E em algum lugar no fundo de sua alma, ela queria que sua vida fosse poupada, também.
Os espíritos ainda aglomerados avançaram contra Mario mais uma vez. De maneira determinada. A intenção deles de protegê-la mostrava-se em seus rostos preocupados e lívidos. Holiday tinha razão. Todos os espíritos eram de alguma forma anjos da morte, visto que os anjos da morte eram espíritos de seres sobrenaturais. Espíritos que, embora conhecidos por proteger os inocentes, eram em sua maioria temidos pelo julgamento severo que faziam dos que abusavam dos seus poderes. Um rápido olhar para os portões do cemitério e Kylie viu ainda mais fantasmas saindo dali aos tropeços. Alguns moviam-se a um passo lento e incerto, como se tivessem acabado de acordar de um sono profundo.
— Obrigada — Kylie conseguiu dizer, muito embora seus dentes batessem e o frio da presença de tantos mortos tornasse difícil estar viva.
Quando os espíritos se reagruparam em torno de Mario, ele rugiu novamente e o som de sua decepção e agonia foi a última coisa que Kylie ouviu antes do tremor que sacudia todo o seu corpo tornar-se excessivo. Sua visão ficou turva, gelo revestiu seus lábios, e ela se sentiu puxada numa espiral sombria em direção ao nada.

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