14 de outubro de 2016

Capítulo 6

Outros passos ecoaram na escuridão, vindos de trás.
— Sou eu — disse uma voz feminina, vários metros atrás de onde Kylie e Derek estavam, invisíveis e silenciosos.
Kylie reconheceu a voz aguda de Jenny antes que ela aparecesse das sombras. A menina, obviamente, os seguira para se certificar de que tinham conseguido fugir. Kylie se sentiu um pouco culpada por duvidar da garota a princípio.
— Jenny Beth? O que você está fazendo andando pela floresta esta hora da noite?
Derek apertou a mão dela e Kylie só poderia deduzir que ele estava preocupado com Jenny. Mas seus instintos lhe diziam que Jenny era capaz de lidar com isso. Kylie quase disse isso a Derek, mas se lembrou de que o outro guarda poderia ouvi-la.
Jenny se aproximou mais alguns centímetros.
— Eu não conseguia dormir. Saí para uma caminhada rápida e, então... vi alguém.
— Viu quem?
— Não sei, não parecia ninguém conhecido. Cabelos castanho-claros, mais ou menos 1,80 m. Porte médio. Jovem. E quando a luz da lua o iluminou, me pareceu que tinha olhos claros.
Kylie mordeu o lábio. Por que Jenny estava descrevendo Derek?
Kylie apertou a mão de Derek um pouco mais, fazendo silenciosamente a mesma pergunta.
O outro camaleão materializou-se ao lado do parceiro.
— Parece um dos guardas que a UPF trouxe. Aquele que nocauteou a gente. Eu adoraria dar uma bela facada nele.
A tensão percorreu a mão de Derek e chegou ao braço de Kylie. A necessidade de protegê-lo despertou em seu peito.
O guarda desviou os olhos para Jenny.
— Por que você ficou aqui fora com um estranho solto por aí? — perguntou o homem.
— Eu não fiquei. Quero dizer, é por isso que eu vim por este caminho. Ele estava entre eu e a minha casa quando o vi. Caminhava em direção à parte norte da propriedade. Eu estava indo para casa do senhor Summers para denunciá-lo.
— Eu sabia que isso não ia acabar bem... — o guarda falou com rispidez. Ele então puxou um celular do bolso e discou. O outro guarda se aproximou de Jenny.
— Eu vou levá-la para casa.
— Acho que posso fazer isso sozinha.
— Não com estranhos andando por aí.
Kylie viu Jenny voltar os olhos em direção a ela e Derek, quase como se soubesse onde estavam. E, ao olhar, ela parecia enviar uma mensagem silenciosa dizendo que eles deveriam correr assim que ela tirasse aqueles sujeitos dali.
Foi uma mensagem que Kylie não precisou receber duas vezes.
O guarda com o celular estava falando com alguém sobre ter encontrado Jenny.
— Ela disse que o sujeito estava indo para o norte. — Ele fez uma pausa. — Estamos indo pra lá. — Ele desligou e olhou para o outro guarda. — Leve a garota de volta para casa e se encontre comigo no extremo norte para procurarmos aquele cara. Recebi ordens para soar o alarme caso a gente não o encontre rápido.
— Soar o alarme duas vezes em 24 horas, eu acho que é um recorde! — o outro declarou, contrariado.
O silêncio reinou em meio à escuridão.
— É, isso é o que acontece quando começamos a trazer estranhos para cá. Protetora ou não, eu sabia que essa garota ia complicar a nossa vida. E acho que eles, os anciãos, querem que ela continue aqui.
O coração de Kylie teve um sobressalto ao ouvir aquilo. Não que ela não tivesse acreditado em Jenny, mas é que ouvir isso da boca dos guardas tornou a coisa mais verdadeira. E doeu mais ainda.
O toque de Derek ficou mais quente e Kylie soube que ele estava tentando confortá-la.
Um dos guardas se aproximou de onde ela sabia que Derek estava. Derek fez um movimento, obviamente assustado ao pensar que alguém poderia ocupar o mesmo espaço que ele, agora que estava invisível.
