4 de outubro de 2016

Capítulo 6

Uma hora depois, Kylie andava em círculos pelo seu pequeno quarto, fazendo quase o mesmo trajeto que a mulher fantasma – a mesma que tinha desaparecido sem nem tentar responder à pergunta de Kylie. Mas antes que o espírito assustadiço desaparecesse, Kylie pôde notar a expressão de puro pânico em seu rosto.
Não que Kylie não compreendesse o fantasma.
Quantas vezes ela tinha ouvido a mesma maldita pergunta?
Quem é você? Ou melhor, o que é você, afinal? Francamente, ela não gostava de nenhuma das duas versões.
Mas alguma das duas perguntas lhe incutia pânico ou medo?
Frustração talvez, mas medo? Ok, talvez no início ela tivesse medo, mas só antes de aceitar a possibilidade de que não fosse de fato humana. Ela deveria pressupor que o espírito suspeitava que não fosse humano? Kylie recordou o olhar no rosto do espírito. Foi como se a pergunta indicasse um sinal de perigo ou despertasse alguma lembrança esquecida. E uma lembrança nada agradável, aliás.
Um frio fantasmagórico pairou no ar, anunciando o retorno do fantasma, e Kylie se encolheu.
— Sinto muito — disse Kylie. — Sei que está confusa. Pode acreditar, eu sei como se sente. Há muito tempo estou tentando descobrir quem sou também. — O frio se esvaiu. Então, o fantasma não estava a fim de falar. Kylie compreendia isso também.
Ela quase correu até Holiday para perguntar por que o espírito não tinha um padrão cerebral. Então, como suspeitava que Holiday iria querer abordar todas as outras “questões” que precisavam ser discutidas, decidiu adiar as perguntas. E quando dizia “questões”, Kylie estava se referindo ao seu recém-adquirido dom de cura, sua capacidade de derrubar paredes de concreto e a possibilidade de ser uma protetora. Com a cura e as paredes, ela podia lidar. Mas e quanto a ser uma protetora/Madre Teresa? Não. Por um tempo ela podia evitar ter de lidar com aquilo.
E não é que ela estivesse adiando a solução dos seus problemas, como Holiday a acusara tantas vezes. Ela estava estabelecendo prioridades. Neste momento, sua prioridade era Derek e as suas atitudes contraditórias. Como ele podia querer ser sua sombra se há duas semanas não queria nem sequer olhar para ela? Será que os sentimentos dele por ela tinham mudado? Será que ela queria que tivessem mudado?
Ela pensou a respeito. Lembrou-se da intimidade que sentiam quando se esgueiravam furtivamente dos lugares e ele a beijava com paixão. Ela sentia falta de como ele fazia tudo parecer um conto de fadas. O que ela não daria agora para estar num conto de fadas e não ter de lidar com toda aquela confusão!
Mas será que isso significava que, se ele dissesse que estava arrependido, ela iria perdoá-lo? Depois de dar mais algumas voltas pelo quarto, chegou à conclusão de que seu coração estava muito confuso para saber o que queria.
Como que para analisar a questão mais profundamente ainda, ela teve uma lembrança instantânea de como se sentiu quando Lucas a beijou.
Não houve visões de conto de fadas, mas ela não podia negar que tinha sido bem impressionante.
Droga!
Ela se jogou na cama. Estava totalmente confusa! Então deu um soco bem dado no travesseiro e gritou com a boca enterrada nele.
Depois de respirar fundo, Kylie se afastou do travesseiro. Tinha que fazer alguma coisa. Mesmo que fosse a coisa errada. Depois de calçar o tênis, pegou a escova de cabelo. Escovou algumas vezes as mechas loiras, vestiu uma regata branca limpa e saiu do quarto.
Della se levantou do sofá.
— Olá!
