8 de outubro de 2016

Capítulo 4

— Você saiu sem me avisar. — Os lábios de Burnett se comprimiram numa linha fina enquanto ele a repreendia.
— Não saí, não. — Kylie viu Della e Miranda atrás de Burnett, com expressões preocupadas. Sem dúvida, não tinha sido sensato discordar de Burnett.
— Você estava no escritório e então foi embora — Burnett rosnou. — Eu deveria ser a sua sombra.
— Isso foi há quase uma hora — lembrou-o Kylie. Será que só agora ele havia percebido que ela tinha ido embora?
O toque do celular chamou novamente a sua atenção e ela resolveu checar quem estava chamando. O nome de Holiday estava na telinha. Então a líder do acampamento, com o telefone ainda pressionado contra a orelha, invadiu a cabana.
— Você a encontrou! — O alívio transbordou dos olhos de Holiday e ela dobrou os braços sobre o estômago e respirou, como se tivesse corrido o caminho todo até ali.
— Você não devia ter saído sem dizer nada — disse Burnett a Kylie.
Holiday fechou o celular e o de Kylie parou de tocar. Kylie olhou para a líder do acampamento, recordando as perguntas sobre o fantasma que ela precisava fazer à amiga. Como alguém vivo pode aparecer como um fantasma?
— Eu estava encarregado de cuidar de você — disse Burnett, continuando o sermão.
Kylie olhou para Burnett enquanto colocava o telefone na mesinha lateral. Ela provavelmente devia manter a boca fechada, mas o seu mau humor prevaleceu.
— Você não pode me culpar. Eu disse que estava indo embora. Não uma vez, mas duas. Vocês dois estavam muito ocupados brigando para me ouvir. — Quando suas próprias palavras hostis chegaram aos seus ouvidos, ela se preocupou que talvez Della e Miranda concluíssem definitivamente que ela era um lobisomem.
Holiday se aproximou.
— Nós não estávamos brigando.
De fato, Kylie pensou, notando que a camiseta de Holiday estava do avesso. Não estavam brigando, hein? Então, o que estavam fazendo para que Holiday vestisse a camiseta do avesso? Toda a frustração de Kylie diminuiu e ela quase sorriu. Quase.
— É, estávamos brigando — confessou Burnett, como se de repente se lembrasse.
— Só estávamos discutindo sobre algumas coisas. — Holiday lançou a Burnett um olhar que dizia: Não discorde de mim quanto a isso.
— Estávamos discutindo acaloradamente. — Burnett recebeu outro olhar duro da líder do acampamento de cabelos ruivos.
— Concordo — murmurou Della. — Eu ouvi vocês o tempo todo do refeitório. E não estou bem certa do que foi que a minha audição supersensível captou.
— É verdade — disse Miranda. — Porque eu não consegui ouvir nada. Mas provavelmente foi porque eu estava conversando com Perry — explicou a bruxinha com um olhar sonhador. — Eu adoro conversar com Perry.
Della gemeu.
— É isso aí — Miranda continuou. — Não existe nada tão divertido quanto uma boa discussão. Então, se alguém quiser me contar alguma coisa, eu apreciaria muito. — Ela esfregou as mãos. — Apenas as partes boas.
Burnett bufou de frustração.
— Nós só estávamos...
— O que estávamos fazendo não importa — Holiday falou de repente, com as bochechas corando.
— Então não estavam brigando? — Miranda parecia intrigada.
Kylie quase sorriu novamente. Holiday estava certa. O que estavam fazendo não importava. O que importava era que tinham feito as pazes. O mais importante era que Holiday havia conseguido convencer Burnett a não ir embora do acampamento. Shadow Falls precisava dele.
Holiday precisava dele.
Tudo dentro de Kylie lhe dizia que aqueles dois tinham sido feitos um para o outro. Infelizmente, Holiday resistia à ideia de ficar com Burnett. E, embora ela não tivesse admitido ainda, Kylie suspeitava que tudo tinha a ver com o noivo vampiro de Holiday que partira o seu coração ao deixá-la no altar. Kylie também sentia que havia algo mais naquela história que Holiday não deixava transparecer. Não que ser deixada no altar já não fosse ruim o bastante, mas alguma coisa dizia a Kylie que havia acontecido algo ainda mais traumático. Por que outra razão Holiday rejeitaria o amor de Burnett?
Deus sabia que não era fácil para um vampiro ser rejeitado. Kylie tinha lhe dito que ele precisava ter paciência. Holiday não poderia continuar a rejeitá-lo por muito tempo. Não quando Burnett era praticamente perfeito. Alto, moreno, mal-humorado de um jeito sexy, e de bom coração. Claro que, sendo vampiro, ele não andava por aí elevando o ânimo das pessoas como Holiday fazia. Mas era um sujeito atencioso.
