4 de outubro de 2016

Capítulo 7

Derek correu os dedos pelo cabelo, como se estivesse nervoso. Os fios pareciam mais compridos do que na época em que ele se afastara do acampamento. E mais macios. Kylie se lembrou de que os tinha escovado uma vez e desejou fazer isso novamente. Como ela queria apertar o botão “retroceder” e fazer as coisas voltarem a ser como antes! Quando tudo entre eles era tão bom... Mas a vida não tinha um botão de retroceder.
— Oi. — Ele enfiou as mãos nos bolsos das calças jeans.
— Oi. — O coração dela bateu mais rápido e se apertou um pouco mais ao vê-lo. Ela tentou não reparar em coisas como os músculos dos braços dele ou a camiseta delineando o peito largo. Respirou fundo.
Embora tivesse parado de chover, o cheiro de chuva ainda impregnava suas roupas e seu cabelo. E ainda perfumava o ar. Mas não escondia o aroma que, ela reconheceu, vinha de Derek.
Ela sentiu o telefone na mão e olhou para ele.
— Desculpe não ter retornado a ligação hoje cedo — disse ele, pensando que era por isso que ela estava ali. — Desliguei o celular quando estava no hospital com Brit.
Ela assentiu com a cabeça, sem ter muita certeza se devia acreditar nele, e sentiu a emoção subir à sua garganta. Suas narinas arderam. Mas ela não ia chorar. Pelo menos não agora. Pelo menos não ali.
— Aonde você foi quando deixou Shadow Falls? — perguntou ela.
— Só fui fazer um trabalho para Burnett. — Ele hesitou. — E eu nem devia estar falando sobre isso.
Aquilo doeu. Ela sabia que ele provavelmente estava dizendo a verdade, mas houvera um tempo em que eles não tinham segredos um para o outro.
Seu olhar encontrou o dela e Kylie pôde ver as raias douradas nas íris verdes. Ela viu a emoção ali. Mágoa, ciúme, decepção, raiva. Percebeu, de repente, que tudo o que ele sentia era o que ela também estava sentindo.
Por uma fração de segundo, disse a si mesma que ele não tinha o direito de sentir essas coisas. Mas ela nunca fora uma grande mentirosa, nem mesmo quando mentia para si mesma. Lucas a beijara. Ela tinha sentimentos por ele; embora fossem sentimentos confusos, não deixava de sentir alguma coisa. Como podia estar tão furiosa com Derek agora e não aceitar que ele tinha direito de estar com raiva?
Ela piscou e o clima ficou ainda mais desconfortável à medida que o silêncio se prolongava.
— Eu vim aqui para te perguntar uma coisa... — Ela levantou o telefone e, em seguida, deixou o braço cair novamente ao lado do corpo. — Mas de repente percebi que você não me deve nenhuma explicação. Sinto muito, eu... — Incapaz de acabar de falar, ela se virou para ir embora.
Ele a segurou pelo braço. Assim que seu toque aqueceu a pele dela, ele afastou a mão. E isso doeu também. Será que tocá-la era tão desagradável que o fazia se retrair?
— Me perguntar o quê? — Ele franziu a testa. — O que te deixou tão chateada?
— Não é nada. Está tudo bem. — Ela começou a avançar novamente.
— Que droga, Kylie! — Ele saltou na frente dela, bloqueando o caminho. — Não minta pra mim. Eu sinto o que você sente, lembra? Sinto tudo que você sente multiplicado por dez. Você está muito chateada com alguma coisa. Veio aqui pra me dizer algo, então diga.
Ela hesitou e depois ligou o telefone de Della.
Ele a observou.
— O que você está...
— Você vai ver. — Ela encontrou a imagem e estendeu o celular para que ele visse.
A expressão dele, diante da imagem, passou da raiva para... algo diferente.
— Droga... — Ele correu a palma da mão pelo rosto.
— Está tudo bem — disse Kylie. — Eu sei que você não me deve nenhuma explicação. Sério, eu surtei. — Ela tentou se afastar, mas ele agarrou o braço dela novamente. Dessa vez sua mão permaneceu ali alguns segundos antes de soltá-la.
— Por favor, não vai embora — pediu ele. — Esta é Ellie. Eu contei a você sobre ela quando nos conhecemos. A gente namorou por um tempo. Nos encontramos por acaso quando eu estava fazendo esse trabalho para Burnett. Ela estava... Ela só estava feliz por encontrar alguém que conhecia.
— É, ela parece mesmo bem feliz... — disse Kylie, sem conseguir conter as palavras, e havia uma ponta de sarcasmo nelas.