— Olá! — Kylie continuou andando em direção à porta, sem querer explicar aonde ia, porque, se ouvisse ela mesma dizendo aquilo em voz alta, poderia pensar duas vezes. E ela não queria pensar duas vezes; na verdade não tinha pensado naquilo nem uma vez ainda. Mas tinha que fazer alguma coisa. Estava cansada de ficar naquele limbo!
— Aonde a senhorita vai? — Della perguntou.
— Sair. — Kylie estendeu a mão para a maçaneta. Em vez disso, no entanto, acabou pegando a cintura de Della, que tinha atravessado a sala numa fração de segundo e agora estava postada na frente dela, bloqueando a passagem.
— Pode me dar licença? — Kylie tentou não deixar seu estado de ânimo transparecer na voz.
Temperamental como era, Della não tinha paciência com o mau humor de mais ninguém. E iniciar uma discussão com ela naquele momento não estava nos planos de Kylie.
— Aonde nós vamos? — Della perguntou.
— Nós não vamos a lugar algum. Eu estou indo a um lugar.
— Eu vou também.
— Não vai, não.
— Ela vai, sim — insistiu Miranda, saindo do quarto. — Kylie Galen, apresento-lhe a sua primeira sombra: Della Tsang.
— Ao seu dispor! — disse Della, fazendo uma pequena reverência. Seu tom exalava sarcasmo.
— Ah, fala sério! — reclamou Kylie. — Não vou sair do acampamento. Vai ficar tudo bem.
Della franziu a testa.
— Você só sai desta cabana se eu for junto. — Ela pôs uma mão nos quadris, como que para enfatizar o que dizia.
Kylie suspirou e tentou se acalmar antes que seu sangue fervesse.
— Escute, eu preciso falar com Derek, ok? E vai me desculpar, mas não quero que você vá comigo. É um assunto particular.
A expressão zangada de Della desapareceu e algo que parecia cumplicidade a substituiu; então ela olhou para Miranda.
— Você ainda acha que é melhor não falar nada pra ela?
— Ah, que inferno! — Miranda se sentou no sofá. — Talvez você tenha razão. Mas não vamos apenas dizer a ela, temos que mostrar.
Kylie olhou para Miranda e se lembrou das amigas fazendo ar de mistério um pouco antes de Burnett entrar na cabana.
— Dizer o quê? O que vão me mostrar?
Della pegou o telefone do bolso do jeans e começou a teclar alguma coisa.
— Chan me mandou isso. Eu queria te contar logo de cara, mas Miranda disse que você tinha sido sequestrada e aquilo já era coisa demais para uma pessoa só.
— Chan te mandou o quê? — Kylie inclinou-se até quase encostar o nariz no da amiga vampira. A sua paciência já estava se esgotando.
— Calma aí! — Della deu um passo para trás. — Mais paciência. Você está agindo como se fosse Lua cheia de novo. — Ela estudou Kylie. — Mas não é, certo? — Então Della olhou para Miranda, que ainda estava estendida no sofá. — Já está na época de as lobas ficarem com TPM?
Kylie pensou na pergunta, quase com medo de que Della estivesse certa. Será que era por causa do ciclo lunar que ela se sentia tão estranha ou seria tudo culpa do que tinha acontecido nos últimos dias?
— Não. — Miranda se levantou do sofá e se aproximou. — Temos mais uma semana pela frente antes de ter que enfrentar a TPM lunar.
Kylie franziu a testa. Ela não tinha se transformado em loba na última Lua cheia, mas parecia que estava enfrentando as flutuações de humor típicas dos lobisomens antes da transformação. E, obviamente, as suas duas companheiras de quarto ainda consideravam a possibilidade de ela ser um deles. Mas Kylie não achava aquilo tão fora de propósito. Àquela altura, ela poderia virar qualquer coisa.
— É melhor alguém começar a falar — exigiu Kylie. — E rápido!
— Meu Senhor! — exclamou Della. — Eu estou tentando encontrar. Aqui está! — Ela olhou para Kylie. — Olha só, meu primo Chan me mandou algumas fotos e perguntou se esse por acaso era um dos nossos campistas. Você sabe que ele vive numa comunidade de vampiros na Pensilvânia, não é?