O guarda olhou em volta como se quase suspeitasse de que não estava sozinho.
— Você não acha que um de nós deveria verificar se a garota ainda está na casa do avô?
— É, acho que sim — respondeu o outro guarda.
Kylie se deu conta de que, tão logo descobrissem que ela não estava com o avô, seria mais difícil fugir dali.
Os guardas e Jenny se afastaram. Kylie esperou até que estivessem fora do alcance de sua voz. Ela estava prestes a falar quando ouviu outros passos ecoando perto deles. Será que um dos guardas tinha ficado invisível e voltado? Ou seria outra pessoa?
Kylie apertou a mão de Derek, na esperança de alertá-lo com relação ao recém-chegado. Derek apertou a mão dela também, como se tivesse entendido.
Os passos pararam a poucos metros dela. Kylie tentou controlar a respiração, rezando para que o seu suspiro ou a respiração de Derek não os denunciasse.
Vários minutos se passaram. Finalmente, quem quer que perambulasse por ali, soltou um suspiro frustrado e começou a se afastar. O barulho de galhos se quebrando encheu o ar enquanto ele ia se afastando. A vontade de chamar o nome do avô era forte, pois a cadência dos passos e o longo suspiro lhe pareceram familiares. Mas como ela podia ter certeza? Talvez fosse apenas uma ilusão. Ilusão de que ele tinha dado pela falta dela e ficado tão preocupado que viera procurá-la. Ilusão de que ele não sabia o que os outros camaleões estavam fazendo. Mas uma ilusão poderia enterrá-los até as orelhas em problemas. Então ela ficou congelada no local e esperou. Tão logo os passos se dissiparam entre as sombras das árvores, Kylie disse a Derek:
— Temos que sair daqui rápido.
— Pode crer — concordou ele.
— Eu vou largar a sua mão e acho que você vai ficar visível de novo.
— Você acha? — Derek perguntou, e havia mesmo um leve toque de medo em sua voz. — Ah, merda! Não me diga que você nunca fez isso antes.
— Na verdade, não — Kylie confessou.
— Ok, vamos torcer para que dê certo. — Ele soltou a mão dela. Kylie fechou os olhos e desejou ficar visível. Um ou dois segundos se passaram e ela abriu os olhos. Quando não conseguiu ver Derek, seu coração bateu forte e o medo oprimiu o seu peito.
— Derek? — ela sussurrou. As lágrimas encheram seus olhos. Ah, droga, será que ela tinha provocado uma desgraça?
— Estou bem atrás de você — ele disse.
Kylie deu meia-volta e soltou um suspiro quando o viu.
— Está pronta? — ele perguntou e sorriu, como se tivesse captado os sentimentos dela e gostado de ver que Kylie estava apavorada com a ideia de perdê-lo. Porque, era preciso admitir, isso significava que ela gostava dele, certo?
Não que isso fosse uma surpresa. Ela nunca tinha deixado de gostar dele. Ela apenas não sabia se gostava da mesma forma que antes.
— Pronta — disse ela. — Temos que nos apressar. — E eles fizeram exatamente isso.
Correram, lado a lado. No entanto, ela nunca o pressionava a correr mais do que ele podia.
Quando chegaram à cerca de um metro e meio, Kylie pegou a mão dele, pronta para ajudá-lo se necessário. Ele não pareceu ofendido. Pelo contrário, sorriu e apertou a palma da mão contra a dela.
O sorriso, e o contentamento que transpareceu em seus olhos, lembrou-a de que ele tinha tentado beijá-la e isso só aumentou a ansiedade dela.
Mas não seria muito cedo, depois de sofrer tamanha decepção com Lucas? Ou seria tarde demais para ela e Derek?
Percebendo que não era hora para esse tipo de reflexão, ela começou a correr mais rápido. Segurando firme a mão de Derek, eles pularam a cerca.