— Não foi tudo isso — disse ele, mas não conseguiu esconder a culpa que brilhava em seus olhos.
— Você não precisa me explicar — disse Kylie, de repente percebendo como era injusto confrontá-lo por causa daquele beijo. A última coisa que ela queria agora era que ele a confrontasse por causa de Lucas. Ela fechou o telefone e o colocou no bolso. — Você não tem que...
— Não, eu tenho que explicar — Derek insistiu, interrompendo-a. Ele tomou fôlego e hesitou antes de começar novamente. — Olha, eu ia te contar de qualquer maneira.
— Não, você não ia — disse ela, achando impossível acreditar. — Não que eu te culpe por isso. A gente não estava realmente saindo. Você não tem que me dizer nada.
— Eu ia te dizer. Não tenho escolha.
Ela o observou, sem ter certeza do que ele queria dizer, e ela viu mais culpa em seus olhos.
— Escuta — disse ele. — Ellie está aqui. Eu a trouxe de volta ao acampamento.
O relâmpago que caíra na frente de Kylie alguns minutos antes a surpreendera menos do que a confissão de Derek. Ela ficou, porém, muito orgulhosa de si mesma ao ver que conseguia não demonstrar. Mas, como sempre, ela não precisava demonstrar... Ele podia muito bem captar as emoções dela, embora isso não a impedisse de fingir. E se ela fingisse por tempo suficiente, podia até mesmo começar a acreditar naquilo.
— Que ótimo! — Ela forçou um sorriso.
— Eu fui obrigado, Kylie. Ela tinha fugido de casa e ido morar numa comunidade que era um verdadeiro inferno. Ela precisava de ajuda.
— Estou feliz por você tê-la ajudado! — ela disse.
— Meu Deus, Kylie! Chega de fingir desse jeito, como se eu não soubesse o que você está sentindo! Sou eu, droga!
— Então pare de sentir o que eu sinto! — A garganta de Kylie se fechou instantaneamente. Lágrimas ameaçaram cair, mas ela as reprimiu.
— Bem que eu queria. Isso iria resolver todos os nossos problemas. Eu queria muito ser capaz de parar com isso! — Ele gesticulou com raiva.
— O que você quer dizer? — perguntou ela.
 Ele balançou a cabeça.
— Você ainda não entendeu, não é? Estar perto de você é como enfiar o dedo numa tomada. Eu não sei por quê. Não era assim no começo. Quer dizer, eu podia sentir você mais do que as outras pessoas, mas, neste último mês, isso aumentou mil vezes. Quando estou com você, é como ser bombardeado... Sobrecarregado de emoções. Eu não consigo pensar direito, não consigo raciocinar. E se o nome de Lucas vem à tona, eu posso sentir suas emoções com relação a ele e... — Ele inspirou outra golfada de ar. — Talvez o que eu sinta seja até mais do que aquilo que você está sentindo, mas... Eu simplesmente não consegui lidar com isso. E não é só Lucas. Se você ficasse chateada com o seu pai, eu sentia a sua dor e queria matar o desgraçado. Eu não aguentava mais!
Ela recuou, esperando que alguns centímetros de distância o ajudassem.
— Por que você não me contou?
— Eu contei... ou tentei contar. Você simplesmente não me ouviu. Ah, que inferno! Eu provavelmente não deixei claro porque eu mesmo não entendia. Ainda não entendo... Só sei que estar perto de você me enlouquece... — Ele passou os dedos pelo cabelo outra vez. — Eu esperava que, quando voltasse, isso teria mudado.
— Mas não mudou?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
— Você já perguntou a Holiday sobre isso? — A brisa agitava os cabelos molhados de Kylie e trazia com ela o cheiro de sol, como se a tempestade já tivesse passado. Seria bom se a tempestade dentro dela também tivesse.
— Não. Eu não quero...
— Pedir ajuda a ela? — Kylie concluiu para ele.
Um facho de luz solar apareceu sorrateiramente por trás de uma nuvem baixa e a levou a piscar.
— Não é só isso. Eu não quero que ela tente entrar na minha cabeça para decifrar as minhas emoções. Eu vi coisas na mente de outras pessoas que elas não queriam que eu visse. Prefiro manter o que tenho na cabeça em segredo. É como ver alguém nu. — Ele deu um meio sorriso.
Ela tentou responder com um sorriso, mas não conseguiu. Primeiro, porque isso significava que o orgulho era mais importante para ele do que tentar resolver o problema. E, segundo, porque ela não conseguia deixar de pensar em quantas dessas emoções a que ele se referia eram sobre ela e quantas eram sobre Ellie.
