4 de outubro de 2016

Capítulo 5

— Eu não sei o que aconteceu. — Perry se aproximou das amigas, seus olhos adquirindo um matiz verde-esmeralda.
— Como não sabe? — Kylie olhou para Burnett e em seguida para Holiday, esperando que um deles começasse a falar. Quando viu que nenhum dos dois ia abrir a boca, ela olhou de volta para Perry. — Você estava seguindo os dois. — De repente, a culpa que ela viu no rosto dele deu uma espécie de salto mortal e caiu bem sobre os ombros de Kylie. Se algo realmente ruim tinha acontecido a eles, a culpa era dela. Ela é que tinha feito questão de conhecê-los. Mas que droga! Ela tinha tanta certeza de que era a coisa certa a fazer!
— Eles desapareceram! — disse Perry. — Num minuto estavam dirigindo pela estrada no Cadillac prata e, então, puf! — Ele agitou as mãos na frente dele. — Viraram fumaça. Com Cadillac e tudo. Sumiram. Puf!
Kylie sentiu um peso no peito.
— As pessoas, pessoas humanas, não desaparecem simplesmente. — Ela conseguiu manter a voz baixa, mas a frustração encheu sua voz de sarcasmo.
Então a verdade lhe ocorreu. Ela só achava que as pessoas não desapareciam simplesmente. Mas não muito tempo atrás não achava que as pessoas pudessem se transformar em unicórnios, ou que vampiros e lobisomens existissem. Nem lhe passava pela cabeça que poderia usar seus sonhos para se comunicar com outras pessoas ou que conseguiria derrubar uma parede de concreto. Portanto, quem poderia saber se as pessoas desapareciam ou não? E, se desapareciam, isso queria dizer o quê...?
Kylie sentiu um nó no estômago.
— Eles estão mortos?
Holiday franziu a testa.
— Não vamos começar a fazer suposições...
— Não sabemos — interrompeu Burnett. — Mas eu tenho agentes tentando descobrir. A UPF vai me enviar fotos dos Brightens a qualquer momento. Pelo menos, vamos saber se eles eram impostores.
O telefone de Burnett tocou e ele o tirou do bolso.
— O que você conseguiu? — Sua expressão endureceu. — Não pode ser. Eu verifiquei esta manhã.
Ele fez uma pausa e olhou para Holiday, que se aproximou um pouco mais.
Della se inclinou na direção de Kylie.
— As câmeras não estão funcionando. — Sua audição sensível, obviamente, tinha captado os dois lados da conversa.
Passos soaram na varanda da cabana e Kylie viu Lucas passando pela porta. Seu olhar encontrou o de Kylie, a preocupação estampada nos olhos, e ele parou ao lado dela. O braço do lobisomem roçou no dela e ela sentiu seu calor. A lembrança do beijo dominou seus pensamentos e ela se sentiu um pouco culpada por tê-la compartilhado com Della e Miranda.
Kylie viu Lucas olhar para as suas duas colegas de dormitório e acenar com a cabeça. Não foi um cumprimento muito amigável, porém. Kylie já tinha ouvido falar que os lobisomens eram muito reservados e ela supunha que fosse verdade. Com exceção de Lucas, Kylie de fato não tinha feito amizade com nenhum lobisomem no acampamento.
— Burnett ainda não conseguiu as imagens dos seus avós? — Lucas perguntou, olhando para ela.
— Não sei. — Ela fitou seus olhos azuis. Por apenas um segundo, desejava não questionar o que sentia. Não queria que ele fosse outro enigma na sua vida. Seria tão bom poder apenas se entregar... Então, por que ela não fazia isso?
— Tudo bem? — ele perguntou, movendo os lábios sem emitir nenhum som.
Ela confirmou com a cabeça, mas não sabia muito bem se era verdade.
— Então alguém as sabotou! — Burnett andou pela sala de estar. — Você já recebeu os dados das carteiras de motorista dos Brightens? Quero ver uma cópia dessas carteiras para saber se são quem disseram que são. — Ele apertou os músculos da mandíbula e olhou para Kylie. Uma expressão de simpatia brilhou em seus olhos, mas desapareceu numa fração de segundo. Demonstrar uma emoção, mesmo que não passasse de um vislumbre em seus olhos, já parecia demais para ele.
Tudo no homem parecia rígido e sombrio. E ele parecia gostar disso. Tinha cabelo preto, pele morena e um corpo musculoso que mantinha a maioria dos homens a distância e a maioria das mulheres da sua idade desejando que ele chegasse mais perto. Kylie viu Holiday estudando Burnett e corrigiu seu último pensamento. Apesar da atração óbvia que havia entre os dois, Holiday não deixava Burnett chegar perto.
