8 de outubro de 2016

Capítulo 5

— Tudo bem? — A voz de Holiday despertou Kylie cerca de uma hora depois. Após tentar ligar para a mãe várias vezes e deixar uma série de mensagens, sua mente e seu coração fizeram uma pausa e ela foi para a cama tirar um cochilo.
Ela se virou e viu Holiday sentada na beirada da cama. Sentando-se também, Kylie bocejou e tirou os cabelos dos olhos.
— Estou melhor.
— A vida pode ser dura às vezes.
— Nem me diga. — Kylie se lembrou da ligação de Burnett. — Está tudo bem? Por que Burnett ligou?
Holiday olhou para ela com uma expressão vazia.
— Quem é Burnett?
O frio no quarto provocou arrepios nas costas de Kylie. Ela piscou e tentou focar melhor as feições da mulher. Não havia dúvida. Era Holiday.
Raiva, medo e frustração oprimiram o peito de Kylie.
— Ok, vamos deixar uma coisa bem clara. Quando eu disse pra você dar um jeito na sua cara, quis dizer para mostrar a sua própria, não para pegar o rosto de outra pessoa emprestado.
O espírito pressionou as palmas contra as próprias bochechas e seus olhos se arregalaram.
— Este não é o meu rosto?
— Não, não é! É o rosto de alguém de quem eu gosto muito, e, nada pessoal, mas eu não gosto de vê-lo em você.
— Eu estou tão confusa!
— Você está passando por uma crise de identidade — Kylie esclareceu, querendo muito acreditar nisso.
— Uma crise de identidade — o espírito repetiu.
— É, e você precisa descobrir quem você é e o que precisa que eu faça, porque do contrário não posso ajudá-la.
— É quase tudo um borrão. — Ela apertou os lábios da mesma maneira que Holiday fazia quando estava muito concentrada, e a semelhança entre as duas se tornou realmente assustadora. Até a cor verde dos olhos batia perfeitamente. — Talvez você esteja certa — disse o espírito. — Lembro-me de que sempre me senti como se vivesse na sombra de outra pessoa.
— Que bom! — disse Kylie. O alívio lhe permitiu respirar melhor.
— Bom que eu vivesse na sombra de outra pessoa? — O fantasma franziu a testa. — Eu não vejo isso como uma coisa boa.
— Não, eu... Quero dizer, é bom que você consiga se lembrar das coisas. — E nesse exato momento, Kylie se lembrou de algo também. Uma maneira rápida e fácil de ter certeza de que esse espírito não era Holiday Brandon. Kylie apertou os olhos e se concentrou na testa do fantasma.
O padrão extravagante, assim como o rosto, batia perfeitamente com o de Holiday. Kylie inflou o peito, preocupada.
— Você é fae?
O espírito cruzou as pernas, colocou o cotovelo sobre o joelho e apoiou o queixo na palma da mão. O gesto era tão característico de Holiday que o coração de Kylie quase parou.
— Sim, é isso que eu sou. — Ela apertou as sobrancelhas e olhou para Kylie. — Oh, Deus, o que você é?
Kylie hesitou.
— Eu sou um... camaleão.
O espírito fez uma careta.
— Você é um lagarto?
Kylie franziu a testa, mas sua preocupação não era consigo mesma.
— Você se lembra do seu nome? — Kylie prendeu a respiração.
O espírito olhou nos olhos de Kylie e sua testa se franziu em perplexidade. Então ela se levantou e andou até a janela do quarto. Olhou para fora em silêncio por alguns instantes, e finalmente se virou.
— Alguém está procurando você.
— Você se lembra do seu nome? — Kylie repetiu.
Jogando o cabelo ruivo por cima do ombro, o espírito fez um rabo de cavalo e enrolou os cabelos como se fossem uma corda. Exatamente da mesma forma que Kylie tinha visto Holiday fazer alguns minutos antes. O fantasma olhou para trás.
— Eles querem que você vá até eles.
O peito de Kylie se contraiu um pouco.
— Vamos falar sobre você agora — Kylie disse, tomando mentalmente a decisão de se concentrar em um problema de cada vez.
— Mas você é muito mais interessante. Existe todo esse mistério em torno de você. Um monte de perguntas a serem respondidas. Eu posso sentir suas emoções, você sabe. É isso o que fazem os faes. Nós sentimos o que as outras pessoas sentem.