— Ellie e eu somos praticamente amigos, agora — disse Derek, obviamente captando o ciúme dela.
Praticamente? Ela se perguntou como definir “praticamente” amigos? O beijo devia ter acontecido num dos momentos em que não foram “praticamente” amigos. Então ela se lembrou do beijo de Lucas e se sentiu culpada por julgar Derek.
Ela o fitou novamente.
— Você não tem que explicar.
Ele a estudou, e que Deus a ajudasse, porque ela sabia que ele estava analisando as emoções dela. Captando seu ciúme, seguido pelo fio de culpa, e então o sentimento de estar sendo injusta com ele. E ele provavelmente também estava deduzindo o que tinha acontecido.
Ele franziu a testa e deu um passo para trás como se estar muito perto dela lhe causasse dor.
— Então, você e Lucas...?
A culpa que ela tentou reprimir de repente provocou um grande nó em seu peito. Ela procurou o jeito certo de responder, então decidiu imitá-lo.
— Praticamente amigos.
A mágoa cintilou nos olhos dele, e ela sabia que ele tinha entendido exatamente o que ela queria dizer. Embora não tivesse dito aquilo para feri-lo, ela tentou se explicar.
— Eu ainda estou tentando entender o que sinto — ela disse, esperando amenizar o golpe, porque ela sabia exatamente como ele se sentia.
Inconscientemente, eles haviam feito a mesma coisa um ao outro.
Ele balançou a cabeça e encontrou os olhos dela, com uma expressão agoniada.
— Isso está me matando...
A dor nos olhos dele refletia suas palavras e o nó no peito de Kylie se apertou ainda mais. As lágrimas que ela prometera não verter arderam em seus olhos de novo.
— A mim também. — Suas amígdalas pareciam ter inchado na garganta. — Tenho que ir. — Ela deu um passo para trás.
— Espere. Você não deveria ter uma sombra com você?
Por alguma razão, a pergunta dele a fez se lembrar do raio.
— Della está por perto.
— E ouvindo tudo... — Ele franziu a testa.
— Eu disse para ela não ouvir.
— Ah, claro. — O cinismo era evidente na voz dele.
Kylie deu outro passo para trás, mas a pergunta saiu antes que ela pudesse se conter.
— Por que você se ofereceu para ser minha sombra se acha tão difícil ficar perto de mim?
Ele esfregou o tênis na tábua de madeira da varanda.
— Porque a sua segurança é mais importante do que qualquer outra coisa. — Ele suspirou. — Mas talvez Burnett esteja certo. Estou envolvido demais. O fato de alguém querer ferir você me faz perder a cabeça... — Ele olhou para baixo e para ela novamente. — Além disso, você tem... outras pessoas que dizem sentir o mesmo. — O ciúme ecoou em sua voz.
Ela não sabia ao certo o que responder, então não disse nada.
— Você sabe que Brit, o investigador, não está por trás disso. Eu não sei como é que alguém chegou até ele.
Kylie se lembrou de Lucas acusando o detetive de fazer parte do complô.
— Eu não o culpo de nada. Sinto muito que tenha se ferido. Ele está bem mesmo?
Derek balançou a cabeça.
— Está.
— Ele se lembra de alguma coisa? — perguntou ela, esperando que tudo pudesse ser resolvido mais facilmente.
— Não. E isso é estranho. É quase como se ele tivesse a memória apagada. E não há muitas pessoas que podem fazer isso.
— Talvez só tenha batido a cabeça.
— É isso que o médico acha e que Burnett acredita, mas...
Ele passou outra vez a mão nos cabelos.
— Tenha cuidado, Kylie. Ouvi sobre o que aconteceu, sobre aquele cara, Mario e o neto. — Ele baixou o olhar. — Lamento não ter estado lá pra ajudar você...
— Você tinha que fazer o que Burnett mandou — disse ela, embora ela se lembrasse claramente de ter implorado para ele não ir embora.
— Estou falando sério sobre você ser cuidadosa. Acho que pode haver muito mais por trás disso do que parece.
— Como assim? — perguntou ela.
Ele balançou a cabeça.
— Não sei explicar. Só me lembro de que, quando estava lutando com aquele vampiro no parque selvagem, naquela noite, ele me pareceu diferente. De um jeito muito estranho.
— Eu tive a mesma sensação — confessou.
— Tenha cuidado. — Ele estendeu a mão como fosse tocá-la, e em seguida puxou-a de volta.
— Pode deixar.