— Eu não entendo por que leva tanto tempo! — exclamou Burnett, dirigindo-se à pessoa ao telefone. — Basta puxar os dados de uma carteira de motorista. Eu poderia ter feito isso eu mesmo. — Ele soltou um longo suspiro de frustração. — Mande-os tão logo chegarem.
Ele desligou, enfiou o telefone no bolso da camisa e olhou para Holiday. Seus olhos espelhavam a sua frustração.
— Alguém adulterou as nossas câmeras. Eu verifiquei esta manhã e estava tudo em ordem. Por “coincidência”, deixaram de funcionar cerca de uma hora antes dos Brightens chegarem. Acho que sabemos o que isso significa.
Burnett olhou para Kylie. Ela sabia que aos olhos dele os Brightens eram impostores. E talvez ela devesse torcer para que ele estivesse certo. Porque isso significaria que não eram os pais adotivos de Daniel que haviam desaparecido na rodovia. Mas Kylie queria uma prova. Uma prova de que tinham realmente desaparecido.
Ela pressionou a mão contra a testa e lutou com uma dor de cabeça que ameaçava começar.
— Quando você acha que eles vão ter as imagens dos Brightens?
— A qualquer momento. Se souberem o que é bom pra eles. — A voz profunda de Burnett soou sincera.
Kylie se pegou rezando para que os pais de Daniel estivessem bem. Para que não fossem o casal que a visitara. Mas, mesmo assim, ela não tinha certeza se não se preocuparia com esse casal também. Impostores ou não, ela não sabia se o casal de idosos merecia... Ela não se permitiu imaginá-los mortos. Desaparecer não era necessariamente o mesmo que morrer.
As costas da mão de Lucas roçaram na mão dela. De alguma maneira ela sabia que o toque era intencional e que ele queria confortá-la. E conseguiu.
O telefone de Burnett tocou. Ele o arrancou do bolso, apertou um botão e olhou para a tela. Erguendo os olhos, estendeu o celular para Holiday.
— Este é o casal que esteve aqui?
Holiday olhou para a tela e depois para Kylie.
— Não. Não eram eles.
Embora Kylie acreditasse nela, teve que olhar por si mesma. Deu um passo à frente, pegou o telefone da mão de Burnett e olhou para as duas imagens lado a lado. A imagem de um homem idoso, parcialmente calvo, e uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos, com olhos verdes brilhantes aparecia na tela.
— Esses são os Brightens? — perguntou ela.
Burnett assentiu.
— Enviado do banco de dados do governo.
— Não são nem parecidos com eles. — Kylie não podia negar o alívio que sentiu, mas então se lembrou do toque da mão da mulher, a dor que pareciam compartilhar e até o brilho das lágrimas nos olhos dela. Tinha sido tudo encenação? Kylie olhou para Holiday.
— Até você disse que a mulher parecia sincera. Como nós duas podemos ter nos enganado?
Holiday franziu a testa.
— Como eu disse, a leitura de emoções nunca é cem por cento precisa.
Kylie engoliu a decepção ao constatar que o casal de idosos tinha brincado com seus sentimentos. Quando Derek ou Holiday manipulavam as emoções dela, ao menos era com a intenção de trazer alívio ou ajudá-la. Agora era diferente; os impostores pretendiam enganá-la. E talvez fazer muito mais do que isso.
Ela lutou contra a raiva que se sobrepunha às outras emoções em seu peito. Ter raiva do casal de velhos ainda assim não lhe parecia certo.
— Mas eu ainda não entendo o que eles iam ganhar fingindo ser meus avós.
— Obviamente, não estavam aqui só para apertar suas bochechas e oferecer biscoitos — afirmou Burnett. — Felizmente, Derek desconfiou deles e frustrou seus planos, fossem quais fossem.
Kylie encontrou o olhar de Burnett.
— Mario está por trás disso?
— Quem mais poderia estar?
Kylie ainda lutava para entender.
— Mas por que ele enviou um casal de idosos para fazer isso quando poderia ter arranjado alguém mais poderoso?
— Porque pensou que iria nos enganar. E quase enganou. — Burnett franziu a testa. — De agora em diante, vamos ter que ser mais cuidadosos. Eu vou colocar uma sombra para protegê-la.
— Uma o quê? — Kylie estava certa de que ela não ia gostar da resposta.
— Uma sombra — Holiday repetiu. — Alguém que ficará ao seu lado em tempo integral.
Sim, ela estava certa. Não tinha gostado nem um pouco.
— Deixa comigo! — disse Lucas.