E aterrissaram com um baque do outro lado. Derek segurou-a pela cintura. Sua respiração pesada fazia seu peito subir e descer sob a camiseta escura, assim como a dela. Seus olhares se encontraram por um segundo, uma cena que parecia saída de um filme romântico. Do tipo em que uma música suave começa a tocar ao fundo. Do tipo que termina com um beijo ardente. Ela se afastou dele.
— Temos que ir.
A decepção brilhou nos olhos de Derek, mas desapareceu num piscar de olhos. Ela sabia que ele tinha lido suas emoções. Provavelmente sentira sua confusão. E sendo quem era, ele não iria pressioná-la, ou pelo menos não muito. Pensando bem, tentar roubar um beijo já tinha sido uma grande ousadia.
Será que esse era um novo Derek?
Será que ela teria que ser um pouco mais cuidadosa?
Derek pegou a mala da mão dela e eles começaram a correr novamente. Uma fuga de seus novos problemas, mas uma volta aos antigos.
Eles já tinham percorrido alguns quilômetros quando Kylie diminuiu o ritmo e parou. Olhou ao redor. Eles estavam à beira de uma estrada e, embora tivesse perdido o rumo, sabia que estavam a pouco menos de dez quilômetros de Shadow Falls.
Ao longe, um pássaro chamava o companheiro. Sons de insetos vibravam no ar da noite. O cheiro de mato os envolvia. O perigo iminente devia ter passado. Eles já estavam bem longe do complexo, os guardas não deveriam ir tão longe. Mas uma leve sensação na boca do estômago lhe dizia para não ter tanta certeza.
— Preciso ligar para Burnett — disse Derek.
— Tem razão. — O sinal de perigo em seu estômago diminuiu quando ela pensou em como iria explicar tudo aquilo para o severo vampiro. A frustração crescia dentro dela. Burnett ficaria furioso e acharia que seu avô tinha mentido o tempo todo. E, sim, Kylie admitia que parecia aquilo mesmo, mas ela não podia acreditar. Ela não iria parar de acreditar no avô sem antes falar com ele, sem que o olhasse nos olhos e ele negasse tudo aquilo. Talvez ela não o conhecesse há muito tempo, mas, por alguma razão, sentia que o conhecia. Conhecia bem o suficiente para acreditar que, se ele tivesse feito aquilo, não iria negar. Ele admitiria os próprios erros, talvez afirmasse que tinha suas razões, mas não iria mentir.
Mais uma vez, ela se perguntou se seria ele que estava perambulando pela floresta, antes de eles começarem a correr. A dor no peito, que ela já sabia ser pela falta que sentiria do avô, oprimiu seu coração.
— Ei... Você está bem? — Derek perguntou, passando a mão pelo braço dela.
— Eu vou ficar — disse Kylie, e ela tinha que acreditar nisso.
— Então... você não quer que eu ligue para Burnett? — Derek largou a mala e tirou o telefone do bolso, mas hesitou em discar, esperando a permissão dela.
— Sim, é melhor ligar pra ele — disse ela, aceitando que era a coisa certa a fazer. Uma hora ela teria que enfrentar a desaprovação de Burnett com relação ao avô.
Derek apertou um botão e franziu a testa.
— Meu telefone está sem bateria. — Ele apertou mais algumas teclas. — Eu sei que o carreguei. Droga! — Ele deu um pulo e jogou o celular no chão. — Mas que merda é essa? Essa coisa me deu um choque! — ele reclamou.
Kylie observou que faíscas começaram a sair do telefone e, então, um zumbido veio do aparelho, seguido de fumaça.
— Eu não sabia que isso podia acontecer — disse Derek.
— Não é normal.
— E o telefone é novo — ele lamentou. — Minha mãe vai ter um ataque.
Lembrando-se de que alguns fantasmas podiam fazer coisas com telefones, Kylie ficou alerta, à espera de que algum fantasma aparecesse. Nenhum vento frio roçou sua pele.