Ela o viu enfiar as mãos nos bolsos. Seus olhares se encontraram novamente, e Kylie precisou se segurar para não insistir que ele fosse falar com Holiday e tentar resolver o problema com respeito à reação exagerada às emoções dela. Em vez disso, ela se afastou. Algo lhe dizia que essa era a coisa certa a fazer.
Mas alguém poderia, por favor, dizer a ela por que fazer a coisa certa machucava tanto?
No momento em que Kylie chegou ao limiar da floresta, começou a correr, como se quisesse fugir da dor intensa em seu peito. Em alguns segundos, Della estava ao seu lado.
— Você está bem? — Seus pés batiam no chão no ritmo das passadas de Kylie.
— Não. — Kylie respondeu, e abaixou-se para passar embaixo de um galho de árvore.
— Aonde vamos? — Della perguntou alguns minutos depois, quando Kylie começou a seguir na direção oposta à da cabana.
— Quero correr — disse Kylie.
— Ok. — Della continuou ao lado dela.
Elas correram muito. Quando Kylie avistou a cerca que delimitava a propriedade de Shadow Falls, parou e desabou no chão.
Abraçando as pernas com os braços, descansou a testa nos joelhos. Seus pulmões faziam um esforço extra para inspirar o ar de aroma amadeirado, que ainda carregava o cheiro de chuva.
Della, nem um pouco ofegante, sentou-se ao lado dela. Os sons da floresta as rodeavam – um pássaro agitado nas árvores, alguma criatura não identificada fuçando os arbustos não muito longe dali. Mas Kylie ouvia, sobretudo, seu próprio coração disparado, o som do sangue jorrando nos ouvidos.
— Seu coração ainda está batendo rápido — comentou Della.
— Eu sei. — Kylie manteve o rosto abaixado.
— Ele estava dizendo a verdade.
Kylie sabia que Della estava falando de Derek.
— Eu sei.
— Tentei não ouvir, mas foi impossível. Pensei em me afastar um pouco mais, mas não estaria cumprindo o meu papel de sombra.
Kylie levantou a cabeça. Seu olhar se voltou para a cerca e ela percebeu onde estavam. Um pouco depois do arame farpado estavam as pegadas de dinossauros. E o riacho, onde Lucas a tinha beijado. Ela ficou pensando nisso por um segundo, porque pensar em Derek a deixava deprimida.
Então ela olhou para Della.
— Você ouve minhas conversas particulares, mas não me conta nada sobre você.
— Contar o quê? — Della perguntou, intrigada.
Kylie levantou uma sobrancelha.
— O que aconteceu enquanto você estava na casa dos seus pais? Eu sei que estava mentindo. E Miranda também sabe.
— Ah, isso. — Ela puxou uma longa lâmina de grama do chão e começou a enrolá-la no dedo.
Kylie achou que Della não ia responder, mas então...
— Eu fui ver Lee.
Kylie suspeitava que Della não tinha deixado de gostar do ex-namorado. Não que a vampira tivesse admitido.
— E então...?
— Ele está praticamente noivo de outra garota. Seus pais estão pressionando para que ele oficialize o namoro. Eles gostam dela. — A mágoa na voz de Della assemelhava-se à dor que Kylie sentia com relação a Derek.
Kylie abraçou os joelhos.
— Eu lamento muito.
— Não lamente — disse Della. — É melhor assim. Ele nunca poderia aceitar que sou uma vampira.
— Isso não quer dizer que não te magoe. — E Kylie sabia disso por experiência própria.
Della hesitou.
— Ela tem sangue cem por cento oriental. Não é nissei como eu.
— Ele disse isso? — Kylie realmente não gostava desse cara.
— Não exatamente, mas disse que os pais o pressionaram para que saísse com ela. E eu sei que eles não gostam de mim porque sou mestiça.
— Você precisa seguir em frente — disse Kylie.
— Estou fazendo isso. — Della jogou a folha de grama de volta no chão.
Era mentira, mas não adiantava dizer isso a Della. Kylie recostou-se e olhou para as árvores. A chuva recente umedecia as suas roupas, mas ela não se importava. O frescor caía muito bem no calor do Texas. Uma gralha azul voou de um galho e pousou em outro. As emoções de Kylie pareciam estar fazendo o mesmo.
Ela estudou o pássaro, tão feliz, tão inocente e livre de problemas. Della lançou um suspiro alto, como se ainda estivesse pensando em Lee.
— Steve gosta de você — disse Kylie.
— Não gosta, não.