Ela estendeu o telefone e Kylie olhou para a imagem.
— É Derek. — Alguns segundos se passaram. — O que ele foi fazer na Pensilvânia? — Ela não sabia onde a UPF o enviara ou onde o meio fae tinha ido à procura do pai.
— Eu tenho uma pergunta melhor. — Della puxou o telefone, apertou outro botão e depois segurou-o mais no alto para Kylie ver. — O que Derek está fazendo se agarrando com uma vampira da Pensilvânia?
O coração de Kylie deu um salto quando viu Derek dando um beijo na boca de uma garota de cabelos castanhos. E não era só um beijo. A garota estava com as pernas entrelaçadas na cintura dele, enquanto as mãos dele sustentavam o peso da garota, espalmadas sobre o seu traseiro bem torneado.
Kylie sentiu uma dor no peito.
— Quem... Como... O que é...?
— Eu também perguntei quem ela era — Della disse. — Seu nome é Ellie Mason e é novata na comunidade de vampiros. Chan disse que alguém afirmou que Derek era de Shadow Falls e ele só queria ver se sua fonte estava dizendo a verdade.
Ellie? Kylie se lembrou de Derek lhe dizendo que ele tinha namorado uma vampira chamada Ellie. Ela também se lembrou de que ele tinha doado sangue a ela. Estranho como Kylie nem sabia que se lembrava disso, mas agora o episódio parecia aflorar na sua memória.
— Ellie. — A palavra ao deixar seus lábios causou uma dor forte e profunda em seu coração. E o coração devia realmente ser o centro das emoções, pois uma dezena delas começou a voejar ao redor do seu peito como pássaros selvagens atrás de um enxame de mariposas. Raiva, ciúme, deslealdade, suspeita... a lista era longa.
— Eu preciso disto. — Ela agarrou o celular de Della e tentou tirar a amiga do caminho. Não que seu esforço tenha dado muito resultado. Della não se moveu um centímetro.
— Desculpe. Mesmo assim não posso deixá-la ir sozinha — disse Della. — Sério, eu sou sua sombra.
— Tudo bem, então venha. É só não ficar no meu caminho! Fique longe. Bem longe. Eu preciso falar com ele sozinha. — Lágrimas ardiam nos olhos de Kylie.
Lágrimas de ciúme, frustração e decepção.
Lágrimas por saber que ela não tinha o direito de sentir nenhuma dessas emoções.
Ela não ia se permitir chorar. Mas ainda sentia as lágrimas se acumulando em seus olhos. Sentiu-as descerem pela sua garganta e queimarem seu peito.
Com o telefone apertado na mão, Kylie disparou pela floresta em direção à cabana de Derek, esperando que ele estivesse lá. Ela não tinha a menor ideia do que diria quando o visse. Não queria pensar, apenas chegar lá. Saltou sobre espinheiros, abaixou-se para não se chocar contra os galhos mais baixos e correu feito louca. Os passos de Della soavam atrás dela, cada vez mais perto – a amiga levava seu trabalho como sombra a sério.
A sério demais.
O baque dos pés de Kylie no chão de terra ecoava pela floresta e o cheiro de chuva pairava no ar. Uma tempestade de verão caía em algum lugar a distância, mas não tão longe, porque um trovão ribombou acima dela.
Depois de uma outra grande trovoada, o silêncio reinou. Um relâmpago enviou centelhas de luz prateada através das folhas até a terra úmida. Kylie continuou correndo, continuou sofrendo. Ela podia sentir no ar a tempestade, a energia, o poder que emanava dela. Mais um trovão ribombou no céu.