Ela olhou ao redor, procurando... Não sabia o que esperava ver, mas algo lhe dizia que o telefone descarregado não era um acidente. Ela olhou de um lado para o outro, mas não conseguiu ver nada sob o manto da noite. A escuridão engolia tudo. A rua parecia abandonada. As luzes estavam apagadas, nem um lampejo de luz vinha das lâmpadas.
Havia algo estranho ali, mas o quê? Não parecia um fantasma.
— É melhor a gente correr.
Ele pegou o braço dela.
— O que foi?
— Eu não sei, mas não estou gostando...
— Então somos dois — disse Derek.
— Três — disse uma voz ao lado de Kylie.
Kylie virou-se e o espírito da mulher assassina estava ao lado dela.
— Foi você quem fez isso, não foi?
— Por que eu iria explodir meu próprio telefone?! — perguntou Derek.
— Não estou falando com você — Kylie respondeu, sem desviar os olhos do espírito.
— Não! Parei de explodir telefones há muitos anos. Encontrei maneiras muito melhores de anunciar a minha presença.
Kylie virou-se para Derek.
— Vamos dar o fora daqui. — Ele pegou a mala e eles começaram a correr.
— Não! Por aqui. — O espírito começou a correr em outra direção.
Parando, Kylie estendeu a mão e agarrou o braço de Derek, obrigando-o a estancar de repente.
O espírito se virou e olhou para Kylie.
— Por aqui. Vá para o cemitério. Você terá ajuda. Por alguma razão inexplicável todos os mortos lá gostam de você.
— Por que eu deveria confiar em você? — Kylie perguntou, e com o canto do olho, viu Derek franzindo a testa. Sem dúvida, vê-la manter uma conversa com um fantasma deveria ser inquietante.
Ele deveria algum dia tentar ver isso por si mesmo.
— Porque você quer continuar viva.
Kylie prendeu a respiração e olhou para Derek.
— Vamos seguir por aqui — disse a ele, rezando para que sua intuição estivesse certa e ela pudesse confiar no espírito. Rezando para que aquilo não fosse alguma armadilha para levá-la ao cemitério e dali para o inferno.
Eles correram. Correram muito. Mas Kylie sentia que algo os seguia enquanto corriam. Sentia isso dentro dela. Um sentimento que ela estava prestes a expressar.
Ela viu os portões da frente do cemitério. Seu coração batia contra o peito e, se ela já estava perdendo as forças, Derek certamente não poderia correr muito mais.
— Espere! — Derek parou e estendeu a mão para ela. — Por que... estamos... indo... para o cemitério? — ele perguntou com a respiração entrecortada.
— Eu tenho amigos lá — disse ela.
— Amigos mortos, suponho — disse ele, não parecendo muito feliz.
— Não vamos ser exigentes agora.
Ele lançou um olhar para os portões enferrujados.
— É melhor irmos para Shadow Falls. Estamos perto.
— Não vamos conseguir — disse Kylie, e algo dentro dela disse que estava certa. Algo dentro dela disse que a coisa que os seguia não estava brincando. Algo dentro dela dizia que era Mario.
Deus do céu, ela esperava estar errada!
Ela agarrou Derek pelo braço e começou a correr novamente. Infelizmente, não conseguiram chegar ao portão antes que o homem se fizesse visível.
Mario, o malfeitor superpoderoso que queria ver Kylie morta, estava a poucos passos deles. O mesmo sujeito que tinha machucado Helen, matado Ellie, matado o próprio neto, e não se importava em tirar a vida de qualquer inocente que cruzasse o seu caminho.
Os olhos escuros do homem brilharam com um lampejo de maldade. Sua pele parecia couro de tão envelhecida, e ele usava um manto escuro como se se considerasse uma espécie de realeza. Lembranças desse homem lançando raios na direção do próprio neto fizeram brotar um sentimento de fúria em Kylie, e sua natureza protetora entrou em ação com força total numa fração de segundo. Ela empurrou Derek pelo braço, para que ele ficasse atrás dela.

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