— Eu sei — disse Kylie, frustrada e assustada com a identidade verdadeira do espírito, mas lutando contra a angústia para que pudesse descobrir mais sobre ele. Porque, se ela fosse Holiday, então talvez Kylie pudesse fazer alguma coisa, mudar alguma coisa para evitar que...
— Eu costumava tocar as pessoas e fazê-las se sentirem melhor, mas não consigo mais...
— Por que não consegue mais? — Kylie perguntou.
Ela franziu o cenho.
— Eu não sei muito bem. Acho que fiz alguma coisa ruim. — Os olhos verdes brilhantes do fantasma se encheram de lágrimas. — Eu feri pessoas.
Kylie sentiu a dor do espírito, seu remorso, mas não podia negar que estava sentindo um pouco de alívio com a confissão.
Holiday não faria nada errado. Ela tinha um coração muito bom. Preocupava-se demais com as pessoas.
— Talvez você não quisesse machucá-las — disse Kylie, querendo ajudar. Ela abraçou a si mesma para se proteger do frio que acompanhava o ser espiritual.
— Não sei. Acho que eu estava com raiva. — O espírito olhou para a parede como se estivesse perdido em pensamentos e então estendeu a mão e tocou a garganta.
Kylie notou hematomas de aparência dolorosa ao redor do pescoço do fantasma.
— O que aconteceu com você? — Kylie perguntou, um nó se formando em sua garganta com o pensamento de ser sufocada até a morte.
A mulher olhou para Kylie, com os olhos ainda molhados de emoção.
— Eu estou morta.
Kylie assentiu.
— Eu sei. — Ela esperou um segundo. — O que aconteceu?
O espírito balançou a cabeça.
— São como fragmentos de um pesadelo. Mas eu acho que tem algo a ver com o motivo de eu estar aqui. Quer dizer, eu devia ir embora agora... Nós... sobrenaturais, não ficamos por aqui. — Ela olhou para baixo e sua imagem começou a se desvanecer. — Eu preciso descobrir. Acho que é importante.
— Eu vou fazer o que puder para ajudá-la — Kylie disse, ao se lembrar de Holiday dizendo a mesma coisa para os pouquíssimos não humanos que vagavam por este mundo depois da morte. — Se você me disser o seu nome, talvez eu consiga encontrar alguma coisa no computador que possa nos ajudar.
O espírito foi novamente até a janela e tocou a vidraça.
Uma camada de gelo se formou sobre o vidro, borrando a visão de fora.
— É melhor você começar a descobrir como resolver os seus próprios problemas, também.
— Estou tentando — disse Kylie, novamente vendo a personalidade de Holiday no espírito e não gostando nem um pouco disso. — Qual é o seu nome? — Kylie insistiu.
O espírito foi desaparecendo no mesmo ritmo que o gelo na janela. Então falou:
— Eu acho que é Hannah ou Holly. Algo parecido com isso.
— Não — disse Kylie, sua própria voz um pouco mais que um sussurro.
Kylie então pegou uma fivela e prendeu o cabelo no alto da cabeça, determinada a ir ver Holiday, sem nem saber direito o que dizer à líder do acampamento. Ela só precisava ver Holiday pessoalmente.
Kylie saiu do quarto e encontrou a sala principal da cabana vazia. Começou a ir até a porta e parou. Quem deveria ser a sua sombra? Não que Kylie realmente se importasse. Ela só iria até o escritório, mas já tinha arranjado problemas com Burnett uma vez por causa da questão do sombreamento, e não queria arranjar mais um.
— Della — ela gritou.
Nenhuma resposta. Será que havia algo errado?
— Olá — Miranda saiu do quarto um segundo depois. — Della teve uma reunião com Burnett. Eu fui encarregada de ser a sua sombra — a bruxinha disse com orgulho.
Kylie assentiu.
— Ótimo. Vamos para o escritório.
— Por quê?
— Porque eu quero falar com Holiday.
— Sobre o quê?
— Sobre uma coisa.
— Malcriadinha, hein? — Miranda fez uma careta, como se estivesse engolindo algo realmente nojento.
Kylie começou a dar uma resposta enviesada, mas se conteve. Era compreensível que ela estivesse de mau humor, mas isso não lhe dava o direito de descontar em seus amigos.