Será que Holiday finalmente ia recuperar o bom senso?
— Você vai ficar em Shadow Falls? — Kylie perguntou a Burnett, prendendo a respiração em expectativa.
Burnett olhou para Holiday e Kylie podia apostar que ele quase sorriu.
— Eu vou ficar.
— Yes! — Miranda e Della ensaiaram um “Toca aqui!” e fizeram a dancinha da vitória.
Um sentimento de que tudo estava entrando nos eixos preencheu o peito de Kylie. Talvez aquele dia, afinal de contas, não fosse entrar para a história como o pior dia de sua vida.
Burnett, normalmente um pouco sombrio, não pareceu compartilhar a alegria das garotas, mas Kylie viu o alívio em seus olhos.
— Da próxima vez que você for responsabilidade minha, não vá embora sem a minha autorização.
Kylie assentiu, muito feliz para se importar com o fato de que não era culpa dela.
— Mesmo que você tenha que me bater na cabeça duas vezes para conseguir a minha atenção — ele continuou, tomando para si a maior parte da culpa. O sorriso de Kylie se alargou. Por mais severo que Burnett pudesse ser, ele não era injusto.
Kylie observou enquanto Burnett saía pela porta e Holiday se virava para segui-lo. Mais uma vez, ela não pôde deixar de se perguntar até que ponto as coisas tinham evoluído no período em que os dois ficaram juntos. Será que já estavam arrancando as roupas quando de repente perceberam que ela tinha ido embora?
Holiday virou-se e olhou para Kylie. Seus olhares se encontraram por alguns instantes.
Aquele rápido olhar bastou para Kylie saber que Holiday, tão empática quanto Derek, tinha detectado o caldeirão de emoções que fervilhava dentro dela. E, no momento, essas emoções não eram nem um pouco felizes.
Kylie raramente conseguia esconder alguma coisa da fae. Não que ela tentasse esconder muita coisa de Holiday. A ligação entre as duas tinha se transformado em amizade. Holiday era sua família – não o tipo de família em que nascemos, mas o tipo que temos a sorte de poder escolher.
— Eu preciso falar com Kylie. — O tom caloroso de Holiday fez o peito de Kylie se apertar e ela se perguntou o que faria sem aquela amiga em sua vida. Ela esperava que nunca tivesse que descobrir. O pensamento provocou um arrepio na espinha de Kylie.
Burnett se despediu de todos com um olhar e então partiu.
Assim que ele saiu, Della virou-se para Holiday.
— Talvez você consiga pôr um pouco de bom senso na cabeça de Kylie. Ela pensa que é um lagarto.
Cinco minutos depois, Holiday e Kylie estavam sentadas na varanda, as pernas nuas balançando sobre a borda. A líder do acampamento tinha trocado o vestido escuro que usara no funeral de Ellie por uma calça jeans e a camiseta amarela que estava do avesso.
O vestido preto de Kylie era mais solto na altura das coxas e caía sobre os joelhos. Se ela esticasse os pés, seus dedos roçariam na grama. Ela normalmente gostava de sentir a leve cócega, mas por alguma razão agora se lembrava do dia em que sentara com Derek em frente à cabana, ao lado da árvore.
Deixando esse pensamento de lado, Kylie olhou para baixo. Holiday calçava um par de sandálias, e as unhas dos seus pés estavam pintadas de um tom suave de rosa.
— O que aconteceu? — Holiday perguntou, a preocupação aprofundando seu tom de voz.
— Eu nem sei por onde começar — respondeu Kylie.
— Que tal começar por aquela história do lagarto? Aquela de que Della estava falando.
Kylie mordeu o lábio.
— Antes de eu começar, me diga o que aconteceu entre você e Burnett?
Holiday desviou o olhar.
— Ele vai ficar.
— Eu sei disso. — Sorrindo, Kylie deu um soquinho de brincadeira no ombro de Holiday. — Será que alguma coisa boa aconteceu?
As bochechas da amiga ficaram vermelhas.
— Eu não me sinto à vontade falando sobre isso.
— Uau! Deve ter sido bom então! — Kylie brincou.
Holiday franziu a testa, o que significava que, independentemente do que tivesse acontecido, não havia mudado muita coisa. Algumas peças de roupa podiam ter sido tiradas, mas as reservas de Holiday continuavam com ela.