— Gosta, sim. — Kylie olhou para Della. — Eu o vi olhando para você hoje, quando estávamos no refeitório. Você devia dar uma chance a ele.
— Se ele gosta de mim, vai me procurar.
— Não estou dizendo pra você se atirar em cima dele. Basta ser simpática. Mais acessível.
— Eu sou acessível — disse Della.
Tão acessível quanto uma cascavel, pensou Kylie.
Della pegou outra folha de grama e depois se deitou no chão, ao lado de Kylie. Seus ombros quase se tocavam.
— Não é fácil.
— Pode acreditar — disse Kylie. — Eu sei.
Elas ficaram deitadas no chão úmido durante longos minutos sem falar. A luz do sol filtrada pelas árvores criava sombras douradas cintilantes em toda a floresta. Através das folhas, Kylie via o céu salpicado com nuvens carregadas de uma variedade de tons de cinza. Sua mente dava voltas e de alguma forma acabou parando em Derek.
— Eu não posso acreditar que ele trouxe Ellie com ele. — A ideia de ver Derek com Ellie deixava o peito de Kylie oprimido.
— É, isso vai ser difícil. Quero dizer, se eu tivesse que ver Lee com a namorada, eu ia acabar matando alguém.
— Não, você não faria isso. — Kylie sentou-se, tirando o cabelo do ombro, e removendo alguns galhos pendurados. — Você faria exatamente o que eu vou fazer.
— O quê? — Della se sentou.
— Fingir que não dói e esperar que um dia não doa mais.
— Nada disso. Prefiro matar alguém. — Della se levantou e limpou a parte de trás da calça, onde a grama molhada havia se agarrado. Então olhou para Kylie. — Isso significa que você vai dar uma chance real a Lucas?
Kylie se levantou e deu alguns tapinhas no próprio traseiro para tirar a maior parte da grama.
— Quem sabe. Isso, se for o que ele quer também.
— Se for? Você não ouviu como ele ficou irritado com Burnett com a história de servir de sombra pra você? Ele está super a fim. Quer dizer, eu sei que você está sofrendo por causa do Derek, mas ele não merece que você fique angustiada por causa dele. Você tem uma oportunidade com Lucas. Vá em frente.
Ela hesitou em dizer qualquer coisa, mas acabou não se contendo.
— Fredericka disse algo que fez parecer que a alcateia não quer que a gente fique junto.
— Não dê ouvidos a nada que aquela mocreia diz. Ela vai dizer qualquer coisa para separar você de Lucas.
Kylie concordou, sabendo que Della estava certa. Ou pelo menos esperava que estivesse.
O pássaro na árvore piou. Kylie olhou para cima e se perguntou se aquele seria um chamado de acasalamento. Será que as aves viviam a experiência do romance? Será que sofriam por causa de um coração partido? Ela tinha que admitir que ele parecia terrivelmente solitário na árvore. Quase tão solitário quanto ela.
— Vamos fazer um trato — disse Della. — Você dá uma chance a Lucas e eu dou uma chance a Steve.
Kylie sorriu.
— Está falando isso porque está preocupada comigo ou você apenas precisa de uma desculpa para ir atrás daquele metamorfo muito gato?
— Talvez sejam as duas coisas. — Della sorriu. — Temos um acordo?
Kylie refletiu e, mentalmente, parou de tentar se agarrar ao passado, consertar algo que parecia não ter conserto, e se abriu para novas possibilidades.
— Temos.
Della começou a andar, e Kylie deu um passo. Então o frio a envolveu. Ela se virou e viu o espírito de Jane Doe se materializar sob um raio de sol.
A mulher fixou os olhos em Kylie.
Você sabe?
— Sabe o quê? — Kylie perguntou.
Della se virou.
— O quê? — Ela olhou para Kylie por um segundo e então murmurou: — Ah, meu Deus! De novo não. — Ela recuou. — Eu não estou com medo. Não estou. Sério, eu não estou.
Kylie ergueu a mão para silenciar Della e olhou para o espírito quando ela se aproximou.
Você sabe o que eu sou? — Jane falou num tom abafado que parecia se esgueirar entre as árvores. A gralha azul na árvore piou muito alto.
— Não — disse Kylie. — Não sei.
Então o pássaro soltou um piado estranho e caiu, sem vida, aos pés do espírito.

3 comentários:

  1. Para, Derek... é sério, meu! Tô shippando eles dois... mas tenho um apego com o Lucas... omg!
    Mano! O que a espírita é?!

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  2. Fernanda: A filha de Hades25 de novembro de 2016 16:04

    Filha de Hades!!!kkkkk

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