— Desculpe. Sei que estou meio irritada hoje. Mas é tanta coisa ao mesmo tempo!
— Eu sei — disse Miranda, desculpando a amiga. — O funeral deixou todos nós de mau humor. E, depois, com toda essa sua crise de lagarto, quero dizer, eu ficaria ainda mais mal-humorada se alguém me dissesse que eu sou um réptil. É por isso que eu não levantei meu mindinho para você nem uma vez.
— E eu agradeço por isso — disse Kylie, mas então se dando conta do que Miranda tinha dito. — Sobre o que Burnett queria conversar com Della?
— Não sei.
— Ela estava chateada? — Kylie não podia deixar de se preocupar que a conversa entre eles tivesse relação com o que deixara Holiday tão aborrecida ao falar com Burnett pelo telefone. E Kylie não tinha se esquecido de que na hora tivera a impressão de que o assunto era sobre ela mesma.
— Na verdade, não. Aqui entre nós, acho que Della tem uma queda por Burnett. Ela fica toda contente quando ele pede para que ela faça alguma coisa.
— Não, não é verdade. Ela sabe que ele é apaixonado por Holiday.
— Então por que ela não procura Steve? Ela tem inveja porque nós duas temos namorado, mas não vai atrás de Steve. E ultimamente ando notando a mesma coisa que você. Aquele metamorfo não tira os olhos dela. Ele morre de tesão por Della.
Kylie se dirigiu para a porta.
— Ela não vai atrás de Steve porque ainda é apaixonada por Lee.
— É, acho que pode ser por isso também. — Elas saíram da cabana e pegaram a trilha até o escritório. — Sabe, eu poderia colocar um feitiço nele.
— Em Steve? — Kylie perguntou.
— Não, em Lee. Eu poderia muito bem fazê-lo ficar cheio de verrugas. Poderia colocá-las em algum lugar realmente assustador. Você sabe o que eu quero dizer.
Kylie balançou a cabeça.
— Eu não acho que Della ia querer que você fizesse isso.
— Ela poderia querer, se eu a pegasse num dia em que estivesse com a disposição certa.
— Você não teria nem chance de perguntar, porque, se ela não estiver na disposição certa, pode ficar realmente furiosa.
— É, acho que tem razão. — Elas continuaram a caminhar pela trilha. — Eu realmente falo sobre Perry o tempo todo?
Kylie olhou para Miranda.
— Fala, mas não é tão ruim quanto Della faz parecer. Aposto que falo de Lucas o tempo todo. — Ela se lembrou de que o deixara falando sozinho mais cedo naquele dia. Será que ele ia ficar com raiva dela? Será que ele tinha esse direito?
— Na verdade, você não fala, não. Mas costumava falar de Derek o tempo todo.
Kylie franziu a testa, sem gostar do rumo que a conversa estava tomando.
— Ah, isso me fez lembrar, ele veio ver você enquanto estava dormindo.
— Derek veio me ver?
— Não, Lucas.
Envergonhada por ter entendido mal, Kylie mordeu o lábio.
— Por que ele não me acordou? Por que vocês não me acordaram?
— Ele não quis. Deu uma olhada em você e disse apenas para avisar que ele tinha vindo. Na verdade, foi fofo. Ele ficou na porta te observando por alguns minutos. Parecia meio triste. Ou sentimental. Como se estivesse completamente apaixonado por você. Della estava abanando a mão embaixo do nariz, como se dissesse que ele estava emitindo todo tipo de feromônio. — Miranda sorriu.
O coração de Kylie doeu tanto que ela não conseguiu sorrir também. A culpa espiralou em seu peito, tanto por não ter falado com ele como por ter conversado com Derek e ter ido embora quando Lucas tentou falar com ela. Na hora, ela achou que tivesse razão, mas agora começava a pensar de outra maneira. Será que ela estava sendo dura demais com o namorado?
Provavelmente, admitiu. Ela andava meio rabugenta ultimamente. Por isso Miranda e Della a acusavam de ser uma loba. Algo que ela precisava corrigir.