— Nós não... — Holiday escondeu o rosto com as mãos. — Eu estou confusa, ok? Preciso de Burnett em Shadow Falls. Ele é forte em todas as áreas em que eu não sou. E o que falta nele, eu tenho de sobra. Mas...
— Mas você está com medo de admitir que gosta dele — disse Kylie, mesmo quando seus instintos lhe diziam que era melhor ficar calada.
— Você não entende — Holiday disse.
— Isso porque você não me contou tudo — Kylie acusou-a, novamente com a sensação de que havia coisas, algum trauma emocional, que Holiday mantinha em segredo dentro dela.
Holiday suspirou.
— Isso é algo que eu preciso superar sozinha. Eu sei que somos muito ligadas e eu fico feliz em saber que você se importa comigo. — Ela colocou a mão sobre a de Kylie. — Eu sinto que você só está tentando ajudar, mas eu preciso resolver sozinha. E estou pedindo para você aceitar isso.
Kylie assentiu com a cabeça, sabendo que tinha de respeitar a vontade de Holiday, mas não gostou da decisão da amiga.
— Agora, vamos voltar para você. — Ela bateu seu ombro no de Kylie. — Me conte.
Respirando fundo, ela contou a Holiday sobre a visita do pai, sobre toda a história do camaleão e a parte em que ele disse que descobririam tudo aquilo juntos... em breve.
Preocupação e confusão escureceram os olhos da líder do acampamento.
— Ok, quanto a seu pai lhe dizer que vão resolver isso juntos, eu não acho que isso signifique o que você pensa. O tempo é diferente no mundo espiritual.
Kylie refletiu sobre o que Holiday disse.
— Não é que eu não acredite em você, é só que... havia algo mais no jeito como ele disse “em breve”. Ele estava feliz com isso.
Holiday balançou a cabeça.
— Seu pai te ama. E eu acho que, se soubesse que você ia morrer tão jovem, estaria em pânico. E a última coisa que ele ia querer fazer seria contar essa notícia a você.
Doía dizer isso em voz alta, mas Kylie o fez de qualquer maneira.
— Se eu vou morrer, é melhor que eu saiba.
— Não é assim que funciona. Quer dizer, existem pessoas capazes de prever a própria morte e aproveitar seu tempo com sabedoria. Mas, quando se começa a planejar o fim da vida, a maioria das pessoas instintivamente para de pensar no amanhã. Viver o dia de hoje é lindo – muitos de nós não fazemos isso como deveríamos, mas, para viver plenamente, precisamos viver o hoje e o amanhã. Pense, se você soubesse que ia morrer em seis meses, daria início a um projeto que sabe que não poderia terminar? Será que iria para a faculdade de medicina? Será que teria um filho, sabendo que iria deixá-lo sozinho no mundo por muito tempo? As pessoas deixariam de viver muita coisa se parassem de viver pensando no amanhã.
O pequeno discurso de Holiday fez com que Kylie se lembrasse de outra coisa. Seu problema com o fantasma. Ela tentou pensar em qual seria a melhor maneira de abordá-lo.
— Agora, sobre a coisa toda do lagarto — Holiday continuou, levando os pensamentos de Kylie para outra direção. — Eu nunca ouvi falar de um camaleão sobrenatural. E embora esteja inclinada a dizer que seu pai está errado, eu me pergunto...
— Se pergunta o quê?
— Eu não sei ao certo, só estou...
— Eu sei — Kylie interrompeu-a. — Você está apenas especulando, tentando adivinhar, mas como eu não tenho a mínima ideia do que isso possa ser, gostaria de ouvi-la.
— Eu ia mesmo dizer. — A expressão de Holiday dizia a Kylie que ela precisava ter paciência.
Mas Kylie estava cansada de ter paciência. E, sim, ela sabia que na quinta-feira seu avô Malcolm Summers viria visitá-la, e ela esperava que ele a ajudasse a dar sentido a tudo aquilo. Mas isso significava ficar mais alguns dias no escuro.
— Simplesmente me diga, por favor. — Kylie suavizou o tom, porque estar impaciente podia ser compreensível, mas culpar os outros por isso, não.
Holiday respirou fundo.
— Talvez ele tenha se referido a você como um camaleão porque seu padrão não amadureceu o suficiente para mostrar o que você realmente é. Ele ainda está mudando, como as cores do camaleão.
— Mas ele disse que eu sou um camaleão como se dissesse que eu sou um vampiro ou uma bruxa. É possível que exista outro tipo de raça sobrenatural que ninguém conheça?
Holiday fez uma pausa.