— Não! Eu me encarrego disso! — retrucou outra voz profunda, vinda da porta aberta.
A voz de Derek enviou fagulhas de dor ao peito de Kylie. Ela olhou para ele e viu seus olhos esverdeados, quase cor de avelã. Seu coração estremeceu enquanto ela absorvia sua imagem. Os cabelos castanhos estavam em desalinho, como se ele tivesse passado as mãos neles muitas vezes. A camiseta desbotada se moldava ao peito largo e os seus jeans favoritos desgastados ajustavam-se às pernas e à cintura. O olhar dele atraiu a atenção de Kylie novamente, tamanha era a emoção refletida em seus olhos. Ela ainda não tinha percebido o quanto sentia saudade do meio fae até o momento.
Até aquele exato momento.
Ela queria correr até ele e abraçá-lo. Para se assegurar de que ele estava bem.
O calor do ombro de Lucas se aproximou um pouco mais.
Ela viu Derek estreitar um pouco os olhos, como se reparasse na proximidade de Lucas. Então franziu a testa.
Uma tempestade de emoções se agitava dentro de Kylie. Mas uma emoção se destacava mais do que as outras. Raiva. Derek não tinha o direito de ficar contrariado ao ver Lucas perto dela. Ele tinha decidido se afastar, mesmo depois de ela implorar para que ele não partisse. Então, por que ela se sentia tentada a aumentar um pouco mais a distância entre ela e Lucas?
— Eu acho que você já fez o bastante apresentando a Kylie o detetive envolvido. — Os olhos azuis de Lucas fulminavam Derek.
Derek mudou instantaneamente sua postura, colocando-se na defensiva.
— O senhor Smith não está por trás disso.
— Pode ser que não — Lucas retrucou, com a voz firme — mas foi através dele que tudo aconteceu.
A tensão no ar deixou a atmosfera tão pesada que ficou até difícil respirar.
Burnett olhou para Lucas.
— Não há razão para culpar ninguém.
— Burnett está certo — disse Kylie. — Além disso, fui eu quem entrou em contato com o senhor Smith. — Ela sentiu Lucas ficar tenso ao lado dela e suspeitou que ele não tinha gostado de vê-la defendendo Derek. Ela também não tinha certeza se gostava de fazer isso, não quando a raiva de Derek ainda explodia em seu peito. No entanto, não iria deixar que o acusassem por tentar ajudá-la. Ela continuou a olhar para o meio fae, desejando poder ler os pensamentos dele, ou pelo menos suas emoções, assim como ele podia ler as de todos ali. — O senhor Smith está bem?
Derek a fitou novamente. A raiva faiscou nas raias douradas dos seus olhos. Ela não sabia se ele estava refletindo as emoções dela ou se estava com raiva mesmo. Provavelmente as duas coisas.
— Vai sobreviver. — Seu olhar se desviou e ela sentiu um vazio no peito. E algo lhe disse que essa era uma sensação a que ela teria que se acostumar, porque nada havia mudado entre eles.
Nada.
— Eu posso ser a sombra de Kylie — oferece-se Della.
— Eu também — disse Miranda.
Burnett olhou para as duas.
— Como vocês estão na mesma cabana, terão de fazer turnos.
— Ela ficaria mais segura comigo — disse Lucas.
— Cai na real! — murmurou Della.
— É isso aí! — acrescentou Miranda, estendendo o dedo mindinho como se apontasse uma arma para ele.
Kylie olhou de Miranda para Della e depois para Derek e Lucas. Inacreditável. Eles estavam falando dela como se ela nem estivesse ali.
Ainda assim, ela sabia que estavam apenas tentando ajudar, e amava todos eles por isso. Bem, amaria quando não estivesse mais tão chateada.
Burnett olhou para Lucas e depois para Derek.
— Eu receio que vocês estejam envolvidos demais para assumir essa incumbência.
— É por isso que seríamos bons nisso — disse Derek.
— É por isso que eu seria bom nisso — respondeu Lucas.
Derek olhou feio para Lucas.
— Você é um completo idiota, Parker.
Os dois começaram a se insultar.
— Pelo amor de Deus, parem! — Kylie gritou. — Isso já está virando...
— Chega! — Burnett ordenou.
No mesmo instante, Derek e Lucas ficaram em silêncio.
— É isso o que eu quero dizer. Nenhum de vocês dois é imparcial quando o assunto é Kylie.
Kylie sentiu suas bochechas ficarem vermelhas, mais de raiva do que de constrangimento.
— É só uma ideia. Talvez alguém devesse me perguntar o que eu acho...
— Isso é ridículo! — rosnou Lucas.