Kylie tomou uma decisão. Depois que falasse com Holiday, procuraria Lucas e pediria desculpas por tê-lo deixado daquele jeito. Ela acelerou o passo pela trilha. As árvores de ambos os lados pareciam estar se aproximando, estreitando o caminho. E Kylie experimentou novamente a sensação de que alguém a chamava. Tentava atraí-la para a floresta. Ela parou e olhou para a fileira de árvores.
Eles querem que você vá até eles. Ela ouviu as palavras do espírito sussurrando na sua cabeça.
Quem estaria lá? Mario?
De repente, ela não teve tanta certeza. Não parecia algo ruim. Parecia... Ela não sabia o que, honestamente, somente que não se tratava de algo completamente ruim. No entanto, aquilo ainda a assustava a ponto de acelerar a sua respiração; um arrepio percorreu a sua espinha e arrepiou a base do pescoço.
— O que foi? — Miranda perguntou, uma nota de medo na voz. — Sua aura está com todo tipo de cor estranha.
— Nada — Kylie mentiu. Ela virou-se e começou a correr para o escritório. Quando seus pés batiam no chão, levantavam pequenas nuvens de poeira. Ela piscou para afastar dos olhos o ar empoeirado e foi então que viu a lua crescente brilhante. E era como se ela tivesse aparecido de repente no céu.
O nascer da lua, pensou. Ela sentiu novamente os sussurros ecoando em sua mente. Sussurros que não podia entender, sussurros que tanto a atraíam quanto a assustavam.
— É um fantasma? — Miranda perguntou, os pés batendo no chão enquanto os cabelos multicoloridos dançavam ao vento. — É isso?
— Não — Kylie conseguiu falar sem ofegar.
— Então pode ir mais devagar? Porque eu não sou como você e Della. Quer dizer, eu poderia lançar um feitiço e talvez pudesse correr mais rápido, mas isso levaria algum tempo. E a última vez em que tentei, me transformei num antílope.
— Estamos quase lá — disse Kylie, mas, lembrando-se de como ela detestava ter que dar tudo de si para acompanhar Della, diminuiu o ritmo. De repente, uma lufada de ar passou por elas. Kylie primeiro pensou que era um vampiro, mas então Perry, na forma do enorme pássaro pré-histórico, aterrissou na frente delas.
Miranda, mesmo ofegante, deu um gritinho de prazer. Perry abriu a asa direita e envolveu a pequena bruxa, puxando-a de encontro ao seu peito e dando-lhe um caloroso abraço de pássaro. Então ele arrulhou como um pombo. Por mais rabugenta que estivesse, e apesar de todo o seu mau humor, Kylie ficou emocionada. E o sorriso terno que ela viu no rosto de Miranda arrematou a cena com chave de ouro. O amor era uma coisa maravilhosa. Kylie queria aquilo também. Queria tudo aquilo. Completa devoção. Todos aqueles sentimentos transloucados e doces.
Imagens de Derek e Lucas encheram a sua cabeça. Ah, mas que inferno! Como ela poderia estar apaixonada pelos dois? Era mesmo possível?
Perry soltou Miranda e recuou. Centelhas começaram a cair em torno dele como neve iridescente. Em segundos, um Perry humano apareceu. Seu cabelo cor de areia estava agarrado à testa como se ele tivesse suado. Seus olhos estavam azuis. Azuis brilhantes. Ele usava jeans pretos e uma camiseta com a frase: “O que você quer que eu seja?”.
— Eu estava procurando você — disse Perry, desviando o olhar de Miranda para Kylie.
— Me procurando? — Kylie perguntou. — Por quê?
Ele deu de ombros.
— Porque disseram para eu fazer isso. Mandaram, aliás.
— Quem? — Kylie perguntou. — Quem lhe disse para me procurar?
— Quem você acha? Burnett e Holiday. Eu não recebo ordens de mais ninguém. Exceto, talvez, de Miranda. — Ele sorriu para a bruxinha.
— Alguma coisa errada? — Kylie perguntou.
Ele olhou para Kylie.
— Eu não sei. Mas sei que sua mãe apareceu e está tendo um chilique. Está deixando Holiday maluca.
— Minha mãe está aqui? — Kylie perguntou, confusa.
Perry assentiu.
— Sinto muito.
Kylie aumentou o ritmo da corrida. A preocupação fazia os seus pés baterem na terra, deixando uma nuvem de poeira em seu rastro.

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