— Meus instintos dizem que não. A história dos seres sobrenaturais é documentada em livros tão antigos quanto a Bíblia. Mas... admito que estou intrigada. Parece que o que está causando isso é provavelmente hereditário, porque seu avô e sua tia-avó foram capazes de mudar o padrão deles para o humano. Mas isso é algo completamente desconhecido para mim. Eu ainda estou pensando se tem alguma relação com as bruxas... mas...
— Ou... — Kylie considerou as palavras de Holiday. — Talvez seja isso que significa a coisa toda do camaleão. Eu estava conversando sobre isso com Derek. Talvez os camaleões possam mudar de espécie. Assim como o camaleão pode mudar de cor.
Holiday fez uma pausa como se estivesse pensando.
— Mas o DNA não funciona dessa maneira. Você não pode ter mais de uma sequência de DNA. Não é possível, porque os sobrenaturais têm apenas o DNA do pai dominante.
Kylie mordeu o lábio.
— Então talvez não seja a espécie que realmente mude, apenas o padrão. E de certo modo faz sentido, porque o camaleão não se transforma numa pedra, apenas muda suas cores de modo que pareça uma pedra.
Holiday enrugou a testa.
— Mas... — Ela balançou a cabeça.
— Mas o quê? — Kylie queria saber tudo o que Holiday pensava.
— Simplesmente não parece possível. Se essa capacidade de camuflar o padrão de fato existe, por que outros seres sobrenaturais nunca ouviram falar dela?
— Talvez já tenham ouvido falar — disse Kylie. — Talvez seja exatamente por isso que fizeram testes com a minha avó. Você mencionou uma vez que tinha ouvido falar sobre esses testes. Alguém disse para que serviam?
— Não especificamente — Holiday esclareceu. — Era algo para entender a genética de alguns seres sobrenaturais. Mas não deu certo.
— Não era bem isso — Kylie murmurou. — Eles mataram pessoas.
Mataram a minha avó. Kylie não conseguia entender como alguém poderia fazer isso, tirar uma vida. A propósito, como Mario tinha sido capaz de matar o próprio neto? Ou matar Ellie, que nunca fizera nada para prejudicá-lo? Ou qualquer outra pessoa?
— Eu sei. — Holiday suspirou como se estivesse sentindo a dor de Kylie. — É por isso que eu me recuso a deixá-los fazer testes em você. Eu não acho que a UPF seja mal-intencionada, Kylie. Só não quero que você corra tantos riscos para encontrar respostas. Seja o que for que esteja acontecendo, mais cedo ou mais tarde vamos descobrir.
Kylie sem dúvida esperava que Holiday tivesse razão. Porque, agora, nada daquilo fazia o menor sentido para ela. Ela voltou a olhar para Holiday.
— É por isso que você não confia em Burnett? Porque ele é da UPF?
Holiday parecia perplexa.
— Eu confio em Burnett.
Kylie arqueou uma sobrancelha em descrença.
— Eu confio nele com relação a Shadow Falls — Holiday confessou.
Mas não nas questões do coração. E como isso era triste... Kylie pensou.
— Eu não deixaria que ele permanecesse aqui se achasse que havia alguma chance de ele trair você ou algum dos meus alunos.
— Eu sei — disse Kylie. — E eu confio nele, também. Quer dizer, aquela coisa toda da UPF com a minha avó me assusta, mas eu confio em Burnett.
Holiday fitou Kylie nos olhos novamente.
— Eu sei que essa demora para conseguir respostas é difícil para você. Mas tenha esperança de que o seu avô virá na quinta-feira e...
— O que quer dizer com “tenha esperança”? Ele disse a Burnett que viria, não disse? — Vendo um lampejo de decepção nos olhos de Holiday, o coração de Kylie quase parou. — O que aconteceu?
— Burnett tentou entrar em contato com ele novamente e... o telefone do seu avô estava desligado. Mas isso pode não significar nada.
— Ou pode significar que ele decidiu não entrar em contato comigo. — Um nó se formou na garganta de Kylie.
— Não fique imaginando coisas antes de termos certeza.
Kylie abraçou os joelhos e deixou a cabeça tombar sobre eles, tentando não chorar. Será que a sua esperança de descobrir a verdade estava indo por água abaixo?
Holiday pousou a mão sobre o ombro de Kylie. Uma doce sensação de calma veio com o toque, mas, embora ele tenha diminuído o seu pânico, não mudou muita coisa. Elas ficaram ali por alguns minutos, sem falar, enquanto Kylie tentava não chorar e Holiday fazia o que sabia fazer melhor – confortá-la.
Uma brisa suave soprou e a mente de Kylie começou a divagar, passando de um problema para outro.