De repente, um som alto soou à sua direita e um grande cervo – um macho com chifres grandes o suficiente para decorar a parede de um caçador – surgiu por entre as árvores e parou no meio da trilha. Chocada, Kylie fez uma parada abrupta também. Poucos centímetros a mais e ela poderia ter sido empalada pelos chifres do animal. Ela mal tinha recuperado o fôlego quando um raio atingiu e derrubou uma velha árvore um pouco além de onde estava o cervo. O tronco ainda chiava quando Kylie sentiu Della colidir com ela.
— O que aconteceu? — exclamou Della.
O cervo jogou a cabeça para trás, arremetendo com os pesados chifres quase como se fizesse uma ameaça, e então disparou. Mas não antes de Kylie sentir o olhar frio e de alguma forma cruel do animal.
Os pelos de sua nuca se eriçaram. Aquele olhar calculista significava alguma coisa. Era como o olhar da águia, naquele mesmo dia mais cedo. Kylie encheu os pulmões de ar e esperou que o oxigênio clareasse sua mente e ela percebesse que estava errada.
Não queria acrescentar mais nada à sua lista de mistérios não revelados. Mas o ar nos pulmões não ajudou.
O solo ainda chiava e estalava enquanto centelhas minúsculas dançavam em volta do tronco atingido pelo raio. O cheiro de madeira queimada e da chuva que se aproximava pairava no ar. Kylie não tinha certeza se era sua imaginação ou não, mas sentia os calcanhares formigando com uma corrente de energia.
— Aquilo foi assustador! — murmurou Della.
— Tem razão.
— Nossa! O raio quase atingiu você!
— Mas não atingiu. — Kylie olhou para o telefone na mão e se lembrou de Derek.
— Nossa! — Della repetiu. — Se o cervo não tivesse aparecido...
 — Não importa. — E Kylie queria que realmente não fosse importante. Ela ouviu o barulho da chuva caindo sobre as folhas acima dela antes de sentir os pingos na sua pele. O dia tinha quase se transformado em noite. A tempestade havia chegado e combinava com seu humor. Ela apertou o telefone de Della na mão, protegendo-o da chuva, e disparou novamente pelo bosque.
Em poucos minutos, quase sem fôlego e molhada da chuva, Kylie irrompeu pela varanda da cabana de Derek, deixando Della para trás. O segundo passo varanda adentro lhe trouxe à tona uma lembrança. Ela tinha ido ali uma vez à procura dele e visto sangue no assoalho. Achou que ele tinha sido atacado e invadiu a cabana apenas para encontrá-lo... tomando banho.
Naquele dia, ela presenciara uma cena de encher os olhos e, depois que ele se vestiu, eles tinham se sentado no chão da varanda, encostados na parede da cabana, e conversado.
Trocaram experiências.
Riram.
Ela não se lembrava de um dia ter se sentido tão próxima de alguém. Como as coisas podiam ter mudado tão rapidamente entre eles?
Ela foi até a porta e bateu. A porta se abriu e Chris – o vampiro colega de dormitório de Derek – estava lá.
— Oi! — Ele arregalou os olhos e olhou para baixo. — Concurso da camiseta molhada? — ele brincou.
Kylie olhou para baixo, fazendo cair sobre os ombros as pesadas mechas de cabelo molhado. Sua blusa branca e o fino sutiã estavam totalmente transparentes. Ela franziu a testa e puxou o cabelo para cobrir os seios.
— Derek está aí?
— Está — disse ele. — Se ele vai atender à porta é outra coisa. Vive enfiado no quarto desde que voltou. — Ele olhou por cima do ombro e gritou: — Derek, visita!
Sem querer ficar ali sob os olhos cheios de malícia do rapaz, Kylie se afastou da porta e esperou nos degraus da varanda. Ainda tentando controlar o batimento cardíaco, ela descolou a blusa encharcada da pele e agitou o tecido, esperando que ele secasse mais rápido.
Em poucos minutos, passos conhecidos se aproximaram da porta. Ela se virou e olhou para Derek, reprimindo o impulso de correr e se jogar em seus braços.
Deu um passo na direção dele, então se conteve. Se ele a rejeitasse, iria doer demais.

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