Kylie o encarou por um momento até que percebeu que ele estava se referindo ao comentário de Burnett, não ao dela.
Burnett ficou ainda mais tenso e seu olhar se alternou entre Lucas e Derek.
— Acho que nenhum de vocês dois se concentraria em protegê-la quando estivessem com ela. Eu não estou dizendo que não serão recrutados para ajudar no futuro, mas por ora...
— Ainda assim é ridículo! — Lucas endureceu ao lado de Kylie, e ela podia jurar que sentiu a temperatura do lobisomem subir um ou dois graus. — Eu morreria antes de deixar...
— E eu também! — Derek rosnou.
— E meu trabalho é garantir que ninguém morra aqui! — rebateu Brunett.
Pelo menos nesse ponto, Kylie tinha que concordar com Burnett.
Uma hora mais tarde, depois que Burnett e Holiday voltaram ao escritório para decidir quem seriam as sombras de Kylie, ela estava tremendo na cama, olhando para o teto e se perguntando quando e como sua vida tinha ficado tão fora de controle.
Logo após Burnett sair, Lucas tinha sido convocado pela sua alcateia. Com pesar nos olhos azuis e talvez até mesmo com um pouco de raiva por ela ter defendido Derek, ele lhe disse que estaria de volta tão logo resolvesse seus problemas com os companheiros de espécie. De boa vontade, Kylie deixou-o ir; ela sentia que precisava ficar sozinha. Mas não conseguia deixar de se lembrar do que Fredericka tinha lhe dito. A linhagem de Lucas é pura, ele valoriza isso. Seus antepassados valorizam também. Eles deixaram isso bem claro. Será que as palavras da loba só tinham a intenção de causar dúvidas em Kylie? Ou havia alguma verdade por trás delas?
Kylie fechou os olhos e gemeu. Socks mergulhou embaixo das cobertas, quando viu uma mulher morta e de cabeça raspada começar a andar pelo quarto, murmurando para si mesma por que não conseguia se lembrar de droga nenhuma. Kylie deu um profundo suspiro e vapor escapou de seus lábios, serpenteando lentamente até o teto.
— Não me lembro — o fantasma murmurou. — Não há nada além de um branco.
Mal sabia a mulher que Kylie quase a invejava agora. Ela queria muito poder esquecer também! Esquecer aquele olhar de raiva que tinha visto nos olhos de Derek, esquecer a súbita tensão que sentira no corpo de Lucas quando ela defendeu Derek. Esquecer que ela podia muito bem ser responsável pela morte de um casal de idosos e pelo fato de o detetive, o senhor Smith, estar no hospital.
— Como se fala quando você não consegue lembrar quem você é? Não há uma palavra para isso? — o espírito perguntou.
— Amnésia. — Kylie pensou em dizer a Jane Doe (o espírito precisava ter um nome, e Jane Doe era tão bom quanto qualquer outro) que sua perda de memória poderia ter mais a ver com a cicatriz de vinte centímetros em sua cabeça do que com amnésia. Então mais uma vez, Kylie concluiu que a razão por que Jane não conseguia se lembrar de nada não tinha importância. O fato de ela não ter nenhuma memória é que era o problema. Como, pelo amor de Deus, Kylie poderia ajudar um fantasma que nem sabia quem era?
Ela suspeitava que, se fizesse a Holiday essa pergunta, a líder do acampamento diria para começar a procurar pistas no que a mulher fazia e nos trajes que usava. Os jeans e a camiseta que ela vestia não revelavam muito. Quanto à cabeça raspada e a cicatriz, aquilo, sim, podia ser uma pista. No entanto, no dia em Kylie conheceu a mulher, ela tinha cabelos e olhava o abdome como se ele estivesse rasgado. Aquilo seria uma pista também? Kylie nem mesmo tinha certeza se a mulher sabia que estava morta. E simplesmente perguntar se ela sabia lhe parecia um pouco rude.
— Eu só não entendo por que não me lembro — lamentou Jane.
Kylie apertou a palma na têmpora latejante. Ela não estava com humor para lidar com aquilo agora. Não que tivesse escolha. Até o momento, os fantasmas não pareciam preocupados em atender aos seus pedidos para que aparecessem em outra hora.
— Você está me ouvindo? — perguntou a mulher.
Abrindo os olhos, Kylie sentou-se na cama. A cauda peluda preta e branca de Socks apareceu debaixo do lençol.
— Estou... eu só...
— A sua cabeça está doendo também?
Kylie olhou para a terrível cicatriz da mulher.
— Um pouco. — Ela puxou um pouco mais a colcha para se abrigar do frio. — Mas eu só tenho problemas com garotos.