— Derek me disse que conversou com você sobre... algumas coisas.
Holiday tirou um fio de cabelo da bochecha de Kylie.
— Eu sinto muito. Imagino que tenha sido uma revelação inesperada.
Kylie assentiu.
— O que eu devo fazer com essa informação?
— Eu não acho que você tenha que fazer alguma coisa.
Kylie inspirou.
— Isso me deixou maluca e triste, e eu começo a questionar tudo. E Lucas tem ciúme dele e eu não o culpo, porque sinto o mesmo com relação a Fredericka. Mas...
— Mas você gosta de Derek — Holiday concluiu por ela.
— Gosto. Só não tenho certeza de que o que eu sinto por ele é o mesmo que sinto por Lucas. Isso faz sentido?
— Todo sentido. — Holiday assegurou. — Você vai descobrir.
— Será que vou? — Uma angústia brotou no peito de Kylie novamente. — Tudo na minha vida é um enorme ponto de interrogação. Estou cansada de não ter certeza de nada. E então o fantasma... — Kylie deixou as palavras morrerem na boca.
— Você tem um problema com um fantasma? — Holiday perguntou. — É a sua avó? Você já perguntou a ela sobre o que o seu pai disse?
— Não, não é ela. — Quanto Kylie deveria contar a Holiday? — No começo, o espírito parecia um zumbi, nem sequer tinha um rosto. Eu insisti para que ele desse um jeito nisso. Mas então... o rosto que ele mostrou era... de alguém que não está morto.
Holiday mordeu o lábio.
— Tem certeza de que não está morto?
— Tenho certeza. — Certeza absoluta.
— Bem — Holiday continuou — há duas alternativas. A resposta mais provável é que você está lidando com um fantasma com crise de identidade.
— Sério? Fantasmas podem ter crise de identidade? — Kylie perguntou.
— Receio que sim. Eles podem nem saber qual é a aparência deles. Ou podem não gostar da aparência que tinham e então plasmar o rosto de outra pessoa em seu corpo de fantasma. Quase sempre usam o rosto da pessoa que se comunica com fantasmas. E ver o seu rosto num fantasma... — Holiday estremeceu. — Não é nada bom.
— Posso imaginar — disse Kylie, mas ela não queria imaginar. Já tinha muito no que pensar. — E a segunda alternativa?
— É rara. Mas você já leu Um Conto de Natal?
— Já. — Kylie se lembrava do enredo. — Aquela história do Scrooge, certo?
— E o fantasma do futuro — completou Holiday.
Kylie prendeu a respiração.
— Essa pessoa poderia estar prestes a morrer?
Claro, esse pensamento lhe ocorreu, como ocorrera a Derek, mas não pareceu real até que Holiday mencionou a possibilidade. Não, Kylie recusou-se a aceitar. Ela já tinha visto mortes demais.
— Isso é algo que eu possa mudar? — ela perguntou, o pânico crescendo em seu peito.
— Provavelmente, não — respondeu Holiday franzindo a testa. — Por acaso é alguém que você conhece bem?
Kylie não respondeu. Ela não podia. Só ficou lembrando a si mesma que Holiday dissera que era raro.
— É alguém de Shadow Falls? — a voz de Miranda soou atrás dela.
Kylie se virou e viu Miranda em pé na porta, atrás dela.
— Foi mal — desculpou-se a amiga. — Eu não queria ouvir a conversa... mas é alguém daqui?
— Não — mentiu Kylie.
— Ah, que bom. — Miranda franziu a testa de um jeito dramático. — Seu celular está tocando. — Ela passou o aparelho para Kylie. — É a sua mãe. É a terceira vez que ela liga nos últimos cinco minutos.
— Você devia ligar para ela — disse Holiday a Kylie. Então o celular dela também começou a tocar. A fae deu uma olhada no número que apareceu no visor. — É Burnett.
Holiday e Kylie ficaram em pé ao mesmo tempo. Kylie pegou o telefone da mão de Miranda enquanto Holiday atendia o dela.
— Alô. — Holiday fez uma pausa. Uma ruga de preocupação surgiu entre seus olhos. — Sobre o quê? — Seu tom fez Kylie hesitar antes de ligar para a mãe. — Vamos conversar antes de você sair. Estou a caminho. — Holiday desligou.
— Qual o problema? — perguntou Kylie.
— Eu... eu falo com você quando souber de alguma coisa. — Holiday se despediu, mas Kylie ficou com a impressão de que o telefonema tinha a ver com ela.
— Não parece boa coisa — murmurou Miranda.
Mas que ótimo, pensou Kylie. O que mais ela teria que enfrentar?

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