— Problemas com garotos? — Jane franziu o cenho. — Tenha cuidadoOs garotos, e os homens, podem machucar você de verdade. — As palavras dela pareciam sinceras. Seria essa outra pista?
— Alguém machucou você? — Kylie perguntou.
A mulher parou de andar e franziu a testa.
— Talvez. Não me lembro.
— Tente se lembrar. Quer dizer, você disse que parecia que se lembrava de algo.
Quanto antes Kylie conseguisse fazer o espírito se lembrar de quem era, mais cedo poderia descobrir do que ela precisava e como ajudá-la a ir embora.
O espírito colocou o dedo indicador na testa.
— Não. Nada. Está vazio aqui. — Ela moveu a mão até o couro cabeludo e acompanhou a cicatriz com o dedo. Kylie não tinha certeza se ela tinha acabado de descobri-la ou não.
— Você se lembra do que aconteceu? Por que você tem um corte na cabeça? — Como você morreu? Holiday tinha explicado que, muitas vezes, quando a morte era repentina ou traumática, era difícil para o espírito recordar. No entanto, para ajudá-lo a fazer sua passagem, os detalhes da morte podiam ser importantes.
— Não. — Jane voltou a andar de um lado para o outro. — Eu detesto não saber!
Depois de mais algumas voltas ao redor do quarto, ela parou de falar e Kylie voltou a pensar em Derek, sobre como o coração dela tinha acelerado quando ele apareceu. Ela se perguntava se aquilo significava que seus sentimentos por Lucas não eram tão fortes quanto ela desconfiava que fossem.
De repente, o fantasma parou aos pés da cama e olhou para Kylie.
— Eu passei uma mensagem a você, não foi?
Kylie sentou-se mais ereta.
— Você mencionou isso, mas o que era mesmo? — Talvez a mensagem não fosse realmente uma mensagem, mas uma pista.
— Alguém vive, alguém morre. — Sua voz se transformou num sussurro e soou como algo saído de um filme de terror. — Foi isso o que eles disseram para eu dizer.
Socks, como que reagindo ao tom sombrio da voz do espírito, aninhou-se um pouco mais a Kylie.
— Você por acaso sabe o que significa? — Estendendo o braço por baixo da colcha, Kylie gentilmente empurrou o focinho do gambá para longe de suas costelas. Considerando que o animalzinho tinha medo de fantasmas, o destino tinha realmente lhe pregado uma peça ao torná-lo o animal de estimação de Kylie.
— Eu... — O espírito olhou para cima como se tentasse pensar. — Eles não disseram.
— Quem são “eles”? — Kylie estava com receio de fazer menção à morte, mas considerando que estava lidando com um fantasma com amnésia, não tinha certeza se ela tinha condições de transmitir a mensagem com exatidão.
Jane avançou um pouco mais, aproximando-se da lateral da cama, seus olhos verdes-claros cheios de medo.
— Você sabe quem são.
— Não, eu não sei.
O espírito mordeu o lábio, como se dizer o nome lhe deixasse pouco à vontade. Então ela se inclinou, deixando os lábios ligeiramente azulados a poucos centímetros do rosto de Kylie.
— Os anjos da morte. — Cristais de gelo flutuaram dos seus lábios e caíram em cascata na colcha de Kylie.
Socks saiu correndo de debaixo das cobertas e fugiu para o chão, escondendo-se sob a cama.
— Os anjos da morte? — Kylie refletiu sobre a resposta. — Como você sabe sobre eles? — De repente, ocorreu-lhe que ela não tinha verificado se a mulher era sobrenatural.
Olhando para a testa do espírito, Kylie franziu as sobrancelhas. Nada. Aquilo tinha que significar alguma coisa. Todo mundo tinha um padrão cerebral, não tinha? Até mesmo os seres humanos. Kylie tinha visto o padrão cerebral de Daniel, e Holiday tinha dito que verificara o de Nana, então Kylie sabia que os espíritos não deixam de tê-los após a morte. Então, por que esse espírito não tinha um padrão?
Fechando os olhos, Kylie apertou-os com mais força e voltou a se concentrar. Ainda assim, nada.
O frio proveniente do espírito pareceu se intensificar e causou um calafrio na pele descoberta de Kylie. Puxando o lençol até o queixo, ela se virou para o espírito e fez a pergunta que detestava que as pessoas fizessem a ela.
— O que você é?

4 comentários:

  1. Não basta ser fantasma, tem que ser fantasma estranho.

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  2. coitada nem sabe oque ela e e tem procurar o os outros sao

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  3. acho que a mulher não tem padrão celebral pq ela não tem celebro

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